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Pernambuco passou por maus bocados nas décadas de 80 e 90. Entramos em profundo declínio econômico, fruto de mudanças das bases econômicas no Brasil e no mundo que não soubemos acompanhar. Até auto-estima do pernambucano ficou abalada e perdemos terrenos para outros estados nordestinos – seja na captação de investimentos, na atração turística, na exposição de nossos valores culturais.

Hoje parece que estamos conseguindo dar a volta por cima. Sucessivos novos investimentos estão sendo anunciados no estado e o otimismo do pernambucano quanto ao futuro já se revela maior do que a média brasileira nas pesquisas atuais.

Na minha opinião, essa virada é fruto de dois fatores. O estado começou a preparar sua infra-estrutura competitiva lá trás, com Eraldo Gueiros, que iniciou a construção do porto de Suape. Muitos outros governadores de várias colorações partidárias vieram depois e acrescentaram alguma coisa (uns mais e outros menos, claro). E é impossível negar que entre os méritos do Governo Lula (no meio a alguns deméritos também) está o da descentralização dos investimentos federais, que tem ajudado a reduzir mesmo que pouquinho as desigualdades regionais no país.

Toda essa introdução foi só para apresentar o artigo do antropólogo Antonio Risério, um dos principais intelectuais baianos da atualidade que faz o reconhecimento público desse novo momento pernambucano no texto que segue abaixo:

Pernambuco fogo alto, Bahia banho-maria

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por Antonio Risério

Diferenças entre a Bahia e Pernambuco sempre foram apontadas pelos mais diversos tipos de observador, de eruditos a iletrados.Por conta, inclusive, de antiga rivalidade entre os dois Estados.

Rivalidade, aliás, que chegou a provocar uma caracterização baiana do Recife que, se é falsa e ridícula no conteúdo, é brilhante, digna do James Joyce do Finnegans, do ponto de vista formal: “Recífilis, a Venérea brasileira, capital de Per nambucocos”.

Rivalidades e preconceitos à parte (coisas que, de resto, nunca foram alimentadas por personalidades como Gilberto Freyre e Jorge Amado), essas diferenças entre baianos e pernambucanos foram formuladas de formas diversas e atribuídas a razões igualmente várias.

O “gênio do lugar”, a “alma do povo”, o “caráter” de cada região se manifestariam, por exemplo, na virilidade pernambucana e na malemolência baiana. João Cabral achava enjoativos o jeitão relaxado, a ausência de rigor, a excessiva doçura das coisas criadas na Bahia. Era todo pelo corte seco, pelo golpe preciso.

Muitos baianos, por sua vez, não gostavam da aspereza pernambucana. De sua natureza agreste. Pernambucano não se desarmaria nem para um abraço – viria sempre com uma faca na frente.

É certo que tais observações subjetivas ou preconceituosas remetem a uma base real. São traços culturais distintivos que podem ser examinados de uma perspectiva histórico-antropológica.

Um amigo meu (não vou citar nomes neste artigo) observa, por exemplo, que mesmo conspirações e revoluções, que aconteceram nas histórias da Bahia e de Pernambuco, apresentam caráter humanamente distinto. Bastaria comparar, diz ele, estilos e princípios da Confederação do Equador e da Revolução dos Alfaiates, por exemplo. Mas não é por esse terreno que vou enveredar.

Quero falar do momento presente. De como Pernambuco e Bahia estão vivendo, hoje, situações e sensações radicalmente dessemelhantes.

Diferenças que parecem ter sido antecipadas, aliás, pelas produções artísticas desses Estados. Não faz muito tempo, outro amigo sublinhou o contraste que via entre os cinemas da Bahia e de Pernambuco. Salvo raras exceções, inquietude, criatividade e ousadia no cinema pernambucano (num caminho que desembocaria em Aspirinas & Urubus), mas autocomplacência, redundância e narcisismo provinciano nos filmes baianos. Na música, a situação não seria diversa.

Apesar da imponência da percussão do Olodum, da criatividade de Carlinhos Brown e Gerônimo, a Bahia era o reino da “axé music”, enquanto Pernambuco, incorporando a Tropicália, ousava no “mangue beat”.

Hoje, essa diferença parece espalhada por todas as áreas do pensar, do criar e do fazer. No meio do empresariado, entre os políticos e administradores públicos, no ambiente universitário, na área mais ampla da produção intelectual.

No campo intelectual, a Bahia, que sempre participou intensamente dos grandes debates e reflexões que se desenharam no País – dos tempos de Vieira aos dias de Glauber, passando pelo Visconde de Cairu, por Ruy Barbosa, Guerreiro Ramos, Anísio Teixeira e Nestor Duarte -, parece hoje paralisada, incapaz de produzir pensamentos e idéias.

Mas, como disse, os intelectuais não estão sós nas águas estagnadas da mentalidade rotineira. Ainda um outro amigo me sugere: compare as associações comerciais e federações de indústrias da Bahia e de Pernambuco. A diferença é brutal: lá, projetos e propostas; aqui, o vazio.

A Bahia parece reduzida à espera da fábrica da Toyota. No campo político, a mesmíssima coisa. Até os antigos quadros da direita pernambucana são superiores a tudo que existe no espaço partidário baiano.

Na Bahia, nem a maré transformadora, que se poderia ter armado com a derrota do carlismo, aconteceu.

Em Pernambuco, a chegada de Eduardo Campos avivou ainda mais o pedaço. Na Bahia, nada. Não há tesão na transformação. No novo. Ao contrário, reinam a flacidez e o ceticismo.

Em suma: Pernambuco, hoje, é sinônimo de entusiasmo e inquietude – a Bahia, de mormaço e mesmice. Continuam em vigor aqui, acima de tudo, a mediocridade e o clientelismo. E, o que é pior: anda todo mundo muito satisfeito consigo mesmo e com o que vê.

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