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por Maurílio Ferreira Lima*
para o Acerto de Contas

Na manhã do dia 28 de junho de 2009, o que parecia mais um tranquilo amanhecer de domingo, revelou ao mundo um velho fantasma para os países latino americanos. Foi dado um golpe de estado, desta vez na República das Honduras. O mundo acompanhou pelos jornais a destituição do presidente Manuel Zelaya, efetivada por militares de seu país.

O país está localizado na América Central, fazendo fronteira com El Salvador (oeste), Guatemala (norte) e Nicarágua (sul). É um dos países mais pobres da América Latina. Os principais produtos que tem para oferecer é a banana, o café e o camarão. O país vive graves problemas econômicos.

Honduras é um dos lugares que está infectado por uma das mais terríveis gangues de rua do continente, a Mara Salvatrucha. Para muitos jovens sem esperança, a gangue acaba se tornando uma substituta da instituição familiar, acolhendo essas pessoas desoladas após cruéis ritos de passagem, inclusive de garotas que são obrigadas a manter relações sexuais com os líderes para poder fazer parte da gangue.

Os braços dessa gangue se estendem para outros países da região, chegando até a cidade de Los Angeles, na Califórnia (EUA), passando por El Salvador. Uma antiga matéria da BBC estimou em 25 mil o número de membros da Mara, apenas nas Honduras. Este é mais um problema que torna aquele país muito instável socialmente.

Além de todos esses problemas sociais e econômicos, a República das Honduras ainda teve que assistir ao exílio forçado de seu presidente eleito democraticamente. Esse episódio mostra como ainda é instável é a democracia naquele país. Tv’s e rádios de apoio ao presidente deposto, Zelaya, nos dias que seguiram ao golpe, transmitiam uma programação baseada em entretenimento, forjando no país uma falsa tranquilidade.

Uma medida típica de golpes de Estado essa de promover nos veículos de comunicação a serenidade do paraíso. A América Latina entende de golpes desse tipo. Inclusive me recordo com poucas saudades dos dias de angústia após o golpe de 1964. Eu era deputado pelo estado de Pernambuco. Passei longos anos no exílio, retornando depois da abertura política.

Nosso continente não pode mais aceitar intervenções militares como a que estamos vendo nas Honduras. Um presidente eleito pelo povo não pode ser derrubado, senão pelo próprio povo. E os militares daquele país estão longe de representar o povo, pois não foram eleitos.

O motivo que levou à deposição do presidente Zelaya foi a preparação de um plebiscito, onde o povo iria escolher sobre a convocação ou não de uma Assembléia Constituinte, para que fosse feita uma reformulação da Constituição da República das Honduras, que permitisse ao presidente disputar uma nova eleição.

Toda essa história de três mandatos seguidos, ou reeleições ilimitadas tem dividido os países democráticos, cujos presidentes seguem esse caminho. A perpetuação no poder, em uma república democrática, não é recomendável.

Sem meias palavras, acredito que a solução para esse problema é a seguinte: o presidente foi eleito, pode ser reeleito para mais um mandato, e depois vai embora, devendo ficar inelegível para sempre, passando o poder a um outro candidato, que seguirá as mesmas recomendações constitucionais.

No caso das Honduras, tenho visto que há pouquíssimo espaço para uma solução militar externa para que seja restabelecido o mandato do presidente destituído Manuel Zelaya. Vejo apenas uma solução para acabar essa crise política das últimas semanas, na busca incansável de consolidação da democracia naquele país.

É preciso convocar novas eleições presidenciais, estando inelegíveis o presidente deposto, Manuel Zelaya, e o presidente interino, Roberto Micheletti. Nos anos seguintes, o Legislativo do país deve rever essa questão da reeleição, alterando a Constituição e permitindo apenas um segundo mandato.

Como eu disse anteriormente, o que não se pode aceitar são intervenções militares que ataquem de forma totalitária uma democracia, enfiando em sacos de lixo os desejos do povo que elege majoritariamente o seu líder maior, o Presidente.

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* Maurílio Ferreira Lima foi deputado-federal pelo PMDB-PE

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