polêmica

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Discutir o sistema de cotas para ingresso de alunos negros (e de alunos de escolas públicas) às instituições de Ensino Público Superior no Brasil é polêmico.

Adianto desde já que eu não sou favorável ao sistema de cotas para alunos negros, nem para alunos de escolas públicas. Isso por vários motivos – além do meu motivo principal, que é ser favorável a uma total refazenda do sistema educacional brasileiro.

Primeiramente, não dou crédito ao mito que foi criado no Brasil nos últimos anos de que, quem não tem curso superior, está automaticamente fora do mercado. Acho que isto é uma ilusão. O problema maior, é que esta ilusão parece ter-se introjetado na cabeça de grande parte do empresariado brasileiro, deixando de ser uma ilusão. Tornou-se um problema real de mentalidade empresarial. Acredito que enquanto essa mentalidade não mudar, a qualidade do nível de ensino em nossas Universidades prosseguirá seu declínio no abismo-arapuca do mercado.

Outra coisa é que, quando observo um sentido histórico de uma Universidade, em travessia por várias épocas históricas, vejo uma instituição que se voltou ao longo dos séculos para a construção de saberes, pensamentos, ciências e pesquisas, em uma palavra, conhecimentos.

O sentido mercadológico que vem predominando em grande parte de nossas Universidades me assusta. Certamente esse é um fato que deu e vem dando margem à presença de uma coqueluche e moda que diz que todo@s têm de ter curso superior. Mas o que se chama superior?

Alguns cursos oferecidos, ao meu ver, são extremamente inúteis. Sem querer ofender ninguém, digo que muitos cursos da UFPE, como os chamados “cursos de comunicação social”, e hotelaria, por exemplo, não passam de meros cursos técnicos, que poderiam ser perfeitamente abolidos, ou reformulados ao extremo, para poderem ter serventia à construção do pensamento social no Brasil e em Pernambuco. O curso de Hotelaria , por si só, já é uma bisonhice. O de Turismo, nem tanto, pois quem ganha dinheiro com turismo não é formado nesse curso, não são turismólogos. São empresários ou agentes públicos. Mas, não entremos nestes méritos.

A questão que considero importante é que essa mania de enfiar todo mundo em uma Universidade é um projeto ilusório que tende a torná-la um mero “Escolão Técnico”.

E, a culpa disso não tem dono. Se espalha de uma forma múltipla em vários setores da sociedade. Empresários que só admitem funcionários com curso superior, sem a menor necessidade. Alunos que não estão dispostos a construir pensamentos e saber, sentindo o drama do mercado, com medo de serem excluídos caso não tenham um curso superior. Gestores públicos que querem resolver tudo na base do remendo. Nessa eterna vicissitude cíclica, falta oxigênio para os tecidos cerebrais da sociedade e sucumbem os seres que querem pensar as coisas.

O resultado disso é um ciclo vicioso na sociedade brasileira, que considero um risco tanto para a integridade moral das pessoas, quanto para a função de cérebro social que uma Universidade deve ter – tal como a entendo.

Dessa forma, é no fomento de mais cursos técnicos pulverizados que vejo ser possível amenizar a curto prazo a questão (tão em pauta hoje em dia) do sucateamento das Universidades. A crítica corrente nos ciclos esquerdistas e do movimento estudantil de que são as Parcerias Público Privadas (PPPs) que estão sucateando as Universidades, para mim, não passa de um engôdo e uma ingenuidade sem tamanho.

O problema está em outro lugar, penso que nessa mentalidade viciante que a sociedade brasileira tem assumido ultimamente de que todos têm de ter curso superior. Isso é danoso, pois afirma outrauma nova forma de escravidão mascarada: “a escravidão do canudo”.

Quanto ao sistema de cotas para negros, acredito ser inviável também pelo fato de que não está apenas no fenótipo (as características exteriores do indivíduo, como a cor da pele) os traços de negritude. O genótipo, invisível, interior, pode provar traços de ascendência negra em uma pessoa branca.

Nada disso esgota o tema, mas considero as minhas duas principais razões para ser contrário ao sistema de cotas (para negros e alunos de escolas públicas): primeiro por fomentar essa coqueluche da escravidão do canudo, que só traz danos à Universidade e a integridade moral das pessoas em sociedade, que se vêm à margem das oportunidades e se vêem em lugares inferiores - quando na verdade a escravidão do canudo, assim como toda forma de escravidão, nunca será superior em nada. Além de estar sendo responsável por triturar o sentido da palavra ‘Superior’ que recebeu o ensino de faculdades em uma Universidade, a escravidão do canudo mói o sentimento de dignidade das pessoas sem acesso ao Ensino Superior. Pessoas estas que poderiam ser grandes técnicos profissionais voltados para o mercado, acaso não fossem seduzidos pela deficiente mentalidade empresarial e do poder público brasileiros de insistir no erro de que tod@s têm de ser curso superior.

Em segundo lugar, e que me parece uma discussão muito óbvia, é a dificuldade de definir, no Brasil, quem é ou quem não é negro.

Sei que o debate vai para além disso. Mas, minha proposta é tentar iniciar uma boa discussão sobre o tema, com aqueles que se interessarem.

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* texto editado por André Raboni às 20:53h do mesmo dia.

19 comentários para '“A escravidão do canudo”: Universidades e sistema de cotas no Brasil'


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