Discutir o sistema de cotas para ingresso de alunos negros (e de alunos de escolas públicas) às instituições de Ensino Público Superior no Brasil é polêmico.
Adianto desde já que eu não sou favorável ao sistema de cotas para alunos negros, nem para alunos de escolas públicas. Isso por vários motivos – além do meu motivo principal, que é ser favorável a uma total refazenda do sistema educacional brasileiro.
Primeiramente, não dou crédito ao mito que foi criado no Brasil nos últimos anos de que, quem não tem curso superior, está automaticamente fora do mercado. Acho que isto é uma ilusão. O problema maior, é que esta ilusão parece ter-se introjetado na cabeça de grande parte do empresariado brasileiro, deixando de ser uma ilusão. Tornou-se um problema real de mentalidade empresarial. Acredito que enquanto essa mentalidade não mudar, a qualidade do nível de ensino em nossas Universidades prosseguirá seu declínio no abismo-arapuca do mercado.
Outra coisa é que, quando observo um sentido histórico de uma Universidade, em travessia por várias épocas históricas, vejo uma instituição que se voltou ao longo dos séculos para a construção de saberes, pensamentos, ciências e pesquisas, em uma palavra, conhecimentos.
O sentido mercadológico que vem predominando em grande parte de nossas Universidades me assusta. Certamente esse é um fato que deu e vem dando margem à presença de uma coqueluche e moda que diz que todo@s têm de ter curso superior. Mas o que se chama superior?
Alguns cursos oferecidos, ao meu ver, são extremamente inúteis. Sem querer ofender ninguém, digo que muitos cursos da UFPE, como os chamados “cursos de comunicação social”, e hotelaria, por exemplo, não passam de meros cursos técnicos, que poderiam ser perfeitamente abolidos, ou reformulados ao extremo, para poderem ter serventia à construção do pensamento social no Brasil e em Pernambuco. O curso de Hotelaria , por si só, já é uma bisonhice. O de Turismo, nem tanto, pois quem ganha dinheiro com turismo não é formado nesse curso, não são turismólogos. São empresários ou agentes públicos. Mas, não entremos nestes méritos.
A questão que considero importante é que essa mania de enfiar todo mundo em uma Universidade é um projeto ilusório que tende a torná-la um mero “Escolão Técnico”.
E, a culpa disso não tem dono. Se espalha de uma forma múltipla em vários setores da sociedade. Empresários que só admitem funcionários com curso superior, sem a menor necessidade. Alunos que não estão dispostos a construir pensamentos e saber, sentindo o drama do mercado, com medo de serem excluídos caso não tenham um curso superior. Gestores públicos que querem resolver tudo na base do remendo. Nessa eterna vicissitude cíclica, falta oxigênio para os tecidos cerebrais da sociedade e sucumbem os seres que querem pensar as coisas.
O resultado disso é um ciclo vicioso na sociedade brasileira, que considero um risco tanto para a integridade moral das pessoas, quanto para a função de cérebro social que uma Universidade deve ter – tal como a entendo.
Dessa forma, é no fomento de mais cursos técnicos pulverizados que vejo ser possível amenizar a curto prazo a questão (tão em pauta hoje em dia) do sucateamento das Universidades. A crítica corrente nos ciclos esquerdistas e do movimento estudantil de que são as Parcerias Público Privadas (PPPs) que estão sucateando as Universidades, para mim, não passa de um engôdo e uma ingenuidade sem tamanho.
O problema está em outro lugar, penso que nessa mentalidade viciante que a sociedade brasileira tem assumido ultimamente de que todos têm de ter curso superior. Isso é danoso, pois afirma outrauma nova forma de escravidão mascarada: “a escravidão do canudo”.
Quanto ao sistema de cotas para negros, acredito ser inviável também pelo fato de que não está apenas no fenótipo (as características exteriores do indivíduo, como a cor da pele) os traços de negritude. O genótipo, invisível, interior, pode provar traços de ascendência negra em uma pessoa branca.
Nada disso esgota o tema, mas considero as minhas duas principais razões para ser contrário ao sistema de cotas (para negros e alunos de escolas públicas): primeiro por fomentar essa coqueluche da escravidão do canudo, que só traz danos à Universidade e a integridade moral das pessoas em sociedade, que se vêm à margem das oportunidades e se vêem em lugares inferiores - quando na verdade a escravidão do canudo, assim como toda forma de escravidão, nunca será superior em nada. Além de estar sendo responsável por triturar o sentido da palavra ‘Superior’ que recebeu o ensino de faculdades em uma Universidade, a escravidão do canudo mói o sentimento de dignidade das pessoas sem acesso ao Ensino Superior. Pessoas estas que poderiam ser grandes técnicos profissionais voltados para o mercado, acaso não fossem seduzidos pela deficiente mentalidade empresarial e do poder público brasileiros de insistir no erro de que tod@s têm de ser curso superior.
Em segundo lugar, e que me parece uma discussão muito óbvia, é a dificuldade de definir, no Brasil, quem é ou quem não é negro.
Sei que o debate vai para além disso. Mas, minha proposta é tentar iniciar uma boa discussão sobre o tema, com aqueles que se interessarem.
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* texto editado por André Raboni às 20:53h do mesmo dia.




Muito oportuno este debate.
Segue o trecho de uma síntese que fiz outro dia a partir de um texto de José Dias Sobrinho.
Síntese do texto “Dilemas da Educação Superior no Mundo Globalizado: sociedade do conhecimento ou economia do conhecimento?”, de José Dias Sobrinho
As capacidades de manter preservada a sua solidez e de renovar-se constantemente têm garantido à universidade a sua permanência no seio do mundo ocidental por quase mil anos como espaço privilegiado para o desenvolvimento e a difusão do conhecimento, da ciência e da tecnologia. É curioso notarmos que a trajetória dessa instituição é delineada pelo contraditório, ou seja, pelo não afastamento de seus princípios fundamentais e, ao mesmo tempo, pela possibilidade de se reinventar em cada contexto histórico.
A universidade busca assegurar a unidade resistindo às mudanças, mas ao mesmo tempo é uma instituição social aberta à diversidade e com capacidade de adaptar-se às novas demandas. Sua sobrevivência atesta sua grande flexibilidade, possibilidade de se superar e sua capacidade de pensar o futuro. Segundo SOBRINHO (2005, p. 30),
A universidade tem sido, através dos tempos, o mais importante espaço produtor do domínio técnico do homem sobre a natureza e, o que é ainda mais valioso, da consciência que o homem tem dessas transformações. Se o mundo moderno, em grande parte, resultou das revoluções educativa, industrial e democrática, então, com certeza, deveu muito às operações de construção e transmissão dos conhecimentos de alto nível, à docência e à investigação a que a universidade se dedica de forma ampliada e sistemática.
O autor demarca o surgimento da universidade em Bolonha, Itália, nove séculos atrás. Essa seria a base da universidade que se institucionalizou em todos os continentes, e apesar dos diferentes modelos organizacionais, ênfases e prioridades adotados em diversos momentos históricos e em cada país, o ethos universitário (SOBRINHO, 2005, p.30) é perceptível de maneira universal nestas instituições dedicadas ao desenvolvimento da formação multidimensional dos sujeitos sociais.
Políticos, pensadores e administradores têm se debruçado ao longo dos tempos sobre os problemas ligados à definição e reforma da universidade. Apesar de tamanhos esforços, o único consenso a respeitos destas noções é a falta de consenso. Ou melhor, o dissenso é próprio do ambiente universitário e das questões relacionadas a ele, e este descontentamento constitui uma das principais molas responsáveis pela dinâmica da instituição.
Observando a história da universidade, SOBRINHO (2005, p.31) resgata aquilo que entende como o sentido primordial atribuído à instituição dizendo que “classicamente a universidade tem sido pensada invocado-se a idéia de universalidade, de soma de todos os conhecimentos e atividades intelectuais”. Para o autor, é esse conceito (construído primordialmente em Bolonha e reafirmado ao longo dos tempos) que marca o amplo reconhecimento da instituição no mundo, ou seja, a universidade como centro de produção do conhecimento sem vínculos obrigatórios a interesses pragmáticos. Logo, o espaço da universidade não se limita a ser o espaço da formação exclusivamente prática, mas especialmente do desenvolvimento de seres sociais críticos, reflexivos. Assim, a ética acadêmica é identificada pela busca desinteressada da verdade, livre de preocupações particularistas, por um grupo aberto e autônomo de estudiosos comprometidos com o universal, embora inseridos em uma dada realidade.
Mas, no mundo de hoje, essa visão de universidade pode estar ameaçada? É possível considerá-la ultrapassada? Evidentemente a idéia de universidade fundada na noção de universalidade, livre e desinteressada ainda tem muitos defensores; mas até que ponto este comprometimento poderá ser, de fato, antagônico em relação às demandas da atualidade?
Para SOBRINHO (2005, p. 32),
[...] a universidade não pode ficar presa nas teias do passado. Por isso, é preciso alertar que podem ser anacrônicas aquelas defesas das idéias de uma universidade fundada na universalidade e no saber desinteressado que venham a impedir qualquer movimento no sentido dos novos tempos.
O autor defende que essa instituição, além de não estar mais em sinergia com muitas necessidades do mundo atual, correspondia em parte aos anseios de manutenção de privilégios de elites sociais nos diversos períodos históricos. Logo, não é possível alimentar uma visão ingênua a respeito da universidade em qualquer tempo.
Dada a complexidade dos conhecimentos e as transformações experimentadas pelas sociedades, as demandas contemporâneas colocam questões importantes diante das quais a universidade precisará se posicionar. O grande dilema que está posto, segundo SOBRINHO (2005, p. 32), é o de que “não lhe basta ser coetânea com seu tempo; mais que isso, ela precisa estar adiante de seu tempo. Transforma-se por efeito das mudanças que ocorrem em todas as esferas, mas também produz as transformações do mundo”. Continuando, o autor ainda ressalta que, apesar disso, a universidade não deve perder a capacidade de se autodeterminar; e esse parece ser o desafio mais delicado nessa relação entre a universidade e as demandas do nosso tempo. De um lado a idéia clássica de universalidade, de promoção da cultura e erudição, da formação crítica e reflexiva, dos valores que edificam a humanidade. De outro lado, a fragmentação, a rapidez, o valor econômico, o compromisso com a aplicabilidade, o instrumental, o organizacional.
[...]
Bibliografia
SOBRINHO, José D. Dilemas da educação superior no mundo globalizado: sociedade do conhecimento ou economia do conhecimento?. São Paulo: Casa do psicólogo, 2005.
André,
Outro dia, comentando sobre um post aqui que falava de educação (salvo engano aquele do Moto-advogado) eu citei um texto de Max Gehringer sobre Pitico, um ex-jogador do antigo time do Santos que tinha que ser multi-tarefa etc. e tal. Quem quiser ler o texto é só procurar nos artigos anteriores para não ficar repetitivo. Pois bem, para falarmos sobre o boom do ensino superior privado é preciso atentar para dois problemas sociais do Brasil: o desemprego e a falta de mão-de-obra qualificada. Alheias ao debate político em tornos dessas problemáticas, na década de 1990, as tradicionais escolas particulares de ensino médio e pré-vestibular descobriram um filão no nível superior. Utilizando a mesma estrutura física, muitas criaram o seu braço na graduação, notadamente com cursos simples, que prescidem de laboratório e equipamentos caros. Explodiram cursos de Administração, Comunicação, Contabilidade e Direito sem que houvesse uma fiscalização mais rigorosa por parte do MEC e demais órgãos do poder público.
Inadvertidamente, essas instituições lançaram mão de fazer propagandas enganosas para atrair alunos, na verdade clientes, com imagens de jovens executivos e bem-sucedidos em peças publicitárias, na ilusão de que aquela faculdade é o caminho para o sucesso dos desempregados e inexperientes. Hoje, paga-se algo em torno de R$ 20 mil, por 4 ou 5 anos de estudo que poderá ser convertido tão-somente num título numa folha de papel. A aplicabilidade dos cursos superiores é que está em xeque. De fato, os cursos técnicos são mais úteis que muita faculdadezinha de esquina. Não é à toa que são apelidadas de caça-níqueis.
André,
Muito oportuno seu questionamento sobre a “universalização” da universidade.Infelizmente, parece que os próprios docentes do ensino superior não se dão conta da falácia deste discurso, ou mesmo se omitem sobre isso, achando que talvez não valha a pena a discussão de fato consumado.
O atual governo brasileiro é, sem dúvida, um dos responsáveis, no Brasil, por esse discurso. O programa “universidade para todos” já diz tudo. A universidade jamais será para todos; e quando ela estiver assim, se tornará apenas uma escola de 3º grau, com cursos que pouco ou nada contribuem para a formação do pensamento e da pesquisa científica do país. Mas a introdução dessa falácia é anterior ao governo Lula. De fato, isso tudo começou nos anos 80, à época da reestruturação produtiva no Brasil, pois o empresariado precisou demitir milhares de pessoas e justificou isso com a pouca qualificação do empregado brasileiro. Bastou isso para que a sociedade, principalmente os sindicalistas, corresse atrás dessa qualificação, que se traduziu em diploma de curso superior. Ora, bastava um pouco de conhecimento e honestidade para ver que dentre muitos demitidos na reestruturação, estavam pessoas altamente qualificadas e experientes, cujos salários e benefícios altíssimos (além da competência técnica) não eram mais interessantes ao modelo produtivo adotado.
Minha opinião é de que a universidade é para uma elite, sim, uma elite de intelectuais, que nem toda pessoa quer ou pode ser. Sejam eles oriundos da elite econômica, da pobreza, dos negros, dos brancos ou dos índios, têm que ser elite. E principalmente não podemos confundir universidade com formação profissional. Inclusive acho que todas as categorias profissionais deveriam se submeter a avaliações por seus conselhos, a exemplo da OAB, que deveriam ser as entidades responsáveis pela certificação profissional não apenas pela fiscalização do exercício.
Quanto às cotas para os negros, ainda sou a favor, mas estou sempre aberta a opiniões divergentes, pois confesso não ter uma certeza absoluta sobre isso. Sou a favor apenas como princípio de reparação histórica, porque acho que o estado brasileiro deve ter uma proposta concreta de reparação não apenas pela escravidão, mas por ter se omitido em incluir toda a população negra na vida social. Quando do início do processo de industrialização no Brasil, ao invés de o estado exigir a inclusão dos negros, financiou a importação de mão-de-obra estrangeira (italianos, espanhóis, japoneses). A proposta das cotas é apenas uma, copiada do modelo americano, mas poderia ser outra coisa.
Entretanto, não acho que política pública deva ser apenas vista como direito, senão podemos criar mais uma confusão como a demarcação dos territórios indígenas; o sistema de cotas deve prever deveres para aqueles que por ele sejam beneficiados. Também sou a favor porque a universidade pública brasileira é custeada totalmente pelo estado, então deve estar submetida a políticas públicas de fomento ao desenvolvimento humano igualitário. E mais, não sou a favor das cotas como um direito permanente, deve estar previsto um tempo histórico e social para o seu fim.
Finalmente, sou favorável porque o sistema de cotas está servindo para que se enfrente de uma vez o preconceito de cor no Brasil. Vocês já viram como de repente aparece um monte de gente dizendo que no Brasil não tem racismo? E por reclamam das cotas? Se elas fossem para brancos quem reclamaria? Mas isso é assunto para outro post.
Arthemísia,
“Minha opinião é de que a universidade é para uma elite, sim, uma elite de intelectuais, que nem toda pessoa quer ou pode ser. Sejam eles oriundos da elite econômica, da pobreza, dos negros, dos brancos ou dos índios, têm que ser elite.”
Vc poderia explicar melhor este trecho?
abraços
Arthemísia,
achei seu comentário muito bom.
Também acredito que uma Universidade deva ser um lugar de excelência.
No dia em que se tornar “para todos” (e, as políticas públicas realmente parecem conduzir a isso), se tornará ‘medíocre’ (no snetido mesmo do português de Portugal, como o “grau de avaliação acadêmica, entre o mau e o suficiente”,), ou, como você bem colocou, uma escola de 3º grau.
Quando você diz que
“Quando do início do processo de industrialização no Brasil, ao invés de o estado exigir a inclusão dos negros, financiou a importação de mão-de-obra estrangeira (italianos, espanhóis, japoneses)”,
acredito que você esteja coberta de razão.
Assim como você, eu também não tenho uma opinião estritamente fechada sobre o sistema de cotas, apenas sou contrário da forma tal que ela se encontra copiada de um modelo que funciona em outras sociedades que não a nossa. Apenas penso que, o modelo que seguimos, à americana, talvez não seja o mais adequado, por aquilo que coloquei anteriormente, de que nosso genótipo esconde a negritude de muitos cidadãos, ao contrário nos EUA, nossa miscegenação é muito menos definida por apresentar maiores dificuldades de se identificar o genótipo pelo fenótipo.
Mas, no sentido que de reparação histórica que você coloca, realmente não sei se sistemas de cotas em universidades são, de fato, o melhor a ser feito. Isso por que eu não gosto muito da idéia de uma pessoa sair de uma universidade com algum tipo de carimbo (“aluno de cota”), ou coisa do gênero. É como um estigma. Temo pelos efeitos disso no a posteriori imediato ao ingresso no curso, e durante o resto da vida da pessoa.
Ademais, como sabes (eu já disse em outros comentários), não fiz o Ensino Médio, tendo sido aprovado no vestibular após realizar exame supletivo, saltando da 8º série para graduação de História. Não angario disso nenhum brilhantismo de minha parte. Apenas um esforço, proveniente também de uma certa vocação – após ser aprovado no vestibular.
Acredito que um aluno, seja ele negro, índio, rico, branco, pobre, de escola pública ou não, quando tem vocação para tal, ele deveria adentrar em uma Universidade, por um sistema que fosse qualquer coisa diferente do vestibular que conhecemos nos dias hodiernos. Um outro tipo de prova, que levasse em conta outros aspectos do aluno, que não a mera acumulação arquiviolística de informações que de nada servirão para o resto de suas vidas. Falo de testar a vocacionalidade, a vontade e persistência para aquela faculdade.
Pode-se até vir a “universalizar”, de uma certa maneira, apenas os primeiros semestres dos cursos, não como são hoje, por troncos básicos onde o discente estuda nada sobre tudo, mas um ciclo geral que teste conhecimentos mínimos para que o aluno compreenda o que irá estudará nos anos seguintes, e caso não possa ser capaz por falta de meios de escolarização básicas, que seja capacitado durante certo período, com garantia do Estado que terá de arcar com os custos por não cumprir a constituição ao não oferecer serviços básicos mínimos de educação a um cidadão brasileiro.
Sabe por que penso isso? Pelo fato de que já vi muitos alunos que tiraram as melhores notas nas escolas e no vestibular serem alunos medíocres em seus cursos, ou se tornarem profissionais péssimos após conclusão do curso.
E, por sua vez, já vi alunos que não tiveram os melhores desempenhos nos vestibulares, qua não foram alunos brilhantes na escola, terem sua vocação tão bem definida, que estão agora entre os melhores profissionais em sua especificidade.
Quero dizer que eu não acredito de maneira alguma que uma formação escolar tida como “boa”, seja definitiva para delimitar competências e vocações profissionais.
Dessa forma, acho que o modelo de ingresso na Universidade é que deveria ser reparado, em vez de se manter o velho modelo de vestibular, alterando as cotas para ingresso.
Ademais, acredito que tenhamos muito o que debater, de forma séria e aberta, para construirmos juntos uma resposta para nossos problemas.
Abraço!
Para quem não entendeu, o que a Arthemísia quis dizer com isso:
“Minha opinião é de que a universidade é para uma elite, sim, uma elite de intelectuais, que nem toda pessoa quer ou pode ser. Sejam eles oriundos da elite econômica, da pobreza, dos negros, dos brancos ou dos índios, têm que ser elite.”
está muito bem explicado aqui: “A idéia de universidade e as idéias das classes médias”, por Otto Maria Carpeaux
http://oindividuo.com/carpeaux1.htm
A idéia de universidade e as idéias das classes médias
Ensaio do livro A Cinza do Purgatório,
incluído nos Ensaios Reunidos de Otto Maria Carpeaux
Jamais esquecerei o dia em que entrei pela primeira vez, com toda a ingenuidade dos meus dezoito anos, no solene recinto da Universidade da minha cidade natal. Um pórtico silencioso. Nas paredes viam-se os bustos dos professores que ali estudaram e ensinaram; no busto de um helenista lia-se a inscrição: “Ele acendeu e transmitiu a flâmula sagrada”; e no busto de um astrônomo: “O princípio que traz o seu nome ilumina-nos os espaços celestes.” No meio do pátio, num pequeno jardim, sob o ameno sol de outono, erguia-se uma estátua de mulher nua, com olhos enigmáticos: a deusa da sabedoria. Silêncio. Não esquecerei nunca.
A decepção foi muito grande. Via a biblioteca coberta de poeira, os auditórios barulhentos, estupidez e cinismo em cima e em baixo das cadeiras dos professores, exames fáceis e fraudulentos, brutalidades de bandos que gritavam os imbecis slogans políticos do dia, e que se chamavam “acadêmicos”.
A última vez que passei perto deste “templo das Musas”, o edifício estava fechado; os estudantes haviam-se juntado a uma imensa manifestação popular. Sabia muito bem o que isso significava para mim: um adeus para sempre. Olhando pelas frestas das portas monumentais — estávamos na primavera — via sob a luz branda do sol os pórticos, as velhas pedras, o jardim, e a deusa nua, tendo nos lábios o sorriso enigmático da morte. E reconheci um fim definitivo.
Por toda parte, as universidades são doentes, senão moribundas, e isto é grande coisa. Os iniciados bem sabem que não é esta uma questão para os pedagogos especializados. Das universidades depende a vida espiritual das nações. O fim das universidades seria um fim definitivo. O abismo entre o progresso material e a cultura espiritual aumenta de dia para dia, e as armas desse progresso nas mãos dos bárbaros é fato que clama aos céus. Os edifícios das universidades resistem ainda, e neles trabalha-se muito, demais, às vezes, mas o edifício do espírito, esta catedral invisível, está ameaçado de cair em ruínas. Em tempos mais felizes a sueca Ellen Key dizia com sutileza: “Cultura é o que nos resta depois de termos esquecido tudo quanto aprendemos.” E, deste modo, somos riquíssimos de saber e mendigos de cultura. Hoje em dia Herbert George Wells pode dizer: “We are entered in a race between education and catastrophe.” “Entramos numa corrida entre educação e catástrofe.” Aí está a questão da Universidade.
Quem é o culpado? Evidentemente, é inadmissível simplificar uma discussão de tal envergadura. Acusa-se o Estado por ter-se intrometido, e acusa-se o Estado por não se intrometer. Acusam-se os professores por mergulharem nos ensinos profissionais e descuidarem-se da ciência desinteressada, e acusam-se os professores por mergulharem na ciência pura sem saberem ensinar. Aqui, queixam-se de as universidades não fornecerem elites, de que a nação tem necessidade; ali, queixam-se de que as universidades fornecem elites demais, um proletariado intelectual. Abundam os remédios propostos. Desejam salvar as universidades pela separação entre as instituições puramente científicas e os institutos de ensino, o que agravaria o problema em vez de o resolver: a ciência seria, assim, afastada da vida, e o ensino entregue à rotina. Falham, igualmente, as tentativas mais bem pensadas de curar a doença infundindo uma nova crença ou uma velha fé: teremos os mesmos estudantes, os mesmos bacharéis, os mesmos doutores que antes, e as suas boas crenças não resolverão a doença da Universidade. Porque não cabe à Universidade formar crentes nem sequer sugerir convicções, mas dar ao estudante capacidade para escolher a sua convicção. Já abundam os homens cegamente convictos, muito “práticos”, “úteis” para os serviços do Estado, da Igreja, dos partidos e das empresas comerciais. Pode ser que todas essas instituições lamentem, em breve, a abundância de homens convictos e a falta de homens livres. Então, acusar-se-á amargamente o utilitarismo das universidades modernas. O utilitarismo é o inimigo mortal da Universidade.
Mas o que quer dizer “prático”, “útil”? A resposta não é tão simples. Por felicidade os poderosos deste mundo introduziram um novo ponto de vista, ao qual julgo que devemos algumas perspectivas novas.
Para a mentalidade média do nosso tempo a utilidade das ciências é determinada segundo as aplicações práticas: a física e a química, que nos forneceram a luz elétrica e os gases asfixiantes, são as ciências úteis; a história e a filosofia, que não nos fornecem nada, são ciências “inúteis”. Apelo desta sentença para a sabedoria de certos homens práticos, que disso entendem muito bem. Certos regimes, ditos totalitários, acharam indispensável regular pela força o estudo das ciências, cujas conseqüências práticas poderiam abalar estes regimes. Ora, que vemos nós, com surpresa? Estes regimes não se ocupam, absolutamente, com as ciências “práticas”, a física e a química, que continuam bem tranqüilas. Mas as ciências totalmente inúteis, a história, a filosofia, os estudos literários, são justamente as favoritas dos regimes totalitários, que as abraçam até sufocá-las. É digno de nota.
Mas o que é ainda mais notável é uma certa coincidência. Sabemos que a Universidade, Universitas Litterarum, é uma criação da Idade Média. Ora, os ditos regimes não se ocupam com as ciências naturais, que a Idade Média conhecia pouco, e que se juntaram mais tarde à Universidade. Tratam somente das “velhas” ciências, das Litterae, que na Idade Média já eram conhecidas, e que formam a verdadeira alma da Universidade. Está claro. Foram justamente estas Litterae que formaram os caracteres das nações; e aquele que desejar transformar uma nação deverá transformá-las integralmente. Eles sabem o que é uma universidade.
A história das universidades é a história espiritual das nações. A França medieval é a Sorbonne, cujo enfraquecimento coincide com a fundação renascentista do Collège de France, e cujo prolongamento moderno é a Ecole Normale Supérieure. A Inglaterra, mais conservadora, é sempre Oxford e Cambridge. A Alemanha luterana é Wittemberg e Iena; a Alemanha moderna é Bonn e Berlim. As velhas universidades são de utilidade muito reduzida. Elas não fornecem homens práticos; formam o tipo ideal da nação: o lettré, o gentleman, o Gebildeter. Elas formam os homens que substituem, nos tempos modernos, o clero das universidades medievais. Elas formam os clercs.
As universidades americanas têm a mesma origem. As velhas universidades da América Latina — Lima, México, Bogotá, Córdova — são fundações da Coroa de Espanha; mas foram, desde o início, confiadas aos frades, e já a primeira cédula de fundação, a ordem real do imperador Carlos V, de 21 de setembro de 1551, dá claramente a entender o sentimento da responsabilidade perante o espírito, o espírito desinteressado da Universidade medieval: “Para servir a Deus, Nosso Senhor, e ao bem público de nossos reinos, convém que nossos vassalos, súditos e naturais tenham Universidades e Estudos Gerais em que sejam instruídos e titulados em todas as ciências e faculdades, e pelo muito amor e vontade que temos de honrar e favorecer aos de Nossas Índias, e desterrar deles as trevas da ignorância, criamos, fundamos e constituímos na cidade de Lima dos reinos do Peru, e na cidade de México da Nova Espanha, Universidades e Estudos Gerais.” Nada mais eloqüente, admirável, do que semelhantes termos haverem sido empregados quando os puritanos fundaram, em 1636, a primeira universidade da América inglesa, a de Harvard: “After God had carried us safe to New England, and we builded our houses and settled the Civil Government; one of the next things we looked after was to advance Learning and perpetuate it to Posterity, dreading to leave an illiterate Ministery to the Churches, when our present Ministers shall lie in the dust.” (New England’s First Fruits, 1643.) (“Depois que Deus nos tinha seguramente conduzido a Nova-Inglaterra, e que construímos as nossas casas e estabelecemos um governo civil, uma das nossas primeiras ocupações foi estimular o ensino e perpertuá-lo para a posteridade, com receio de deixar às igrejas um clero iletrado quando os nossos clérigos atuais jazerem em pó.”
O que resta destas Universitates Litterarum? O nome. Já não formam lettrés, nem gentlemen, nem Gebildeter; formam médicos, advogados, professores. As universidades tornaram-se lugares de investigações científicas; e é um romantismo utilitário que vem muni-las das asas do progresso. Não há mais “clercs”, só há estudantes.
Quem é o culpado? Ainda uma vez apelo para aqueles que disso entendem. Por toda parte onde há aqueles regimes os estudantes estão nas vanguardas da violência. Não é um acaso. Ouso responder: os estudantes são os culpados.
Há duas espécies de estudantes: chamá-las-emos os “ricos” e os “pobres”, sublinhando que há pobres entre os “ricos” e ricos entre os “pobres”; são apenas duas expressões cômodas para abraçar uma generalização inevitável. Os estudantes “pobres” são aqueles que estudam “para a manteiga e para o pão”; estudam para se assegurarem um melhor sucesso na luta pela vida. Seria cruel e estúpido censurá-los. Antes, devemos admirá-los, em virtude dos sacrifícios, muitas vezes imensos, feitos por eles e seus pais para melhorar um futuro incerto e tornar a existência mais digna. Todavia, importa não se dissimularem os graves inconvenientes. Estudantes “pobres”, há muitos deles: vivem embaraçados pela miséria, pelas ocupações acessórias para ganhar a vida; sobretudo têm pressa de terminar os estudos. Junte-se a isto a benevolência, plenamente justificável, que os examinadores lhes devem como recompensa dos seus esforços. Em suma, o nível baixa sensivelmente. O nível baixa, dizemos, até o nível dos estudantes “ricos”. São estes os que têm necessidade de um grau acadêmico, porque o pai tem um, porque isto dá certa consideração na sociedade ou para adornar fortuna um pouco recente. Entre os estudantes “ricos” existem os pobres que desejam manter penosamente o standard de uma família em decadência, o que é, aliás, muito louvável. Existem outros verdadeiramente ricos, que não têm necessidade de estudar, mas que através dos estudos testemunham grande respeito às ciências; e estas, por sua vez, precisam deles, para subsistir materialmente. Em todo caso, os seus estudos não são de necessidade absoluta; eles não estudam mais do que o necessário, o indispensável para passar nos exames; os esforços ulteriores parecem-lhes ridículos. E são eles que, pela sua situação social, determinam o nível geral. E esse nível é a morte da Universidade.
Queixam-se de que as universidades já não fornecem elites. Sim, mas em compensação fornecem verdadeiras massas, porque as ciências modernas e suas investigações têm menos necessidade de cérebros que de batalhões de estudantes; e para isto eles satisfazem. A inteligência que é precisa para estudar uma profissão, mesmo acadêmica, não é tão grande como os leigos imaginam. Há vários séculos um sábio inglês, o cônego dr. Copleston, fellow do Ariel College, em Oxford, predizia: “Ainda que a ciência seja favorecida por essas concentrações de inteligência a seu serviço, os homens que se encerram nas especializações têm a inteligência em regresso.” (Citado pelo cardeal Newman, The idea of a university, p. 72). É o regredir de uma elite à condição de massa ornada de títulos acadêmicos.
É preciso que se digam, aqui, algumas verdades muito impopulares e muito desagradáveis. Existe Inteligência e existem “intelectuais”. Intelectuais são os médicos, os advogados, os funcionários superiores de toda espécie, os especialistas científicos de toda sorte. Mas deve-se dizer que somente uma parte desses “intelectuais” pertence à Inteligência, que é, por seu lado, o resto dos “clercs”, da elite de outrora. Sejamos sinceros: podemos ser bom médico, bom advogado, bom professor, e ter o espírito preso aos limites da profissão; e sabemos que o grau acadêmico nem sequer é sempre a garantia de boas qualidades profissionais. Mas ele confere sempre uma autoridade social. José Ortega y Gasset caracterizou essa nova espécie de intelectuais, violentamente, mas sinceramente: “Nuevo bárbaro, retrasado com respecto a su época, arcaico y primitivo en comparación con la terrible actualidad de sus problemas. Este nuevo bárbaro es principalmente el profesional más sabio que nunca, pero más inculto también — el ingeniero, el médico, el abogado, el científico.” (Misión de la Universidad, Obras, p. 1289).
O fato central da nossa época é a violência generalizada a todos os setores da vida pública, a violência que pretende substituir o espírito no seu papel guiador das massas. Dessas massas que os pensadores políticos muitas vezes confundem com o proletariado econômico. Sim, mas o espírito proletário, o espírito da reação violenta contra certas condições econômicas e sociais, não está exclusivamente ligado às massas obreiras; participam dele todas as “massas”, como fenômenos sociológicos, e a massa dos intelectuais também. É o fato central da nossa época: as classes médias, mesmo antes de serem proletarizadas, mesmo justamente para evitar a ameaça da proletarização, transformam-se em massas proletárias. E esta proletarização interior é um fenômeno da educação. Chama-se “classes médias” o problema central da nossa época. O livro mais bem documentado que conheço sobre o fascismo, Fascisme et grand capital, de Daniel Guérin, apresenta a tese de que o fascismo é a última expressão do grande capitalismo. Tese errônea. Provando irrefutavelmente que o grande capital se serviu do fascismo para bater o movimento trabalhista, Guérin esquece-se de concluir que o instrumento se mostrou, enfim, mais forte do que o mestre, e que os operários e os capitalistas perderam, juntos, a liberdade de movimento, pela ação deste inimigo de ambos — as classes médias. Fato fundamental do nosso tempo: o fascismo propaga-se e vence através das classes médias, das quais é a expressão triunfal.
O fascismo foi impossível na Rússia. É também um fato fundamental que a Rússia não conheceu, não teve uma classe média. Ora, seguindo a corrente da época, o bolchevismo criou uma classe média. A burocracia soviética, os stakhanovistas e outras camadas privilegiadas do operariado, não são outra coisa senão uma nova classe média. Considerando, nos outros países, a ascensão de camadas igualmente novas, que o século XIX ainda não conhecia, verdadeiros exércitos de empregados privados, de funcionários públicos, de pequenos empresários, todos formados num regime de ensino secundário ou superior muito facilitado, essas massas de homens, todos mais ou menos educados, essas multidões de “pequenos intelectuais”; considerando essas multidões de homens novos, nem capitalistas nem trabalhistas, que Karl Marx não podia prever, deve-se precisar o pensamento: o fascismo e o bolchevismo têm o lado comum de serem expressões das novas classes médias. E a ideologia que permite explicar o espírito das novas classes médias é a ideologia pequeno-burguesa, violentamente revolucionária e anti-intelectualista.
Explica-se, por isso, que Georges Sorel, o pai espiritual comum do fascismo e do bolchevismo, Georges Sorel, o ideólogo da violência, seja um homem profundamente pequeno-burguês, representante típico das classes médias francesas, preocupado com a decadência das “autoridades sociais”, que ele concebeu fielmente no espírito conservador de Le Play; preocupado, enfim, com a decadência vital da raça latina, pela qual ele responsabiliza violentamente a Inteligência; ao espírito ele prefere a vitalização pelos instintos bárbaros da massa.
Fica-se a admirar que Sorel fale em decadência, na França dos Taine e Bergson, dos Flaubert e Proust, dos Mallarmé e Claudel, dos Degas e Cézanne, dos Rodin e Debussy, dos Pasteur e Henri Poincaré, numa das épocas mais magníficas do espírito francês. Mas é por isso mesmo. Sorel é violentamente anti-intelectualista. Vê no espírito e suas obras o grande obstáculo da volta ao primitivo. Neste ponto, Sorel parece sobretudo “moderno”, contemporâneo de nós outros. É a hostilidade ao espírito que liga Sorel diretamente às novas classes médias.
No pensador revolucionário Sorel não se viu o conservador, o representante das classes médias. O mal-entendido correspondente não viu nas novas classes médias as possibilidades revolucionárias. Durante um século, o século XIX, esqueceu-se que a classe média fizera a Grande Revolução. Via-se na classe média a classe essencialmente conservadora, a portadora mesma das tradições humanísticas, e ela o era enquanto os princípios consolidados da Revolução Francesa abrigavam a classe média contra as ameaças do grande capitalismo e do movimento socialista. Isto, porém, acabou. Chegou o dia de uma nova classe média, pronta a vencer por uma nova revolução violenta ou, como na Rússia, triunfar contra um regime obsoleto. Foi Sorel quem emprestou às novas classes médias a ideologia revolucionária.
Poder-se-ia acreditar que os grandes obstáculos dessa revolução fossem os capitalistas e os trabalhadores, ou, na Rússia, um regime milenário e eclesiasticamente consolidado. Engano. Vimos a fraqueza incrível do regime tzarista, a derrota fácil dos socialistas, o suicídio dos capitalistas. O verdadeiro obstáculo — e Sorel o previra bem — era a Inteligência. É ela que merece as diatribes mais cruéis dos chefes e dos caudilhos. Para a vitória final, precisa-se acabar com a Inteligência.
Como? Não é a classe média o principal agente dos movimentos espirituais? Sim, é, ou, melhor, foi. O século XIX, o século liberal, abre a todos todas as possibilidades. A educação superior é o caminho da ascensão. A preeminência da classe média no século XIX baseia-se na sua cultura universitária. Mas o século XX acaba com isso. O grande capitalismo precisa mais de exércitos de pequenos empregados do que de self-made men; as profissões liberais estão superlotadas; o movimento socialista repele os que resistem à proletarização e suas humilhações e privações. Privada dos privilégios da Inteligência, a classe média quebra furiosamente o instrumento, como uma criança quebra o brinquedo insubmisso. É uma criança, essa nova classe média; mas uma criança perigosa, cheia dos ressentimentos dos déclassés, furiosa contra os livros que já não sabe ler e cujas lições já não garantem a ascensão social. Está madura para a violência.
A violência é o fenômeno “espiritual” central das novas classes médias e da nossa época; significa a determinação de empregar todas as armas, todas as que o esforço do espírito criou, para conseguir um fim material: a salvação social da classe. Não se admitem outros fins. Ridiculizam ou anatematizam todos os esforços independentes, desinteressados, do espírito. Admiram a especialização útil do “intelectual de profissão”, e banem o humanismo do “professor”. A violência anti-intelectualista das novas classes médias é, afinal, uma falta de educação, ou, antes, o fruto de uma falsa educação. Fruto da falsa idéia que as classes médias formavam da Universidade: da nova Universidade, que fornece exércitos de médicos, advogados e técnicos, em vez de “clercs”, de uma elite.
O problema capital do nosso tempo, o problema da elite, é, no fim das contas, um problema de pedagogia humanística. Existe mesmo, hoje, política que consiste na exterminação das elites pelas armas dos especialistas. E foi bem preparada: da diminuição das lições latinas, existe apenas um passo para a destruição dos livros e dos museus.
O resultado mais freqüente da moderna educação universitária é um decidido adeus aos livros. Mais tarde, combaterão as “línguas mortas” na escola. Enfim, declararão inútil todo o ensino secundário, com as suas idéias vagas e inúteis duma “cultura geral”; talvez toquem, com isso, no ponto nevrálgico da discussão. Todo o problema espiritual dos nossos dias é, pois, um problema de falta de educação humanística, um problema pedagógico; e todo o problema pedagógico dos nossos dias é um problema da escola específica das classes médias, da escola secundária.
Segundo o regime escolar vigente em todos os países, sem exceção, a Universidade dedica-se ao ensino profissional superior, enquanto a “cultura geral” fica reservada ao ensino secundário, aos ginásios e aos liceus. Quer dizer: o ensino da cultura geral limita-se aos jovens de dez a dezoito anos. Depois, a “cultura” termina, e a medicina e a jurisprudência começam, sem nenhuma “cultura geral”. Os conhecimentos do ensino secundário empalidecem, naturalmente, com o tempo; mas ainda há coisa pior: todo esse ensino de “cultura geral” é feito ao alcance de jovens de dez a dezoito anos: a história, a filosofia, a literatura, amoldadas ad usum Delphini, e forçosamente puerilizadas. E aí fica. Nunca mais o jovem médico ou engenheiro ouve falar em história, filosofia, literatura, exceto pela imprensa ou pelo rádio, que se colocam ao alcance do espírito das grandes massas, pueris por natureza. Resultado: um espírito artificialmente preservado no estado pueril com uma formação profissional superposta. Conheço bem as numerosas exceções que felizmente existem. Mas, em geral, estas massas graduadas se distinguem dos iletrados somente por uma autoridade profissional que as torna menos úteis que perigosas. Ainda uma vez cito Ortega y Gasset: “La peculiarísima brutalidad y la agresiva estupidez con que se comporta un hombre, cuando sabe mucho de una cosa y ignora de raiz todas las demás” (O. c., p. 1291). Eles, porém, os iletrados, têm sempre razão, porque são muitos e ocupam um lugar de elite, esse “proletariado intelectual”, sem dinheiro ou com ele, isso não importa. Julgam tudo, e tudo deles depende. Lêem os livros e decidem sobre os sucessos de livraria, criticam os quadros e as exposições, aplaudem e vaiam no teatro e nos concertos, dirigem as correntes das idéias políticas, e tudo isto com a autoridade que o grau acadêmico lhes confere. Em suma, desempenham o papel de elite. São osnouveaux maîtres, os señoritos arrogantes, graduados e violentos; e nós sofremos as conseqüências, amargamente, cruelmente.
“We are entered in a race between education and catastrophe.” Wells tem muita razão. Mas é de grande importância datar a desgraça. Esta catástrofe irrompeu sob o signo do progresso, e o progresso ilimitado, muito do gosto de um Wells, cavará mais profundamente o abismo. O verdadeiro caminho é a volta.
Temos mais uma vez “a disputa do medievalismo”. Uma coisa fica, porém: a Universidade é uma criação da Idade Média. Todas as universidades medievais são, por princípio, instituições “clericais”: elas formam os “clercs”. O restabelecimento das universidades “clericais” é uma restauração de tradições.
Quatro ou cinco faculdades reunidas não constituem ainda uma universidade. Elas não criam esta “convivence of sciences, which forms a philosophical habit of mind”, de que fala o cardeal Newman. Não se trata destas ciências ou daquelas profissões. Trata-se do espírito comum que as anima, do espírito filosófico, anti-utilitário, desinteressado, que as nossas universidades perderam, e que é a própria Idéia de Universidade. Derrubemos, pois, este estado de coisas. É ao ensino secundário que cabe o preparo do ensino profissional, dispensado nos hospitais e na magistratura. Em conclusão, é à Universidade que incumbe a formação do espírito da “clericatura”.
Voltemos aos estudantes: o seu utilitarismo, mais perigoso que o das ciências, perdurará enquanto a freqüência das universidades for a chave para as posições de mando na sociedade. Verdadeiramente, o oposto deste utilitarismo é o desinteresse, no qual Newman via o espírito e a idéia de universidade, o espírito do clero universitário medieval que se sentia independente do mundo e somente responsável perante Deus. Sem tais padres o altar fica vazio e o culto abandonado. Poderia chegar o dia em que ninguém compreenderia mais as fórmulas nem os poemas, em que os quadros de Rembrandt seriam pedaços de tela e as partituras de Beethoven farrapos de papel; dia da barbaria, em que a história humana se transformaria, pela sucessão de desgraças, num formigueiro mal organizado. E este dia talvez já esteja mais próximo do que realmente pensamos. “Somos a última reserva, fiquemos conscientes disto.” — dizia Hugo Ball. Fiquemos conscientes, “dreading to leave an illiterate Ministery to the Churches, when our present Ministers shall lie in the dust”.
Excelente artigo, Krishnamurti.
Vale muito a pena ser lido. Além de ser escrito de forma brilhante pelo autor.
Arthemísia, se puder explicar, aguardo!
Abraços
Caro André,
muito boa a discussão e o artigo do Otto Maria Carpeaux é exelente mesmo. Gostaria de fazer algumas colocações mas por falta de tempo no momento fico com duas perguntas: você afirma que “A crítica corrente nos ciclos esquerdistas e do movimento estudantil de que são as Parcerias Público Privadas (PPPs) que estão sucateando as Universidades, para mim, não passa de um engôdo e uma ingenuidade sem tamanho.”
por que seria um engodo? você não deixa isso claro. será que a crise ( de corrupção meu caro, vide o caso da unb, e não só ele.) que passa as fundaços privadas não cria uma preocupação real sobre a relação do público com o privados no sistema universitário público brasileiro? e qual seria a ingenuidade sem tamanho em alertar isso?
saudações.
Em tempo: sou contra a política de cotas e sou favorável à universalização da educação superior nos diversos formatos (universidades de pesquisa, escolas técnicas pós-secudárias, faculdades etc.).
A universalização é importante para que todos tenham acesso à formação superior e possam se direcionar para o tipo de formação que melhor se adequa às suas ambições profissionais, humanísticas etc. A universidade de pesquisa, sozinha, não dá conta de suprir as necessidades de formação (profissional, intelectual, humanística…) que as pessoas buscam hoje. Há uma diversidade de necessidades e todas merecem ser contempladas, sim.
Outra coisa, a universidade não vai virar escola de terceiro grau, pois isso ela já virou há muito tempo. Todo mundo sabe que há uma infinidade de cursos que não oferecem formação que vá além do domínio técnico, e isso faz parte dessa diversidade que existe hoje.
O purismo de querer manter o status de Vaca Sagrada da educação de nível superior me parece absolutamente anacrônico. Há, e sempre haverá, como sempre houve, espaço para os querem adornar o espírito e para os que querem uma formação exclusivamente profissional. A Universidade de Pesquisa, preocupada com a busca desinteresada da verdade sempre existirá, e não será a universalização da educação superior que acabará com ela. Apenas permimitirá que mais pessoas possam ter acesso ao universo da educação superior, nas diversas modalidades.
Excelência é ampliar as possibilidades que estão postas para a formação das pessoas, e não colocar um peneirão que vai engolir um monte de gente que pode e quer se desenvolver mais.
Por fim, parabéns ao Blog que, democraticamente, universaliza o acesso a este interessante debate através da internet.
Prezada Amanda,
Desculpe a demora em responder, mas só hoje voltei ao blog. Antes de tentar esclarecer meu comentário, eu vou acrescentar que fui aluna da UFPE e professora substituta na mesma. Ou seja, estive dos dois lados e a conclusão foi a mesma. Universidade não deve ser para todos, não por demérito de alguns, apenas porque é uma instituição, ou melhor, deveria ser, que nem todo mundo está preparado ou disposto a frequentar. Quando eu falo em elite (palavra que muita gente não gosta ou confunde), eu falo em pessoas que pertencem a um determinado grupo que detém um poder específico. No caso da universidade seria o poder do conhecimento. Como está no belíssimo texto acima, não é o conhecimento técnico ou científico, mas o conhecimento do espírito da vida humana. E isso não é para todo mundo não, mas também não significa que seja apenas para alguns que fazem parte de outra elite, a econômica, por exemplo. Pessoas com vocação para o conhecimento podem vir de todos os extratos sociais, todos os grupos sociais e a estas não deveríamos fechar as portas da universidades.
E não vamos nos iludir: não haverá no Brasil universidade boa para todos. Quem vai pagar? Universalizamos saúde e educação, e eu sou totalmente favorável a isso, mas temos que reconhecer que os resultados estão bem distantes do que sonhamos. E pode ser melhor? Até pode, mas exige um compromisso social que o Brasil nunca apresentou em sua história, o que não significa que não apresentará. Por que então fazer isso também com a universidade? Qual é o objetivo? Sinceramente, não sei. Será que as pessoas pensam que o mundo será melhor quando todo mundo tiver curso superior? Não precisa nem dar exemplos para provar que isso não é verdade.
Será que consegui esclarecer? Em todo caso, tem coisa muito melhor para ler neste post que meu comentário, como a beleza do texto de Otto Maria Carpeaux.
Prezado Rafael,
concordo que a crise das universidades tem um braço na corrupção. E que a discussão das PPPs também passam por isso, e são importantes. Mas, não se trata disso a questão que eu levanto. A crise é bem mais complexa e secular.
O que eu quis dizer com “engôdo”, é que da forma como é tratada essa discussão pelo movimento estudantil e por ciclos esquerdistas (na base do panfleto e da palavra de ordem – e, isso é coisa própria de espíritos de rebanho, com seu jograis ridículos e patéticos), tal forma maqueia questões de relação muito mais profundas, que considero mais importantes, além de manipular os jovens que acreditam ingenuamente estar dando sua contribuição social no momento em que se filiam ao movimento estudantil.
Esse artigo de Carpeaux mostra algumas dessas questões.
É um engôdo pois joga sobre escombros o próprio sentido da Universidade – que não parece ser compreendido pelo movimento estudantil. O movimento estudantil quer “Ensino”, e não “Erudição” e “Cultura”. Alunos de universidade estão mais para sindicalistas que para homens de letras.
Assim eu vejo. Ou seja, querem um 3º grau, e não uma Universidade.
Existem três conceitos que acredito ser fudamentais nesse debate:
1 – O que é filosofia?
2 – O que é ciência?
3 – O que são Artes e Letras?
Não vou resumir essas respostas. Gostaria que ficasse como reflexão. Apenas aponto um rumo de resposta:
1 – A filosofia “cria conceitos” para resolver problemas.
2 – A ciência “cria funções e tecnologia”.
3 – As artes e as letras “criam sensações e afetos”.
Não quero esgotar as respostas. Foram apenas direcionamentos. Nada originais, por sinal, pois se trata de uma das visões do filósofo francês, G. Deleuze.
Agora eu pergunto: se um dos sentidos das Ciências é criar funções e tecnologias, e se as PPPs fossem tão danosas para a área do desenvolvimento de tecnologias, o departamento de Física da UFPE estaria falido, não? No entanto, o que vemos é o oposto. Um centro de desenvolvimento de pesquisas bastante avançado.
Se outras áreas (como Filosofia, História e letras, e as humanidades em geral) são mais suscetíveis ao despedaçamento com as PPPs (seja por serem menos interessantes ao mercado ou não), essa é uma questão que realmente temos de debater com maior profundidade.
Talvez redirecionar o grosso dos investimentos públicos das áres mais afins ao mercado (mais profícuas com as PPPs, bem entendido, como eu disse do Dep. de Física), talvez fosse uma forma engrossar o repasse de verbas públicas para áreas menos afins ao mercado (como a área de Humanas e das Artes).
É possível? Acredito que sim. Mas, logicamente, isso passaria por um ajuste rigoroso dos métodos de repasse de verbas.
É algo a ser discutido.
Só não gostaria de resumir a discussão no viés da “corrupção”. Gostaria de discutir isso em outros termos, pois corrupção existe com ou sem PPPs.
“… e qual seria a ingenuidade sem tamanho em alertar isso?”
É tapar o sol com a peneira, meu caro.
Eu diria que aguardo suas colocações.
Abraços!
Arthemísia, entendi agora o seu comentário.
Tendo a concordar com a maior parte do seu texto, mas gostaria de fazer uma observação sobre essa sua frase:
“E não vamos nos iludir: não haverá no Brasil universidade boa para todos. Quem vai pagar?”
Eu também acho muito difícil termos universidade boa para todos, mas o que defendo (e não sou só eu) é a universalização da Educação Superior, e não das universidades de pesquisa.
Repito: me parece absolutamente anacrônica a defesa apaixonada que alguns fazem para mantermos a educação superior restrita ao formato das universidades. E pior, uma universidade absolutamente medieval, como se ela fosse uma instituição que não se relaciona com o mundo. Ora, uma instituição social que não se relaciona com a sociedade contemporânea? Como pode?
A universidade pública é paga com o dinheiro do povo. Eu não quero ficar sustentando vacas sagradas que vão ilustrar seus espíritos com meu dinheiro e não vão trazer nenhum benefício para melhorar a vida das pessoas.
As universidades estão muito certas ao caminharem para campos mais pragmáticos. O cuidado que se deve ter é para que ela não perca a capacidade de se autodeterminar, mas isso não significa fingir que as pessoas que a sustentam não existem e não têm necessidades a serem resolvidas.
De toda forma, a questão da universalização da educação superior não passa pela criação de novas universidades de pesquisa, pois não é só de pesquisa que a gente precisa, até porque nem todos têm a “vocação” para a produção de novos conhecimentos. Tem muita gente que tá a fim de um curso de hotelaria, uma licenciatura, um curso de desenho industrial…
Que ampliem-se os novos formatos de instituições de educação superior. Há muita diversidade, e ela não será atendida apenas pelas universidades de pesquisa.
Nos países desenvolvidos, as universidades de pesquisa são minoria.
Ah!
Abraços!
Caro André,
Você que está sendo maniqueísta e simplista ao afirmar que :”…forma como é tratada essa discussão pelo movimento estudantil e por ciclos esquerdistas (na base do panfleto e da palavra de ordem – e, isso é coisa própria de espíritos de rebanho, com seu jograis ridículos e patéticos), tal forma maqueia questões de relação muito mais profundas, que considero mais importantes, além de manipular os jovens que acreditam ingenuamente estar dando sua contribuição social no momento em que se filiam ao movimento estudantil.” O debate que pode ser travado, e, meu caro, é travado por muitos estudantes de universidades públicas , é sobre o sentido social da Universidade.Creio não ser correto você resumir a participação dos estudantes que militam no M.E a mero reprodutores de “panfletos”.isso pode ser uma parte deles, mas com certeza os estudante que militam são muito mais heterogêneos e têm muita consistência teórica e política sim!! Não os menospreze! Segundo:”Alunos de universidade estão mais para sindicalistas que para homens de letras.” como assim? a política e as letras são incompatíveis? Acho que a leitura de Antonio Candido, Roberto Schwars e Bento Prado jr já mostram o quão equivocado pode ser esse pensamento. O debate não é de fobia ao mercado ou as PPPs , mas sim de como deve ser travada a relação da universidade com o “mercado”. Acho que esse deve ser o eixo em nossa discussão. Relação que , insisto, deva existir. Mas bem diferente de como existe nos dias correntes.
acho que a discussão é boa e atual e que ela deva continuar
abraços fraternos
Rafael.
reproduzo artigo da professora Leyla Perrone -Moises que pode deixar mais claro o que tentei colocar nessas mal-traçadas linhas.
publicado no caderno MAIS da Folha de São Paulo.em 30 de junho de 2002
PARA QUE SERVEM AS HUMANIDADES?
Ensaísta ataca a aplicação de modelos empresariais à universidade pública
por Leyla Perrone-Moisés
Para além das causas específicas, reais ou alegadas, a crise atual da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo é sintoma de um mal-estar internacional dos estudos humanísticos. Uso aqui a palavra “humanidades” não no sentido restrito de estudo das línguas e literaturas clássicas, mas no sentido geral dos estudos que têm o homem como objeto central de reflexão.
Desde a Idade Média até meados do século 20, os estudos humanísticos, sobretudo nas suas vertentes filosóficas e literárias, ocuparam um lugar de honra nas universidades. O próprio conceito de universidade implicava a aspiração a um conhecimento superior e integrativo que orientasse os caminhos dos homens. Os extraordinários avanços científicos e tecnológicos do século passado, recebidos não apenas como valiosos, mas também como prioritários, relegaram os estudos humanísticos a um lugar secundário. A globalização econômica e a consequente submissão de todos os países à lógica do mercado tendem agora a desferir o golpe definitivo contra esse tipo de estudo. Os tomadores de decisões -políticos, economistas, cientistas, tecnocratas- perguntam cada vez mais: para que servem as humanidades? Submetidas ao critério de uma utilidade imediata, identificada com um bem-estar do homem baseado apenas no acesso às conquistas da ciência e da tecnologia, assim como no bom funcionamento do mercado, as humanidades passaram a ser vistas como um luxo, uma perfumaria, uma inutilidade.
Concomitantemente, o enfraquecimento dos Estados e sua crescente racionalização econômica levaram a um questionamento do ensino público. A universidade pública, como todos os serviços fornecidos gratuitamente pelo Estado, começou a ser vista como economicamente inviável. À semelhança das universidades privadas, as universidades públicas passaram a ser pensadas como empresas e submetidas a uma avaliação de custo-benefício. Tendo sempre em vista essa lógica de custo-benefício e considerando a crescente falta de recursos públicos para manter as universidades gratuitas, os dirigentes universitários dos países que ainda mantêm esse “anacronismo” viram, como solução transitória, as parcerias com as empresas privadas.
As universidades privadas norte-americanas, pioneiras nesse processo e modelos mundiais, adaptaram-se naturalmente ao modelo empresarial. Os currículos e diplomas se adequaram às “demandas da sociedade”, que se identificam com as demandas do mercado. Os professores universitários passaram a ser avaliados mais por sua capacidade de levantar fundos (“raising funds”) do que por suas qualidades de pesquisadores e professores. O modelo liberal-protecionista anterior, sustentado por doações de milionários beneméritos, foi substituído pelo modelo da parceria empresarial interessada, cobradora e interventora. Hoje os logotipos das empresas doadoras de fundos proliferam nos prédios universitários e nas próprias salas de aula.
A indústria farmacêutica, por exemplo, passou a dirigir os rumos das pesquisas de biologia e a influir na composição dos colegiados, como ocorreu, de modo escandaloso, numa parceria da Universidade da Califórnia, em Berkeley, com a empresa suíça Novartis, em 1998. A empresa Nike suspendeu seu apoio financeiro às universidades de Michigan, Oregon e à Brown porque os estudantes desses estabelecimentos criticaram o trabalho infantil praticado pela empresa em países pobres. Os exemplos poderiam multiplicar-se, e numerosos processos foram instaurados para examinar conflitos de interesse na atuação de pesquisadores universitários pagos por empresas.
O próprio ensino como um todo, na era da informática e da internet, tornou-se o alvo das empresas de softwares, os quais substituiriam, com vantagens econômicas, a multidão onerosa de professores e as dispendiosas salas de aula. Programas e aulas uniformizadas, além de representarem uma economia de recursos, favoreceriam a globalização econômica, pelo fato de diplomarem profissionais de formação igual em qualquer parte do mundo. Essas distorções foram denunciadas por universitários americanos, como James Engell e Anthony Dangerfield, da Universidade Harvard, que cunharam a expressão “the market-model university”.
Apesar desses alertas, as parcerias com as empresas privadas vêm sendo adotadas no mundo todo como uma transição prudente e pudica para a desejada mas ainda indefensável privatização total do ensino e da pesquisa. A tendência é mundial. A União Européia, ciosa de sua posição no mercado global, vem adotando diretrizes comuns de racionalização do ensino que convergem todas para a profissionalização, o encurtamento dos anos de estudo e a eliminação de diplomas “inúteis”. A França, que se orgulhava outrora de ser a “mãe das letras e das artes”, agora só pensa em eficiência e performance. Um relatório sobre a universidade, redigido por uma comissão a pedido do ex-governo socialista, fixava como uma das principais “missões” do ensino superior “adaptar-se às profissões do futuro e ao espírito de empresa” (ver “Pour un Modèle Européen d’Enseignement Supérieur”, Paris, Stock, 1998). As primeiras consequências dessa orientação apareceram, em 2000, num projeto do Ministério da Educação que restringia brutalmente o ensino das letras, considerado elitista e supérfluo na Europa moderna. Houve reações de protesto (publiquei a esse respeito um artigo, “Em Defesa da Literatura”, no Mais! de 18/6/2000). Atualmente, com o avanço dos partidos de direita em toda a Europa e o eclipse da esperançosa “exceção francesa”, todos aqueles protestos parecem antiquados e vãos.
Na ponta do lápis
Evidencia-se, cada vez mais, que as desejadas parcerias são facilmente obtidas quando as empresas obtêm um retorno em forma de lucro, isto é, nas áreas científicas, tecnológicas ou diretamente econômicas e gerenciais. As humanidades, logicamente, oferecem poucos atrativos para a iniciativa privada. Na ponta do lápis, as humanidades não são rentáveis. Os sinais desse desinteresse progressivo pelas humanidades já vêm de longe. Ainda nos anos 70, um empresário bem-intencionado, que integrava então o Conselho Universitário da USP, perguntou-me: diga-me francamente, para que servem disciplinas como “sânscrito” ou “estudos camonianos”? Ele considerava essas “extravagâncias” como ônus nocivos ao bom funcionamento da universidade. O verbo “servir” ganhava já um sentido exclusivamente pragmático. A própria história da Universidade de São Paulo espelha essa tendência mundial. Quando foi criada a Faculdade de Filosofia, em 1934, ela foi pensada como a “celula mater” da universidade. Diferentemente das faculdades profissionalizantes já existentes, ela se voltaria para os estudos humanísticos e científicos “puros”, para o conhecimento desinteressado, e promoveria a integração entre os diversos saberes, sem a qual não existe “universidade”. O decreto de fundação da USP, assinado por Armando de Salles Oliveira, partia da afirmação de que “a organização e o desenvolvimento da cultura filosófica, científica, literária e artística constituem as bases em que se assentam a liberdade e a grandeza de um povo” e apontava, como um dos fins da universidade, “transmitir, pelo ensino, conhecimentos que enriqueçam ou desenvolvam o espírito ou sejam úteis à vida”. Todas essas afirmações soam, hoje, como idealistas e utópicas. Fala-se agora, brutalmente, do “triste fim do mito da USP”, que seria visível no colapso iminente da sua “ex-celula mater”. Se lembro aqui as origens da FFLCH não é por saudosismo ou apego à tradição. É para que, à maneira reflexiva que a caracteriza, reexaminemos a sua história e pensemos o seu presente. A aliança entre o ensino profissionalizante, a pesquisa aplicada e a pesquisa pura, idealizada pelos fundadores da USP, evoluiu para o conflito, em prejuízo da última. Um artigo de Marilena Chaui, numa publicação comemorativa dos 60 anos da USP (“Estudos Avançados”, nº 22, set-dez/1994), mostrava, a partir de documentos programáticos datados de 1967 a 1994, as mudanças ocorridas na concepção da universidade por parte de seus integrantes. Os “novos engenheiros da mudança universitária”, dizia Chaui, alegam que, “à medida que o modelo de produção capitalista transformou a ciência e a tecnologia em forças produtivas, não só tornou obsoletos os antigos humanistas e pesquisadores puros, como ainda exige adequação da universidade à nova realidade histórica, se esta não quiser perder-se em abstrações”.
Unidade problemática
Além de serem inúteis, os estudos humanísticos revelaram-se, ao longo do tempo, incômodos para os governantes e tecnocratas, por exercerem e estimularem o espírito crítico. Com sua mania de “perder-se em abstrações”, a FFLCH foi se tornando uma unidade problemática. Durante a ditadura militar, ela foi a mais vigiada, a mais punida com aposentadorias compulsórias de professores, com a perseguição de alunos e finalmente com a invasão e a depredação dos seus locais. Nos primórdios da era mercadológica, seus professores foram tachados de “improdutivos”. As repreensões que ela recebe agora, por parte de um vice-reitor economista, decorrem da mesma má vontade para com essa faculdade incômoda: falta de planejamento, irresponsabilidade administrativa. Para agravar a situação atual, alguns docentes da própria FFLCH tendem a procurar um bode expiatório dentro dela mesma, por exemplo, nos cursos de letras, que por seu gigantismo atrapalhariam o bom funcionamento do conjunto. Sobrepondo critérios gestionais e paroquiais a critérios acadêmicos, esses docentes desejam a separação das áreas. Em vez de buscar uma melhor integração dos departamentos -e a prática de uma real interdisciplinaridade que, pela afinidade de seus objetos de estudo, seria proveitosa a todos-, optar-se-ia pela atomização da faculdade. Ora, essa atomização, além do prejuízo acadêmico, traria, a curto termo, um enfraquecimento político ainda maior de cada um dos departamentos de humanas no conjunto da universidade. Os cursos de letras, diga-se de passagem, são os que proporcionam mais empregos para os seus diplomados e os que mais atendem, pelo ensino de línguas e literaturas, às necessidades atuais de compreensão das culturas, útil até mesmo para o bom desempenho das empresas multi e transnacionais. A crise hoje vivida pela FFLCH, causada, como se sabe, pela falta de professores e de salas de aula, pode ter um efeito salutar. Em primeiro lugar, ela evidencia que a procura por esses cursos, apesar de seu desprestígio, é enorme. Essa unidade acolhe 20% do total de alunos da USP. Além disso, a crise põe a nu o mal-estar essencial dos estudos humanísticos na era da globalização econômica. Convém, então, responder à insistente pergunta: para que servem esses estudos?
Pensamento crítico
Servem para que a universidade continue a ser, além de um local de pesquisas científicas e tecnológicas, um lugar onde se exerce também o pensamento crítico, sem o qual esses avanços procederiam às cegas. Sem a compreensão da história dos homens, de seu habitat natural e social, de suas línguas, culturas e religiões, as conquistas científicas e tecnológicas são utilizadas ou inviabilizadas num mundo guerreiro e repartido de forma injusta. As humanidades servem para pensar a finalidade e a qualidade da existência humana, para além do simples alongamento de sua duração ou do bem-estar baseado no consumo e nas metas do FMI. Servem para estudar os problemas de nosso país e do mundo, para humanizar a globalização. Tendo por objeto e objetivo o homem, a capacidade que este tem de entender, de imaginar e de criar, esses estudos servem à vida tanto quanto a pesquisa sobre o genoma.
Num mundo informatizado, eles servem para preservar, de forma articulada, o saber acumulado por nossa cultura e por outras, estilhaçado no imediatismo da mídia e das redes. Por outras palavras: em tempos de informação excessiva e superficial, servem para produzir conhecimento. Eles servem para “agregar valor”, como se diz no jargão mercadológico. No ensino superior, os cursos de humanidades são um espaço de pensamento livre, de busca desinteressada do saber, de cultivo de valores, sem os quais a própria idéia de universidade perde sentido. Por isso eles merecem o apoio firme das autoridades universitárias e da sociedade, que eles estudam e à qual servem.
Leyla Perrone-Moisés é professora emérita da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.
[...] “A escravidão do canudo”: Universidades e sistema de cotas no Brasil [...]
GENTE ME AJUDE EM DUAS PERGUNTAASSS??
1) UMA PRATICA MUITO USADA EM CANUDOS, FOI A MULTIDAO.ESCREVA ONDE USAMOS ESSE SISTEMA.
2)DURANTE A REPUBLICA VELHA A GRANDE IMPRENSA CONTRIBUIU PARA A CRIAÇAO E DIVULGAÇOES DE INFORMAÇÕES ERRONEAS SOBE OS SERTANEJOS DE CANUDO E DO CONTESTADO.PODE-SE DIZER QUE HOJE EM DIA A GRANDE IMPRENSA É CONFIAVEL?EXPLIQUE.
QUEM ME AJUDAR MUITO OBRIGADO.