A lei Vampeta

fev 18, 2009 by     4 Comentários    Postado em: Artigos e Análises

vampeta6

Por Rodolfo Araújo

Jogadores de futebol são pródigos na arte de batizar anticomportamentos. Num comercial de cigarros da década de 1970, Gérson ganhou uma infame lei com seu nome. Quando jogou no Flamengo, em meio aos constantes atrasos de salários Vampeta saiu-se com essa pérola: “Eles fingem que me pagam e eu finjo que jogo”.

Mede-se a forma física pelo percentual de gordura, empenho e desenvoltura nos treinos específicos. Confere-se a efetividade pelo scout(passes certos, roubadas de bola etc.). Avalia-se a disciplina pelas punições em campo e cumprimento dos horários. Mas nada disso atesta se um jogador é bom ou não. Não se multiplica esses números pela quantidade de gols que ele faz – ou evita – para atribuir-lhe o valor do seu passe.

Relações frágeis, indefinidas e pouco claras tornam-se terreno fértil para a prática do “me engana que eu gosto”. A ausência de medidas objetivas de performance ou qualquer outro parâmetro de satisfação, acertados a priori e observadas com rigor igualmente combinado, abre caminho para uma perniciosa relação de perde-perde, escondida sob um manto de ganha-ganha.

Esta ilusão de que participamos de um jogo justo, segundo regras que combinamos antecipadamente, permeia vários aspectos da nossa vida – desde nossas relações pessoais/amorosas, passando pelo ambiente profissional e, num enfoque mais amplo, por nossas relações sociais.

Nessa última semana o peemedebista Jarbas Vasconcelos lembrou-nos mais uma vez o quão forte é a Lei Vampeta:

Ele finge que se irrita, nós fingimos que acreditamos.

Nós fingimos que estamos irritados, ele acredita.

Nós acreditamos que vai acontecer alguma coisa, eles fingem que vão fazer (parece que a lei é comutativa).

Eles não fazem nada, nós fingimos que nos irritamos.

Eles dizem que tudo vai mudar, nós fingimos que acreditamos.

Nós dizemos que vamos votar noutros candidatos, eles riem. (Essa não vale, porque a gente vota sempre nos mesmos, por mais que eles nos provem que estamos errados.)

Quem é que acompanha, de fato, as ações, atitudes e resultados dos seus eleitos? Quem sabe o que fez aquele que mereceu seu voto nas últimas eleições? Então por que votamos neles novamente? Aliás, por que votamos?

Me engana que eu gosto!

4 Comentários + Add Comentário

  • Rodolfo, sua última pergunta é fácil de responder:
    “Aliás, por que votamos?”

    Voto obrigatório é uma das vergonhas desse país.

  • Experimente alguém propor a verdadeira rejeição – como já fiz – que é não votar, para receber pedradas.

    O Bruno está certo, voto obrigatório é um absurdo, sem mais nem menos.

  • Lembram-se de alguns givernos aqui no nosso estado, os professores viviam repetindo o governo finge que me paga e nós fingimos que ensinamos! isso é antigo.

  • Pois é, Bruno e Andrei, eu pergunto o porquê de votarmos embora seja, particularmente, a favor do voto obrigatório – por mais estranho que isso soe – mas por outras razões. (O tema rendeu uma discussão interessante e bastante válida aqui: http://acertodecontas.blog.br/artigos/obrigado-por-me-obrigar/). É mais um “me engana que eu gosto”, embora eu me inclua aqui (contradição, né?)…
    Abraços, Rodolfo.

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MARCO BAHÉJornalista
É formado em Jornalismo e pós-graduado em História Contemporânea e História do Nordeste do Brasil. Foi repórter da Gazeta Mercantil para os estados de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. Também atuou como repórter do Jornal do Commercio, editor da Folha de Pernambuco e repórter especial do Diario de Pernambuco. É correspondente da revista Época no Nordeste desde 2003. Tamb´m atua com publicidade e marketing eleitoral desde 2004.
PIERRE LUCENADoutor em Finanças
É doutor em Finanças pela PUC-Rio e mestre em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco. É professor adjunto de Finanças da UFPE e foi secretário-adjunto de Educação de Pernambuco. É autor de vários trabalhos publicados no Brasil e no exterior sobre o mercado financeiro, e participa como revisor de várias revistas acadêmicas na área. É sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Finanças. Foi comentarista de Economia do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (TV Jornal e Rádio CBN). Atualmente é coordenador do curso de administração da UFPE, e Coordenador do Núcleo de Estudos em Finanças e Investimentos do Programa de Pós-graduação em Administração da UFPE (NEFI).