A verdade que vem impressa nos jornais

abr 30, 2008 by     3 Comentários    Postado em: Artigos e Análises

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por Isabel Lustosa
para a Folha de S.Paulo

A palavra impressa tem um peso tal que o critério para ver a tendência autoritária de um governo são as ações que toma contra os jornais

Na minha primeira mocidade, no Ceará dos anos 1970, fazia muito sucesso a polêmica coluna de Claudio Pereira, “Patrulheiros Toddy”. Em uma época de total irresponsabilidade, bem distante dos modernos tempos do politicamente correto, Pereira publicava os maiores absurdos sobre a vida de seus desafetos, mas, sobretudo, de seus afetos, que, por vezes, em decorrência do material publicado, se converteram em desafetos. Quando questionado sobre a veracidade das informações, Pereira sempre dizia: “Saiu no jornal? Se saiu no jornal, então é verdade”.

Brincadeira à parte, meu velho e moleque amigo se referia ao fascínio que a folha impressa exerce sobre as pessoas. Quem escreve de vez em quando para os jornais sabe avaliar que diferença faz mostrar a alguém um texto digitado em uma folha comum ou mostrá-lo já impresso na página de opinião de um grande jornal.

Diante do impresso, as críticas que o original receberia são, geralmente, feitas com muito maior cuidado.
A palavra impressa tem um peso tão considerável que o critério para avaliar a tendência autoritária de um governo são as medidas que toma para cercear a publicação e a circulação dos jornais. No Brasil colonial, a impressão de livros e periódicos era totalmente proibida. Os que se aventuravam nesse tipo de empreendimento pagavam caro: além da apreensão de seus prelos e tipos, pesada multa e imediato regresso a Lisboa para se entenderem com as autoridades.

Quando finalmente, depois da vinda da corte, em 1808, começou-se a imprimir no Brasil, a censura ainda vigorava com força total. A chegada do liberalismo, após a Revolução Constitucionalista do Porto, de 1820, produziu interessante debate entre os que, como José da Silva Lisboa, viam a liberdade de imprensa como danosa para a nação e terreno propício à calunia e os que, como Hipólito da Costa, advogavam sua total liberação. Silva Lisboa, então chefe da censura na Impressão Régia, defendia seus interesses e, bom amigo do trono e do altar, os da coroa.

Hipólito, que escrevia da Inglaterra, respirando as liberdades garantidas pelo sistema constitucional inglês, procurava demonstrar que os boatos que corriam de boca em boca eram mais daninhos que os impressos -estes podiam ser facilmente refutados, pois constituíam provas em processos por calúnia.

Períodico O Defensor da Liberdade _ 1827

Essa precoce discussão sobre a liberdade de imprensa que marcou o alvorecer do nosso jornalismo foi sucedida por uma fase de intensa disputa entre jornalistas de várias tendências em torno do modelo político que cada um considerava mais adequado para a jovem nação que surgia.

Nesse debate fundador, a imprensa foi ao mesmo tempo palco, ator e público-alvo.

Campo de embate de opinião, laboratório de idéias, mas também de uma nova ordem legal cujos contornos ainda não estavam bem definidos, a imprensa brasileira da Independência caracterizou-se, entre outras coisas, por uma guerra de insultos entre jornalistas.

O Carapuceiro _ do Padre Lopes Gama _ 1832

O direito ao anonimato que então vigia garantiu a impressão de textos fortes, alguns até mesmo rebarbativos, como os que se atribuem ao primeiro imperador. Porém, pelo estudo desses impressos, podemos entender hoje as motivações de seus autores, as paixões e os interesses que orientaram suas ações.

O aspecto interessante dessa guerra de impressos é a consciência que tinham seus redatores de que aqueles escritos se destinavam à posteridade.

De que eram protagonistas de um momento histórico importante e que era preciso garantir desde aquele instante a divulgação de seu papel no desenrolar dos acontecimentos.

Ao mesmo tempo, podemos constatar que, como meu amigo Claudio Pereira, eles sabiam que o fato de uma informação estar impressa no jornal contribuía muito para lhe dar credibilidade. Daí o cuidado que tinham em exaltar seus próprios feitos e diminuir os dos adversários, em atacá-los propagando sobre eles informações negativas -verdadeiras ou falsas.

Cabe ao historiador de hoje a tarefa de vasculhar e interpretar esses jornais resistindo ao fetiche da página impressa e cotejando as informações com as constantes em outras fontes.

Assim, recomenda-se ao leitor contemporâneo lembrar que não há texto neutro, que, na composição e no desenvolvimento de um texto jornalístico, na maneira de narrar e destacar um fato, estão também embutidas as paixões e os interesses do jornalista, do editor ou da empresa jornalística a que estão ligados. De modo que nem sempre o que sai no jornal é a expressão genuína da mais pura verdade.

__________________________________

* Isabel Lustosa é doutora em ciência política pelo Iuperj, é historiadora da Casa de Rui Barbosa no Rio e autora de “Insultos Impressos: A Guerra dos Jornalistas na Independência” (Cia. das Letras, 2000).

* Este texto foi originalmente publicado no dia 30/04/2008.

3 Comentários + Add Comentário

  • Excelente artigo de Isabel Lustosa!

    E será que hoje poderíamos dizer (diante da Imprensa que temos): saiu no jornal? Então, vou pensar melhor a respeito!

  • Um país de todos SUBMISSOS, sem direito à integridade da persona humana, sem pelo menos o direito de não ser desonesto.
    Definitivament: Não reconheço esse indivíduo como nada em meu País. Sua subserviente ação de assinar acordo de ensino religioso em escolas à revelia da Constituição, num ato crasso de fantoche sacralizado para impingir uma teo-ditadura subversiva em nossa Nação, dá a cada um de nós o inteiro direito de desrepresentá-lo em qualquer função no ESTADO BRASILEIRO. A conivente e acintosa afronta à Ciência e à Educação que vem sendo imposta pela religião em países em que é medíocre e dúbia a representatividade do pseudo-dirigente faz-nos levantar em honra à altruísta postura da civilidade na Democracia.

    No estado quase intraduzível em que estamos, quando permitem que algo se pronuncie com aparência de “benéfico” e dão regalias sem reprimendas graves, é porque está sob a espuma do estado contaminante e degenerador impingido pelos mandantes de nossa submissão.

    Razões Cabais Para Destroçar a Insana Tentativa de religiões de se Enfiar nas Escolas e Aterrorizar os Estudantes, como era nos conventos, Mosteiros calabouços, e colégios internos; tirando qualquer chance de nenhum de nós ter o direito à mentalidade livre em nossa espécie.
    ABAIXO ÀS GRADES – VIVA À LIBERDADE.
    As enumerações educacionais a seguir contrapõem a estupidez crassa da palhaçada das míseras e ralas frases que desavergonhadamente os mandantes da Sociedade impuseram como Teoria, chamando-as de Criacionismo; um dogma fantasioso, falacioso, exdrúxulo, e psicológico-degenerativo.
    1ª. Na Natureza/ESPAÇO não há acaso; há condições: propícias ou não, para ocorrência de eventos.
    2ª. O NADA não é simples (nem de compreensão imediatista para a curiosidade simplória); exemplo:
    a) no LHC, o vácuo considerado ótimo tem num só centímetro cúbico estimadamente 25 milhões de moléculas.
    b) mesmo o vácuo sem existência alguma possui ondas (um conjunto delas).
    c) o Vácuo absoluto, o NADA sem outra importância espacial alguma, é só teórico.
    d) A Natureza/ESPAÇO tende à ordem, pelas condições lógico-espaciais que a estabelecem; a desordem é um estágio de confrontos de posições em busca de satisfatoriedade funcional.
    e) No ESPAÇO, o conceito cronológico de início e fim é totalmente arbitrário, pois a sucessão de todos os eventos é ininterrupta.
    f) A ordenação das formas segue diretrizes, leis, e princípios; e a proposição concatenada de todos os fenômenos efetivados (que interpretamos como Natureza) por esses tem por efeito as formas, que deriva de interações simples e evolui para mais complexas.
    E Pronto.
    Daqui pode-se extrair toda a Lógica Espacial (ou melhor, daqui pode-se partir o avanço extraordinário do que já conseguimos como reflexão investigativa; um auge do Conhecimento Humano, no que concerne o saber de nós, e do ambiente, tanto em esfera microscópica quanto na Sideral).
    Os rudimentos bem desenvolvidos dessa enumeração estão devidamente apresentados como um estudo que foi nomeado em 1985 como O ESPAÇO e a Procedência do Movimento, resultados do pensador Haddammann Veron Sinn-Klyss, autor também do Projeto Passos da Natureza (vídeo Youtube).
    Este Projeto constituiu-se como um agradecimento a toda a constelação de seres humanos livres e autênticos que tanto me inspiraram, e mostraram-me a Vida e suas nuances e consonâncias e contextualidades controversas.
    Denúncia Civil e Notificação à Sociedade:
    O Pensador está instado a não publicar, não palestrar, não chegar perto de estudante algum (mesmo que a vida inteira, desde os 15 anos sempre ingressou inúmeras pessoas na busca da Ciência e no aproveitamento dos estudos, com projetos independentes e comprovadamente colhedores de excelentes resultados). Todavia, qualquer dúvida pode ser discutida ou respondida nas palestras censuradas (político-religiosamente), a saber: Qualidade & Alta Performance; Genética Cósmica (esta, o artigo diretor foi enviado à direção internacional do AIPT, para conseguir apoio ao Projeto Passos da Natureza).
    Ponderação:
    É imprescindível que o homem possa conceber, neste momento, que é a única espécie com potencial para destruir completamente a si mesma; pois tem noção de quase todas as estratégias predadoras e de aniquilamento de outras espécies.
    Há que se saber que podemos estar ou ter estado sob um própria prerrogativa da Natureza em contenção de domínios extravagantes e nocivos em demasia ao Eco-Sistema (pois a Natureza é maravilhosamente estruturada com dispositivos de compensação, chamados Feedbacks). Assim, cabe-nos comportar em nós a educação apurada sobre equilíbrio geo-espacial que nos faça aquiescer à prontidão de ações reparatórias individuais e sociais (como recolocação de conceitos e reestruturamento de instituições), determinando-nos com atitudes altruístas que reponham-nos como dignos da fina textura de solo de que dependemos.
    O fio da Vida é tênue, os cliques de desastres são somados consecutivamente como num desenho de bordadeira; o expert, o sábio, o estudioso, assim que vêem e passam a mão pelo bordado notam pontos, nódulos, que encaminharam o torto, o desarranjo, do bordado. Hoje temos pela Sociologia e demais outras magníficas ciências recursos essenciais para estabelecimento de contextos sociais satisfatórios e promissores. Mesmo que tradições ressequidas e estagnadas arrumem-se para perpetuar seu inevitável declínio, não podem impingir à toda a Humanidade um desastre sociológico na nossa continuação (subvertendo nosso direito e supra-anseio de preservação), por prenderem-se em vaidade, oportunismo, arrogância e preguiça, que defeituosamente vemos em grupos que se amontoam em comodismo parasitador da nossa espécie; levando-nos a pagar um preço impensável por insistirmos em não ver e não agir para conseguirmos ultrapassar desta definitiva vez essa fase crítica de estado de consciência em nossa Civilização.

    Quantos são os que podem, sabem, querem, e procuram ler artigos, livros, informações de blogs, etc? A quantos dessas pessoas temos acesso? E quantos são os restritos e reprimidos que diaria, semanal, e mensalmente, ficam expostos à uma enchurrada de doutrinamento odioso, separatista, falacioso, usurpador, imprimida sistematicamente no psicológico das pessoas. Pra onde se há que ir? Com quem falar? Quem já escapuliu e se reserva? Disso tudo só uma coisa sabemos: São os que refletem os que ainda podem se reavaliar, e são os que podem FAZER ALGUMA COISA.
    Em quem não irá doer ver que muito pouco vemos. Um garoto ou garota passeando com um avô ou avó? Muito pouco vemos namorados passeando livres nas ruas. Mas vemos muita gente à mercê dum estado prejudicado psicológico-físico e emocionalmente, levadas pela vaidade e vício, aprisionadas nos seus cachorrinhos(avós não dão ibope pessoal), que sujam e sujam e sujam. Os gramados das praças têm cerquinhas para as crianças, mas os cachorrinhos-bibelôs que nos incitaram a ter, estes pulam soltos, e sujam o que era pra ser aprazível, para amigos, rolar livre de crianças, namorados, e leitores de livros. Quanto já nos escravizaram de um modo tão bizonho que nem vemos o curto passar da vida em ações tão descabidas? Não nos enfiaram em preguiças? A preguiça não enfiou nossos avós em carteados repetitivos fúteis que os ajudou a consumir a sua saúde? Não os bitolaram com leituras repetitivas de livros esquisitos e enganadores? Não os massacraram com um serviço ingratamente mal remunerado? Não dispensaram suas experiências como dispensam nossa criatividade? Esse regime social que está aí só nos onera em perda de vida, e suas benfazejas reuniões rotineiras não nos enseja à vida. E ainda fitam fixo em nossas famílias, e falam à torto e à direito em famílias, mas o intuito é nos aprisionar (claro que estão rastreando tudo que escrevo e correm para forjar uma farsa que possam usar na mídia e nos conluios dos embustes dos dramáticos espetáculos criminosos aliciadores de gente). Há quanto tempo não vemos e não podemos fazer um pequinique? Há duas décadas vêm massacrando nossa Sociedade com doutrinamento religioso insano, e temos agora o que está aí. Em duas décadas arrebentaram, trucidaram, descacetaram duas preciosas gerações. E nós deixamos, porque não vimos, nos deixamos nos ludibriar. Quem mata garotos e garotas é quem corre e diz: “Vai lotá! Vai lotá!” E nos oferecem velas e cruzes, e cantilenas bizonhas. Depende de nós, não podemos mais esperar. No Desenvolto Transcorrer da Justiça … O Justo Procedimento … A Natureza não propiciou o desenvolvimento do ser humano para que ele viesse sucumbir à pulhas, que nada têm com os parâmetros que ela propõe; nunca a fibra da Natureza no ser humano iria se subjugar a usurpadores de princípios, leis e conceitos.

  • [...] historiadora da imprensa, Isabel Lustosa, publicado em 2008 na Folha de S.Paulo – e reproduzido aqui no blog. Na ocasião, Lustosa falava sobre o fetiche da palavra impressa em grande jornal como atestado de [...]

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MARCO BAHÉJornalista
É formado em Jornalismo e pós-graduado em História Contemporânea e História do Nordeste do Brasil. Foi repórter da Gazeta Mercantil para os estados de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. Também atuou como repórter do Jornal do Commercio, editor da Folha de Pernambuco e repórter especial do Diario de Pernambuco. É correspondente da revista Época no Nordeste desde 2003. Tamb´m atua com publicidade e marketing eleitoral desde 2004.
PIERRE LUCENADoutor em Finanças
É doutor em Finanças pela PUC-Rio e mestre em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco. É professor adjunto de Finanças da UFPE e foi secretário-adjunto de Educação de Pernambuco. É autor de vários trabalhos publicados no Brasil e no exterior sobre o mercado financeiro, e participa como revisor de várias revistas acadêmicas na área. É sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Finanças. Foi comentarista de Economia do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (TV Jornal e Rádio CBN). Atualmente é coordenador do curso de administração da UFPE, e Coordenador do Núcleo de Estudos em Finanças e Investimentos do Programa de Pós-graduação em Administração da UFPE (NEFI).