
Promoção matadora!
Por Rodolfo Araújo
para o Acerto de Contas
Causou mal-estar uma notícia recente sobre um crime ocorrido num hipermercado em Guarulhos, região da Grande São Paulo, no último dia 28. O motivo da estranheza, contudo, não foi o crime em si – já que esfaquear três pessoas num local público é algo perfeitamente corriqueiro por aqui (ou pelo menos é assim que a imprensa brasileira quer que você pense).
A comoção teve origem nas estranhas linhas pseudopublicitárias que entremeavam a contagem de corpos do crime:
“José Marcelo de Araújo, 27, percorreu quase todas as seções do Extra, no centro, ameaçando as pessoas. Empunhava uma faca de churrasco, que furtou no próprio local (Tramontina, modelo Ultracorte, pacote com quatro tamanhos: R$ 53,90).”
Em seguida outra menção a uma marca:
“Era dia de promoção –a Quarta Extra (até 30% de desconto em frutas e legumes). A loja estava cheia.”
O texto de Afonso Benites (veja aqui a íntegra) escrito para a Folha de São Paulo foi-me enviado por uma amiga, enfurecida com o fato de um jornal fazer um post pago num tema dessa natureza. Ora, isso não faz o menor sentido, pensei.
A primeira coisa que me ocorreu, confesso, foi que era publicidade automática onde, tal como ocorre no Google Ads, anúncios específicos são inseridos de acordo com palavras-chave presentes no texto. O robô viu a palavra “faca” e colocou um anúncio de faca. Nada mais natural, até porque ainda não existe uma ferramenta de inteligência artificial capaz de identificar o teor de um texto, se positivo ou negativo.
Lembrei disso porque uma vez vi um uma reportagem falando dos males do narguilê e, logo abaixo, vários anúncios de lojas que vendiam narguilês.
Googlei o nome do autor e cheguei no blog de Marcelo Träsel, jornalista e professor da PUCRS, onde o texto Dançando no limite do bom gosto abriu um pouco minha perspectiva. Para Träsel, a citação dos produtos no meio do texto acrescenta umelemento de banalidade à narrativa, mostrando como notícias desta natureza assumem um caráter trivial frente à população. Apesar de isso parecer uma viagem acadêmica à primeira vista, um olhar mais crítico haverá de elogiar a sutileza do autor. Ou você ainda não percebeu que o anúncio da faca te chocou muito mais do que o crime em si?
A banalização da violência nos meios de comunicação entorpece nossos sentidos e nos deixa indiferentes a esses massacres. Ninguém se espanta mais com esses acontecimentos, mas um anúncio* é inadmissível! Mais adiante, Träsel lembra de um jornalista amigo seu contando como a grande divulgação de crimes violentos nas décadas de 1980 e 1990 tornaram os criminosos muito mais cruéis, buscando uma sinistra fama proporcionada pelos próprios jornais, gerando um macabro feedback.
Não sei se aqui há uma confusão entre correlação e causalidade, mas quando eu era criança, no Rio de Janeiro, não era raro ver na primeira página de um jornal fotos de cabeças desacompanhadas de seus respectivos corpos. E vice-versa. De lá para cá os crimes tornaram-se muito mais cruéis e banais, mas talvez seja apenas coincidência.
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Parei de ler jornais faz algum tempo, simplesmente porque eles não me acrescentam nada. No ótimo A lógica do cisne negroTaleb diz que não lê mais jornais porque eles não lhe trazem nenhum benefício – mesmo sendo ele um investidor profissional – e, assim, sobre-lhe uma hora a mais por dia para ler livros. Passo muito bem sem jornais.
Qualquer notícia mais relevante você vai ficar sabendo pelo twitter ou alguém vai fazer o desfavor de te contar. Fora isso, nada do que saiu no jornal nos últimos anos mudou a minha vida. Normalmente dou uma olhadela na edição online para conferir alguma coisa sobre a qual já ouvi. E sempre fecho a página revoltado com as notícias de escândalos, corrupção e crimes banais. Sinceramente eu posso viver sem isso. Você não?
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O outro “anúncio” do texto diz que às quartas-feiras o hipermercado tem promoção de frutas e legumes. Ainda segundo Träsel, é um contraponto ao título do texto lembrando que, apesar de o estabelecimento estar cheio, o criminoso só foi contido depois de meia hora. Se hoje não dá para esperar que alguém te ajude a atravessar a rua, que dirá te proteger de um assassino – mesmo quando em grande vantagem numérica.
Infelizmente os exemplos de Imaginação Heróica disseminados por Philip Zimbardo são cada vez mais raros. O que mais se observa é a Paralisia Coletiva descrita por Latané e Darley. No caso mais emblemático descrito por estes autores, Kitty Genovese foi atacada, esfaqueada e violentada durante mais de meia hora, gritando desesperadamente por socorro, diante de 38 espectadores que assistiam a tudo de seus apartamentos. Genovese morreu sem que ninguém tivesse feito nada.
Graças à nossa imprensa – e ao público que a consome e alimenta – homicídios não passam de entretenimento. Tal como descreveu um entrevistado vizinho ao prédio dos Nardoni, empolgado com a movimentação na rua, “bem a tempo, porque o Big Brother estava acabando”. Estas são as notícias interessantes. Estes são os temas empolgantes que rodam o mundo por email e twitter. Não à toa são os chamarizes da maioria dos vírus (bem feito para quem é vítima de taishoaxes!). Enquanto isso, diversas Kitty Genoveses são mortas todos os dias. Mas anúncios são um absurdo!



Excelente texto de conscientização, Rodolfo. Olhei agora a notícia e me bastaram 3 segundos pra balançar a cabeça em negativo.
Notícias/reportagens compradas deveriam ser crime. São um desserviço ao bem comum. Aquela reportagem escrota do JC pró-desmatamento também não me deixa mentir. Ah a falta que faz um Conselho Federal de Jornalismo…
Falando em conscientização, eu posso reproduzir o texto no Arauto da Consciência, Rodolfo?
Robson, não foi uma notícia comprada. Essa foi a confusão que fizeram. Na verdade foi um recurso do jornalista para chamar a atenção sobre o fato de um anúncio ter mais destaque do que um homicídio.
Fique à vontade para reproduzir o texto, desde que citando a fonte original (http://rodolfo.typepad.com/no_posso_evitar/2010/06/a-viralizacao-da-violencia.html). E aproveite para dar uma olhada no texto que escrevi depois desse, ainda sobre o mesmo tema: http://paraentenderojornalismohoje.blogspot.com/2010/06/publicando-o-joio.html
Abraço, Rodolfo.
Valeu, Rodolfo, vou postar (e com a fonte, como sempre faço), mas preciso saber, já que você falou: a notícia da Folha ter aquelas escrotices foi proposital mesmo então, uma espécie de protesto?
Sim, notei que sua visão e a de Marcelo Trasel são em defesa do ato de Benitez, que teria sido (mas ainda não se tem certeza) um protesto enrustido em fuleiragem jornalística.
Ainda preciso evoluir bastante em termos de interpretação de texto
Mas fica o desejo que venham textos, de qualquer autor, sobre reportagens compradas.
Foi só eu que lembrei do Aqui PE? ¬¬
Impossível não lembrar daqueja abjeção.
Os outros três (principais) jornais daqui de Pernambuco são horríveis. Não ficam muito a frente do “Aqui PE”. Além da irrelevância e repetitividade editorial, as matérias são em geral: mal escritas, com graves erros gramaticais, pecam na citação das fontes – quando necessário ou útil – e são confusas, na medida em que muitas vezes, não tratam de forma precisa, assuntos importantes de áreas como direito, engenharia ou medicina.
Isso sem falar na forte manipulação político-econômica, comum a todos os veículos de comunicação, mas de forma escrachada aqui em Pernambuco.
É por essas e outras que acesso blogs como este, pois apesar de não concordar com todos as postagens, sempre há espaço pra contradizer e comentar. O que acaba, no mínimo, mostrando um outro lado ao que se expõe.
@Zambo Bezerra → Eu também lembrei.
caros,
o trecho: “Nada mais natural, até porque ainda não existe uma ferramenta de inteligência artificial capaz de identificar o teor de um texto, se positivo ou negativo.” está equivocado, é possível sim realizar classificação de texto via inteligência artificial ou, de forma mais simples, apenas por palavras-chave.
a inserção dessa promoção no meio do conteúdo é fruto de uma incompetência em dois níveis nesse caso. primeiro de quem desenvolve uma ferramenta que “insere anúncios” automaticamente sem verificar o teor exato do contexto, e segundo da insensibilidade de um veículo de grande porte se prestar a essse tipo de publicidade que é extremamente invasiva aos leitores.
a publicidade pode e DEVE ser conteúdo de alta qualidade e interessante, mas tudo no seu devido contexto.
Farley, não é do meu conhecimento que inteligência artificial consiga identificar o sentido correto dos textos. Identificar palavras-chave não significa ter o significado, pois não se sabe se estão falando mal ou bem – como no caso do narguilê.
Sim, apenas palavras-chave pode ser insuficiente, mas como disse é a forma mais “simples” de se fazer isso, em certo nível isso pode bastar.
Sobre os mecanismos de classificação de texto em IA, uma ferramenta se bem treinada (ou seja municiada de uma base de documentos toda marcada com as classes, por exemplo, nesse caso “crime” ou “morte” que era pertinente ao texto) consegue prever com boa precisão o teor de um novo texto dado como entrada. E aí permitir que se possa editar, moderar ou apenas auxiliar na inclusão de publicidade (nesse caso, a ferramenta deveria sinalizar como “indevido” ou coisa do tipo).
Que horror!
Não sei hoje mas, o jornal A Folha De Pernambuco seguia os mesmos “parâmetros de entretenimento jornalístico” logo que surgiu. Infelizmente, o mesmo, ganhou o mercado pernambucano em poucos anos com esse tipo de atração, que as segundas-feiras “chovia de novidades”.
Pior é ter a certeza que os demais jornais escritos e televisivos locais, não fogem muito desse conceito de diversão ordinária.
“Graças à nossa imprensa – e ao público que a consome e alimenta – homicídios não passam de entretenimento”
É uma das que ganham com a violência. Mas será a única ?
Será que é de graça que bandido é visto como um héroi vítima da desigualdade social em nosso país ?
Mudando de assunto. Vocês viram a nova do ético Guerra: contratação de fantasmas?
Segue o link da matéria da Folha.com:
http://www1.folha.uol.com.br/poder/755654-cotado-para-vice-de-serra-guerra-nomeia-fantasmas-no-senado.shtml
Aproveitando a mudança de assunto, vejam o que até FHC anda dizendo.
Bye bye Serra-2010!!!!!!
EX-PRESIDENTE
FHC diz ter dúvidas sobre vitória de Serra nas eleições
O ex-presidente da República, Fernando Henrique Cardoso (PSDB) confidenciou a interlocutores de sua confiança que possui sérias dúvidas da possibilidade do correligionário José Serra vencer a eleição presidencial. O assunto foi destacado hoje na coluna de Mônica Bergamo, no jornal Folha de São Paulo. “E olha que estou tentando ajudar”, disse FHC.
No mês passado, o ex-presidente convocou a cúpula do partido para uma reunião em São Paulo, visando alterar estratégias da campanha de Serra. O motivo maior para preocupações é justamente a demora na escolha da vice da chapa. Ao presidenciável foi cobrada uma maior atenção aos aliados. Do presidente do PSDB, Sérgio Guerra, foram solicitados mais diálogo e informações sobre a campanha. FHC atualmente viaja pelo exterior, e deve retornar ao Brasil no início de julho.
cara, parabéns. texto muito bom, com ótimos insights e rico em referências. virei seguidor, tô apostando nesse tipo de conteúdo.
IBOPE DE HOJE:
DILMA 40%
SERRA 35%
MARINA 9%
Teve programa do DEMO.
Teve programa do PPS.
Teve programa do PSDB.
O careca apareceu em dois bilhões de inserções na TV.
Ainda inventaram um tal “dossiê” que ninguém nunca viu.
Mas não adianta.
No cenário mais real, incluindo os nanicos, Serra afunda mais ainda: Dilma 38,2%, demotucanos 32,3%.
Ou seja,
Bye bye Serra 2010!
E é pesquisa do IBOPE, viram? I-B-O-P-E.
Pimba na chulipa!!
Na pesquisa espontânea do Ibope (I-B-O-P-E, entenderam?), a acachapante goleada em cima dos demotucanos já está tomando forma:
1) Dilma 22%
2) Lula 20%
3) Serra 16%
4) Marina 3%
Quanto é mesmo 22 + 20, hein?
Bye bye Serra 2010!!!!!!!
Mudando de assunto, o Tadeu Schmidt é um boçal.
Moderadores: se vocês permitirem essas mudanças de assunto isso vira uma bagunça…
“E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou.
E agora, José?”
A imprensa é ruim ou tenta adequar-se ao seu público?
É exatamente esse o ponto, Mário: a imprensa acompanha o mercado. Evolui para se adaptar
Daqui a pouco o PSDB vai processar também o IBOPE!!
KKK!!!
KKK!!!
Ô turminha engraçada da peste!!
KKK!!!
KKK!!!
“Presidente do PSDB questiona pesquisa e diz que partido foi surpreendido com resultado”
http://www1.folha.uol.com.br/poder/756013-presidente-do-psdb-questiona-pesquisa-e-diz-que-partido-foi-surpreendido-com-resultado.shtml
Um dado que foi muito pouco divulgado: Dilma passou Serra até no Sudeste. Cadê os fascistinhas que diziam “Serra ganha onde o povo não ganha tanto Bolsa Família”?????
E por falar em violência e morte na mídia, em especial, nos jornais, sugiro mais um artigo interessante:http://www.intercom.org.br/sis/regional/resumos/R21-0029-2.pdf
A quem interessar…..
O link não pegou: http://www.intercom.org.br/sis/regional/resumos/R21-0029-2.pdf
A tradicional empresa brasileira Tramontina, cuja história data desde 1911 é uma marca de indiscutível qualidade entre produtos de ferramentas, eletro, jardinagem, móveis, utilidades domésticas, material elétrico, …
Ou vc consumidor prefere pagar por uma marca sem tradição e confiança no mercado???
Pergunto:
Qual empresa quer ver sua marca associada a um sociopata, delinquente??? Nenhuma.
Por exemplo, o record internacional do Brasil em assassinatos com arma de fogo ainda não foi associado as empresas brasileiras de armas de fogo.