Ainda existe “coronelismo” no Brasil?

nov 9, 2007 by     15 Comentários    Postado em: Artigos e Análises

Ao pensar em uma resposta objetiva para a questão colocada, sentimo-nos seduzidos, já de saída, a responder que: “sim, ainda existe coronelismo no Brasil.”

Mas, será que essa resposta está correta?

Vamos tentar buscar esta resposta na historiografia brasileira sobre o tema.

Um texto pilar sobre o assunto é o livro do jurista mineiro Vitor Nunes Leal, intitulado “Coronelismo, Enxada e Voto – o município e o regime representativo no Brasil”. O livro é já um dos clássicos sobre o assunto, e foi publico na segunda metade de década de 1940.

Vitor Nunes é bastante claro em seu texto ao explicar a idéia de que o coronelismo como sistema político se restringe ao período da 1° República, ou República Oligárquica (1891-1930).  

Segundo Leal, o coronelismo emerge dentro de um período político-econômico específico, resultando da “(…) superposição de formas desenvolvidas do regime representativo a uma estrutura econômica e social inadequada.”

Ou seja: o Brasil de então não havia constituído bases sociais e econômicas satisfatórias para instaurar um regime republicano. Sabe-se que o modelo de República estabelecido (pelo menos 3 modelos podem ser identificados nos conflitos ideológicos da primeira década de República) foi o modelo americano.
É dentro dessas inadequações que surge a figura do “Coronel” enquanto elemento do poder local, que trocava seus “dotes” eleitorais (os votos de seu curral eleitoral) em troca de outros “favores” do governador do Estado.

É aqui que identificamos o coronelismo enquanto uma relação política de compromissos. Essa é a principal tese de Leal, que irá reverberar por muito tempo na historiografia e nas ciências sociais, com breves deslocamentos ao longo das dezenas de textos que foram escritos sobre o assunto após o trabalho pioneiro de Leal.

Ou seja, se nos valermos da conceitualização de Leal, podemos dizer que a resposta para questão colocada acima é “Não existe mais coronelismo no Brasil”.

Pode-se até dizer que existem coronéis ou mandonismo local, mas, não “coronelismo” (ao menos sob o crivo da argumentação de Leal).  

O coronelismo é datado historicamente. Restringi-se à Primeira República, surgindo dessa confluência entre um fato político (o federalismo implantado pela República) e uma conjuntura econômica específica.

É preciso ficar atento para alguns deslocamentos conceituais, muitas vezes confundido por quem se utiliza destes termos sem um conhecimento mais apurado.

Segundo o historiador José Murillo de Carvalho, devemos ter cuidado para não confundir coronelismo com clientelismo ou mandonismo local, pois há corrente muitas imprecisões e confusões conceituais que prejudicam um melhor entendimento sobre essa questão.

Mas, essa é outra história.  

15 Comentários + Add Comentário

  • Prezado André,

    Parabéns pelo texto. O raciocínio está perfeito. É sempre esclarecedor publicar textos desse tipo, pois as pessoas tendem a perpetuar conceitos que fizeram sentido em determinados campos e épocas, mas que não se aplicam mais a outras situações, ou pelo menos não podem ser aplicados sem maiores cuidados e observações.

    Penso que exercícios desse tipo devem ser feitos sempre em diversas situações. Aliás, uma razão teórica para a perpetuação de dogmatismos é justamente a eternalização de conceitos que não se sustentam mais historicamente – é o que ocorre quando uma teoria se torna ideologia.

  • [...] Segundo o jurista Victor Nunes Leal, escritor do célebre livro Coronelismo, Enxada e Voto, dois fatores são de suma importância para compreender o denominado sistema político coronelista, que emerge no Brasil após a Proclamação da República, “(…) a superposição de formas desenvolvidas do regime representativo a uma estrutura econômica e social inadequada.” (Clique aqui para ler texto sobre a tese de Leal, publicado neste blog) [...]

  • Peço licença aos organizadores do artigo acima para expressar minha opinião a respeito do tema tratado.

    Concordo com os autores que, baseados no clássico de Nunes Leal, restringem o coronelismo à Primeira República brasileira (1889-1930). Contudo, tendo eu tratado do assunto em uma dissertação de mestrado intitulada “Uma República de muitos coronéis e poucos eleitores: coronelismo e poder local em Mato Grosso (1889-1930)”, vejo que as análises acerca do fenômeno do coronelismo é totalmente reducionista.

    Respeito o texto de Victor Nunes Leal por se tratar de um trabalho pioneiro, e como todo trabalho pioneiro deveria ter sido tratado com cuidado e testado. Acontece que mais de 60 anos depois todos o tratam como um ponto de partida, sem desconfiar de suas bases analíticas.

    Primeiramente cabe a seguinte questão: O que faz do coronelismo um fenômeno específico à Priemeira República? Muitos autores (entre eles Leal, M.ª Isaura Pereia de Queiroz, Eul-Soo Panga, etc.) buscaram as respostas no processo eleitoral e nos mecanismos de controle dos resultados. Bom,esses mecanismos existem até os dias hodiernos, principalmente em regiões paupérrimas como os rincões nordestinos. Ademais, o controle do voto pode ser observado, no Brasil, sob diversas formas, desdo o Império. Então, o coronelismo existiria desde sempre.

    Este ponto de vista fez com que alguns autores como os sociólogos Vilaça e Albuquerque em “Coronel, Coronéis” chegassem a encontrar coronelismo no Nordeste da década de 1960!

    Bom, se o coronelismo é datado, temos que buscar sua essência exatamente naquilo que o diferencia do Império, do Estado Novo, da República de 1945, do regime inaugurado com o golpe civil-militar de 1964, etc. Ora, embora a inspiração à República de 1889 fosse os EUA, aqui não vimos o surgimento de mecanismos institucionais que barrassem as influências locais: os partidos, como na época do Império. O federalismo impregnou a política brasileira destes interesses locais. O Governo Federal, principalmente a partir de 1898, no governo de Campos Salles (1898-1902), teve que lidar com o país real e reconhecer a “distribuição natural do poder”, como asseverou Raymundo Faoro. Mas estas idéias podem ser encontradas no belíssimo texto de Renato Lessa, “A invenção Republicana: Campos Sales, as bases e a decadência da Primeira República brasileira (1889-1930)”.

    Qual foi, em nível local, o ponto central de minha análise?

    Bom, se houve compromisso, como afirmou Leal, entre o poder privado decadente e o poder público paulatinamente fortalecido, onde se deu? Na verdade, o poder privado nunca esteve decadente. Este ponto de vista se deu a partir da observação da crise econômica vivida pelos produtores de café que, ao perderem dinheiro, perdiam prestígio político. Não na República brasileira.

    Ora, deve-se ter em mente que o compromisso se deu em nível institucional, exatamente porque as eleições se davam nos municípios sob a organização dos governos estaduais, que também eram eleitos. Os poderes locais continuaram quase que intocáveis, principalmente devido à existência dos partidos republicanos estaduais (muitas vezes únicos em estados como São Paulo); ou com oposições frágeis, formadas por dissidências locais. Bom, como se deu tal controle?

    Eu verifiquei que tal controle se dava através da constituição das mesas eleitorais dominadas por oficiais da Guarda Nacional, principalmente por capitães (que era a maior patente dentro das companhias). Pertencer aos quadros da milícia eleiçoeira era obrigatório a políticos que desejassem uma ascenção na trajetória política pessoal. Era através da Guarda que as maiorias eram arrancadas. E onde entra o governo federal nisso tudo?

    A Guarda Nacional era subordinada ao Ministério da Justiça que nomeava seus quadros. Assim, quando um novo situacionismo (por quaisquer razões) assumia o controle político no respectivo estado, seguindo o princípio de reconhecimento de quem está mandando não importando como, toda uma nova oficialidade era nomeada e, o que é óbvio, eram sempre lideranças políticas municipais.

    Victor Nunes Leal estava corretíssimo em um ponto: a tutela do município fortaleceu estas práticas. Contudo, a tutela do município sempre existiu no Brasil. Quem há de dizer o contrário? Esse argumento é insuficiente. E é da tutela do município que trata o texto clássico do jurista mineiro. Entretanto, todas as pesquisas tomaram este ponto de vista como uma verdade absoluta.

    Se alguém tiver interesse, minha dissertação estará disponível no site do Programa de Pós-Graduação Mestrado em História da Universidade Federal de Mato Grosso. Dia 4 de novembro de 2008, nesta mesma instituição, irei qualificar. Espero que meu texto seja uma contribuição à dicussão acerca do tema.

    Lauro Virginio de Souza Portela

  • respeito a tese e concordo em parte, porém existe ainda práticas do coronelismo hoje em dia. para perceber isso é só observarmos a sociedade: as trocas de favores entre chefes de partido e a compra de votos.

  • eu não concordo com essa arfimação, pois ainda acho que existe formas de coronelismo no brasil.

  • vale lembrar alguns aspectos, que escapam da analise acima proposta. uma delas é que o livro publicado por Leal, em meados da decada de 40, e, portanto, escrito algum tempo antes, encontra-se imerso em um momenot de revisionismo por parte das ciencias sociais brasileira que buscava elemento de ruptura com as formas politicas anteriores a Vargas, assim, pela analise de Leal, o Coronelismo ocorreu na primeira republica e teve o seu fim com a era Vargas quando o Brasil se Moderniza e eliminam-se as condições necessarias apra que o fenomeno pudesse existir, como a industrialização, o crescimento das cidades e, principalemnte o voto secreto, eliminando as fraudes eleitorais tao frequentes no periodo anterior.
    Datar historicamente o fenomeno, a meu ver causa dois problemas: o primeiro tenta impor uma precisao historica que nao existe em todo o Brasil da primeira Republica. ou seja, os coroneis existiam e atuavam da mesma maneira ou com pequenas variantes desde o periodo imperial, é verdade que se agiganta na Republica, mas , as suas praticas não são inovadoras em se tratando da transição do Imperio para a republica. tanpouco, estas praticas sao abandonadas apos o periodo Varguista, vale lembrar que fraudes, clientelismo, mandonismo compras de votos (vide bolsa familia), e compras de chefes regionais com cargos e empregos publicos nao se extiguem na decada de 40.
    outro erro seria considerar o mandonismo como um fator externo ao coronelismo, ao contrario, ele esta no seu “DNA”, nao existe coronelismo sem Mandoes, clientelistas, trocas de favores, fraudes, mecadejar votos tanto horizontalmente, como verticalmente.
    novos estudos e novas abordagens das fotes denotam a necessidade de se rever leal, alias, Faoro e Quiroz ja fizeram na decada de 70, e, foi exatamente o que faltou a Carvalho, abandonar os gabinetes e as especulaçoes intelectuis na tentativa de fazer ressurgir um antigo conceito ao inves de buscar nas fontes, uma interpretação qeu atenada ao momento atual. se nao existem mais os coroneis da guarda nacional, ainda existem os coroneis sem patente, que utilizam o espaço publico como se fosse privado, mais interessados em se servir do estado e nao servir a ele.

  • Sou de acordo com sua tese:” não existe mais coronelismo no Brasil. ” O que existe são coronéis, pois, estes nunca iram se acabar, e também mandonismo local, que não necessáriamente é comandado por coronéis. Mas por outro lado, de outra forma, ainda existem rastros do coronelismo, levando a crêr que ele não morreu completamente.
    ”o coronelismo não está morto
    apenas dorme
    sonhando uma nova maneira
    de acordar.”

  • Sou de acordo com a tese:” não existe mais coronelismo no Brasil. ” O que existe são coronéis, pois, estes nunca iram se acabar, e também mandonismo local, que não necessáriamente é comandado por coronéis. Mas por outro lado, de outra forma, ainda existem rastros do coronelismo, levando a crêr que ele não morreu completamente.
    ”o coronelismo não está morto
    apenas dorme
    sonhando uma nova maneira
    de acordar.”

  • gostei do texto isso me ajudou no trabalho de história.
    VALEU!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!.

  • lixoooooooooo so isso q posso dizer

  • esse texto é bom eu nao li nenhuma linha mais ele é otima

  • ´Boa discussão. Pode não existir o Coronelismo, mas políticos com práticas identificadas com aquele sistema ainda tem muito. São políticos com edéias e posturas ultrapassadas, mas estão sempre tentando sobre viver, chegar no poder e ignorar a necessidade da construção da democracia.

  • ainda existe nas hoje é escondido .

  • O Coronelismo ainda existe sim no Brasil, apenas com nomes diferentes e formas mais modernas que estão presentes em todos os redutos políticos.Eles se concentram nas grandes capitais, e estão até nas menores cidades.Se não houver uma reforma VERDADEIRA no código penal esses Coronéis continuarão a existir e controlar a vida do povo brasileiro.

  • gosteii vcs me ajudaram muito a fazer meu trabalho de historia:)

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MARCO BAHÉJornalista
É formado em Jornalismo e pós-graduado em História Contemporânea e História do Nordeste do Brasil. Foi repórter da Gazeta Mercantil para os estados de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. Também atuou como repórter do Jornal do Commercio, editor da Folha de Pernambuco e repórter especial do Diario de Pernambuco. É correspondente da revista Época no Nordeste desde 2003. Tamb´m atua com publicidade e marketing eleitoral desde 2004.
PIERRE LUCENADoutor em Finanças
É doutor em Finanças pela PUC-Rio e mestre em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco. É professor adjunto de Finanças da UFPE e foi secretário-adjunto de Educação de Pernambuco. É autor de vários trabalhos publicados no Brasil e no exterior sobre o mercado financeiro, e participa como revisor de várias revistas acadêmicas na área. É sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Finanças. Foi comentarista de Economia do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (TV Jornal e Rádio CBN). Atualmente é coordenador do curso de administração da UFPE, e Coordenador do Núcleo de Estudos em Finanças e Investimentos do Programa de Pós-graduação em Administração da UFPE (NEFI).