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APC

Por Amanda Costa*
para o Acerto de Contas

Se nos últimos tempos você tem se encontrado em situações semelhantes a da imagem acima, seja bem-vindo à turma da APC – Atenção Parcial Contínua. A expressão foi criada por Lisa Stone, pesquisadora da Microsoft, em meados da década de 1990, quando a internet comercial e a telefonia celular começavam a se disseminar e a nos bombardear com informações.

A APC é a atitude de dividir a sua atenção por várias fontes de informação, simultaneamente, tentando não deixar escapar nada. Lisa diferencia a APC do comportamento multitarefa. Na multitarefa nós queremos poupar tempo fazendo várias coisas simultaneamente, é a busca pela otimização do tempo. Já na APC, o motor é o desejo de estar conectado, informado, ligado em tudo o tempo todo e sem deixar escapar coisa alguma, é ser um ponto vivo na rede.

A APC é um comportamento que pode ser desempenhado por quase todos os seres vivos desde tempos remotos, mas só se fazia presente em momentos de urgência, quando a atenção precisava estar no limite e o preço pela desatenção poderia ser a própria vida. Mas, desde a década de 1990, estamos operando desse modo cotidianamente. Nós simulamos um estado de crise que faz com que estejamos em alerta o tempo todo para darmos conta de tanta informação e tantas demandas que caracterizam o nosso tempo.

Embora a APC e a multitarefa sejam coisas diferentes, o mais comum, hoje, é vermos as duas atitudes atuando juntas. Unimos a busca pelo sentimento de estar conectado e a busca pela otimização do tempo. Mas, segundo Lisa, querer dar conta de tudo o tempo todo pode custar caro à nossa saúde, já que essas sobrecarga e superestimulação colocam em risco a nossa capacidade de refletir, tomar decisões e pensar de maneira criativa; afinal, é como se estivéssemos gerenciando uma crise full time!

A figura abaixo mostra quais atividades os americanos costumam fazer simultaneamente ao uso da internet.

grafico_final

Ainda não há um estudo semelhante sobre as atividades que os brasileiros realizam ao mesmo tempo em que estão conectados, mas levando em conta que passamos mais tempo conectados que os americanos (os dados de março deste ano mostram que ficamos online 26 horas por mês, 10% a mais que no ano passado), que 81% dos brasileiros apontam (segundo estudo da Deloitte) o computador como o meio de entretenimento mais importante em relação à televisão, que gastamos (também segundo a Deloitte) em média 82 horas semanais com algum tipo de entretenimento tecnológico (tipo games e celular), provavelmente o nosso gráfico seria semelhante ao mostrado acima.

Mas a questão é: nós queremos que nossa atenção deixe de operar em modo APC? Queremos ser mais focados? Recentemente, Silvio Meira (professor do CIN/UFPE e pesquisador chefe do Centro de Estudos em Sistemas Avançados do Recife – CESAR) deu uma entrevista ao programa de Marília Gabriela dizendo que opera em modo APC há milênios e garante que não está disposto a deixar de lado essa prática de prestar atenção a várias coisas ao mesmo tempo. Mas aconselha que, para evitarmos a superficialidade, saibamos escolher bem as coisas às quais estaremos prestando atenção parcial continuamente. Para Lisa, o tempo da APC parece estar ficando para trás e caminhamos para um modo de atenção dedicada. A pesquisadora acredita que as novas gerações já começam a aprender a gerenciar melhor seu tempo e, por tabela, sua atenção. E isso é feito, claro, com a ajuda da própria tecnologia que nos enfiou nesse vespeiro de informações.

Em pesquisa realizada com jovens entre 18 e 22 anos, Lisa descobriu como esses indivíduos estão usando as novas ferramentas para organizar suas relações e distribuir sua atenção de forma mais padronizada. Hoje, os jovens gerenciam seus contatos da seguinte forma: MySpace para se relacionar com amigos e conhecidos, mensagens de texto para se comunicar individualmente e com várias pessoas, e o telefone só para amigos mais próximos e familiares. Essa capacidade de gerenciar contatos oferece um espaço razoável para o indivíduo dedicar melhor a atenção às pessoas certas, nas horas certas, reduzindo a sobrecarga. Não soluciona todos os problemas que requerem nossa atenção simultaneamente, mas já é um bom passo.

Eu não concordaria que haja uma migração do modo de atenção parcial para o de atenção dedicada, como supõe Lisa Stone, mas para um modo de atenção parcial de melhor qualidade, como recomendaria o professor Silvio Meira. A propósito, em sua entrevista à Marília Gabriela, ele toca em um ponto importante, e que me é muito caro: o papel da escola frente a essa nova realidade. Mas isso já é assunto para um outro post.

*Amanda Costa é designer instrucional e graduanda em Pedagogia pela UFPE

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