Como meritocratas contrários a políticas inclusivas contribuem para perpetuar a discriminação

set 1, 2015 by     18 Comentários    Postado em: Artigos e Análises

Obs.: Este artigo não discute os erros da meritocracia capitalista. Não defendo sociedades/economias baseadas no puro mérito individual, mas precisará ser em outra ocasião que essa abordagem seja feita.

Por Robson Fernando
para o Acerto de Contas 

Tem-se tornado costume dar de cara com liberal-conservadores defendendo que a sociedade brasileira, do jeito que está hoje – permeada por preconceitos, discriminações e desigualdades – declare-se uma meritocracia pura e rejeite as políticas afirmativas, como cotas, cursos voltados a determinadas minorias e outras formas de “discriminação positiva”. Essas pessoas não percebem que estão nada mais do que defendendo a glorificação da cultura do preconceito e da exclusão contra múltiplas categorias de pessoas. Estão, com isso, sendo, ao mesmo tempo, racistas, machistas, heterossexistas, transfóbicos, elitistas, capacitistas, xenófobas etc. ao contribuir com a perpetuação de um quadro opressor contra múltiplas categorias.

Defender que o Brasil vire uma meritocracia sem intervenção equitativa de políticas de mitigação de desigualdades é necessariamente defender que pessoas de uma ou mais minorias políticas continuem tendo chances reduzidas de ascensão socioeconômica e profissional. Entre elas, estão mulheres, pessoas negras, pessoas trans, pessoas não heterossexuais, pessoas de diversas minorias religiosas e irreligiosas, migrantes pobres, imigrantes de países “em desenvolvimento”, pessoas com deficiências, pessoas que não nasceram nas classes altas e médias, entre outras minorias políticas alvos históricos de discriminação.

Embandeirar esse tipo de meritocracia, na qual muitas pessoas “competem” em enorme desvantagem e outras já nascem quase que “prontas para subir na vida”, é advogar, intencionalmente ou não, que continuem prevalecendo os homens cisgêneros brancos heterossexuais cristãos sem deficiência que nasceram nas classes socioeconômicas mais favorecidas das cidades maiores do Sul-Sudeste (ou migraram de paises como EUA, Alemanha e Inglaterra com plenas condições e oportunidades de trabalhar em empregos de alta remuneração).

É “querer” que indivíduos com essas especificidades continuem sendo dominantes praticamente de nascença, detentores praticamente exclusivos de posições de poder, e todos os demais continuem esbarrando em obstáculos que eles não têm que enfrentar. E é concordar, tácita ou explicitamente, que, por exemplo, uma mulher negra travesti que morava num bairro pobre de Caruaru e migra para São Paulo tenha uma pequeníssima fração das condições e oportunidades de se tornar uma diretora de finanças de uma multinacional com as quais conta um homem cis branco paulistano que mora abastadamente nos Jardins (região “nobre” de São Paulo capital) desde quando nasceu.

Quando alguém defende que, mesmo no Brasil muito desigual e injusto de hoje, não deveria existir Bolsa Família, nem cotas raciais, femininas, para pessoas trans, para pessoas com deficiência etc., nem programas de capacitação exclusivos para quem pertence a determinada(s) minoria(s), está defendendo que a população politicamente minoritária continue à margem da economia e relegada ou ao desemprego, ao subemprego, ou a empregos muito subalternos.

Não compreende que não são todas as pessoas dessas categorias que têm ou encontram condições de driblar numerosos obstáculos apenas com as próprias forças. Ignoram, inclusive, que é uma pequena minoria que consegue isso, como nos casos isolados em que mulheres negras de origem muito pobre assumem a presidência ou diretoria executiva de grandes empresas. Desconhecem que mesmo essa minoria que consideram vitoriosa lidará com racismo, machismo, transfobia, elitismo, xenofobia etc. explícitos ou velados dentro da empresa e/ou vindos dos próprios clientes e isso quase certamente a impedirá de ir muito longe.

Há aqueles meritocratas que argumentam que “basta ter força de vontade, espírito empreendedor, obstinação, desejo de vencer etc. para subir na vida”, contando relatos individuais de si mesmos ou de terceiros pertencentes a categorias historicamente discriminadas que superaram as dificuldades e “venceram na vida”. Não sabem que estão incidindo em falácias diversas quando argumentam assim.

Cometem evidência-anedota (quando relatos individuais sem base científica tentam provar algo que só pode ser comprovado por estudos complexos), argumento desconexo/non sequitur (ao concluir, dos casos dos poucos que “subiram na vida”, que a maioria das pessoas alvos de discriminação têm as mesmas condições que esses poucos, dando uma conclusão que não condiz com a premissa), inversão do acidente (por transformar exceções em regras), falácia de omissão (por omitir fatores individuais e excepcionais que permitiram a essas pessoas superar preconceitos e outros obstáculos, fatores com os quais muitos outros indivíduos não puderam contar), falácia egocêntrica (ao argumentar que “se eu posso, é lógico que todo mundo também pode”), entre outras.

Por mais que neguem, os defensores da meritocracia capitalista opositores das políticas afirmativas voltadas a minorias estão conservando as desigualdades estruturais e resultantes de discriminação. E negam o racismo, o machismo, o heterossexismo, a transfobia, a xenofobia, o capacitismo etc. em sua profundidade e estruturalidade – assim protegendo-os da problematização e do combate e tornando-os livres para continuar existindo. Com isso, estão sendo, mesmo que por um caminho diferente dos convencionais discursos de ódio, incidindo nos mesmos preconceitos que estão tentando relativizar ou mesmo negar, já que na prática estão promovendo a supremacia de homens cis brancos heterossexuais endinheirados e nativos de grandes cidades sul-sudestinas.

18 Comentários + Add Comentário

  • Esse artigo trata um tema complexo de forma muito simplista. O autor diz: “Defender que o Brasil vire uma meritocracia sem intervenção equitativa de políticas de mitigação de desigualdades é necessariamente defender que pessoas de uma ou mais minorias políticas continuem tendo chances reduzidas de ascensão socioeconômica e profissional.”

    Eu até concordo. Agora: quais deveriam ser essas políticas de mitigação de desigualdades? Na minha ótica, seriam escolas públicas decentes, nas quais os mais abastados pudessem confiar a educação dos seus filhos. Isso também permitiria que a parte de suas rendas destinada a escolas particulares pudesse ser usada em outras coisas, estimulando o emprego, que também ajudaria a sociedade. Seriam hospitais decentes, para que os desfechos entre pacientes do SUS e pacientes da rede particular fossem semelhantes, novamente permitindo que a parte da renda dos mais abastados destinados a planos de saúde fosse usada em outras coisas, novamente estimulando o emprego. Convenhamos, a carga tributária imposta nos ombros dos brasileiros (ricos e pobres!) mais do que daria para providenciar essas medidas equitativas. O que falta é gestão e boa vontade, e é por isso que cotas são vistas como uma panacéia, pois elas livram os governantes da responsabilidade de lidar com os problemas pela raiz. Eu acredito plenamente na meritocracia, e acho que a nossa Constituição, que prega que todos somos iguais perante a lei, exige tanto. Porém, a meritocracia só é válida quando todos têm oportunidades semelhantes, mas essas oportunidades não devem ser garantidas lá na frente em universidades e cargos públicos através de cotas; mas sim de forma muito mais fundamental em colégios e hospitais públicos de qualidade para todos, sejam ricos ou pobres, brancos ou negros, de esquerda ou de direita. Isso sim é inclusão social.

    • RV, lúcidos os seus comentários.

      O Robson abordou um assunto que deveria ser mais discutido, sem torcida e com propostas, pois é grave e uma grande, se não a maior parcela da população, carece de ajuda nas oportunidades para se habilitar nos méritos.

      A solução é a educação, todos sabemos disso.

      Mas, e a curto prazo, o que fazer? Os governos estão falidos e priorizam outras áreas, vide copa do mundo e olimpíada, além da corrupção desenfreada atrapalhar tudo.

      Ninguém escolhe nascer preto e pobre ou morar numa favela e ser criado sem os melhores valores éticos. A luta diária exige muito e apenas para comer ou sobreviver.

      Estudar e ter bom aproveitamento escolar deveria sempre ser a meta maior de todo jovem mas isso não ocorre, ao contrário, e isso é um câncer social que, em maior ou menor grau, contaminou toda a sociedade.

      Ter um smartphone para usar em atividades inócuas passou a ser uma meta bastante forte e ai pode variar a marca e o modelo mas o uso como passa-tempo (e perder vida) é dominante.

      Muitas vezes quem se dedica mais aos estudos é considerado um babaca, seja rico ou seja pobre e me preocupa o futuro do Brasil nos próximos 10 ou 20 anos que será gerido por essa geração.

      • Mas é justamente esse o problema. O governo—e isso não é limitado ao PT—é extremamente relutante em fazer reformas estruturais e se restringe a medidas paliativas de curto prazo, tais como o Mais Médicos (importação de médicos de técnica duvidosa ao invés de melhorar a infraestrutura e condições de trabalho em áreas rurais para atrair médicos brasileiros), o sistema de cotas, etc. Esse orçamento deficitário proposto pelo Planalto é outro exemplo gritante deste problema: ao invés de enxugar os custos da máquina pública, preferem oferecer um orçamento deficitário com o intuito de forçar com que o Congresso aumente a arrecadação com mais impostos, o que seria mais desastroso ainda para a economia. Novamente, uma “solução” de curto prazo sem resolver o problema.

        A princípio, não vejo mal num sistema de cotas, se aliado a reformas estruturais. Sem estas, não passa de ser pura demagogia.

        • Muito bom RV. Aqui, tudo é paleativo. Políticas de assistência, eu diria que é como um plano de sustentabilidade para os partidos políticos. Políticos canalhas em grande parte preferem que as pessoas dependam de sua generosidade. Eles preferem dar cotas e eu me pergunto e se as cotas acabassem hoje? A educação teria melhorado? E se o mais médicos acabasse hoje? A saúde teria melhorado pro futuro? E se minha casa minha vida acabasse hoje? As pessoas poderiam comprar seu próprio apartamento com seu próprio suor? E se a lei Rouanet acabasse hoje? Acabariam os artistas? E se o BNDES acabasse, as grande empresas parariam de investir? Isso tudo mostra quanta coisa errada/tronxa tem no nosso país e os políticos só fazem perpetuar os problemas para venderem remédios populares que dão votos.

    • Disse tudo, é exatamente minha opinião.

  • De novo Robson com seu habitual choramingo esquerdopata, essa eterna mania esquerdista de coitadismo e vitimismo que só serve para alimentar malandragem e vagabundagem (a velha ideia – que esquerdista adora – de dar o peixe e não ensinar a pescar, assim as pessoas ficam viciadas, dependentes e mal acostumadas).

    O PT criou no Brasil uma geração que acha que não precisa trabalhar, uma geração de jovens que acham que quem trabalha e se esforça tem que dar a quem não gosta de trabalhar.

    O PT alimenta a vagabundagem e chama isso de “política de distribuição de renda”. As pessoas ouvem esses discursos esquerdistas e começam a achar que dinheiro cai do céu.

    • Muito caricato e simplista os seu comentário… imagino que você esteja falando que tem toda uma geração que vai preferir ficar sem trabalhar, pois já tem garantido o dinheiro do bolsa família. Análise mais rasa que essa impossível!

      • Cara, claro que não é toda uma geração, mas existe uma parcela de pessoas pobres que não tem planejamento familiar e que vive em grande parte em função das bolsas. O fato é que essas pessoas em extrema pobreza estariam pior se não tivessem a bolsa nesse momento e que também provavelmente teriam menos filhos, já que quanto mais filhos, maior o benefício. O fato é que ninguém faz nada para mudar essa realidade, apenas para continuar/perpetuar. Devia existir um índice de sucesso do bolsa família. Devia ser medido por um percentual que avaliasse a parcela de pessoas que deixaram o bolsa família por não precisarem mais.

  • Sugiro uma coisa: que na página inicial do blog, logo abaixo daqueles quadrados com ilustrações para os textos, se coloque o nome do autor. Digo isso porque quem não lê os textos de um determinado autor (como é o caso agora) não precisa abri-los. Facilitaria a vida do leitor, que já iria direto em autores vistos por ele com credibilidade.

    • Otimo.
      Ex.: “O titulo do artigo e em seguida “por fulano de tal”"

  • EU quero um namorado

  • É impressionante como esquerdistas fingem não que não entendem qual a crítica às cotas, ou bolsas. O que se critica é a fato desse tipo de coisa, que deveria ser um meio, tornar-se um fim!!

    • Eles so precisam do primeiro passo, reconhecerem que estão doentes…

  • Já perceberam que no Brasil, quando auguem é contra um sugestão ou ideia, parte para desacreditar o autor?
    O correto seria argumentar contra a premissa, provavelmente por falta de embasamento preferem desmerecer o autor.
    Triste Brasil.

    • Quem o Robson ? O cara que adora chamar quem discorda dele de reaça ? Tá serto!

      • Exatamente, esse povo esquerdista adora colocar apelidos nos outros (reaça, coxinha, fascista, nazista etc) mas quando colocam neles, eles dão chilique.

        Esquerdista pode apelidar todo mundo, mas ninguém tem direito de apelidar esquerdista. Essa é a “democracia” da esquerda.

        A propósito, uma pessoa que passa o dia chamando os outros de coxinha, só pode ser um doente mental.

  • Apesar da incerteza de muitas pessoas sobre a realização de concursos públicos em terras pernambucanas, a promessa do governador Paulo Câmara se manteve e mais um processo seletivo será realizado neste ano. A Agência Estadual de Planejamento e Pesquisas de Pernambuco (Condepe Fidem) promoverá processo seletivo para a contratação de 24 profissionais de níveis médio e superior.

    Critérios BEM SUBJETIVOS E NÃO HAVERÁ PROVA!!! ISSO É UM ABSURDO!!!! O estado d está com problemas de caixa para a população, MAS PARA OS ARRUMADINHOS, PEIXADAS E APANIGUADOS, DINHEIRO NÃO FALTA!

  • Que artigo LIXO, com todo respeito !

    A imagem é ridícula logo de cara… quer dizer que uma pessoa negra, gay, etc etc não pode ser tão produtiva quanto uma pessoa branca e hetero? Ao ponto de precisar de uma ajuda do ‘papai’ governo?

    Qual país de primeiro mundo precisou desse mimimi todo para se desenvolver… na Europa existe todas essas caracterias de pessoas e não existem cotas para tal, e todos vivem ‘bem’ (ou muito melhor que em nossas terras tupiniquins).

    Meu Deus…

    Concordo que pessoas com pouco nivel financeiro (pobres/miseráveis) tenham certa atenção do governo para educação e saude publica.
    Mas dai exigir cotas simplesmente porque a pessoa é negra, ou trans, ou qualquer caracteristica que seja para ter benefícios é EXTREMAMENTE preconceituoso…

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MARCO BAHÉJornalista
É formado em Jornalismo e pós-graduado em História Contemporânea e História do Nordeste do Brasil. Foi repórter da Gazeta Mercantil para os estados de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. Também atuou como repórter do Jornal do Commercio, editor da Folha de Pernambuco e repórter especial do Diario de Pernambuco. É correspondente da revista Época no Nordeste desde 2003. Tamb´m atua com publicidade e marketing eleitoral desde 2004.
PIERRE LUCENADoutor em Finanças
É doutor em Finanças pela PUC-Rio e mestre em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco. É professor adjunto de Finanças da UFPE e foi secretário-adjunto de Educação de Pernambuco. É autor de vários trabalhos publicados no Brasil e no exterior sobre o mercado financeiro, e participa como revisor de várias revistas acadêmicas na área. É sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Finanças. Foi comentarista de Economia do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (TV Jornal e Rádio CBN). Atualmente é coordenador do curso de administração da UFPE, e Coordenador do Núcleo de Estudos em Finanças e Investimentos do Programa de Pós-graduação em Administração da UFPE (NEFI).