E eu com isso?

jun 9, 2009 by     7 Comentários    Postado em: Artigos e Análises

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Por Nicolly Liberato
para o Acerto de Contas

É publica e notória a crise financeira que se alastrou pelo mundo nos últimos meses, cujo estopim foi o estouro da bolha imobiliária nos Estados Unidos, em setembro do ano passado. Porém ela não se ateve aos domínios geográficos americanos e se transformou numa epidemia da falta de crédito em escala global.

Se a geografia não foi respeitada, pode-se dizer o mesmo quanto aos segmentos econômicos; as imobiliárias foram as primeiras a pedirem concordata e/ou sofrerem intervenção do governo americano para evitar a quebra, mas não seriam as únicas por muito tempo, logo vieram as montadoras de automóveis, os bancos e com eles toda a sorte de empresas sem distinção de atividade econômica ou porte.

Denominada por uns como “tsunami” e por outros como “marolinha”, o fato é que essa crise veio mudar drasticamente a ordem econômica mundial, que há alguns anos era de prosperidade e crescimento, tendo como expoente os paises emergentes, em especial, a China.

Os termos falência, concordata, intervenção governamental, demissão em massa, disparada do dólar, nunca foram tão usados nos meios de comunicação e por isso mesmo, são desconhecidos do grande publico, o que pode levar a um erro de percepção: induzir a maior parte da população a pensar que essa é uma crise elitizada, que não os atinge significativamente e ocasionar o inevitável questionamento: “E eu com isso?”

O efeito de maior relevância no dia a dia das pessoas é a escassez de crédito. Os financiamentos (do automóvel, casa própria e compras, em geral) estão com as taxas de juros maiores e com menos tempo para amortização, além de exigirem de seus contratantes uma comprovação de renda mais rígida, que a praticada até o início da crise.

As demissões atingem diretamente, claro, os demitidos, assim como suas famílias e o comércio onde eles, outrora, faziam suas compras. Por sua vez os comércios não vão comprar das fábricas que vão diminuir sua produção, precisar de menos funcionários e demitir mais. Ou seja, um ciclo vicioso.

No caso brasileiro, para reverter esse ciclo e amenizar os efeitos da crise, o Governo lançou mão de medidas e programas, sociais e econômicos.

No âmbito social, o ícone das medidas tomadas foi a extensão do número de parcelas do seguro desemprego dos trabalhadores demitidos por conta da crise, de cinco para sete, embora, não tenham sido definidos parâmetros confiáveis para identificar quais seriam esses trabalhadores; já no campo dos programas, Lula e sua equipe apostaram no Projeto Minha Casa, almejando com isso matar dois coelhos com uma só cajadada: criar empregos na construção civil (ramo que emprega maciçamente) e diminuir o déficit habitacional do pais.

Na economia, as medidas mais expressivas foram:

  • A redução da taxa SELIC (taxa básica de juros no Brasil) para estimulo ao setor empresarial, ficando em 10,25% ao ano, o menor nível da série histórica, em termos nominais, da taxa básica de juros no País; no ano, o juro básico já acumula uma redução de 3,5 pontos porcentuais.
  • O BC aumentou a oferta de dólares para não proporcionar uma mega valorização da moeda estrangeira frente ao Real.
  • O IPI de vários produtos foi reduzido ou mesmo extinto para beneficiar o comércio.
  • A mudança ocorrida na poupança, sobre a qual, a partir de 2010, incidirá o Imposto de renda para contas com saldo superior a R$ 50.000,00, visando com isso manter os grandes investidores aplicando seus recursos na bolsa de valores e nos títulos públicos.

Sem negar a face política e populista das ações adotadas, o modelo brasileiro de enfretamento da crise já aponta para resultados positivos. Enquanto a maioria esmagadora dos paises preveem retração no ano de 2009, o Brasil prevê um tímido crescimento de 1,0%, segundo o Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. Para 2010, a previsão é 3,5%. Quanto à população brasileira, segundo as pesquisas, essa já volta às compras, impulsionada principalmente pela redução do IPI dos bens de consumo duráveis (automóveis e eletrodomésticos), estimulando assim a roda viva da economia.

Nicolly Liberato

7 Comentários + Add Comentário

  • Bom, um amigo, economista, desse que fica pesquisando na internet blogs e notícias mundiais, onde, comunicou-me que a crise americana tá aí e há um silêncio sepulcral a respeito da monstruosa dívida dos americanos com as empresas de cartão de crédito – no patamar de 60 a 70 trilhões de dólares -, montante superior a poupança dos cidadãos americanos. Como você é professor apreciaria comentários sobre esse assunto. Esse sim um iceberg de proporções indefinidas.

    • Eu garanto que esta divida nao esta em 60 a 70 trilhões de dólares, como dito acima. Esse numero é maior que todo o rombo causado pelos investimentos em derivativos no mercado financeiro mundial. Sao estes investimentos que causaram este inferno. O seu numero é 5 a 6 vezes maior que o PIB americano e 7 vezes maior que a atual divida publica do mesmo pais. Portanto, acho que o numero e XX bilhoes, nao trilhoes. Se o buraco fosse do tamanho que voce diz, a divida seria impagavel, pois seria seguramente maior que o PIB mundial. Saudacoes!

  • É o capitalismo em sua fase suicida. A ganância do consumo é autofágica. Para manter os negócios em atividade, os banqueiros e megaempresários venderiam até suas almas ao tinhoso.

    Não queriam o consumo exagerado a qualquer preço ? Pois bem, a conta chegou e bem salgada ! Mas quem vai pagá-la são os governos com nossos impostos.

    No caso da Islândia, ninguém pagou, pois lá não o neoliberalismo acabou com o Estado. Ficaram à míngua.

    • corrigindo:
      (…)
      , pois lá o neoliberalismo…

  • Nessa crise, com a retração da demanda, todos os países afetados tomaram como primeira atitude reduzir a taxa de juros para estimular o consumo. Menos o Brasil. O conservadorismo foi tanto que a forma para reduzir os juros foi diminuindo o encaixe bancário liberando + dinheiro p/ os bancos e consequentemente, houve aumento na oferta de crédito no mercado, fazendo com que os juros caíssem pelo crescimento na oferta (atitude bem criativa). Mas o medo dos banqueiros estava em alta e nada mudou. Lula teve que reclamar p/ que alguma coisa acontecesse. Mas, com o mercado ganhado confiança de novo, as previsões ficam um pouco + otimistas. Aí tá um papel importante das estatais: regular o mercado. Acho que chega de privatização nesse país.

    • Laís,

      Bem observado. Não existe economia confiável sem um Estado sólido e equilibrado na retaguarda. A crise provou isso de todas as formas.

  • Não há nem o que discutir.

    A China veio para mostrar que é possível conciliar Estado e mercado.

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MARCO BAHÉJornalista
É formado em Jornalismo e pós-graduado em História Contemporânea e História do Nordeste do Brasil. Foi repórter da Gazeta Mercantil para os estados de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. Também atuou como repórter do Jornal do Commercio, editor da Folha de Pernambuco e repórter especial do Diario de Pernambuco. É correspondente da revista Época no Nordeste desde 2003. Tamb´m atua com publicidade e marketing eleitoral desde 2004.
PIERRE LUCENADoutor em Finanças
É doutor em Finanças pela PUC-Rio e mestre em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco. É professor adjunto de Finanças da UFPE e foi secretário-adjunto de Educação de Pernambuco. É autor de vários trabalhos publicados no Brasil e no exterior sobre o mercado financeiro, e participa como revisor de várias revistas acadêmicas na área. É sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Finanças. Foi comentarista de Economia do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (TV Jornal e Rádio CBN). Atualmente é coordenador do curso de administração da UFPE, e Coordenador do Núcleo de Estudos em Finanças e Investimentos do Programa de Pós-graduação em Administração da UFPE (NEFI).