Explicando o modelo de família patriarcal

set 3, 2008 by     46 Comentários    Postado em: Artigos e Análises

Imagem de: Jean-Baptist Debret. Viagem pitoresca e histórica ao Brasil.

O chamado modelo patriarcal de família tem referência com o modelo senhorial e os clãs parentais. Quando pensamos em modelo patriarcal, pensamos de imediato em um tipo de estrutura familiar extensa, ou seja, é um conceito de família que abriga em seu seio todos os agregados.

Na definição da família patriarcal, temos uma família numerosa, composta não só do núcleo conjugal e de seus filhos, mas incluindo um grande número de criados, parentes, aderentes, agregados e escravos, submetidos todos ao poder absoluto do chefe de clã, que era, ao mesmo tempo, marido, pai, patriarca. O termo patriarcalismo, designa a prática desse modelo como forma de vida própria ao patriarca, seus familiares e seus agregados.

Nele, o pater seria o chefe (ou, autoridade maior) do grupo familiar. Logo, não se restringe apenas ao núcleo familiar pai, mãe e filhos, mas faz referência a todos os que giram em torno do núcleo centralizador dos vários tipos de relação: o patriarca. Dessa forma, o patriarca constitui-se em um núcleo econômico e um núcleo de poder.

Como núcleo econômico, vemos que o patriarca tem um extenso número de agregados, criados, escravos, etc. que dependem dele como provedor. Percebe-se que, neste modelo de sociedade, as relações econômicas contornam a figura do chefe – do pater – este, muitas vezes, era um senhor de engenho.

Como núcleo de poder destaca-se o fato de todos os seus agregados estarem subordinados a sua autoridade; é o pater, quase que na totalidade das vezes, quem decide o destino de seus agregados (sem nos esquecer dos outros núcleos de poder que atuam em conjunto com o patriarca, e que muitas vezes também está subordinado a ele: aí incluímos autoridades religiosas, jurídicas e políticas).

O modelo patriarcal pressupõe, segundo a historiografia, algumas premissas como:

1) a visão de uma sociedade dividida entre senhores e escravos (dominantes e dominados). Este conceito analítico seria definido principalmente por correntes historiográficas de tendências marxistas.

2) A escravidão teria desvirtuado o comportamento familiar do modelo ibérico.

3) A família brasileira seria uma adaptação ao sistema colonial, ou seja, resultado de um processo singular de criação de um determinado tipo de estrutura social.

Essa visão, proposta sobretudo no terceiro ponto, naturalizou historicamente o modelo patriarcal. Nas discussões a respeito do tema, durante a década de vinte (quando estava em voga o processo de modernização das estruturas de produção e de comportamentos, sobretudo em Recife), cujo principal articulista foi Gilberto Freyre, no Diário de Pernambuco – jornal em que publicou diversos artigos ao longo dessa década -, a campanha regionalista e tradicionalista encamparia esta bandeira ao pressupor que a sedução ao moderno desenraizaria as tradições familiares do ser original do Nordeste.

O processo de colonização no Brasil deu-se sobre a égide de um tripé fundamental estruturador da sociedade brasileira. Seriam estas as bases: o latifúndio, a escravidão e uma economia agro-exportadora. A família senhorial era a resultante desse tripé, segundo a formulação freyreana. É como se este tripé fundador da sociedade colonial tivesse resultado, necessariamente, no modelo patriarcal de família. Provém desta visão o resultado de alguns trabalhos posteriores de intelectuais como Oliveira Viana e Alcântara Machado, que generalizaram o conceito freyreano, estendendo-o para todo o resto do território brasileiro através da fórmula família brasileira = família patriarcal.

A estrutura desse modelo foi elaborada teoricamente por Gilberto Freyre, e reproduzida dentro da historiografia subseqüente aos principais trabalhos de Freyre (Sobrados e Mocambos e Casa-Grande e Senzala). Autores como Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Jr. e Antônio Cândido são alguns dos exemplos dentro da historiografia brasileira que se utilizaram desse conceito elaborado por Freyre.

Atualmente, muitas críticas e releituras desse modelo são realizadas pelos historiadores. Alguns até buscam anular sua existência e viabilidade, afirmando que não seria condizente com a realidade brasileira (principalmente a realidade do Sul e Sudeste). É bom observar que Freyre analisou, com primazia, os modelos de família no nordeste, sobretudo em Pernambuco, e que parte significativa da historiografia brasileira buscou, de forma generalizante, reproduzir esse modelo para todo o país. Esse não era uma pretensão de Freyre, e, como eu disse, tem mais a ver com sua reprodução pouco cuidadosa do que com a obra do próprio Freyre.

Por sua vez, é também necessário dizer que este conceito, como qualquer outro conceito nas Ciências Humanas, não existe como um dado na natureza, ou seja, ele também foi construído ao longo do tempo, possuindo data e local de invenção. Um dos papéis do historiador, acredito, é o de quebrar com essas naturalizações dos conceitos, mostrar como foram criados e com quais propósitos, suas aplicabilidades e problemas, suas restrições e funções. Nesse sentido, é tão necessário fazer uma história dos conceitos e dos processos, que de grandes homens e heróis.

Segundo Ângela Mendes de Almeida, em seu texto Notas sobre a família no Brasil, “Freyre foi o inventor do conceito de família patriarcal, para descrever as relações familiares no Brasil, desde o período colonial até o final do século XIX, quando esta teria entrado em declínio, para ser substituída, paulatinamente, pela família nuclear burguesa.”

_________________________________________

Indicações de leitura:

• Ângela Mendes de Almeida – Notas sobre a família no Brasil. In: Pensando a família no Brasil (Seminário).

• Gilberto Freyre – Casa Grande & Senzala.

• Gilberto Freyre – Sobrados e Mocambos.

• Sérgio Buarque de Holanda – Raízes do Brasil.

Para uma leitura mais crítica:

• Durval Muniz de Albuquerque Júnior. Nordestino: uma invenção do falo – uma história do gênero masculino (Nordeste – 1920-1940).

• Durval Muniz de Albuquerque Júnior. A Invenção do Nordeste e outras Artes (leia uma resenha minha sobre a tese do Dr. Durval Muniz, postada neste blog, clicando aqui).

PS: as indicações poderiam ser bem mais extensas. Mas, achei por bem fazer uma seleção reduzida. Os leitores também pode se sentir a vontade para fazer suas indicações e colocações nos comentários abaixo.

46 Comentários + Add Comentário

  • André,

    É curioso notar um certo retorno do núcleo familiar ampliado. Mas, como núcleo econômico, não necessariamente núcleo de poder do patriarca.

    Hoje muitos dependem econômicamente de uma renda, geralmente de um aposentado. Esse provedor não consegue, todavia, extrair disso o correspondente poder social.

    Sugeriria Formação Econômica do Brasil, de Celso Furtado. Um grande livro.

  • sinta-se bem consigo mesmo

  • adoreiii =DDD

  • Muito bom =D²

    • ficou bom ate d+

    • pois é

  • Leegal =D³

  • Muito bem explicado … amei !!!!!

  • bom de mais
    explico tudo

  • Ótimo..
    Muito bem explicado…
    =]

  • OLá André, achei muito bom seu artigo, e até utilizei em sala de aula, para explicar sobre a familia patriarcal, Parabens !!!!

    • Olá, Andréia. Agradeço as palavras. Pode ficar à vontade para utilizar nossos textos.
      Um abraço!

  • oiiiiiiii………..
    muitoo bm esse texto sobree a familia patriarcal……
    ameii

  • oiiii

    • é horrivel nao entendi nada.

  • O texto é muito bom, embora não nos deixe pensar, por estar bem diluido…
    Uma boa materia.

  • muito bom, porem muito extensso. valeu

  • mto lixo esse site
    vai todo mundo toma no c…..
    _!_

    • se é lixo por que então você entra??

  • adorei é d+

  • ficou demais e10!!!!!!!!!!a d c m

  • Muito bom…

    • obrigada

      • ficou bom ate d+ valeu

  • Muito bom**

  • obs:adoreeeeeeeeeeeeei!*:*:d

  • ola e muito bom o testo

  • muito bom gostei muitooo. vou ter q apresenta-lo nessa quinta -feira!!! muito bom !!! bjs fik com DEUS

  • asasaasaa

  • ameeeeeeeeeiiiiiiii!!!
    esse conceito ta masssa!
    obrigadoooooooooooooooo pela dica’
    vlw’
    beijos’

  • está de parabéns, excelente artigo, muito bem explicado.
    o contexto patriarcal, exige uma reflexão, não pode apenas se pensar em uma centralização da unidade familiar no contexto social. Freire irá fazer justamente isso, em casa grande & senzala, abrir esse tipo de discussão. Você conseguiu passar com perfeição esse mapeamento.!!!!!! Simplesmente joia.

  • Muito bom, parabéns, vou usar em aula! Mas não se preocupe usarei seu nome.. ;)

  • Obrigada, seu texto ajudou demais em meu trabalho escolar! :*

  • oiiiiiii,e bom.

  • ne sara

  • 1 voceggifu

  • arrrrrrrrrrrrrrrrr

  • obrigada , seu texto ajudo demais em meu tramalho de escola

  • liga a sua televisão no car toom

  • adoooreiiiiiiii!!!!!!!!!!!!!!!!!!
    parabens amei este site….
    tirou todas as minhas duvidas e me ajudou com o enorme dever…
    obrigada!

  • eu tbm vou usar na sala d aula….bjooossss
    :D

  • kkkkkkkk vou botar tudo isso na minha pesquisa

  • obrigado

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MARCO BAHÉJornalista
É formado em Jornalismo e pós-graduado em História Contemporânea e História do Nordeste do Brasil. Foi repórter da Gazeta Mercantil para os estados de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. Também atuou como repórter do Jornal do Commercio, editor da Folha de Pernambuco e repórter especial do Diario de Pernambuco. É correspondente da revista Época no Nordeste desde 2003. Tamb´m atua com publicidade e marketing eleitoral desde 2004.
PIERRE LUCENADoutor em Finanças
É doutor em Finanças pela PUC-Rio e mestre em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco. É professor adjunto de Finanças da UFPE e foi secretário-adjunto de Educação de Pernambuco. É autor de vários trabalhos publicados no Brasil e no exterior sobre o mercado financeiro, e participa como revisor de várias revistas acadêmicas na área. É sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Finanças. Foi comentarista de Economia do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (TV Jornal e Rádio CBN). Atualmente é coordenador do curso de administração da UFPE, e Coordenador do Núcleo de Estudos em Finanças e Investimentos do Programa de Pós-graduação em Administração da UFPE (NEFI).