Fechem os cursos de Pedagogia, pelo amor de Comenius!

set 29, 2009 by     22 Comentários    Postado em: Artigos e Análises

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Por Amanda Costa
para o Acerto de Contas

Recentemente foi dada publicidade a uma avaliação do Ministério da Educação (MEC) sobre a qualidade dos cursos nos quais se formam os pedagogos (e outros profissionais) em nosso Brasil varonil, o Exame Nacional de Desempenho do Estudante (Enade). Embora cursos de diversas áreas tenham sido avaliados, o desastre principal ficou mesmo por conta da formação em Pedagogia, mas como ninguém se importa com os pedagogos, é claro que a notícia passou despercebida. Cá estou para redimir-me desta falta de atenção.

Eis que, no início de setembro, o MEC divulgou o resultado de uma avaliação que escancarou a situação dos cursos que formam parte dos educadores brasileiros: dos 763 cursos de Pedagogia existentes em nosso país, apenas 9 receberam a nota máxima. E pior: os 292 cursos que receberam o mais baixo conceito na avaliação do ministério são responsáveis pela formação de 71 mil pedagogos! Se entendermos que, hoje, temos 284 mil futuros pedagogos em formação, isso significa que, de cada 4 pedagogos, 1 é formado nesses cursos sem qualidade.

Em 2005, o Enade já denunciava a baixa qualidade dos cursos de Pedagogia. A área tinha 28,8% dos seus cursos com nota 1 e 2 (numa escala que vai até 5). Hoje, o percentual subiu para 30,1%. O mais triste é que, entre os piores cursos de Pedagogia, 59 são oferecidos por instituições públicas, incluindo 9 federais. Felizmente, o curso de Pedagogia da UFPE (onde estou me formando) recebeu um ótimo conceito, nota 4; já os da UPE receberam nota 1 (Petrolina), nota 2 (Garanhuns) e nota 2 (Nazaré da Mata). Até o curso da Unicap decepcionou: conceito 2.

Nos últimos anos, nosso curso (lá na federal) passou por uma reforma que lhe conferiu uma cara muito mais interessante. As disciplinas mais “ideologizadas” foram enxugadas (ou eliminadas) e a formação mais voltada para a prática docente foi revitalizada. Mas algumas inadequações ainda permanecem: a única disciplina que capacita o professor para o uso das novas tecnologias na prática educativa consta como disciplina eletiva. Em pleno século XXI, o pedagogo formado na UFPE só sai capacitado para fazer uso pedagógico das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC’s) se quiser pagar a cadeira e se tiver a sorte de que ela seja ofertada no semestre em que ele estiver disposto a cursá-la, pois a disciplina não é ofertada em todos os semestres. Mas uma notícia alvissareira é que a pós-graduação em educação tecnológica do Centro de Educação vai de vento em popa e, se os deuses permitirem, eu estarei lá em breve!

Quem quiser acessar os dados no Enade 2008, até para ver o ranking de outros cursos, clique.

Amanda Costa é designer educacional, graduanda em Pedagogia pela UFPE, aspirante a mestranda em Educação Tecnológica e autora do blog TICs na Educação.

22 Comentários + Add Comentário

  • E o pedagogo ganha muito mal, principalmente em órgãos públicos. A sociedade ainda não entende a função de um pedagogo, ainda mais agora com as novas tecnologias. Não sei se fechar é a solução, mas valeu Amanda pela informação!

    • Mar,

      Não acho que simplesmente “fechar” os cursos ruins seja solução, embora isso não tenha ficado explícito no texto. Mas que é preciso fechar, reformular e abrir novamente, isso precisa sim.

      Lá na Federal, nosso curso já era bom (apesar dos pesares), e depois de reformas sucessivas ficou melhor. Mas um curso com conceito 1 ou 2, tem que fechar pra balanço, ser reformulado e só depois abrir de novo. Não adianta fazer remendos no que é muito ruim.

      Obrigada pelo comentário! :)

  • O que esperar do futuro próximo, das gerações que nasceram ou nascerão nas décadas de 1990, 2000 e 2010, que foram ou estão ou estarão sendo educadas por professoræs que por sua vez se formaram ou se formarão nessas faculdades ruins?

    Se hoje grande parte da juventude das gerações nascidas nas décadas de 80 e 90 faz vergonha hoje por compor uma juventude alienada, consumista e de mau gosto cultural, que não nutre esperanças de construir um século 21 decente para o Brasil (não estou generalizando essa juventude, que fique claro), foi graças ao horroroso e decadente ensino que tivemos em escolas particulares e públicas.

    Essa pedagogia ruim não o é só porque provê uma transmissão tronxa, precária e mecanicista de conhecimento. Mas também porque não está transmitindo uma educação formadora de cidadã/o/s e sujeitos ecológicos — minha monografia de Gestão Ambiental é uma evidência disso — e, em vez de trazer valores transformadores e inovadores, insiste em conservar, utilizar para si e retransmitir os velhos valores violentos, nocivos e discriminatórios tratados hoje como normais.

    É um desastre e uma decepção saber que a educação brasileira está em más mãos, não só pelos governos que não se interessam em reformá-la, mas também por essæs professoræs malformad@s. Eu, que vejo na educação o único instrumento capaz de transformar uma sociedade e humanizar seus valores, terei que esperar um bocadinho para vê-la começar a reformar o Brasil. Pelo menos terei que esperar até eu próprio ter condições de intervir por conta própria na educação — não como sendo professor, mas à minha maneira.

    http://conscienciaefervescente.blogspot.com/2009/09/futuro-cagado.html

    • Mudando um pouco o foco. O que dizer dos professores das Universidades?

      Não raro vemos professores sem o minimo preparo para o ensino.

    • Robson,

      Menos.

      Todas as mazelas do mundo não são fruto apenas da educação, nem serão corrigidas apenas por ela. As mais finas flores das nossas elites financeira e cultural receberam educação à la Sorbonne e muitas dessas flores não são lá tão cheirosas quanto deveraim ser, a julgar pela educação que receberam. Olha o Daniel Dantas, Gilmar Mendes e outros tantos.

      Educação de qualidade é importante, mas não é tudo.

      • Bom, educação no sentido mais amplo da palavra (abstraindo do sistema de ensino) é tudo sim.

        • João,

          É. Mas aí já não é responsabilidade das escolas e universidades.

      • A educação é praticamente o único meio de se modificar os valores que empurram noss@s jovens à irresponsabilidade — com o social e com sua própria saúde. Não que uma educação reformada vá formar uma unanimidade de pessoas revolucionárias e retas, mas formará muito mais do que nossa educação atual forma.

        Como falei, o fato de que ela, em vez de mudar os valores nocivos de hoje, conserva-os e até utiliza-os pra si já a bota como uma das maiores responsáveis, se não a maior, pela degradação ética, cultural e sociopolítica no Brasil.

      • Querida Amanda,

        Primeiramente gostaria de parabenizá-la pela postagem.

        Mas me perdôe discordar um pouco de voce. A eduação é tudo SIM. Mas a educação que aparece como solução não é apenas a educação formal que recebemos na escola.

        Os principais responsáveis pela educação dos nossos futuros cidadãos são os pais. Que devem participais mais estreitamente da atuação dos seus filhinhos na escola. E ensiná-los desde cedo a respeitar o próximo e a natureza. Auxiliando os professores no que lhes couber.

        Se sairmos para dar um passeio em Recife logo vemos pessoas jogando lixo no chão. velhinhos correndo atrás de ônibus que queimam paradas, motoristas que não respeitam os pedestres, criminalidade, corrupção… Todos esses temas são fatos derivados de algum tipo de falta de educação

        • Participar*

        • João,

          “Os principais responsáveis pela educação dos nossos futuros cidadãos são os pais. Que devem participais mais estreitamente da atuação dos seus filhinhos na escola. E ensiná-los desde cedo a respeitar o próximo e a natureza. Auxiliando os professores no que lhes couber.”

          Mas é justamente o que estou dizendo: aí já não é responsabilidade das escolas e universidades. As instituições que promovem a educação escolar ou acadêmica têm responsabilidade quanto à formação científica, tecnológica e humanística. Mas não é razoável achar que os professores vão sair por aí interferindo (ou neutralizando) nas outras formas de educação às quais os indivíduos estão sujeitos. A gente aprende (e desaprende) o tempo todo, em todo lugar. A escola (e universidade) é apenas mais um espaço educacional, e lá acontece uma forma de educação muito específica.

          E mesmo as pessoas que estào lá na escola (e na universidade), educando, são os mesmos seres humanos falíveis que encontramos por aí pelo mundo, furando a fila do banco, dando propina ao guarda, jogando papel no chão… os professores não são criaturas encantadas que se materializam no momento da aula e depois retornam para suas lâmpadas maravilhosas. Somos “estropiados morais” tentando educar outros “estropiados”.

          Ces’t la vie! :)

  • o.O… Verdade Amanda… O que será dos nossos futuros alunos com esses pedagogos… Na verdade, o nível superior do nosso país esta muito inferior… Vide o exemplo dos advogados do nosso estado no ultimo exame da OAB…

    • Artur,

      Se houvesse uma OAB dos educadores, imagina a vergonha! Aliás, ouvi dizer que estão regulamentando a profissão do pedagogo, mas ainda vou pesquisar mais sobre isso para poder falar com propriedade.

      De toda forma, é importante que esses cursos ruins sejam reformulados urgentemente. Se cursos bons, como o da UFPE, não conseguem sanar todas as nossas deficiências, imagine os cursos ruins! Ainda mais os que são sustentados com dinheiro público! Desperdício! Reforma já!

      • verdade, parabens por mais um otimo post!!!

  • É preciso só uma singela correção acerca da observação sobre o exame de Ordem: a rigor, somente é considerado advogado quem é aprovado no exame da OAB. O bacherel em Direito está, em tese, habilitado a seguir diversas carreiras, desde que aprovado nos exames obrigatórios.

    • verdade, por isso disse nosso “advogados”…

  • Correção: onde se lê “bacherel”, leia-se “bacharel”.
    Obrigado.

  • Acredito que não só os cursos de pedagogia como a educação como um todo precisa de reforma, ou melhor de uma revolução. Em contrapartida, acho que a culpa não é dos professores recem formados ou em processo de formação, estes são apenas vítimas do sistema. O problema maior é a estrutura do sistema capitalista em que o Brasil está inserido…Gostaria de ressaltar que a educação não pode ser a salvação pra nada, já que agora deve-se falar em “deseducação” que é o que de fato ocorre nas escolas de periferia na era do neocolonialismo, em que os saberes estão a favor da manutenção das desigualdades…

  • Detalhe: a Faculdade Maurício de Nassau conseguiu na justiça(?) que o MEC não divulgasse o seu IGC. Assim os alunos (atuais e futuros) não ficam sabendo se estão em uma instituição de qualidade ou picareta!

  • Pessoal muito obg por vcs serem um passarinho apagando o fogo deste nosso país ” Brasil” , também busco uma formação assim “federal” , vcs foram de grande contribuiçao para minha formação como outros profissionais, pois estou a caminho da ufpe a fazer os cursos de pedagogia e matemática licenciatura agora em 2010, ótimo este bloge os coméntarios e nao poderia deixar de intervir neste, e em relaçao a educaçao citada acima a outro fator de extrema importancia a consciencia das pessoas em buscarem a formação correta e nao so de aproveitar as oportunidades e sim escolher, mas ainda estamos a desejar nem todos captam estes conhecimentos einformações e se querem contribuir para o crescimento do “Brasil”

  • Realmente decepcionante, pois mostra que o descaso com a educação no Brasil não se dá apenas as escolas públicas, a má formação está se enraizando e atingindo também o nível superior em grande parte das instituições do país.

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MARCO BAHÉJornalista
É formado em Jornalismo e pós-graduado em História Contemporânea e História do Nordeste do Brasil. Foi repórter da Gazeta Mercantil para os estados de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. Também atuou como repórter do Jornal do Commercio, editor da Folha de Pernambuco e repórter especial do Diario de Pernambuco. É correspondente da revista Época no Nordeste desde 2003. Tamb´m atua com publicidade e marketing eleitoral desde 2004.
PIERRE LUCENADoutor em Finanças
É doutor em Finanças pela PUC-Rio e mestre em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco. É professor adjunto de Finanças da UFPE e foi secretário-adjunto de Educação de Pernambuco. É autor de vários trabalhos publicados no Brasil e no exterior sobre o mercado financeiro, e participa como revisor de várias revistas acadêmicas na área. É sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Finanças. Foi comentarista de Economia do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (TV Jornal e Rádio CBN). Atualmente é coordenador do curso de administração da UFPE, e Coordenador do Núcleo de Estudos em Finanças e Investimentos do Programa de Pós-graduação em Administração da UFPE (NEFI).