FHC e o ornitorrinco

nov 25, 2009 by     6 Comentários    Postado em: Artigos e Análises

fhc

por Túlio Velho Barreto*
para o Acerto de Contas

Recentemente, o sociólogo e ex-presidente Fernando Henrique Cardoso escreveu o artigo “Para onde vamos?”. Nele, faz uma série de críticas ao presidente Lula e seu governo. Questiona, por exemplo, a ideia de que “o governo Lula deu continuidade ao que de bom foi feito pelo governo anterior e ainda por cima melhorou muita coisa”, o que justificaria “pequenos desvios de conduta ou pequenos arranhões na lei”. Condena a maneira como Lula escolheu Dilma Rousseff para ser a candidata petista em 2010 – no “dedaço” – reproduzindo a fórmula autoritária usada pelo PRI mexicano para eternizar-se no poder. Prevê que, no caso de vitória de Dilma, sobreviverá apenas o “lulismo”, espécie de “sub peronismo autoritário”. E conclui denunciando o uso político dos fundos de pensão de empresas públicas, que reconhece ser “a mola da economia moderna”, por sindicalistas e setores de grandes empresas, tudo com “uma ajudinha do BNDES”.

O artigo tem sido alvo de opiniões favoráveis de tucanos, democratas e lideranças de seus partidos satélites, que acham que FHC deu o tom da campanha presidencial de 2010, e de opiniões contrárias de petistas e aliados, e de membros do governo, é claro. Aqui, destacarei apenas as críticas direcionadas ao uso indevido dos fundos de pensão de empresas públicas pelos agentes citados. Mas, aí, é necessário ressaltar a ausência de ineditismo da tese. De fato, ainda em 2003, no ensaio “O ornitorrinco”, o sociólogo e economista Chico de Oliveira já falava no surgimento de uma “nova classe” formada “por técnicos e economistas doublés de banqueiros, núcleo duro do PSDB, e trabalhadores transformados em operadores de fundo de previdência, núcleo duro do PT. A identidade dos dois casos reside no controle do acesso aos fundos públicos, no conhecimento do ‘mapa da mina’”. E destacava igualmente o importante papel do Fundo de Amparo dos Trabalhadores (FAT), “o maior financiador de longo prazo no país”, junto ao BNDES.

Do ponto de vista sociológico, o único equivoco da original tese de Oliveira foi chamar de “nova classe” o grupo de operadores do mercado financeiro resultante da “simetria entre os dirigentes do PT e PSDB no arco político… formada no consenso sobre a nova função do Estado”. Tal deslize só se explica por sua imensa vontade de demarcar posição no debate à época – lembro que, na ocasião, Oliveira estava rompendo em definitivo com o PT. Mas o ensaio nos leva a pensar sobre o dilema que aprisiona, juntos, PT e PSDB – dilema, aliás, sem precedentes na história dos partidos socialdemocratas europeus. Com efeito, em terras tropicais, o PSDB reuniu a intelligentizia nacional seduzida pela Social Democracia européia, mas coube ao PT expressar politicamente a base social – oper ária e popular – que, no Velho Mundo, lhe deu origem. Portanto, uma moeda, duas faces.

Voltando ao artigo do ex-presidente, devemos lamentar, finalmente, o uso de expressão chula para apontar algo tão comum e condenável na política brasileira como a prática do “caciquismo” na escolha de sucessores. E, como já ressaltado, a ausência de qualquer referência à autoria da tese original. Em se tratando de um sociólogo, a única explicação plausível para isso talvez seja o desejo de proteger a outra face da moeda – formada, na maior parte, por correligionários do próprio FHC, enquanto a atual magnitude dos fundos de pensão resulta, em larga escala, dos processos de privatização de seu governo. O restante – inclusive as ideias de “lulismo” e “sub peronismo autoritário” – é peça mais do político do que do sociólogo, serve mais ao discurso oposicionista do que à vasta e polêmica obra acadêmica do autor. Pois, em alguma medida, FHC mesmo já desdize parte do que escreveu no artigo em entrevista posterior ao El País, da Espanha. Portanto, que o exemplo não seja seguido por jovens políticos – para quem o ex-presidente já escreveu um opúsculo de aconselhamento. Muito menos por jovens cientistas sociais.

* Túlio Velho Barreto é cientista político e pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco. Publicou, entre outros, os livros Na trilha do Golpe – 1964 Revistado e 1964 – O Golpe passado a limpo (Massangana) e A Nova República – Visões da redemocratização (Cepe).

6 Comentários + Add Comentário

  • E assim, dizendo e desdizendo, falando por um lado e andando por outro, FHC vai vivendo e caindo no esquecimento.

  • Quem é FHC?

    • é o pai do bruno b, não sabia não?

      • Ele andou mudando de nome. De FHC para TCH.

  • uma pergunta: LULA MOLUSCO PEGOU NA MÃO DA MINISTRA DILMA???

  • Thanks for magnificent information I was looking for this information for my mission.

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MARCO BAHÉJornalista
É formado em Jornalismo e pós-graduado em História Contemporânea e História do Nordeste do Brasil. Foi repórter da Gazeta Mercantil para os estados de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. Também atuou como repórter do Jornal do Commercio, editor da Folha de Pernambuco e repórter especial do Diario de Pernambuco. É correspondente da revista Época no Nordeste desde 2003. Tamb´m atua com publicidade e marketing eleitoral desde 2004.
PIERRE LUCENADoutor em Finanças
É doutor em Finanças pela PUC-Rio e mestre em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco. É professor adjunto de Finanças da UFPE e foi secretário-adjunto de Educação de Pernambuco. É autor de vários trabalhos publicados no Brasil e no exterior sobre o mercado financeiro, e participa como revisor de várias revistas acadêmicas na área. É sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Finanças. Foi comentarista de Economia do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (TV Jornal e Rádio CBN). Atualmente é coordenador do curso de administração da UFPE, e Coordenador do Núcleo de Estudos em Finanças e Investimentos do Programa de Pós-graduação em Administração da UFPE (NEFI).