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Desenho de Amanda Costa

Por José Carlos Cavalcanti

Durante esta semana estive mais uma vez envolvido com uma discussão interessante: a questão da classe média. E ela me ressurgiu de algumas direções. A primeira delas, e que comentei no meu blog, veio através do anúncio do novo blog do economista Paul Krugman.

Professor Paul Krugman, uma das mentes mais privilegiadas do ecossistema econômico global, está de blog novo no jornal New York Times, desde o dia 18 de setembro, e se intitula “A Consciência de um Liberal“(que é também o título do seu mais recente livro): ver http://krugman.blogs.nytimes.com/2007/09/18/introducing-this-blog/

E ele começa seu novo blog com um artigo que sintetiza o conjunto recente de suas preocupações: o crescimento da desigualdade nos Estados Unidos (o mesmo artigo foi publicado no dia seguinte em outro blog, onde expande mais um pouco o primeiro: http://economistsview.typepad.com/economistsview/2007/09/paul-krugman-in.html#more).

Para um cara nascido na “middle-class society” (sociedade de classe média) dos EUA, paulatinamente ele percebe que tanto ele quanto uma grande parcela da população americana não se vêem mais como uma “middle-class society”. 

Mesmo já tendo tratado sobre isto no meu próprio blog (ver http://jccavalcanti.wordpress.com/2007/06/27/desigualdade-social-nos-estados-unidos/, bem como o crescimento da desigualdade na China, em http://jccavalcanti.wordpress.com/2007/06/29/china-pobreza-caindo-desigualdade-subindo/, e a desigualdade na Alemanha, em http://jccavalcanti.wordpress.com/2007/06/30/aumento-na-desigualdade-social-na-alemanha/), é oportuno aqui reiterar estas preocupações, já que nós no Brasil estamos percebendo um movimento na direção oposta, de diminuição da desigualdade, e de crescimento de uma classe média que ainda precisa ser melhor compreendida, já que ela só está sendo percebida pela sua dimensão contábil (ver principalmente uma apresentação recente do atual Sr. Ministro da Fazenda: http://www.fazenda.gov.br/portugues/documentos/2007/p170907.pdf, onde ele fala de uma “nova classe média”), e não pelos seus valores (marcadamente quando se coloca a análise da classe média numa perspectiva mais abrangente, como é a internacional!).

À título de observação dos valores da classe média internacional, um interessante artigo foi divulgado pela revista inglesa The Prospect.  Ele se intitula “India´s middle class failure”, ou seja,  “O Fracasso da Classe Média da India” (http://www.prospect-magazine.co.uk/article_details.php?id=9776), que voltarei a tratar no meu blog!

A questão, como disse, ressurgiu-me porque já há algum tempo venho me perguntando: ainda é possível se falar de classe média nos dias de hoje? Melhor dizendo, é ainda possível se falar de classes sociais nos dias de hoje?

Eu vou tentar desenvolver aqui neste espaço uma argumentação que venho fazendo em palestras que tenho realizado, em discussões com colegas universitários, e em aulas com meus estudantes na UFPE. O argumento é o seguinte. Não dá mais para se falar em classes sociais nos dias de hoje somente olhando para a dimensão econômica, ou contábil como prefiro denominar, já que esta privilegia uma estratificação social a partir de níveis de renda, ou muito pior ainda, por faixas salariais!

E para dar conta deste argumento, eu vou me valer das contribuições de dois intelectuais de peso da Sociologia contemporânea francesa: Pierre Bourdieu e Bernard Lahire. Do primeiro eu vou me apoiar em sua obra mais extensa, o livro “Distinção: Uma Crítica Social do Julgamento do Gosto”, de 1979. E do segundo, vou me basear no seu livro intitulado “A Cultura dos Indivíduos”, de 2004.

Como para Pierre Bourdieu gosto é um “marcador de classe”, eu vou procurar apontar (como venho defendendo há algum tempo) que, ao contrário do ditado popular, de que “gosto não se discute”, gosto, muito ao contrário, discute-se, analisa-se cientificamente, e acima de tudo, deve ser mais e melhor tratado profissionalmente porque ele preenche uma função social de legitimar diferenças sociais.

Na próxima semana vamos voltar a esta questão!

José Carlos Cavalcanti é Professor de Economia da UFPE, ex-secretário executivo de Tecnologia, Inovação e Ensino Superior de Pernambuco (http://jccavalcanti.wordpress.com)

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12 comentários para 'Gosto não se discute?'


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