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por Miguel Sales
Promotor de Justiça
para o Acerto de Contas

Desde a década de 90, quando começou a se consolidar o Complexo Industrial e Portuário de Suape, Ipojuca passou a ser um dos dez municípios de Pernambuco de maior receita tributária. Daí em diante, em termos proporcionais, a sua receita passou a ser superior a de Recife e de Jaboatão. Isso porque ainda tem uma população pequena, apesar de seu território ser o maior dos municípios da Região Metropolitana.

A cada ano aumenta a receita de Ipojuca. Hoje, a 3ª de Pernambuco, porém com a perspectiva de ser em número absoluto a maior do Estado. Sem contar com as indústrias já existentes, anúncios não faltam de novos empreendimentos no entorno do porto de Suape, e outros serão atraídos em decorrência do estaleiro e da Refinaria, entre outros.

Só o seu potencial turístico, pontilhado de belíssimas praias em mais de 30 km de extensão, com uma rede hoteleira superior a de Recife, daria para a sua população ostentar uma boa condição de vida. Mas, infelizmente, as suas sucessivas administrações têm sido umas das piores de Pernambuco, em qualquer nível que se adote como parâmetro de desenvolvimento humano.

No tocante aos serviços públicos, a cidade de Ipojuca não tem sequer um posto da Celpe para atender a sua população, a qual se desloca para a vizinha cidade do Cabo, da mesma forma que não tem uma agência do INSS, pelo fato de a Prefeitura não providenciar uma estrutura mínima para funcionamento de tais serviços.

Em verdade, as obras, os serviços e os empreendimentos existentes em Ipojuca são quase que decorrentes da iniciativa privada e dos governos estadual e federal, cujas verbas não raro são desviadas ou vendidas para o povo como se fosse do governo municipal.

Chama atenção o desemprego reinante que há em Ipojuca, o qual se contrapõe à sua pujança econômica. No caso, para que aqui houvesse pleno emprego, bastaria ter os seus prefeitos investidos no ensino de qualidade, como ocorreu, por exemplo, em Quixaba, apesar de dispor apenas do FPM e ser um município encravado na aridez do Sertão. Em Ipojuca dinheiro para o ensino nunca faltou. Pois há muito que os 25% de sua receita que deveria, por lei, ser aplicada em Educação, é superior ao total da receita de Petrolina, o município mais desenvolvido do interior de Pernambuco.

É uma situação incompreensível. Os políticos locais, até hoje, preferiram o atraso, berço onde é mais fácil se galgar o poder pelo voto viciado. Isso, entre outras coisas, explica, para citar um outro exemplo, porque temos a maior renda per capita do Estado e um IDH aproximado ao de Araçoiaba, um município recente e apenas margeado pela palha da cana.

Em conseqüência desse reiterado descaso administrativo, que evidencia ser realmente Ipojuca uma ilha de riqueza cercada de pobreza por todos os lados, tramita na Assembleia Legislativa de Pernambuco um projeto de emenda à sua Constituição, de autoria da deputada Elina Carneiro, do PSB, transformando Suape em um Distrito Estadual.

Na prática, Suape passaria a ter uma administração semelhante à de Fernando de Noronha e com a receita repartida para outros municípios do Estado, que direta ou indiretamente, sejam beneficiados com os reflexos econômicos decorrentes dos empreendimentos lá existentes, mesmo que situados no município de Ipojuca.

Sem discutir o mérito da constitucionalidade ou não de tal projeto, entre as suas justificativas, fundamenta a ilustre deputada que: “Hoje o município de Ipojuca com setenta e cinco mil habitantes, tem a 37º (trigésima sétima) maior renda per capita do Brasil e a maior de Pernambuco, enquanto a renda familiar é inferior a um salário mínimo.”

Além de destacar que: “Outro dado alarmante é o índice de desenvolvimento humano (IDH-M), igual ao da Mongólia, que é de 0,658, inversamente proporcional a sua renda per capita.” Ora, a renda per capita de Recife é quase dez vezes inferior à de Ipojuca.

Estando o porto de Suape e os seus grandes empreendimentos situados no território de Ipojuca, se aparenta inconstitucional, por contrapor-se autonomia política e administrativa do município, sobretudo depois da Constituição de 1988, pela qual este também passou a ser integrante do regime federativo brasileiro, como os Estados e à União.

Porém – que a verdade seja dita – a questionada emenda tem o mérito de mostrar como o descaso e a corrupção administrativa, podem levar um município, mesmo que cheio de dinheiro, a tão humilhante condição de miserabilidade de sua população.

Ao persistir tal situação, melhor, desde que ultrapassadas as questões legais, que o grande volume de receita que entra nos cofres de Ipojuca sirva para melhorar as condições de vida dos moradores de outros municípios vizinhos, já que tais recursos não são destinados para elevar o índice de desenvolvimento humano dos ipojucanos.

É indigno e intolerável que o grosso do dinheiro público seja locupletado por certos gestores e para beneficiar os seus apadrinhados e se aplicar na compra de votos, elegendo ou reelegendo cada vez mais os chamados candidatos fichas-sujas, nas barbas de uma Justiça que não diz nada.

Em contraposição e em total desigualdade, quando se trata do cidadão comum, pelo simples fato dele ter um débito qualquer no SPC ou Serasa, sofre sérias restrições, entre estas, a de realizar um concurso público para ganhar o pão com o suor do rosto. Sem esperança, muitos passam a trilhar o caminho que conduz à exclusão social.

O gritante nisso tudo é que pelos desmandos ou incapacidades dos governantes, quem são castigados são o município e o seu povo, quando eticamente deveriam ser aqueles, por ser eles apenas meros e eventuais representantes dos direitos e bens permanentes desses últimos.

13 comentários para 'Ipojuca pode ser mais ainda vítima do descaso'


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