Por José Carlos Cavalcanti

Tenho sido há vários anos um defensor de uma maior ênfase, tanto na Economia como nas políticas públicas, nos estudos e aplicações sobre o Setor de Serviços. Quando estive à frente da FACEPE- Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia de Pernambuco solicitei a alguns economistas daqui do Recife um estudo detalhado do Terciário Moderno de Pernambuco. O trabalho, pioneiro, ainda hoje serve de balizamento para o que entendemos, em termos quantitativos e qualitativos, hoje sobre este segmento no Estado.

As razões para dirigir mais atenção a este setor são evidentes (como já tratamos aqui neste blog no dia 13/05/2008). O setor industrial do país não mais agrega valor à economia como agregava anteriormente, nem emprega mais pessoas como empregava no passado. Em termos de importância econômica, o setor que mais contribui para o PIB brasileiro, e o que mais emprega, é o setor de Serviços.

Segundo documento do Banco Central (Geração de Postos de Trabalho por Atividade Econômica, de 31 de julho de 2007), a publicação da nova série das Contas Nacionais por parte do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) evidenciou mudanças significativas na estrutura produtiva brasileira. Os dados atuais estimam um valor do PIB cerca de 10% superior ao anterior, com alterações relevantes na participação dos setores e dos componentes da demanda. O setor de serviços aparece com importância mais expressiva, o mesmo acontecendo com a estimativa de consumo das famílias. Essa nova estrutura da economia traz implicações sobre as inter-relações das variáveis macroeconômicas, em especial sobre a alocação da mão-de-obra. Na atual estrutura, a geração de novos postos de trabalho depende fundamentalmente do setor de serviços, que se mostrou muito mais produtivo (relação valor adicionado por trabalhador) e dinâmico com a nova série.

As principais mudanças relativas à participação dos setores no valor adicionado da economia podem ser observadas no gráfico abaixo, para o ano de 2004. Houve aumento da participação dos serviços em detrimento dos setores industrial e agropecuário. Essa nova estrutura mostra que o setor de serviços passou a ter participação de 63% no valor adicionado (10 p.p. acima da estimativa na série anterior), sendo seu comportamento, portanto, decisivo para o desempenho da economia nos próximos anos.

grafico

O setor de serviços não apenas é o maior da economia, mas inclui também atividades que são geralmente intensivas no fator trabalho. Ainda com base nos dados das contas nacionais, o setor de serviços e a atividade de comércio, entre 1997 e 2004, registraram crescimento da ocupação em ritmo superior ao setor industrial em todos os anos, com exceção de 2004. No caso do crescimento do valor adicionado, o setor industrial superou o crescimento dos serviços em quatro oportunidades (1997, 2000, 2003 e 2004). Observa-se que o setor de serviços e o comércio foram capazes de gerar novos postos de trabalho em todos os anos, ao contrário da indústria, que registrou dois anos de queda na ocupação.

imagem2

Mas eis que surge um alento no âmbito do ambiente universitário que me dá ânimo em acreditar que o setor de serviços começa a ganhar mais atenção (além, é obvio de iniciativas pontuais, como a da Prof. Anita Kon, que escreveu o livro “Economia de Serviços: Teoria e Evolução no Brasil”, 2004, Editora Campus).

Infelizmente este alento ainda não vem do Brasil, mas sim de Portugal. Pois bem! A Universidade do Porto acaba de lançar um Mestrado de Engenharia de Serviços e Gestão (ver aqui). A Universidade reconhece que hoje em dia o setor de serviços representa mais de 70% da produção e do emprego nas economias desenvolvidas do mundo, e sua relevância está crescendo em todos os lugares. A provisão de serviços envolve pessoas, processos e tecnologias. E como tal, desenvolver e gerenciar serviços requer competências multi-disciplinares em diversas áreas, tais como tecnologia e ciências sociais. Logo, o Mestrado em Engenharia de Serviços e Gestão-MESG objetiva desenvolver competências para conceber, projetar e operar sistemas de serviços baseados em tecnologia.

Eis aí uma grande iniciativa dos nossos irmãos portugueses que temos que aplaudir!

José Carlos Cavalcanti é Professor de Economia da UFPE, ex-secretário executivo de Tecnologia, Inovação e Ensino Superior de Pernambuco (http://jccavalcanti.wordpress.com)

Artigos Relacionados

2 comentários para 'Mestrado em Engenharia de Serviços e Gestão (em Portugal)'


Escreva um comentário