O amor de Sócrates.
por Pedro Henrique Dias Inácio*
para o Acerto de Contas
Saindo do carnaval, alguns ainda saudosos e ressacados do maior evento festivo da capital pernambucana, e por que não, “do país do carnaval”, e outros indiferentes aos calendários e festividades cristãs – os “do contra” – falemos de algo que deve ser muito apropriado a esta ocasião e tocar a todos, homens e mulheres que aqui prestam leitura: o amor.
Retomando algumas leituras “clássicas”, fundamentalmente, Aristóteles e Platão, percebo cada vez mais quantas reflexões contidas nestes trabalhos estão imersas em nossas questões. Lendo “O homem de gênio e a melancolia”, de Aristóteles, me deparei com um importante conceito que aí podemos trabalhar, a angústia. Devemos tratar disso em momentos outros, já que se trata de uma peça chave no estudo da psicanálise.
Por hoje, retomaremos nosso programa genealógico num primeiro momento grego. São muitas as possibilidades de conectar razões de tempos tão distantes a problemas que nos deparamos no presente, e assim, quem sabe, ajudar nossos leitores a adentrarem um pouco em alguns pontos de análise aqui tratados. Talvez seja essa uma metade de nossa missão aqui.
Havíamos feito uma menção nietzscheana de que a filosofia acabara na Grécia, e que Sócrates fora o último filósofo. As razões para esta reflexão são bem dadas, e brotam essencialmente do “problema socrático”: como posso saber o que não sei? Em um outro momento, trarei o texto “Apologia de Sócrates”, que se trata de seu julgamento e defesa, este era bem o objetivo desta semana, mas acabou sendo suplantado pelo amor.
Gostaria também de fazer algumas reflexões sobre o papel de Sócrates na filosofia platônica, e da fragmentação da filosofia grega entre a imanência aristotélica, e a transcendência de Platão, que, de certa forma, ainda se sucede, apontando o quanto isso permeia a compreensão do homem sobre si, mas deixemos isso para um próximo momento. Sei que por hora, já me comprometo com ao menos duas continuações genealógicas com os gregos, mas vamos adiante.
O amor surge na psicanálise em diferentes tonalidades. Falamos no artigo anterior da tendência a postar Freud enquanto alguém que reduz tudo a sexo. Aí também está imerso uma boa dose de amor, ou assim deveria. A causa das neurastenias seriam então, decorrentes de traumas do amor. Mas não para por aí. Um dos quatro conceitos fundamentais da psicanálise freudiana intitula-se “transferência”, e isso, é também amor.
Os textos psicanalíticos que tomamos por base neste trabalho, surge de duas aulas de Lacan, proferidas no Seminário 8, “A transferência”, e de seu texto base, “O Banquete”, de Platão.
Já expomos em alguma medida, o quanto o problema da análise do Eu, resulta de sua relação com o outro. O amor seria então, essa tênue linha, que de alguma maneira, liga dois elementos. Não poderíamos dizer, entretanto, que ela se apresenta da mesma maneira aos dois pólos.
Em meio ao joguete que enreda “O Banquete”, no qual, à mesa, os personagens prestam-se a discursar sobre o amor, tecendo-lhes extremos elogios e louvores, Sócrates levanta a questão: “o que deseja, deseja aquilo de que é carente” “o amor quer o que é bom, e o que é belo”, logo, aquilo que ele não é, nem tem. Lembre-se que tratamos como uma das principais questões da psicanálise o problema “desejo de(o) outro”. Ora, deseja-se aquilo que não se tem. È nessa medida que Lacan diz: “amar é dar aquilo que não se tem”, e poderíamos completar “à alguém que não é”.
Imagino que isto deva ter ficado um pouco complicado para muitos, trata-se de algo muito sensível e curto: desmistificar o amor em suas emanações sublimes e encantadoras, e coloca-lo em um outro ponto. Tentemos esclarecer este problema a partir de Lacan.
Um conceito muito presente no pensamento lacaniano é o de agalma, provém do grego, e quer dizer algo como ornamento, enfeite. É essencialmente o agalma o responsável por aquilo que se ama no outro. Existe ali, no outro, um ornamento, uma cobertura, um enfeite, que chama atenção do Um, é algo que ele não tem, e que de certa forma, ele deseja, ele ama. Claro, que este desejo pode ser diverso, tanto do campo da admiração, quanto da destruição – aqui um outro ponto particular para posteriores considerações acerca das perversões e neuroses, sadismo, e masoquismo. Deve ter ficado claro que o agalma é do campo do outro, mas que se faz no campo do mesmo. Guardem essa questão para juntarmos posteriormente, numa composição mais elaborada, junto com aquilo que nos referimos como sendo a relação, o filete de coisa, entre um e um outro, e a uma soma adotada por Deleuze, presente em Lacan, de que “Um mais Um é no mínimo três”, talvez esse terceiro elemento, seja “a relação”, mas não só.
No artigo anterior (Incursões edipianas:…) havíamos dado alguns motivos do amor dos pais pelos filhos, sendo o último deles, e mais evidente, a identificação. O agalma procede também por esta via, enquanto identificação de objeto parcial de desejo no outro, parcial como todo objeto de desejo, de modo que ele mesmo (o agalma), está em digressão ao que se busca.
O agalma em suas duas vias, a da identificação, e a do desmascaramento remete fundamentalmente a questão do interior. O que há além dele? O que está além daquele enfeite, do ornamento? Não seria esta a busca, de um outro, para além d’ISSO? Ou, a busca de outro em um outro?
A questão do belo, e de sua função enquanto agalma irá nos remeter também aos motivos da busca do amor, esse “requisito” seria um simples ornamento, o qual, o verdadeiro motivo de amor, estaria além, no ser que ali dentro reside, já que “não basta amar genitalmente para amar o outro por si mesmo”. Em outras incursões, Lacan também salientara que o gozo, o prazer, está em outro lugar, que não na genitália. De fato, talvez gozemos mais com a mente, com a fantasia, do que com qualquer outra parte do corpo (a questão é: seria esse lugar do gozo, parte do corpo?).
Mas voltemos ao título, o amor de Sócrates.
Dissemos que em meio as exaltações do amor postas à mesa no banquete de Agatão, Sócrates levanta a questão que expomos: o amor busca o que não tem, aquilo que lhe falta. Referindo-se aos conselhos que recebera de Diotima em sua meia idade, onde o amor ocupa o lugar da “imortalidade do eu”, grande objeto narcísico de fazer-se em outro, o amor, como diz Diotima “é sempre pobre, e longe está de ser delicado e belo, como a maioria imagina, mas é duro, seco, descalço e sem lar”.
Uma visita chega ao banquete, é Alcebíades.
Este é o ponto crucial do texto. Alcebíades fora enamorado por Sócrates em sua juventude, e Sócrates por ele, como se refere “…o amor deste homem se me tornou um não pequeno problema. Desde aquele tempo, com efeito, em que o amei, não mais me é permitido dirigir nem o olhar nem a palavra a nenhum belo jovem, senão este homem, enciumado e invejoso faz coisas extraordinárias, insulta-me e mal retém suas mão da violência”. Alcebíades relata então, com o intuito de difamar Sócrates, a relação que tiveram “senti diante deste homem, somente diante dele, o que ninguém imaginaria haver em mim”, “Sabei que nem a quem é belo tem ele a mínima consideração… nem tão pouco a quem é rico… e é ironizando e brincando com os homens que ele passa toda a vida”. Alcebíades jovem e belo, tentou conquistar Sócrates, fazer dele seu Erasta, seu amante, mas Sócrates “não é”, e então, como poderia “ser” objeto de desejo?
Segundo o relato de Alcebíades, na noite em que armou a “cilada do amor” para o mestre, com um cuidadoso jantar, declarando seu amor em todas as palavras e gestos, Sócrates o relevou. Não porque não o amasse. Não porque não fosse belo. Ao que parece “ele engana fazendo-se de amoroso, enquanto é antes na posição de bem-amado que ele mesmo fica, em de amante”. Sócrates, parecia e era desejado como um Erasta, um amante, mas sua busca, era a der um erômeno, um amado. Naquela noite, segundo Alcebíades, dormiram abraçados, e “quando me levantei com Sócrates, foi após um sono em nada mais extraordinário do que se eu tivesse dormido com meu pai ou um irmão mais velho”. Alcebíades culpava Sócrates, por ter perdido sua juventude, ludibiado-a e insultado-a. Sem dúvida, não vemos outra coisa aqui, que um amor reprimido, apaziguado, sublimado. Um amor que não gozou, que não virou prazer.
Entretanto, toda fala de Alcebíades tinha um motivo, e não era, não só, difamar Sócrates, mas difamar Sócrates para Agatão, e logo, insinuar-se para Agatão, o mais belo jovem rapaz de Atenas, que oferecia o banquete em comemoração ao seu sucesso. O que há de importante aqui, é o terceiro elemento, outro de outro, Agatão, a quem Alcebíades tenta conquistar, demosralizando Sócrates, que sentava ao seu lado, e era o principal convidado do banquete. Quando estudarmos “O chiste e suas relações com o inconsciente”, perceberemos como esta função de “terceiro elemento” irá denotar seu lugar.
Alcebíades promove um chiste de amor em Sócrates, para fazer-se em Agatão.
Peço perdão por interromper de maneira tão drástica nossas reflexões, mas deveremos ficar aqui por hoje. O autor que vos escreve, está sobremaneira esgotado pelo carnaval, e cheio de trabalho acumulado. Espero ter sido de alguma valia.
______________________________________
* Pedro Henrique Dias Inácio é Bacharel em História, Mestrando em História Social pela UFPE e a-psicanalista em formação permanente.
Email para contato: ordep_inacio@hotmail.com
** Os textos da coluna a-psicanálise são publicados aos sábados aqui no Acerto de Contas, trazendo reflexões no campo da psicanálise.
Para ler os demais textos da série, cliquem nos links abaixo:
2 – A Pré-história d’a-Psicanálise I: os sumérios e a Epopéia de Gilgamesh.
3 – Adendo: d’à-psicanálise do universo ao homem; ou, “Do movimento”.
4 – Incursões edipianas: a mãe, isso e o falo.
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À tentativa de uma complementação.
Preciso pedir desculpas pelo artigo ter saído “inacabado”, infelizmente, nem sempre as palavras saltam dos dedos pra tela com a mesma facilidade, e é constrangedor dar-se consigo ante a revaladora incapacidade da “fala”.
De todo modo, tentarei nesse comentário dar uma fechada no artigo.
A questão fundamental ao Amor de Sócrates está no lugar de sua sexualidade, acho que temi um pouco colocar isso em questão, já que… bom, muitas pessoas se questionam – talvez com alguma razão – da existência de Sócrates, e me acusariam de estar especulando com um Deus (como era mesmo tratado à época). Mas seguindo os ensimanentos Socráticos, “não sei, e falo o que não sei”.
O papel sexual de Sócrates, é o de um Erômeno, como sugere O banquete.
Claro, isso pode não estar tão claro para todos.
Como trabalhado por Foucault, e percebido em diversos outros textos que versem sobre a grécia antiga, veremos uma distinção fundamental entre a sexualidade grega, dividida entre Erastas e Erômenos.
O erasta é aquele que, teoricamente, cumpre o papel masculino, é aquele que é o objeto de amor de outrem, é quem tem o falo (“simbólico”) e o faz funcionar, faz-o o gozar.
Claro que não quero levar essa discussão para o gênero, homens e mulheres podem ocupar este papel.
O erômeno está como aquele que ama sendo amado, ou tem um papel feminino, se assim podemos dizer a título de desobscurecer esse problema de significantes.
O Erômeno seria o amado, enquanto o Erasta o amante.
Longe de estarmos querendo encerrar toda a humanidade nesse par, devemos perceber que essa relação não é nem um pouco fixa, e pelo contrário, instável, na medida em que, o erômeno e o erasta podem estar sempre invertendo suas posições.
É o jogo do amor.
Sócrates jogava com a exatidão e certeza de que não era. Talvez por isso tenha resistido vivo tanto tempo, ainda que seu fim, fosse o mesmo.
Penso que também não deve ter ficado claro a questão “terceiro elemento”. Representado no texto por Agatão.
Mas pretende falar no sentido de que aquilo que relaciona duas coisas, cria um terceiro elemento, uma haste.
O amor de Sócrates deverá ter uma continuação futura, creio que possa render boas colocações. Na próxima semana, prometo trazer um pouco de Freud, em seus primeiros trabalhos, e ajudar ao público entender como, e em que meios, deram-se suas descobertas.
Mais uma vez, desculpem por um trabalho “meia-boca”, e espero comentários severos criticando todo o pro-grama.
Felicitações, bom descanso embalado por essa tão acolhedora chuva interminável, e bom resto de semana.
AH! Como poderia esquecer,
Feliz ANO NOVO!!!
Daí o egoísmo, a frustação quando perdermos um “amor”,seria como perdermos algo ou alguém que julgamos nosso? Em tempo: Danadinho esse Sócrates, creio que ele iria sentir-se em casa durante o carnaval.
Lembro-me de sempre ter pensado se Sócrates não foi uma genial criação de Platão. Mas aí, lembro-me da apologia de Xenofonte.
De qualquer forma, criação de personagem ou existência da pessoa, é uma figura fantástica. E poética, como héroi de uma nova odisseia.
Homero tem um grande continuador – no sentido de continuar a tradição, apenas – em Platão. Mas, devemos a este, em conjunto com Moises e Paulo, uma fortíssima prisão intelectual.
Que teria sido se Heráclito tivesse sido a idéia triunfante, ao invés de Platão. Não sei, mas sem a dualidade, quase tudo seria diferente.
Francisco, sim, quando perdemos um amor, perdemos o ter-aquilo que amamos.
No mais das vezes, perdemos algo que nunca tivemos, apenas acreditamos ter. O que perdememos é “nós”… nós perdemos.
O que deveria ter ficado claro, é que, comumente, ou, inicialmente, ou mesmo, inexoravelmente, o amor é uma atitude narcísica.
Bem que o carnaval é uma festa cristã inspirada nos cultos a Baco e Dionísio, de todo modo, acho que Sócrates devia ser um ativo participante dessas festas… Mas tem um detalhe engraçado, ele nunca se embreagava… bebia todas, e permanecia incomodando a todos.
Acho que ele era um chato.
Andrei, concordo plenamento com a “prisão intelectual” platônica, e está amarrada ao idealismo, que como poderíamos ver, é mera ideologia. Mas, mesmo havendo tanto “irracionalismo”, demonstrando o quanto o platonismo “vê o que quer ver”, ele permanece imbatível na constituição das sociedades e suas epistemes contemporâneas. Nunca o simulacro e a simulação estiveram tão presentes…
Um chato fabuloso!
Um chato, um fanfarrão, mas bastante acessível aos prazeres da carne. Em resumo – um boa companhia para uma cerveja, mas um péssimo vizinho-.
Amar e dar o que nao se tem … para quem nao quer, completou Lacan tempos depois da primeira assertiva, ou seja ai estaria alguma coisa do jogo do amor, que Pedro muitisimo bem destacou a reversibilidade de erastes em eromenos, de eromenos em erastes, tomados que somos por esse nao ter nada e”ter que ter para dar”!
O texto inacabado, como qualquer texto, ganha forca, vitalidade justamente por isso, por ser um tema tao instigante, que nos poe a pensar, a sentir, a sofrer, a sorrir, a trabalhar, a fazer e desafzer de coisas, a cantar, a dancar… “tudo sao trechos que escuto, vem dela pois minha mae e a minha voz! como sera que isso era, esse som, que hoje sim gera sois, doi em dos”, nos diz Caetano, com isso penso estar articulando algo do que foi apresentado no outro artigo do Pedro e esse , divinamente, inacabado. Tal como no Banquete, parece que Pedro nos convoca a dar continuidade ao tema, uma confraria contemporanea sobre o amor… de todos nos Socrates e Alcebiades em busca dos agalmas, que para sofrimento, desconforto de alguns nao sao previamente destacados, so sabemos dele a posteriori, so depois que aconteceu e que temos noticias do que ha, do ah!!!
O amor, uma das respostas possiveis junto ao saber, sao as nossas tentativas de aliviar a incompletude…mas isso devera ser tematizado depois. Em algum momento Lacan diz que no final do “baile das mascaras”, nao era ela, nao era ele! O que nao deve ser interpretado como uma desistencia por alguma coisa que nao seria “verdadeiro” mas sim entender de que se trata de aproveitar muito, mais, desse baile.
Meu tempo aqui na internet vai acabar… voltarei…ao baile , nesse Feliz Ano Novo desejado por Pedro! que assim seja!
Sem a dualidade Andrei, como seria? Resta-nos o trabalho de conviver e de rearticular as dualidades, que podem ser interessantes, nao?
caro Jorge,
Sei que te dirigiste a Andrei, mas achei interessante o questionamento, e me permito intervir um pouco.
Acredito que “sem a dualidade” estaríamos mais próximos do pensamento da multiplicidade, para além do lógica dialética, e mais “bem resolvidos” com o caos, talvez menos tristes e menos fatalistas, ou, pelo menos, com uma melhor convivência com nossas tristezas, como disse Rilke, em suas “Cartas a um joven poeta”.
De uma forma ou de outra, é possível que o pensamento da multiplicidade esteja mais vivo após Nietzsche (mesmo alguns ainda o analisando como um metafísico, creio que, inclusive, Heidegger), ou, ao menos, nas correntes epistemológicas cuja abertura foi possível via marteladas nietzscheanas e, no campo da sociologia, pelo ilustre desconhecido Gabriel Tarde (silenciado pelos seguidores do “pai” Émile Durkheim).
Inclusive, os trabalhos de Gabriel Tarde (contemporâneo de Durkheim), seja no campo da sociologia do crime e da punição, ou mesmo em seus referenciais teóricos, como Leibniz e sua teoria das mônadas, são objetos quase que totalmente desconhecidos mesmo na acadêmia, o que é uma pena. É como se a academia fosse povoada de um silêncio seletivo.
É possível que o arranjo epistemológico dos pensadores ditos “pós-estruturalistas”, como Deleuze e Derrida, lide de uma forma mais bem articulada com esses princípios da multiplicidade.
Muitas vezes taxados como loucos, caóticos, esses autores têm muito a contribuir, mas, não são fáceis. Isso assusta, sobretudo os dialéticos e kantianos de carteirinha.
Dessa forma, mais cômodo acusá-los, com imperativos categóricos e julgamentos morais, que degluti-los e elevar o espírito e a epistéme.
André,
Eis que falas em Gabriel Tarde e lembro-me da Opinião e as massas. Um volume vermelho, antigo, e todo riscado que deixei em casa. De fato um grande autor pouco falado.
Fantástico o susto dos kantianos de carteirinha, André.
Tem-me parecido que a prisão das idéias é fechada por grades tão fortes que nem Espinoza saiu dela. A arte saiu, muitas vezes. kazantzakis acho que saiu. Camus também.
Andrei,
De fato, as correntes (creio que não tenha esse “nome” por acaso…) de pensamento acorrentam (com pleonasmo mesmo).
Lembro agora de Kafka, e sua obra “Na Colônia Penal”. A máquina escreve com agulhas a pena na carne do criminoso. É ‘assonhombroso’.
Camus, escritor que tenho muito apreço, cunhou o riso na face obscura de Sísifo – entristecida ao longo da história justamente pela hermenêutica dos fatalistas dialéticos.
Kazantzakis publicou “A Última Tentação de Cristo” nos mesmos anos em que foram descobertos os evangelhos apócrifos. Ao menos da moral cristã, Nikos aparentemente se libertou. Creio que seus estudos com Bergson deram bons ares ao grego.
Ontem assisti o filme “Perfume”, baseado no livro de Patrick Süsskind. O filme é excelente, e, assim como o livro, dá uma certa angústia por não reconhecermos os cheiros todos retratados pelas palavras e imagens.
E as palavras, … , essas também são ‘correntes’, semânticas, mas, mais para os dialéticos, pois que abarcam um mundo inteiramente novo e vivo, estímulo à criatividade (via chistes ou neologismos, etc.), campo aprazível aos pós-estruturalistas, deleite às risadas e ao fascínio, como aquelas provocadas pelas leituras de Derrida, que nos deixam antever…
Excelentes analises, comentarios do Andre e Andrei… mas, necessariamente, nao defendi a dualidade mas salientar de que a partir dela muito se pode produzir, articular…ela, em si, nao significa aprisionamentos… mas foi (e) campo de possibilidades para novas, vigorosos rompimentos e refinamentos tais como voces muito bem apontaram. Agora Andre, ficarmos “bem resolvidos”, menos tristes eh uma outra questao!
Pedro,
Gostaria de, além de parabenizá-lo pelo texto, perguntar se lhe agrada o assunto da apreensão da linguagem e da construção dos conceitos. Claro que me refiro um tanto à visão de Lev Vygotsky.
Andrei,
Sinceramente não. Lembro-me do Centro de Educação, e dos tormentos de uma norma psicológica que da luz ao que há de mais obscuro, o próprio surgimento do ser.
Mas semântica, linguística, “fonologias” é algo que me agrada enquanto objeto de estudos, claro que sou um leigo com a maior afirmação possível.
Só é difícil passar impassível a elas no dia-a-dia, ouvindo as conversas de ônibus, os vizinhos, e mesmo, nós próprios, a construir cacofonias sonoras, que as vezes acabam por dar um outro sentido ao mesmo.
Muito se tem a contribuir este elemento “fala” no ato psicanalítico, já que, é ele próprio que está em questão, mas é melhor deixar os “sentidos evidentes”, os senso-comuns que rodeiam nossas repreentações sobre os seres, a catalogação dos procedimentos cognitivos, em um outro campo.
Talvez possamos falar de Vygostsky, mas não antes de Saussure.
Jorge,
Talvez eu devesse ter dado maior ênfase à frase que disse: “…ou, pelo menos, com uma melhor convivência com nossas tristezas”. Acho que isso se encaixa mais ao que disseste sobre “bem resolvidos”.
Acredito que a tristeza é um estado sublime do alma. Vejo em minha existência pessoas que vivem a fugir dela. Seja indo às compras, ao cabeleireiro, aos blogs, à TV, ao cinema, etecetera.
Não fico “triste” por isso; mas, por vezes, lamento o quanto algumas pessoas deperdiçam sua tristeza com futilidades, fugas, desvios, medo. Aquilo que poderia se tornar um momento de elevação da alma e dos sentidos, acaba se tornando motivo de desprezo. O desprezo também tem lá sua beleza, mas acho que não neste caso.
Mas, cito o próprio Rilke, o qual havia mencionado:
“Essas tristezas se acumulam no íntimo e constituem a vida, constituem uma vida não vivida, desdenhada, perdida, de que se pode morrer.
Se nos fosse possível ver além do alcance do nosso saber, e ainda mais um pouco além da obra preparatória do nosso pressentimento, talvez suportássemos as nossas tristezas com mais confiança que nossas alegrias.
Pois elas são os instantes em que algo de novo penetrou em nós, algo desconhecido; nossos sentimentos se calam em um acanhamento tímido, tudo em nós recua, surge uma quietude, e o novo, que ninguém conhece, é encontrado bem ali no meio, em silêncio.
Acredito que quase todas as nossas tristezas são momentos de tensão, que sentimos como uma paralisia porque não ouvimos ecoar a vida dos nossos sentimentos que se tornaram estranhos para nós.”
Rainer Maria Rilke
Cartas a um jovem poeta.
Abraço!
E que comentário elaborado o do André Raboni, muito bom.
quanto a esta questão da “dualidade” versus “multiplicidade”, acho que não há necessáriamente um conflito, visto que a dialética pode suscitar termos múltiplos infinitamente. E qualquer coisa mais de 1, é n.
A fórmula deleuziana da multiplicidade é (1 – n)… Quando pudermos começar a falar mais detidamente de Deleuze, será um imenso prazer, visto que é um dos meus autores favoritos. Mas antes de destruir a psicanálise, é preciso construí-la…
Talvez possamos estar discutindo o velho problema Aristóteles versus Platão, Imanência, Transcendência… que sinceramente, não nos leva longe, são complementares, e não se resolverão por força de suas existências. Caso isso aconteça, deixaram eles também de existir. Mas acho que podemos estar em partes, neste caminho.
A idéia da Mônada, é que ela é exatamente “dual”, duas partes de uma mesma coisa, que formam um terceiro, que pode ser tanto par das Mônadas, quanto algo completamente avesso… Ela congrega o que podemos pensar aqui entre a dualidade e multiplicidade.
As correntes de pensamento acorrentam? HA! Sem dúvidas…Mas você está chamando os “pós-estruturalistas” de dialéticos? Pode até ser…
Jorge,
Suas participações são sempre muito importantes para nosso debate, esteja presente.
André,
essa tristeza em questão, pode tratar-se exatamente da “angústia”, conceito que, parece devemos tocar a partir de Freud em breve. Ela está implícita ao ato de viver… viver é uma angústia.
Ela é o próprio combustível, e razão da vida… estar instisfeito, sentir… o que quer que seja… Tristeza, receio, alegria, gozo… são todas angústias…ou porque não acabam, ou porque acabam tão cedo… Falei de gozo, e preciso dizer que essa é uma “descoberta” lacaniana, a angústia, é o lugar do gozo…
É também o lugar do narcisismo, onde pretendemos fazer “alguém se importar”, nem que seja nós mesmos ( fazendo um quadrilátero narcísico alimentado infinitamente).
A Angústia deve ser o motor da busca, do ato-vida. Deve ser o “quero mais”.
No momento em que as pessoas aprendem a lidar com isso, transformam suas vidas.
Pedro,
Já que viemos bater às portas da línguística (leigos que somos), gostaria de comentar um aspecto curioso que percebo no “amor de Sócrates”, a partir da “fala inciumada” de Alcebíades.
Ele diz, conforme sua citação:
“Sabei que nem a quem é belo tem ele a mínima consideração… nem tão pouco a quem é rico… e é ironizando e brincando com os homens que ele passa toda a vida”.
Bem, aqui gostaria de fazer uma relação entre esse “amor” e o “gozo”.
Sempre achei bastante curiosas as acepções semânticas (de significados) da palavra “gozo”, “gozar”.
Num sentido, o gozo aparece como “orgasmo”, bem definido como o momento genital da ejaculação, ou algo do tipo.
Em outro, “gozo” aparece como significado de “zombaria”, “ironia”.
Relacionemos, então, a fala de Alcebíades com a semântica descrita. “…e é ironizando e brincando com os homens que ele passa toda a vida”.
Se assim o foi, então podemos dizer que Sócrates é um grande “gozador”. Assim, o “orgasmo” pode ter sido a fonte maior do amor de Sócrates pelos homens.
Se encaramos a assertiva “Só sei que nada sei”, como a maior das ironias, poderíamos concluir que aqui reside esse agalma socrático da “filo-sofia”? Ou seja, o amor pelo saber encerra-se na ironia e na zombaria?
Dessa forma, é possível, inclusive, pensar que o maior dos “filósofos” foi mesmo Diógenes, o Cínico do barril e do cajado, em sua busca incessante por um homem virtuoso. – Ou, em busca do agalma im-possível da beleza do gozo enquanto cinismo?
Já Rilke (já que falei dele em comentários anteriores) não parece muito afeito a ironias. Ele disse (também ao “Jovem poeta”) que a evitasse, pois, segundo ele, através da ironia dificilmente se tocariam nas questões com profundidade.
Em alguns aspectos concordo com Rilke; mas de fato, o gozo da ironia sempre parece algo bastante desejado pelos irônicos.
André,
Acho que tem todo sentido sua reflexão linguística, Sócrates era mesmo um gozador.
E Diógenes lamentava não poder satisfazer sua fome do mesmo modo que podia satisfazer seu gozo…
É verdade, os irônicos precisam gozar de suas proezas.
muito bom.
Andre, que maravilha de comentario…estava em transito, viajando, e não pude le-lo…sou apaixonado pelo Rilke e por todos os apaixonados… poetas que são. E é muito bom que o texto, inacabado, do Pedro nos tenha convocado a dar continuidade ao falarmos de amor, de paixão, de gozo, de prazer… de viver. Continuemos com o nosso banquete!
É.
Não creio em missão alguma.
A vida é por demais inverossimel.
O gozo é sempre precedido e excedido de um vácuo.
Um vazio gigante.
Procura-se ocupar o sexo com palavras, palavras vazias.
Porque o amor é algo tão frustrante.
Tá! o amor é narcísico, mas o próprio ser é frustrante, angustiante, aterrorizante. O ser é doente. O narcíso está perdido, sempre esteve, a sua contemplação nunca foi real. O espelho é sempre difuso.
Ser?
O ser é ser visto. querer ser visto. Estar exposto em vitrines, em espelhos onlines. Não é absolutamente acreditável como queremos sempre provar para nós mesmo a nossa existencia. Qual o motivo de fotografarmos tantos momentos, e qual o motivo da nossa necessidade de publicarmos esses momentos. O grande Olho, seja de Sauron ou do BBB esta sempre nos entretendo.
Transformamos (ou publicamos) o nosso particular no público. Mostrar-se, essa é a lei, mas mostrar-se construindo de você mesmo um narrador, observador e personagem, fazer a nossa história. Mas uma bela historia, senão, quem irá nos apreciar. É preciso exibir uma suposta e pretensa felicidade. Queremos ser amados sempre. Mas…
Amar!? Fingir amar eis a questão. E acreditar nisso é o mais importante.
A nossa dissimulação é constante, o primeiro beijo nunca é sincero. É sempre a simulação de um primeiro beijo. AH! a nossa vida é um simulacro de nossa vida.
o Eu é o outro, palavras que se tornaram clichê, ditas pelo nosso querido Rimbaud. Quantas interpretoses essa frase tem. O “eu” é me colocar no lugar do outro? é ser o outro? ou o eu é sempre outro e nunca o eu? e quantos eus são possíveis? Um, Nenhum, Cem Mil?
Porque a nossa fusão é tão complicada?
Não posso ser o que tu queres? e Se eu for realmente o que tu queres, o que te faz acreditar que serei menos feliz?
Ah…esqueçamos tudo isso…por que é tão dificil gozar? E se consegues, por que não apreciar o momento final, e relaxar na morbidez deliciosa de um gozo? Sentir os corpos nus e suados ainda fundidos.
Mas que Com-Fusão.
Que maravilha SP, o nosso banquete continua! Penso que o seu comentário que vem articulando as dificulades e impasses do amor e do gozo frente a fragilidade e medos do eu, como diz Clarice ” e se eu fosse eu?”, conclui de forma brilhante: “por que não apreciar o momento final, e relaxar na morbidez DELICIOSA ( grifo meu) de um gozo? Sentir os corpos nus e suados ainda fundidos”. Parabéns e continuemos.
… suados!
Voltei pois gostaria de assinalar que ao destacar o dito de SP, não quero ver nesses “corpos fundidos” na perspectiva do amor de Aristófanes, interessado em re-fazer o um, mas de um instante de entrega… dos dois. Daí então o fundido teria um valor erótico-estético. É assim pra vc também SP?
mais… ” fundidos”, as aspas aqui importam, na loucura e voluptuosidade incessante da busca… da busca… d(a), busca!!!
SP, muito sensível seu comentário.
É, acho que com esse tipo de questões que lidamos.
O gozo cada vez mais castrado, cada vez mais execrado.
Uma boa saída para seu objeto de angústia é o que Lacan chama de “mais-de-gozar”. Quem sabe em algum momento não tocaremos nesse mais.
abraço, e obrigado pela participação de todos.
Felix -Ba 30/11/11
Estava eu pesquisando algo sobre o filme ” o Perfume”, algo tipo: resenha, artigo, comentários, até a sinopse do filme mesmo pra ter inspiração para minha resenha. Estou fazendo uma pós em Arte-educação e parei tudo e fiquei lendo os comentários de vcs todos sobre o amor, sobre o gozo, sobre Sócrates, Platão, a dualidade, o narcisismo, a angustia, o orgasmo e tantas coisas mais, assuntos tão deliciosamente instigantes, que refletí e cheguei a conclusão de como é bom viver e conviver com o outro, ouvir o outro, dividir angustias e emoçoes, compartilhar tristezas e alegrias e o melhor de tudo: sabermos, percebermos que não estamos sóis. Obrigado por vocês todos existirem! Jorge, Francisco, Andrè, Andrei, SP (kkk), P. Henrique. Valeu!!!