O caso do Banco Panamericano e o saneamento do Sistema Financeiro

nov 11, 2010 by     32 Comentários    Postado em: Artigos e Análises

Por Paulo André Caminha Guimarães Filho
para o Acerto de Contas

Nem sempre é simples entender o funcionamento do Sistema Financeiro, principalmente quando nos deparamos com um caso como o do Banco Panamericano, noticiado por uma imprensa da qual eu, pelo menos, desconfio. Quando li algumas matérias sobre o problema, percebi que alguns veículos estão tentando fazer com que a operação que está injetando capital no Panamericano seja associada ao que aconteceu nos anos 90 com Proer – Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional.

O Banco Panamericano, controlado pelo Grupo Silvio Santos, estava maquiando seus balanços, e a irregularidade foi detectada pelo Banco Central. É importante entender que esse tipo de informação não veio ao público porque não deve vir mesmo. Esse sigilo é imperioso, para evitar uma crise de confiança no mercado, que pode levar a um colapso de todo o sistema. O Banco Central tem como uma de suas funções básicas realizar o monitoramento e controle do risco sistêmico. Para compreender o que isso significa, temos que ter em mente que as instituições financeiras negociam, em volumes muito significativos, umas com as outras e com o Banco Central. Quando dizemos que um banco está “quebrado”, ele não pode simplesmente fechar as portas e se retirar do mercado, como uma empresa qualquer. Geralmente um grande banco leva vários outros pro buraco.

O que aconteceria se a informação viesse ao público antes de o problema estar solucionado seria uma corrida aos caixas. De forma simples, as pessoas fazem retiradas, esvaziando o ativo do banco e qualquer possibilidade de saneá-lo se tornaria completamente inviável, e provavelmente quem ficasse por último na fila do caixa nunca iria ver seu dinheiro de novo. Foi isso que aconteceu na crise bancária da Venezuela, pessimamente administrada pela autoridade monetária, e em grande parte responsável pela ascensão de Hugo Chávez.

O Proer foi constituído basicamente de empréstimos feitos pelo Banco Central a diversos bancos, para evitar um colapso parecido com o que ocorreu na Venezuela. Eu não acredito que havia outra opção para o governo, e, para quem se interessa pelo tema, a operação feita com os títulos públicos dados como garantia foi bastante inteligente. O nosso sistema estava acostumado com a altíssima inflação, e não sobreviveria sozinho sem ela.

De forma bastante diferente, o dinheiro que socorreu o Panamericano veio do Fundo Garantidor de Créditos. O FGC é uma associação civil, entidade privada mantida através de depósitos regulares feitos pelas próprias instituições financeiras, que servem como uma espécie de seguro para garantir o pagamento dos credores, até um determinado limite, nos casos de liquidação extrajudicial e falência. Frise-se que o fundo é totalmente privado. Se alguém tiver dúvidas sobre a natureza e funções do FGC, recomendo uma visita ao site do Bacen, especialmente a seção FAQ sobre o FGC.

Silvio Santos foi pessoalmente até o FGC, coisa que nunca aconteceu antes, negociou os termos do empréstimo (que não tem juros, somente correção monetária), e entregou como garantia nada mais, nada menos que todas as empresas do seu conglomerado, e isso, convenhamos, é bastante patrimônio. O que quero deixar claro é que não houve dinheiro público envolvido no socorro ao Panamericano, e os donos foram buscar o socorro, o Banco Central apenas intermediou a negociação.

Sobre a situação dos administradores, o Banco Central tem autonomia para substituí-los e investigá-los se houver indícios de fraude, e, além disso, a Caixa Econômica Federal comprou uma fatia do Panamericano no final de 2009, e por isso também tem direito a indicar parte do conselho. Para terminar a história, os parlamentares convocaram Henrique Meirelles, e ele foi até a Comissão Mista do Orçamento, e explicou que a fraude está sendo investigada, de modo sigiloso, pelo Bacen, e que, além disso, não foi usado nem um centavo de dinheiro público na operação.

Para quem acha que o BC deveria liquidar de vez o Panamericano, em vez de intermediar um negócio junto ao FGC para salvar as contas, vou explicar o que aconteceria. O Panamericano primeiramente seria totalmente paralisado, e o FGC seria responsável por honrar os créditos até o valor de R$ 60.000,00 por credor, o que significa que os pobres mortais receberiam seu dinheiro, mas não os credores empresariais, e aí então o FGC provavelmente figuraria como principal credor em volume, e o Panamericano entraria para o maravilhoso rol dos esqueletos que assombram o Bacen, junto com Bamerindus, Econômico, Nacional e nossos queridos pernambucanos Banorte e Mercantil, isso para não citar as centenas de administradoras de consórcios, corretoras de valores mobiliários e outras instituições financeiras que estão sendo liquidadas neste exato momento.

Quando eu cito esses bancos, estou apenas falando sobre os maiores, cuja liquidação ainda não terminou. Ficou chocado? Pois é, juridicamente todos esses bancos ainda existem, e demandam fiscalização e acompanhamento do Bacen, com relatórios periódicos de auditoria independente, a manutenção de escritórios, advogados, funcionários e todo o aparato necessário para manter os cadáveres. Obviamente os recursos que mantêm as estruturas não são públicos, mas o Bacen tem que fiscalizar, e isso custa caro. E sabe quem são os principais credores? O próprio Bacen, principalmente por causa do Proer, e o FGC. Liquidar o Panamericano, sim, seria desperdício de dinheiro público.

______________________________
Paulo André Caminha Guimarães Filho é analista do Banco Central e trabalha na área de liquidações extrajudiciais de instituições financeiras.

32 Comentários + Add Comentário

  • Eu só queria saber se o programa do Sílvio Santos vai continuar a passar aos domingos, rsrs, só isso.

  • Otima aula.

  • Quem quer dinheiroôôô!!!

  • ????

  • Terá $ido malandragem do$ ge$tore$ do Panamericano ou atitude in$ana do $ilvio $anto$, que beira o$ 80 ano$ de idade?

    O danado foi o DP por na capa a foto do Dono do Baú com a legenda “Topa Tudo por Dinheiro”.

  • Paulo,

    o que impressiona nesse caso não é a forma como ocorreu o resgate do Panamericano pelo FGC, mas sim o fato de que essa fraude foi realizada ao longo de 3 anos e não foi detectada nem pelo BACEN nem pelos auditores independentes. Ou seja, a forma como as inst. financeiras vem sendo fiscalizadas precisará passar por uma boa reformulação para evitar novas fraudes como esta.

    • Aí é que está a questão principal desta notícia podre. Como é possível a diretoria de um banco enganar todo os orgaos de fiscalização por 3 anos e ninguem desconfiar de nada. Não foram R$100, foram Milhões! O Banco central deve uma explicação sim senhor! Que auditoria de lixo é essa que foi feita no panamericano?

    • Concordo com o comentario do Bruno Moura ! Sabem para que servem as auditorias independentes e o Banco Central ? Para dar confiança ao dirigente que o erro cometido é somente aquele que ele proprio já o conhece.. Quer dizer que vendo um produto e ainda deixo no meu ativo sem necessidade de dar baixa nele ?
      Assim como o Panamericano e outros bancos que deveriam serem fiscalizados pelo Bacen, tal como o Bamerindus que até agora nao foi liquidado e devolvido as suas economias aos seus acionistas que ali investiram . A quem devo processar por minhas perdas ? Como confiar em um sistema financeiro tao fragil assim ?

  • [...] This post was mentioned on Twitter by Paulo Guimarães, Paulo Guimarães. Paulo Guimarães said: Artigo meu no @acertodecontas http://tinyurl.com/37ccvwc [...]

  • Excelente Post.

    Esclarecedor, não entendo NADA do assunto, não posso opinar.

    Sei que, se o FGC emprestou é porque há garantias e meios de recuperar o banco. Inclusive o Estado tem o dever de, como você disse, poupar dinheiro, mesmo quando isso demande injeções financeiras como ocorreu no mundo afora, o Estado bancando a roubalheira privada para evitar um mal maior. Seu comentário faz sentido…

    Agora restou falar que essa fraude vem ocorrendo a 3 anos. Tudo bem que deve ser uma imensidão danada de coisas para fiscalizar e ser impossível onisciência em qualquer coisa, mas era bom a ressalva, se é que é verdade, para garantir o bom entendimento do que esta acontecendo e não dizer que a mídia esta fazendo seu papel de PiGolpista.

    • Laccosta,

      Pequena contribuição:”[...] essa fraude vem ocorrendo HÁ 3 anos.”

  • Prezado paulo André,

    Em relação à sua afirmação abaixo:
    “O que aconteceria se a informação viesse ao público antes de o problema estar solucionado seria uma corrida aos caixas. De forma simples, as pessoas fazem retiradas, esvaziando o ativo do banco e qualquer possibilidade de saneá-lo se tornaria completamente inviável, e provavelmente quem ficasse por último na fila do caixa nunca iria ver seu dinheiro de novo.”

    Creio que esta afirmativa não se aplica ao Panamericano, uma vez que se trata de banco que não faz captação no varejo.

    • Certamente eu não pesquisei detalhes sobre o Panamericano. O que quero dizer é que é isso que acontece de maneira geral com relação ao risco sistêmico. Quando uma instituição financeira tem sua imagem ameaçada, quem tem dinheiro lá dentro tenta tirar, e rápido. Simples assim. Obrigado pelo esclarecimento.

      • Ok. Este detalhe de forma alguma invalida seu texto. Está muito bom.

  • Ai que orgulho desse menino! =)

  • Parabéns Paulinho pelo seu artigo!
    Li e aprendi! =D

    Beijao dos amigos da sua terrinha!

  • NÃO ENTENDO NADA DISSO.MAIS O QUE POSSO AFIRMAR É QUE ESTOU MUITO TRISTE COM TUDO ISSO,POIS ADORO ASSISTIR OS PROGRAMAS DO SÍLVIO SANTOS. E AGORA É FÁCIL TODOS CAIR MATANDO EM CIMA DO HOMEM DO BAÚ. GENTE ISSO ACONTECE NAS MELHORES FAMÍLIAS.EM RESPEITO AO MESMO FIQUE TRANQUILO TUDO DARÁ CERTO. ABRAÇOS E ORAÇÕES.

  • P.A. muito informativo e esclarecedor.
    Ratificamos o comentário de Leila. Abraços!

  • Muito esclarecedor. Evita opiniões rasas sobre o tema.

  • Especulação é isso aí. Se a informação não é divulgada, os gráficos vão falar tudo. Eles nunca mentem.

  • [...] neste momento a especulação de um acordo com Lula para salvar o SBT não fas justiça aos atos. O artigo anterior, enviado por um analista do Banco Central ao Acerto de Contas, mostra que o que foi feito é o [...]

  • Ai que orgulho desse menino! =) (2)

  • O texto de Paulo André é muito didático e esclarece alguns aspectos que envolve o problema.
    No entanto, presumo que deve ser vista com reservas a atuação do BACEN, por dois motivos principais:
    1) quando o BACEN aprovou a operação de compra de 49% das ações do Banco Panamericano pelo braço de participações da Caixa Econômica Federal, Caixapar, não houve nenhuma análise contábil do Panamericano? 2) A CEF é empresa pública federal, portanto, há dinheiro público envolvido, sim! A CEF, leia-se dinheiro público, entrou numa grande furada. R$ 700 milhões foram “investidos”, com a abonação do BACEN, numa “canoa furada”. Apenas a título exemplificativo, veja-se o tamanho potencial do estrago: no pregão de ontem, as ações do Panamericano já eram negociadas abaixo do valor contábil diante da forte queda de quase 30%.

    • Retificação: ‘O texto de Paulo André é muito didático e esclarece alguns aspectos que envolveM o problema’.

    • João Romão levanta um ponto extremamente importante. Como diabos a Caixa foi colocar R$700 milhões nessa furada? Isso cheira muito mau. Muito mesmo.
      Será que o Paulo André escreveu para o blog a serviço do BACEN e do governo? Há quem discorde, mas R$700 milhões de dinheiro publico é muita coisa, caro Paulo!

      • Eu não estou a serviço de ninguém, a não ser de quem queira ver esclarecido o que ocorreu. Eu não trabalho na área de fiscalização, não conheço as rotinas e procedimentos do setor, e nem tenho legitimidade para escrever a respeito do negócio entre a CEF e o Panamericano. Minha intenção é somente informar, especialmente a respeito do negócio com o FGC e das consequências de uma eventual decretação de liquidação extrajudicial.

        • Paulo, muito bom o artigo, mas você falhou quando disse que não havia dinheiro público envolvido.

          Concordo com o João Romão e o Marcos. Essa entrada da Caixa em 2009 cheira muito mal. Se o problema vinha ocorrendo desde 2006, como a Caixa enfia 700 milhões sem uma auditoria ? Isso não é apenas irresponsabilidade, tem algo de podre nos bastidores e não é o Lombardi.

        • Marcio,

          Quando eu disse que não havia dinheiro público envolvido, eu me referi apenas à operação com o FGC. Como eu disse antes, realmente não tenho conhecimento nenhum sobre os detalhes da operação com a CEF, e, se houver irregularidades, todos nós esperaremos punições.

          Só recomendo que todos nós continuemos acompanhando as informações a respeito da investigação. Quanto a isso, sou tão expectador quanto qualquer um de vocês.

          Obrigado pelos comentários esclarecedores. Grade abraço!

  • Comentario excelente. Queria ter um filho assim!!!

  • Ai que orgulho desse menino! =) (3)

  • Queima de fogos fraca!!Porque não checar quanto este Prefeito gastou com a rídicula,vergonhosa)queima de fogos NA GRANDIOSA AVENIDA? até nos telejornais foi alvo de chacotas, como o da Tv Tribuna do RONDA GERAL, hoje. Fiquei com vergonha, pois deste ano passado onde,dizem,se “gastou meio milhão”, para ficarmos roxos de vergonha perante o Brasil e mundo. Este prefeito é um sinal claro de que a parte da população é manipulada, e não aprende a votar. Ele no meu entendimento não têm postura nem capacidade para cuidar da nossa linda Grandiosa Recife.

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MARCO BAHÉJornalista
É formado em Jornalismo e pós-graduado em História Contemporânea e História do Nordeste do Brasil. Foi repórter da Gazeta Mercantil para os estados de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. Também atuou como repórter do Jornal do Commercio, editor da Folha de Pernambuco e repórter especial do Diario de Pernambuco. É correspondente da revista Época no Nordeste desde 2003. Tamb´m atua com publicidade e marketing eleitoral desde 2004.
PIERRE LUCENADoutor em Finanças
É doutor em Finanças pela PUC-Rio e mestre em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco. É professor adjunto de Finanças da UFPE e foi secretário-adjunto de Educação de Pernambuco. É autor de vários trabalhos publicados no Brasil e no exterior sobre o mercado financeiro, e participa como revisor de várias revistas acadêmicas na área. É sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Finanças. Foi comentarista de Economia do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (TV Jornal e Rádio CBN). Atualmente é coordenador do curso de administração da UFPE, e Coordenador do Núcleo de Estudos em Finanças e Investimentos do Programa de Pós-graduação em Administração da UFPE (NEFI).