O Golpe de 1964 e a Operação Condor

abr 1, 2008 by     6 Comentários    Postado em: Artigos e Análises

jangoBrizola

Por Túlio Velho Barreto 

No dia 1o de abril, o Golpe Civil-Militar de 1964, que destituiu e exilou o governador Miguel Arraes e o presidente João ‘Jango’ Goulart, completa hoje exatos 44 anos. Mas, infelizmente, muitas histórias relacionadas ao regime militar (1964-85), sobretudo aos ‘anos de chumbo’, ainda são desconhecidas, apesar dos esforços de muitos para que o governo Lula abra os arquivos oficiais sobre o período. E das inúmeras promessas dos presidentes desde o retorno à democracia: Collor, Itamar, FHC e Lula, em especial dos dois últimos, que tiveram condições mais favoráveis e, por suas trajetórias pessoais, legitimidade para tanto.

Assim, um dos episódios mais terríveis do período continua encoberto sob espessas e inertes nuvens. Refiro-me à Operação Condor, a aliança firmada entre militares do Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile e Bolívia destinada a monitorar, perseguir e, eventualmente, eliminar as principais lideranças oposicionistas às ditaduras na América do Sul. Tudo sob a benção dos EUA e o pretexto do combate ao terrorismo na região. Tratava-se de cooperação entre as forças de repressão daqueles países para eliminar as lideranças que, em um eventual retorno à democracia, pudessem reassumir seus mandatos e comandar rigorosa apuração sobre crimes cometidos pelos militares.

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A Operação Condor funcionou ativamente na segunda metade da década de 1970, época em que Miguel Arraes, exilado na Argélia, foi informado pelo governo local sobre a ação. Apesar da relevância dos acontecimentos que se sucederam, só nos últimos anos de vida, o ex-governador falou sobre o tema. Em suas duas últimas longas entrevistas, ambas sobre as origens e conseqüências do Golpe de 1964, concedidas para dois projetos da Fundação Joaquim Nabuco em parceria com o Jornal do Commercio, Arraes deu detalhes de como tudo ocorreu. As entrevistas fazem parte do livro A Nova República – Visões da Redemocratização (CEPE, 2006), escrito em colaboração com os jornalistas Sérgio Montenegro Filho e Paulo Sérgio Scarpa.

Na ocasião, Arraes rememorou encontros com interlocutores do coronel argelino Sulleiman Hoffman, assessor para assuntos internacionais do presidente Houari Boumedienne, ocorridos no início de 1976. É Arraes mesmo quem conta o que ouvi deles: “Havia uma decisão da linha dura de assassinar todos aqueles que tinham certa influência em seus países. Porque eles estariam prevendo um recuo do processo de militarização. Mas, para recuar, precisariam aniquilar esses homens, que tinham influência, para poder ter controle sobre o processo mais aberto”. E foi orientado para avisar aos exilados brasileiros. Pouco tempo depois, lembrou, foram assassinados o senador Zelmar Michelini e o deputado Héctor Gutiérrez Ruiz, ambos uruguaios (maio); o presidente deposto da Bolívia, o general Juan José Torres (junho); e o ex-embaixador do Chile nos EUA, Orlando Letelier (setembro).

Através de emissários, Arraes informou a Leonel Brizola, que cambiou o Uruguai, onde estava exilado desde 1964, pelos EUA, e encontrou-se pessoalmente com o ex-presidente Jango, em Zurique, na Suíça. Jango, que permaneceu no Uruguai, morreria em dezembro de 1976, apenas quatro meses depois da morte do ex-presidente JK. Já Carlos Lacerda morreria em maio de 1977, ano em que quase todo o Comitê Central do PCB foi dizimado. “Eu não posso dizer que Juscelino não morreu num acidente, que a morte de Goulart não foi natural, ou mesmo a de Carlos Lacerda. O que eu posso dizer é que eles estavam condenados à morte. A condenação estava feita e foi comunicada. Então, eu não posso entender como três homens importantes no Brasil, cada um à sua maneira, morreram numa sucessão de meses…”, concluiu Arraes. É relevante destacar que, em 1966, JK (PSD) e Jango (PTB), as maiores lideranças de seus extintos partidos, tinham sido procurados pelo inimigo comum Carlos Lacerda, maior liderança da UDN, para constituir a Frente Ampla – de vida curta – contra o regime militar.

Hoje, apenas a insistência do governo Lula em não abrir os arquivos da ditadura – ou, pelo menos, o que dele restou – faz a tese de Arraes parecer conspiratória. Aliás, o ex-ministro de três dos cinco governos militares, o coronel reformado Jarbas Passarinho, confirmou, em entrevista à Folha de S.Paulo, em janeiro deste ano, a existência da Operação Condor. E, como mostrou Elio Gaspari, em A Ditadura Derrotada (pág. 324), em 1974, o general-presidente Ernesto Geisel já considerava legítimo matar opositores. Agora, juízes italianos e espanhóis mostram-se dispostos a investigar brasileiros envolvidos na operação. E o espião uruguaio responsável por vigiar Jango foi localizado e preso. Tais fatos deveriam ser suficientes para que o governo Lula saldasse uma enorme dívida do Estado brasileiro com a cidadania: o direito à verdade.

* Tulio Velho Barreto é cientista político e pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco, Túlio Velho Barreto é um dos organizadores de Na Trilha do Golpe – 1964 Revistado (Massangana, 2004) e um dos autores de A Nova República – Visões da Redemocratização (CEPE, 2006), dentre outros.

6 Comentários + Add Comentário

  • Olá Túlio,
    Gostei muito do seu texto sobre a Operação Condor.
    Sou gerente de marketing da distribuidora LUMIÈRE e gostaria de te convidar para a pré-estréia do filme CONDOR, em SP ou no RJ, que terá estréia dia 1° de maio nos cinemas do país. Para mais informações, entrem no site http://www.condor-ofilme.com.br.
    abraços e parabéns,
    Juliana Pedra

  • Juliana: obrigado pelo comentário. Por favor, entre em contato comigo, pois gostaria de obter mais informações acerca do lançamento do filme. Tenho imenso interesse pelo tema. No final da referida entrevista (a segunda que fizemos) com Miguel Arraes, realizada no início de 2005, ele me fez um desafio: estudar seriamente a Operação Condor. E prometeu colocar todo o material que tinha sobre o tema à disposição e conceder-me as entrevistas necessárias. Infelizmente, o projeto inviabilizou-se pela doença e morte do ex-governador. Abs, Túlio (tulio@fundaj.gov.br)

  • Olá Túlio,

    Muito interessante seu artigo sobre o Golpe de 64 e a Operação Condor. estou muito feliz em poder conhecer sobre o que fora dissertado no referido artigo. O Brasil tem uma dívida muito grande com os familiares de Jango, Carlos Lacerda, JK, Miguel Arraes, Leonel Brizola e outros. Expulsar do território brasileiro um brasileiro nato é inadmissível. Sou advogado e luto pela permanência do Estado Democrático de Direito, não tolero a violência e principalmente, a praticada pelo Estado. O Estado não deve ser violento para com o seu cidadão, mas apenas combater a violência praticada contra o cidadão. Um abraço e que Deus continue te iluminando.

  • Lula ao que tudo indica, se acovarda em tocar nesta “ferida, que ainda faz muitos que viveram o período, tremerem só de lembrar os fatos que presenciaram e viveram,aqui na UERJ, nos dias 26,27 e 28 de agosto tivemos o seminário Apesar de Voce, 30 anos da abertura política no Brasil,onde a questão da abertura dos arquivos foi colocada em debate, o assunto posso dizer está muito quente,graças a DEUS,pois prova disso,foi que tivemos a presença de João Vicente Goulart e de Maria Teresa Goulart,ambos filho e viúva do presidente, foi muito comovente vêr o filho do presidente Goulart pedindo justiça pelo assassinato do pai,digo assassinato,pois acredito,que está mais que claro que a operação Condor é fato,resta agora que Lula, coloque a mão na conciência,lêmbrando que que só é presidente do Brasil,por ter sofrido e feito parte dos que se levantaram e lutaram contra os vendilhões da democracia.
    Ass Paulo Roberto Waldemiro, bacharel em história pela UERJ,

  • Caro Túlio. Postei teu artigo no blog de minha peça teatral. Olha, eu assisti ao filme CONDOR nesta última quinta-feira na cinemateca do Arquivo Nacional aqui no Rio de janeiro. Só para você formar uma ideia do que foi a recepção: Após o final da película, os créditos iam subindo na tela escura e as pessoas não se levantavam. Havia um sentimento de agitação, indignação, tristeza e ódio. Teu artigo também carrega esse ânimo. Parabéns. Um forte abraço. Ricardo

  • Tulio só hoje tomo conhecimento tomei conhecimento deste seu artigo e posso te afiançar que ele é verdadeiro pois meu pai Jacy Pereira Lima exilado desde 1964 no Uruguai teve que sair para não ser entregue as autoridades brasileiras em 1975 indo para a Italia como APATRIDA pois teve sua documentação de exilado confiscada pelo governo Uruguaio e quem pagou sua passagem foi o João Goulart. Desde esta época fiquei sabendo do sumiço de vários exilados pegos por esta operação.

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MARCO BAHÉJornalista
É formado em Jornalismo e pós-graduado em História Contemporânea e História do Nordeste do Brasil. Foi repórter da Gazeta Mercantil para os estados de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. Também atuou como repórter do Jornal do Commercio, editor da Folha de Pernambuco e repórter especial do Diario de Pernambuco. É correspondente da revista Época no Nordeste desde 2003. Tamb´m atua com publicidade e marketing eleitoral desde 2004.
PIERRE LUCENADoutor em Finanças
É doutor em Finanças pela PUC-Rio e mestre em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco. É professor adjunto de Finanças da UFPE e foi secretário-adjunto de Educação de Pernambuco. É autor de vários trabalhos publicados no Brasil e no exterior sobre o mercado financeiro, e participa como revisor de várias revistas acadêmicas na área. É sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Finanças. Foi comentarista de Economia do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (TV Jornal e Rádio CBN). Atualmente é coordenador do curso de administração da UFPE, e Coordenador do Núcleo de Estudos em Finanças e Investimentos do Programa de Pós-graduação em Administração da UFPE (NEFI).