O milagre econômico e o arrocho de salários e liberdades

mai 7, 2008 by     16 Comentários    Postado em: Artigos e Análises

delfim-netto1.jpg

Como eu havia dito no post anterior (sobre a virada econômica durante o primeiro governo militar, período de recessão devido ao ajuste da economia e da reorganização do sistema financeiro), o segundo momento da política econômica do regime militar baseou-se no duplo: crescimento econômico e aumento da repressão política.

O segundo presidente do regime militar foi Marechal Artur Costa e Silva. Ele havia sido Ministro da Guerra do presidente Castelo Branco. Representou a defesa dos interesses da ultradireita das Forças Armadas do interior. Foi eleito de forma indireta em outubro de 1966. Governou o país entre 1967 e 1969.

Durante o seu governo, nomeou Delfim Netto como Ministro da Fazenda. Ele foi encarregado de coordenar o novo período da política econômica brasileira.

A política econômica adotada nesse período ficou conhecida como “Milagre Econômico”. Para além do governo Costa e Silva, essa fase se estendeu até o fim do governo Médici, em 1974.

As primeiras ações empreendidas foram: controle da inflação, revisão da política salarial e ampliação do comércio exterior.

Politicamente, no ano seguinte à posse da Costa e Silva, o recrudescimento do arrocho repressivo veio com toda força quando o então deputado Márcio Moreira Alves (MDB) “pediu” às moças que se recusassem a dançar com os cadetes em protesto ao regime militar (inicialmente, Alves apoiou o golpe, mas em seguida tornou-se opositor quando do decreto do AI-1).

Alguns dizem que este fato fez com que Costa e Silva convocasse o Conselho de Segurança Nacional e editasse o AI-5. O Ato Institucional número 5, entre outras medidas:

- fechou o Congresso Nacional por tempo indeterminado;
- decretou o recesso dos mandatos de senadores, deputados e vereadores;
- suspendeu a possibilidade de qualquer reunião de cunho político;
- determinou a censura prévia à música, ao teatro e ao cinema; e
- suspendeu o “habeas corpus” para os chamados crimes políticos.

No entanto, no campo econômico, o Brasil iniciava um período de crescimento assombroso do PIB, com média de mais de 10% ao ano, entre 1968 e 1973.

Para se ter uma idéia, o setor da construção civil cresceu cerca de 15% ao ano. As montadoras de automóveis também registraram grande aumento da produção e comercialização: produziram, em 1970, 307 mil carros de passeio, o triplo de 1964.

Paradoxalmente, registrou-se nesse período um forte “arrocho salarial” e aumento da concentração de renda.

Acontece que Delfim Netto entendia que, para manter seu crescimento, o país carecia de uma ampliação da poupança interna. Para tanto, foram reprimidas as políticas de distibuição de renda, e, isso, por um motivo muito simples: as classes mais altas poupam mais que as classes mais baixas. Logo, interessava manter as classes menos favorecidas ainda menos favorecidas, para controlar o risco de declínio da poupança interna.

Sendo assim, era preciso (no dizer clássico de Delfim Netto) “aumentar o bolo, para depois reparti-lo.”

Aí é que foi adotado a tal “arrocho salarial.” O salarial mínimo real declinava substancialmente nesse período. O benefício de parte do operariado brasileiro se deu através de uma manobra hábil dos profissionais mais especializados. A desvinculação do salário dos seus salários do salário mínimo real. Isso foi o que deu a classe operária a possibilidade de ter algum benefício com o crescimento econômico.

Por sua vez, as classes médias e altas foram grandemente favorecidas durante esse período, devido às correções monetárias das poupanças. O resultado dessa política econômica tida como “genial” foi um aumento de concentração de renda, o que gerava um clima de euforia nas classes médias, cada vez mais contentes com o delicioso bolo de Delfim.

Paul Singer informa, em seu texto O Milagre Brasileiro – Causas e Conseqüências, que uma parcela dos 5% mais ricos da população, ampliou sua participação na renda nacional em 9% (em relação a 1960) e detinha 36,3% da renda nacional. Por outro lado, a parcela dos 80% mais pobres diminuiu sua participação em 8,7% no período, ficando com 36,8% da renda.

Enquanto as classes médias viviam uma situação de “pleno emprego”, comemorando a copa de 1970, e o aumento crescente da sua renda, as classes mais baixas estavam estagnadas em sua situação precária, e silenciadas eram tolhidas das mídias e das representações artísticas.

No entanto, o crescimento econômico coordenado por Delfim foi de fato surpreendente. O aumento do consumo de energia elétrica, de automóveis, de televisores e outros bens de consumo, o padrão de vida do brasileiro médio melhorava sensivelmente.

Mas, vejamos sob outra perspectiva, para perceber que se pode interpretar de diversas maneiras o chamado “milagre econômico”:

tomemos como exemplo um agricultor que ‘se mandou’ para algum centro urbano, na velha esperança de melhorar suas condições de vida – esse período registra grande fluxo migratório do campo para cidade. Lá (aqui), ele arrumou um emprego na construção civil (ou mesmo na indústria pesada), que crescia vertiginosamente.

Sem dúvida, as condições de vida desse trabalhador melhoraram em relação ao seu passado, nas relações arcaicas de trabalho no campo. No entanto, sabe-se também que parte dessas massas de trabalhadores que vieram do campo não conseguiram ser absorvidos pela indústria, e que assim incharam substancialmente as periferias e regiões metropolitanas das grandes cidades, como Recife, por exemplo.

Desse jeito, percebemos que se pode interpretar de diversas formas o período do Milagre Econômico, coordenado por Delfim.

O fim do milagre econômico se deu a partir de 1973. A crise do petróleo, em 1974, elevou os preços e a inflação mundial, principalmente no Brasil, que passou de 15,5% em 1973 para 34,5% em 1974.

O país levou um “golpe” no momento em que abdicou de uma política que privilegiava o transporte ferroviário, em prol dos transportes rodoviários. Ter substituído os trens por automóveis considero um dos grandes erros dessa política.

Mas, era uma relação de troca com o mercado externo: empréstimos eram obtidos em troca de certas escolhas, como esta, de favorecer a indústria multinacional de automóveis, em detrimento da opção histórica pelos transportes ferroviários, mais baratos e menos poluentes.

O aumento absurdo da dívida externa brasileira fez com que o país, para manter seu pagamento mínimo anual, afundasse em 10 anos de absoluta estagnação econômica, durante toda a década de 1980.

16 Comentários + Add Comentário

  • Muito obrigada….
    Essa sua postagem me ajudou mto em um trabalho escolar…
    Onde em vario site pesquizei mais não ficou esclarecido, para que eu apresentasse o seminario!!

  • este comentário é exatamete, oque procurava para meu trabalho escolar.

  • Muito interessante o texto. De extrema importância porque, com linguagem clara e objetiva, faz com que saibamos de detalhes daquela época que tanto foi aclamada pelos militares, mas que nos colocou num fosso social, vivido aidna hoje.

  • Gostei muito do texto , por que com ele obtive mais conhecimento
    OBRIGADO.

  • o texto me ajudou muito
    obrigada!

  • Amei este texto, me forneceu muito conhecimento! Grande abraço!!!

  • Estou fazendo uma monografia para uma faculdade da Argentina. Seu texto foi de muita ajuda, obrigada!

  • O texto tirou muitas dúvidas e foi de grande ajuda. Muito obrigado!

  • Vc esqueceu de dizer as causas dessas preferências injustificadas…
    Cada empréstimo desse, tinha uma parcela de comissão para os negociadores dos empréstimos. Com a liberação do dinheiro, uma parte era desviada para contas particulares, e como vivíamos numa ditadura, quem iria denunciar???
    Será que alguem ganhou alguma coisa, para aqueles senhores aceitarem tais imposições de favorecer determinados setores, em detrimento de outros, nitidamente mais vantajosos pra nossa sociedade.
    Políticos, tudo igual.

  • Obrigada pela clareza!
    Agora posso finalizar meu trabalho com mais riqueza de informação.

  • Olá, querido André!
    Obrigada por esse post, está me ajudando muito para minha monografia, que fala do aspecto social de Macabéa como mulher e como imigrante nordestina.
    Você possui mais material sobre esse período, que possa ter alguma ligação com “A hora da estrela”?
    Espero que sim.
    Abraço e desde já muito obrigada!

  • Obrigada me ajudou muito para o meu trabalho!

  • Obrigada.. Me ajudou bastante..! Estava meia confusa com o fim do milagre.. Mas já ficou muito escrarecido..! Tenho 2 dias pra fazer esse trabalho e montar seminário..! =).. Obrigada mesmo..!

    • esclarecido*

  • Sobre “Milagre Econômico Brasileiro”, quais foram as principais razões para sua ocorrência e as consequências positivas e negativas geradas pelo modelo econômico aplicado neste período.

  • Excelente artigo me ajudou bastante.Esse eu recomendo.

Tem algo a dizer? Vá em frente e deixe um comentário!

XHTML: Você pdoe usar as tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

Enquetes

Em relação às punições de corruptos...

Ver Resultado

Loading ... Loading ...

Frase do dia


  • “O homem de bem é um cadáver mal informado. Não sabe que morreu.”
    Nelson Rodrigues.

ARQUIVO

setembro 2014
S T Q Q S S D
« set    
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
2930  

Informação com Humor

MARCO BAHÉJornalista
É formado em Jornalismo e pós-graduado em História Contemporânea e História do Nordeste do Brasil. Foi repórter da Gazeta Mercantil para os estados de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. Também atuou como repórter do Jornal do Commercio, editor da Folha de Pernambuco e repórter especial do Diario de Pernambuco. É correspondente da revista Época no Nordeste desde 2003. Tamb´m atua com publicidade e marketing eleitoral desde 2004.
PIERRE LUCENADoutor em Finanças
É doutor em Finanças pela PUC-Rio e mestre em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco. É professor adjunto de Finanças da UFPE e foi secretário-adjunto de Educação de Pernambuco. É autor de vários trabalhos publicados no Brasil e no exterior sobre o mercado financeiro, e participa como revisor de várias revistas acadêmicas na área. É sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Finanças. Foi comentarista de Economia do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (TV Jornal e Rádio CBN). Atualmente é coordenador do curso de administração da UFPE, e Coordenador do Núcleo de Estudos em Finanças e Investimentos do Programa de Pós-graduação em Administração da UFPE (NEFI).