Por José Carlos Cavalcanti
Tomei conhecimento há duas semanas, através do blog do Prof. Greg Mankiw, da Harvard University, do lançamento do livro “The Myth of the Rational Voter: Why Democracies Choose Bad Policies” (O Mito do Eleitor Racional: Porque Democracias escolhem políticas ruins), da Princeton University Press, de 2007. O autor é Bryan Caplan, que é Professor Associado de Economia da George Mason University, nos EUA.
A tese do livro é polêmica, principalmente se transportada, sem a devida mediação, para outros contextos, já que o livro trata essencialmente da vida política dos EUA (e é bom colocar isso de antemão, para que alguns leitores deste blog não partam para a crítica ideológica sem atentar para as circunstâncias que levam um autor a escrever o que escreve!).
Segundo o Prof. Caplan o grande obstáculo para políticas econômicas sólidas não são os interesses de grupos entrincheirados, nem os crescentes lobbies, mas sim as falsas concepções populares, as crenças irracionais, e os viéses pessoais assumidos pelos eleitores comuns. O argumento do Prof. Bryan Caplan é que os eleitores continuamente elegem políticos que ou compartilham seus vieses, ou pretendem compartilhá-los, resultando assim em políticas públicas ruins que vencem novamente pelo voto popular.
Chamando a atenção para as suposições da política americana, Prof. Caplan afirma que a democracia falha precisamente por que ela faz aquilo que os leitores querem. Através de uma análise do comportamento dos eleitores americanos e opiniões num amplo leque de questões econômicas, ele defende a tese de que os não-economistas sofrem de quatro prevalecentes vieses: a) eles subestimam a sabedoria do mecanismo de mercado, b) desconfiam dos estrangeiros, c) desvalorizam os benefícios de conservar o trabalho, e d) acreditam, de forma pessimista, que a economia vai de mal a pior.
Ele apresenta várias maneiras de como governos democráticos funcionarem melhor, como por exemplo, urgindo que os educadores econômicos focalizem suas ações em corrigir falsas concepções, e recomenda que os governos democráticos façam menos e deixar os mercados assumirem.
As bases para a tese do Prof. Caplan são encontradas no conceito de “ignorância racional”. Segundo ele, existe o entendimento entre algumas pessoas que um voto tem uma probabilidade tão pequena de afetar o resultado de uma eleição que uma pessoa egoísta pode deixar de prestar atenção (“se dar ao luxo”, palavras nossas!) para as políticas (públicas). Ou seja, ela escolhe, no jargão econômico, ser “ignorante racional”. A ignorância eleitoral é um produto do egoísmo da natureza humana, e não uma aberração cultural. E isso pode ser considerado bastante normal em democracias, como a americana, em que o voto não é obrigatório (ao contrário do caso brasileiro, onde votar ainda é uma obrigação, e sujeita a várias sanções).
Deste modo, para o Prof. Caplan a presença na sociedade da ignorância racional de maneira ubíqua (em toda a parte) parece implicar, então, que a democracia funciona pobremente. Em suas palavras, “as pessoas que têm poder em última instância – os eleitores- estão fazendo cirurgia cerebral sem ter passado em anatomia básica”.
Para Prof. Caplan existem muitas tentativas de derrubar esta analogia, mas a mais profunda é que a democracia pode funcionar bem sob quase qualquer magnitude de ignorância racional. Como? Assuma que os eleitores não cometem erros sistemáticos. Apesar de eles (eleitores) errarem constantemente, seus erros são aleatórios. Se os eleitores enfrentam “cegamente” uma decisão entre X e Y, sem saber nada sobre X e Y, eles estarão igualmente escolhendo um ou outro.
Segundo o Prof. Caplan a chave para o entendimento destas questões é o que se convencionou chamar de o Milagre da Agregação. Um razoável número de economistas e cientistas políticos tem admitido a ignorância de eleitores individuais, mas eles ainda defendem a qualidade das decisões eleitorais. Por quê? Por causa do princípio da agregação. Eleitores individuais detêm pouca informação, logo seus votos são altamente aleatórios. Mas eleições são baseadas em opiniões agregadas de milhões de eleitores. Então, mesmo que haja um grande componente de aleatoriedade no voto individual, o princípio da agregação assegura, para todos os propósitos práticos, que os resultados ainda tenham sentido.
Uma outra maneira de entender este ponto é a seguinte: suponha que 90% de todos os eleitores são desinformados e votam aleatoriamente. Os 10% remanescentes são perfeitamente informados. Logo, em um contexto entre dois partidos, o princípio da agregação dá a cada político 45% dos votos, não importando o que eles sejam ou façam. Mas eles precisam de 50% dos votos para vencer. Nada do que eles possam fazer importa para os desinformados. Logo, quem os políticos devem cuidar? Dos eleitores informados. Neste exemplo qualquer candidato que ganhar o apoio da maioria dos eleitores informados também vence a eleição. Este resultado tem sido chamado do “milagre da agregação”. Parece ser milagroso porque implica que um eleitorado altamente desinformado pode – no nível agregado – agir “como se” ele fosse perfeitamente informado.
Para dar substância ao seu argumento, o Prof. Caplan apresenta alguns dados do grau de desinformação da vida política dos americanos. Segundo ele, metade dos americanos não sabe que cada um dos 50 estados dos EUA tem dois senadores, e ¾ não sabem a extensão dos seus mandatos. Mais da metade dos americanos não sabe nominar seus congressistas, e 40% não sabe nominar seus próprios senadores.
Ou seja, o Milagre da Agregação prova que a democracia pode funcionar mesmo com um eleitorado ignorante. Mas, argumenta o Prof. Caplan, há também uma outra categoria de evidência empírica que pode desacreditar o Milagre da Agregação. O Milagre só funciona se os eleitores não incorrem em erros sistemáticos. Isto sugere que ao invés de refazer todo o tópico do erro do eleitor, nós concentremos nosso fogo numa crítica e inexplorada questão: os erros dos eleitores são sistemáticos?
Para o Prof. Caplan há boas razões para suspeitar que sim. Ele ainda aprofunda sua questão: os erros dos eleitores são sistemáticos em questões de relevância política? Sua resposta é um enfático sim, e o livro apresenta evidência empírica robusta de que, pelo menos as crenças sobre o funcionamento da Economia são perfuradas por severos erros sistemáticos.
Enfim, um livro que está dando muito o quê falar, pelo menos entre os eleitores mais informados!
Por José Carlos Cavalcanti é Professor de Economia da UFPE, ex-secretário executivo de Tecnologia, Inovação e Ensino Superior de Pernambuco (http://jccavalcanti.wordpress.com)



Então o Prof. Caplan notou que na ausência de um sistema educacional socializado os eleitores não fazem boas escolhas. Surpreendente?
A real pergunta é qual a escolha que a sociedade vai fazer a partir deste fato. Fundamentalistas como os americanos estão, não vai me causar espécie se eles decidirem se livrar da democracia…