por Pablo Holmes
de Berlin, Alemanha
para o Acerto de Contas
Hoje se comemoram aqui em Berlin os 20 anos da queda do famigerado muro que dividiu a cidade por quase 30 anos. Como fato histórico, as festividades são um momento de reencontro e reflexão sobretudo para aqueles que pertencem a uma geração que já tem distanciamento para observar os fatos como fato da história contemporânea alemã, mas que ao mesmo tempo estiveram não só como observadores, mas, como participantes, presentes naqueles eventos.
Alguns velhos marxistas ainda pensam que a queda do muro foi o resultado do acúmulo de erros de uma história equivocada de “administração do processo revolucionário”. No fundo, o totalitarismo da ideologia do partido único, tributária em parte ao velho idealismo alemão, não consegue perceber que os corpos humanos são dotados de uma riqueza de possibilidades de descoberta de prazeres que não suporta longos períodos de administração total. Essa ideologia, no fundo autoritária, padece em verdade de um grande paradoxo: idéia de que uma burocracia que encarna os desejos objetivos de uma classe pode ser capaz de manifestar os desejos de todos os homens numa democracia radical em que todas as liberdades individuais são sacrificadas em benefício de uma liberdade coletiva a ser construída como nova ideologia comum.
O impulso para isso é, porém, o desejo individual por felicidade e autodeterminação de cada homem, humilhado e desrespeitado, o que moveria a própria organização em um partido revolucionário. O paradoxo reside em que, depois de despojar-se de toda ideologia burguesa, da jaula de ferro do cristianismo burguês legitimador do Estado e da família machista, resta a impressão de que a vida humana é algo tão único, tão precioso, que não parece poder ser atribuído a ninguém o poder de dizer como as pessoas devem levar sua vida. Qualquer forma de imposição, coletiva ou não, de formas de vida se torna uma experiência decaída, uma nova experiência de servidão. E esse paradoxo se revelou todas as vezes que se tentou sacrificar a liberdade individual.
A queda foi sim um momento de revolta e um momento de júbilo e criatividade comunicativa. Um momento revolucionário em que a Constituição da República Democrática Alemã (DDR) pareceu inconstitucional aos próprios olhos de seu povo, e em que eles fundaram uma nova ordem constitucional com aquilo que há de mais legítimo em qualquer democracia: a possibilidade de transformar criativamente o direito e a vida comum. Nesse sentido, a unificação representou não apenas a vitória de uma massa ávida por usufruir dos ganhos de uma Alemanha Federal enriquecida no pós-guerra – como alguns gostam de fazer pensar. Ela foi o resultado da dissolução de um regime autoritário que consumiu a si mesmo durante longos anos, na medida em que causava profundo sofrimento para a grande maioria daqueles que viviam sob ele. Um momento emancipatório no qual a sociedade mundial pôde refletir sobre como não se deve construir uma alternativa às históricas formas de domínio dos corpos, de reprodução de desigualdades e ao sofrimento que existiam antes da revolução bolchevique e não cessaram de existir até os nossos dias.
Certamente, para a evolução das formas políticas que herdamos da geração dos nossos avós, podemos dizer que a juridificação do conflito de classes – por meio do direito do trabalho, mas em larga medida também pela constitucionalização de direitos sociais em toda sociedade mundial, capaz até mesmo de torná-lo uma fonte irrelevante de tensões em nossos dias, já que o “excluído” de hoje é apenas raramente o operário – foi essencial para a expansão da democracia. E isso parece ter sido um fenômeno que ganhou impulso também graças à experiência do socialismo real.
Em perspectiva, hoje seja possível talvez perceber, sobretudo para aqueles que viviam do lado oriental do muro, que a vida não se tornou a maravilha que muitos esperavam. Para muitos, a vida nem mudou tanto assim. Os índices de desemprego e pobreza permanecem altos, são mais altos que antes da unificação, enfim. E, apesar do crescimento econômico dos últimos anos pré-crise de 2008, a miséria, acompanhando uma tendência em toda a Europa, tem crescido de modo considerável. A classe média tem se empobrecido e surge uma pequena massa de ricos que cada vez mais é descoberta em escândalos de evasão fiscal que envolvem bancos em Mônaco, na Suíça e em Luxemburgo.
Existe um livro conhecido na sociologia alemã desde a década de 1990 que se chama “A brasilianização da Europa”, do Ulrich Beck, e que relata, exatamente, como a dinâmica da globalização produz mais exclusão e concentração de renda, inclusive no centro do capitalismo. Poderíamos dizer, ironicamente, que, enquanto observamos nos últimos anos uma desbrasilianização do Brasil, eles aqui parecem copiar o que há de mais detestável em nosso modelo de concentração de riquezas. Por outro lado, se a vida do alemão da ex-DDR não se tornou o paraíso na terra, como alguns esperavam, tampouco acredito que seja considerável o número daqueles que, em sã consciência, estariam dispostos a voltar àqueles tempos.
No fundo, esse momento serve para lançarmos um olhar atento à velocidade dos acontecimentos dos últimos 60 anos, desde a Segunda Guerra Mundial. Ao contrário do que alguns quiseram fazer parecer logo apos a queda do muro, a história não acabou no ano de 1990, com a vitória triunfal do reino da liberdade. Os problemas que ainda persistem na Alemanha e que se revelam de modo ainda mais cruel em grande parte da superfície do globo são ainda o grande motivo de reflexão e ainda não deixaram de representar um motor para a história. Olhar para a noite daquele 9 de novembro de 1989 nos lembra, porém, do que é capaz a criatividade daqueles que são os únicos que podem fazer a história com suas próprias mentes, mãos e corpos.
Enfim, há 20 anos, desde o dia de hoje, viu-se mais uma vez libertado, como o é a cada nova revolução, o sonho daqueles que pensam em um mundo em que se realize a idéia tão paradoxal da democracia – a de que a dominação política e jurídica é a institucionalização de nenhuma dominação, já que ela é a auto-instituição de deveres. Libertados apenas para continuar a formulação cotidiana de formas de convivência em que os sujeitos sofram menos e possam se auto-constituir numa descoberta permanente de seus corpos, de suas vocações e seus destinos. Isso implica, sem dúvida, como nunca deixou de ser, a construção de uma sociedade livre e com iguais oportunidades para todos.
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* Pablo Holmes é Bacharel e mestre em Direito pela UFPE e Doutorando em Sociologia na Universität Flensburg,em Berlin, Alemanha.




Muito bom Pablo. Texto bem ponderado e com idéias extremamente interessantes.
Ressalto que não conheço os dados sobre a alegada piora do quadro social após a queda do muro. Na verdade, o pouco que conheço demonstra a diminuição da pobreza, apesar do aumento da desigualdade (o que parece paradoxal, mas não é) nos países que adotaram reformas (neo)liberais.
Mas, conconrdo plenamente com você, o ponto fundamental é o seguinte: o que está em jogo não é uma mera questão econômica ou sobre os limites do intervencionismo estatal, mas a superioridade moral da democracia liberal, algo que a queda do muro demonstrou claramente.
No fundo, se a democracia gera ou não maiores oportunidades, é algo que devemos discutir no âmbito do respeito às liberdades. Jamais trocando liberdade por igualdade.
Assinaria embaixo de uma afirmação sua:
“Por outro lado, se a vida do alemão da ex-DDR não se tornou o paraíso na terra, como alguns esperavam, tampouco acredito que seja considerável o número daqueles que, em sã consciência, estariam dispostos a voltar àqueles tempos”.
Parabéns pelo texto.
meu caro, liberdade e igualdade andam juntas. Liberdade é uma idéia grega, igualdade é uma idéia judaico-cristã. Mas a democracia moderna depende das duas, sem qualquer redução. liberdade sem inclusão já houve na grécia, e inclusão sem liberdade é o que houve do lado de lá do muro. A solução não é uma liberdade da qual a igualdade não faça parte.
Sugiro um ótimo livro sobre isso: Brunkhorst, Hauke. Solidarity. (MIT press).
Relevemos, tiveram origem grega, judaico-cristã e feminista.
Apenas metade da humanidade era beneficiada pelas ideias de liberdade e igualdade dessas culturas. As mulheres não tiveram acesso a elas por muito tempo, permaneceram obscurecidas.
Leia Simone de Beauvoir e vai entender… e se indignar.
Feminista no que tange estender tais ideias a elas.
Discordo amigo. Essa igualdade aí é a igualdade formal. Essa sim anda com a liberdade e uma depende da outra.
A falta de igualdade do grego era a de igualdade formal, típica da democracia moderna.
Repito o que disse: não se troca liberdade por igualdade. Essa, a igualdade material. Essa que supostamente havia atrás do muro. Para obtê-la, não devemos lançar mão do fim da liberdade. Esse é o ponto. A democracia pode sim viver num ambiente de desigualdade material.
meu caro,
Eu entendo democracia como algo que depende sim de alguma igualdade material. Isso faz parte do conceito de participação política. Algo próximo àquilo que a Fraser chama de paridade de participação, ou habermas chama de equilíbrio entre liberdade pública e liberdade privada. Aliás, do ponto de vista de um conceito formal de liberdade, é sempre bom lembrar a idéia do véu da ignorância de Rawls.
No mais, reprovo a experiência do socialismo real. Mas não entendo porque vc parece aderir ao novo Comando de Caça ao Comunismo neocon. Sinceramente, acho esse povo todo anti-intelectual e, na verdade, bastante autoritário. Na forma de falar, na forma de se vestir e na forma de viver, se é que você me entende.
Ainda mais no Brasil. Pois soam simplesmente meio ridículos (Olavo de Carvalho, Mainardi, Azevedo e cia: gente que não passa de jornalista, mas querem ter pinta de filósofo político).
No mais, na minha cabeça, não tenho nenhum, mas nenhum problema em conciliar liberalismo político e uma posição à esquerda no espectro político. Aliás, esse fenômeno neocon anda fazendo sucesso no brasil, mas nem nos EUA encanta mais tanto assim. Aqui na europa, nem existe.
Meu amigo,
Nosso ponto de discordância, então, é meio óbvio. Até aceito a relação entre igualdade material e democracia como em Habermas ou Rawls. O véu da ignorância é mesmo brilhante. Mas Fraser já não dá… (É Nancy Fraser, não é?) Nem ela nem qualquer os “neocoM”, a nova esquerda comunitarista, que abomino.
Concordamos então sobre a experiência do socialismo real. Mas não entendi bem seu aperreio com o tal “comando de caça ao comunismo”. Em primeiro lugar porque não dá para comparar Olavo de Carvalho com Mainardi. Em segundo porque não é preciso ser intelectual para ter posição política, especialmente liberal. Afinal, se fosse deixada apenas à academia a tarefa de discutir questões políticas, estaríamos perdidos com tantos esquerdistas.
Ademais, não vejo qualquer autoritarismo nas posições destes que você aponta. São só jornalistas que escrevem muito bem, por sinal. Cobrem uma lacuna no nosso meio acadêmico, com certeza.
Finalmente, ainda acho importante recusar o comunismo publicamente. Ele ainda está presente como idéia política viável em muitos setores, inclusive a academia brasileira. Se enfatizar a liberdade contra os autoritarismos da esquerda ainda remanescente é aderir a esse comando, eu adiro mesmo.
No mais, também acho possível ser liberal e de esquerda. Mas acredito que há sempre a possibilidade de a proposta política dessa “corrente” tender para o autoritarismo, como é o caso do PT. Talvez seja essa a razão do “sucesso neocon” que você aponta. Ressaltando-se que apenas esquerdistas usam esse termo “neocon”…
No fim das contas, o que acho importante é enfatizar que é muito saudável a convivência entre posturas políticas. Sou muito tolerante nesse aspecto e é por isso mesmo que me manifesto sobre tantos assuntos. Não acho que posturas como as apresentadas pelos “neocon” brasileiros devam ser demonizadas. Com um presidente a 80% de popularidade, só faltava mesmo era não haver sequer pensamento político de direita no Brasil. Seria melhor proibir logo citar de Locke a Ayn Rand…
Abraços.
É… parece que esse texto ficou mesmo “em cima do muro”!
Eu não gostaria mesmo de voltar a um tempo desses. Piora do padrão de vida? Que dados são esses??!?!?!?!?!?!?
“Os índices de desemprego e pobreza permanecem altos, são mais altos que antes da unificação, enfim. E, apesar do crescimento econômico dos últimos anos pré-crise de 2008, a miséria, acompanhando uma tendência em toda a Europa, tem crescido de modo considerável.”
Pablo, seria interessante que você informasse esse índice de pobreza na Alemanha que permanece alto…
Quanto aos índices de desemprego da ex-Alemanha Oriental serem maiores que antes da reunificação é meio que óbvio, já que o sistema era socialista.
Além disso, miséria crescendo de modo considerável na Alemanha??!! De qual miséria você está falando? A de receber o Hartz IV?
O que se percebe (e tenho discutido com amigos sobre isso) é o aumento da desigualdade de renda na Alemanha, e isso ocorre mesmo havendo crescimento real dos salários para todas as esferas (basta que os salários das esferas “de cima” aumentem mais do que os das esferas “de baixo”).
Com relação à “dinâmica da globalização”, é interessante lembrar que a Alemanha é a 2a. maior exportadora do mundo, atrás da China. Será que as idéias do Ulrich Beck encontram mais eco entre os alemães do que entre os latino-americanos?
me referia ao número de Hartz IV Empfänger, ao falar de miséria. Claro que para padrões alemães, nada que se refira a nossos padrões. A desigualdade tem crescido ano a ano, e classe média encolheu depois da crise. Essas são informações que eu recebo por jornais. Mas posso dar uma olhada com calma e passar os dados depois. Agora, depois de chegar da festa, no brandenburger Tor, vou dormir que amanhã é dia de feira.
O MURO NADA MAIS DO QUE UMA FORMA BRUTA,
DE SUBJUGAR AQUELES QUE A SOCIEDADE SACIADA
POR DESEJOS PERVERSOS DE LUCROS E GRADEZAS VÃS.
FORAM JOGADOS NO PARADOXO DE IDEOLOGIAS DISFARÇADAS
POR “POTÊNCIAS” NARCIZISTAS ENCRAVAS NO DESEJO ENCONTROLAVÉL DE LUCRO.
Cada homem?
Consideremos que as mulheres foram humilhadas e desrespeitadas múltiplas vezes mais ao longo da História. Sem querer repreender o autor do texto, mas até o uso de “homem” como sinônimo de pessoa ou ser humano é um desrespeito a elas.
Muito bom, Pablo.
Como diria o Antonio Abujamra, no Provocações: “enforquemo-nos com a corda da liberdade”