O neo pelego

mai 23, 2010 by     11 Comentários    Postado em: Artigos e Análises

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Por Heitor Scalambrini Costa
para o Acerto de Contas

No instrumental dos peões, pelego é um pano grosso e dobrado, ou uma pele de carneiro curtida, mas ainda com a lã, que se coloca em cima do arreio. O cavaleiro monta sobre o pelego antes de montar sobre o cavalo. Conforme o mestre Aurélio, pelego é: a pele do carneiro com a lã; pele usada nos arreios à maneira de xairel; indivíduo subserviente, capacho. É sobre essa última definição que quero comentar.

O termo pelego foi popularizado durante o governo de Getúlio Vargas, nos anos 1930. Imitando a Carta Del Lavoro, do fascista italiano Benito Mussolini, Vargas decretou a Lei de Sindicalização em 1931, submetendo os estatutos dos sindicatos ao Ministério do Trabalho. Pelego era então o líder sindical de confiança do governo que garantia o atrelamento da entidade ao Estado. Décadas depois, o termo voltou à tona com a ditadura militar. Pelego passou a ser o dirigente sindical apoiado pelos militares, sendo o representante máximo do chamado sindicalismo marrom. A palavra, que antigamente designava a pele ou o pano que amaciava o contato entre o cavaleiro e a sela, virou sinônimo de traidor dos trabalhadores e aliado do governo e dos patrões. Logo, quando se chamado de pelego, significava que a pessoa era subserviente/servil/dominada por outra, ou seja, capacho, puxa-saco, bajulador.

Mas como se pode definir esse trabalhador que se acovarda, que aceita tudo o que o patrão e o governo querem, sem questionar? Pelego é trabalhador que se deixa montar pelo patrão e/ou pelo governo; é o que não consegue reagir frente à humilhação; é quem não luta por seus direitos, por medo das conseqüências; é o pusilânime que se esconde atrás de desculpas esfarrapadas para justificar a própria covardia; o que não tem coragem de lutar, o(a) COVARDE, enfim, o que se esconde atrás daqueles que lutam, aproveitando da peleja alheia como um parasita. Pelego é aquele trabalhador que não sabe o significado da palavra solidariedade, o egoísta que não consegue ver nada além de suas próprias e momentâneas necessidades; é aquele(a) que, terminada a greve, não consegue olhar nos olhos de seus companheiros, porque se sente uma sub-pessoa, uma não-gente, pois lhe falta uma parte essencial a todo ser humano que se preze: o brio, a coragem, o amor próprio, a nobreza de caráter, enfim.

Em tempos mais recentes, com a eleição do governo Lula, presidente originário do movimento sindical, os movimentos sociais foram cooptados e trazidos para dentro do aparelho do Estado, e lá eles se neutralizaram, se anestesiaram, se despolitizaram. O “oficialismo” tirou qualquer possibilidade de crítica e de reivindicação política. Os sindicalistas, militantes tornaram-se assim, em muitos casos, funcionários do governo. E agora, quem arbitra e decide tudo é o presidente. De fato, esses movimentos, os trabalhadores e muitos sindicatos confundiram a necessária postura de autonomia que deveriam manter em defesa dos direitos dos trabalhadores, e não souberam lidar com esta realidade. Tornaram-se parceiros, associados do governo e dos patrões, chamados agora de neo pelegos. Todos irmanados no mesmo interesse, como se fosse possível apagar, negar as classes sociais. Como se não existisse mais o capital e o trabalho. Existe maior embuste? Sem deixar de mencionar que tiveram mais recentemente, aprovado o imposto sindical, e que recebem recursos financeiros de vários Ministérios e do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT).

Só a militância crítica há de nos livrar da sina de ser neo pelego. Afinal, a gente pode até morrer teso, mas nunca perdendo a pose. Tudo pode ser tirado, mas não se pode tirar a coragem de lutar de uma pessoa decidida. Recuso-me a sair da militância política pela construção de uma sociedade justa, solidária, que leve em conta a humanidade dos homens e mulheres em qualquer parte do mundo. Não é esta a grande e universal luta dos trabalhadores?

Ser neo pelego? Nenhum trabalhador ou trabalhadora jamais deveria passar por essa infâmia.

_______________________________
* Heitor Scalambrini Costa é professor da Universidade Federal de Pernambuco

11 Comentários + Add Comentário

  • Excelente tema abordado pelo professor e excelente iniciativa deste blog em publicar:

    Nada pior que pelegos numa sociedade – é a escória social de todos os tempos, travestidos de “movimentos sociais”, “movimentos sindicais”., “movimentos estudantis”, “movimentos profissionais”, …

    Por sinal, saiu hoje uma matéria interessante sobre o tema – “Banditismo sindical – Sindicato vira negócio lucrativo e País registra uma nova entidade por dia”.

    Esta proliferação se deu a partir de 2008, quando Lula decretou (peitando o próprio Tribunal de Contas da União) que sindicatos não precisam prestar contas do dinheiro público que recebem.

    Resultado: o que vemos hoje senão pelegos a serviço do governo federal. ( nenhuma fiscalização, nenhum protesto, nenhuma queixa, subserviência absoluta a quem patrocinador a escória).

  • Excelente tema abordado pelo professor e excelente iniciativa deste blog em publicar:

    Nada pior que pelegos numa sociedade – é a escória social de todos os tempos, travestidos de “movimentos sociais”, “movimentos sindicais”., “movimentos estudantis”, “movimentos profissionais”, …

    Por sinal, saiu hoje uma matéria interessante sobre o tema – “Banditismo sindical – Sindicato vira negócio lucrativo e País registra uma nova entidade por dia”.

    Esta proliferação se deu a partir de 2008, quando Lula decretou (peitando o próprio Tribunal de Contas da União) que sindicatos não precisam prestar contas do dinheiro público que recebem.

    Resultado: o que vemos hoje senão pelegos a serviço do governo federal. ( nenhuma fiscalização, nenhum protesto, nenhuma queixa, subserviência absoluta a quem patrocina a escória).

  • Vale o segundo comentário…

  • Ótima colocação!
    ótimo post! Inclusive, gostei da acidez com que o texto foi escrito, e o chamado para que não nos tornemos neo pelegos.

  • Helena complementou na veia esse atualíssimo texto do prof. Heitor. Na condição de bancário, observo que no sindicato que nos representa em Recife, por exemplo, lutou-se bastante nos anos 80 para expulsão da pelegada dos Labanca. Passadas mais de duas décadas todo mundo que era tido como “liderança”, os tais “quadros” de grande importância para a “categoria”, foram ficando no sindicato. Foram ficando e deixaram de ser banacários para assumirem a
    “profissa” de sindicalistas. E o peitinho foi dando leite, os cargos aparecendo na prefeitura, no governo, e no final das contas a mais perfeita definição do neo-pelego: Aquele que não larga a tetinha e ainda não precisa prestar contas de nada. Essa, infelizmente, é uma das chagas do petismo: todas as Centrais Sindicais (merecem o maiúsculo?) estão apoiando Lula. Não há oposição sindical em nosso país. Dilma ganhando, espero, com muito pouca esperança ,que ela faça renascer a meritocracia nos cargos de confiança do governo. E que governadores, prefeitos, assumam o compromisso de desvincular o peso sindical na hora de indicar alguém. Há um caso emblemático no banco onde trabalho. Vergonhoso. Mas deixa estar. Esse assunto rende bons tratados sobre a questão do tamanho do estado. Não é para amadores feito eu.

  • A grande luta universal dos trabalhadores?

    Eu ainda não consigo decidir se quem fala assim o faz por má fé ou ingenuidade. Mas eu vou tirar pela ingenuidade, até porque um dia eu já pensei quase assim também.

    A história da humanidade e das sociedades não é uma eterna briga entre capital e trabalho, como alguns insitem em afirmar. Esta é apenas uma leitura sobre uma parte da história de uma parte do mundo. Marx não devia nem ter ideia da existência do Brasil opu de seus trabalhadores.

    Os trabalhadores nunca tiveram uma luta universal, em nenhum momento da história da humanidade. O artigo do professor até que ia bem ao questionar as práticas sindicais atuais. Mas, ao final, revela sua verdadeira face: a de querer que o mundo todo tenha o mesmo pensamento e prática. Estou engananda, ou foi exatamente este pensamento que levou o governo do PT a “cooptar” os sindicatos e centrais sindicais?

  • Eu vivi a luta sindical nos anoos 80 e nao acho que o que se pratica agora eh peleguismo. Peleguismo era para a gente (e continua sendo, eu acho), a traicao dos dirigentes sindicais, que se vendiam para causas que nao eram dos interesses dos trabalhadores. Hoje existe uma clara associacao entre os dirigentes e a politica governamental, porque ela INTERESSA aos trabalhadores, gera emprego e renda, privilegia as classes baixas (das quais fayem parte a maior parte das familias dos trabalhadores), e vai por aih afora…

    • O conceito de traiçao ficou elástico demais. Antes eram os sindicalistas que jogavam a favor dos patrões contra os empregados. E hoje? Não é traição não prestar contas? Fazer carreira? Ficar 21 anos no sindicato? Pegar cargos no Detran, Fundarpe, DRT (antiga, mudou de nome). Voltar ao banco depois de 10, 12, 13 anos e totalmente fora do mercado, assumir um cargo passando na frente de centenas de candidatos porque o vice-presidente é do PT e amigo do cara, que passa quatro anos em Brasília só no gagau, se aposenta com um puta salário e by by otários. Se isso não for o neo-peleguismo é o neo-filhadaputismo. A escrotidão quase generalizada no movimento sindical. Sinceramente. A categoria não tem categoria nenhuma. Exceções existem, são exceções. Generalizar é perigoso? É! Mas e esconder a realidade? Cadê Paulinho da força sindical? A Contraf-Cut, no caso específico dos bancários, luta pela categoria obedecendo aos parâmetros do governo federal. Não há avanços nestes oitos anos. Posso falar porque sofro na pele. Quem tem um sindicato forte , com pessoas idôneas, comparece, associa-se e torna o sindicato mais forte ainda. E cobra o rodízio dos cargos. De dois em dois anos entra outra turma, deixando a primeira retornar para a empresa para também lutar por ela. É isso que acontece? Em verdade não. Lamentavelmente.

  • “…….os movimentos sociais foram cooptados e trazidos para dentro do aparelho do Estado….”

    perversa generalização.

  • Tem razão Diego, a generalização não corresponde aos fatos.
    Heitor

  • Artigo pontual na localização, classificação e distorção desta “função”. Ao meu ver, tal como no período Vargas e nos modelos mais toscos possíveis, os movimentos sindicalistas usam os trabalhadores como masa de manobra. O lulopetismo foi a radicalização disso e se havia alguma pureza na organização dos trabalhadores, isso deixou de existir. Quem prega diferenças por meio do valor adquirido e por meio do ódio já mostra o que é e o que pretende fazer. Aliás, tudo o que a Lava Jato está expondo traduz o que penso. O Brasil ñ precisa de guerras e de pelegos, cupinchas, apaniguados, covardes e oportunistas —que tornam-se corruptos e corruptores—, mas DEMOCRACIA em sua plenitude. O presidencialismo no Brasil ñ amadureceu, os trabalhadores ñ foram educados e, sim, continuam a ser expropriados.

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MARCO BAHÉJornalista
É formado em Jornalismo e pós-graduado em História Contemporânea e História do Nordeste do Brasil. Foi repórter da Gazeta Mercantil para os estados de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. Também atuou como repórter do Jornal do Commercio, editor da Folha de Pernambuco e repórter especial do Diario de Pernambuco. É correspondente da revista Época no Nordeste desde 2003. Tamb´m atua com publicidade e marketing eleitoral desde 2004.
PIERRE LUCENADoutor em Finanças
É doutor em Finanças pela PUC-Rio e mestre em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco. É professor adjunto de Finanças da UFPE e foi secretário-adjunto de Educação de Pernambuco. É autor de vários trabalhos publicados no Brasil e no exterior sobre o mercado financeiro, e participa como revisor de várias revistas acadêmicas na área. É sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Finanças. Foi comentarista de Economia do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (TV Jornal e Rádio CBN). Atualmente é coordenador do curso de administração da UFPE, e Coordenador do Núcleo de Estudos em Finanças e Investimentos do Programa de Pós-graduação em Administração da UFPE (NEFI).