(Encontrados em rios no leste e sul da Austrália, os ornitorrincos (Ornithorhynchus anatinus) são conhecidos por suas características bastante peculiares. São mamíferos, pois têm o corpo coberto por pêlos e amamentam seus filhotes. Contudo, colocam ovos semelhantes aos dos répteis e possuem nadadeiras e um bico, como o de um pato (foto: Wikimedia Commons).
Caro leitor: não estou aqui hoje para falar sobre Biologia, tema que me agrada muito! Mas sim para recordar algo que surgiu no ano de 2003, logo no início do Governo Lula. Estou me referindo ao livro “Crítica à Razão Dualista: O Ornitorrinco” (Boitempo Editorial), do sociólogo Francisco de Oliveira, um dos fundadores do PT, mas que, com o lançamento deste livro (em 2003), marcou seu rompimento com este partido.
E por que tratar disto agora? Primeiro, porque este é um ano eleitoral e será difícil não tratarmos, aqui acolá, de Política (com P maiúsculo!). Mas, em segundo lugar, porque estou observando que neste blog está se iniciando algo que pode parecer interessante (a discussão sobre nomes, e suas articulações para cargos públicos), mas que na minha humilde opinião, pode colocar em segundo plano uma discussão associada, porém mais aprofundada, que é aquela sobre quais são os interesses em jogo!
Neste sentido procurei resgatar o livro acima de Francisco Oliveira que é um dos marcos da análise política recente. O livro é, na realidade, uma re-edição de um clássico das literaturas econômica e sociológica brasileiras: “A economia brasileira: crítica à razão dualista”, lançado em 1973. Aproveitando o resumo da própria editora, em Crítica à razão dualista, Chico de Oliveira (como é mais conhecido) propôs uma nova forma de pensar a economia brasileira, oposta à da intelectualidade da época que, ao mesmo tempo em que denunciava a miséria em que vivia (ainda vive) a maior parte da população latino-americana, mantinha seu esquema teórico amarrado à economia de mercado. Essa dualidade, segundo Chico, “reconciliava o suposto rigor científico das análises com a consciência moral”, levando à proposições reformistas que reduziam a luta de classes à demanda.
Crítica à razão dualista tenta apanhar esses caminhos cruzados: como “crítica, ela pertence ao campo marxista; como especificidade, pertence ao campo cepalino (ou seja, vindo da CEPAL, que é a Comissão Econômica para América Latina- grifos nossos!). Quanto à teoria do subdesenvolvimento, ela seria em parte responsável pela não formulação de uma análise do capitalismo no Brasil”.
Três décadas depois, como aponta o resumo da Boitempo, a obra de Chico de Oliveira continua sua busca pela intersecção permanente entre a política, a economia e a sociedade brasileira e seus conflitos. Foi assim que ele promoveu a atualização de sua Crítica, ao escrever um artigo apensado ao livro, intitulado “O Ornitorrinco”, que a Boitempo sintetizou da seguinte forma:
“O ornitorrinco, nome que deu ao Brasil de hoje, sob o signo de Darwin: “altamente urbanizado, pouca força de trabalho e população no campo, dunque nenhum resíduo pré-capitalista; ao contrário, um forte agrobusiness. Um setor industrial da segunda Revolução Industrial completo, avançando, tatibitate, pela terceira revolução, a molecular-digital ou informática. (…) Mas esta é a descrição de um animal cuja `evolução` seguiu todos os passos da família! Como primata ele já é quase Homo sapiens! Parece dispor de `consciência`, pois se democratizou há já quase três décadas. Falta-lhe, ainda, produzir conhecimento, ciência e técnica: basicamente segue copiando, mas a decifração do genoma da Xylella fastidiosa mostra que não está muito longe de avanços fundamentais no campo da biogenética; espera-se apenas que não resolva se autoclonar, perpetuando o ornitorrinco”.
Esse bicho, que não é isso nem aquilo – um animal improvável na escala da evolução – (muito apropriado ao contexto do que chamamos “síndrome macunaíma” que o Brasil está vivenciando, como apontamos no artigo da semana passada), foi a forma encontrada por Chico para qualificar a espécie de capitalismo que se gerou no país e que não dá mostras de mudança no momento mesmo em que o Partido dos Trabalhadores chegou à Presidência da República (encerramos aqui as observações da Boitempo).
Mas uma das contribuições mais importantes de Chico Oliveira em Ornitorrinco é a do lançamento da tese da existência de uma verdadeira nova classe social no Brasil. Neste esforço, Chico Oliveira se baseia no fato de que o Ornitorrinco (aquilo em que nos transformamos) além de ser uma das sociedades capitalistas mais desigualitárias, sua estrutura de classes foi truncada ou modificada: “as capas mais altas do antigo proletariado converteram-se … em analistas simbólicos: são administradores de fundos de previdência complementar, oriundos das antigas empresas estatais; fazem parte de conselhos de administração”. Estes fatos, e outros relatados por Chico Oliveira, explicam recentes convergências pragmáticas entre o PT e o PSDB, o aparente paradoxo de que o governo de Lula realiza o programa FHC, radicalizando-o:
“… não se trata de equívoco, nem de tomada de empréstimo de programa, mas de uma verdadeira nova classe social, que se estrutura sobre, de um lado, técnicos e economistas doublés de banqueiros, núcleo duro do PSDB, e trabalhadores transformados em operadores de fundos de previdência, núcleo duro do PT. A identidade dos dois casos reside no controle do acesso aos fundos públicos, no conhecimento do `mapa da mina´”.
Entretanto, pegando carona na linha de raciocínio de Chico Oliveira, é possível afirmar que este processo (ou ambiente) que gerou o nosso Ornitorrinco não estancou, e, ao contrário do que se imagina, está em franca evolução. Ou, parafraseando o nosso Presidente Lula, está em metamorfose ambulante, afetando sobremaneira o nosso Ornitorrinco!
Depois da “metamorfose depurativa” que ocorreu com as denúncias de corrupção no núcleo puro do PT em 2005 (lembram-se de 2005? lembram-se do processo de “compra” dos partidos políticos? ), veio a eleição de 2006 e o país praticamente “esqueceu” que aquele ano havia sequer existido (ou que ele fora congelado no tempo). A este estágio podemos denominar de “metamorfose hibernante”, onde o Ornitorrinco, para sobreviver esta etapa de “congelamento dos novos pensamentos, das idéias, das propostas, dos planos e dos projetos de um país menos burocrático, menos cartorial, menos violento, menos desigual, menos ignorante, menos deseducado, menos doente, menos poluído”, preferiu se colocar em estado de inatividade até que chegassem as eleições de 2008, quando ele sai de sua toca.
Ao se aproximarem as eleições de 2008, o Ornitorrinco certamente despertará, e irá comprovar que o seu habitat se dividiu em dois, durante seu período de hibernação: um que está embebido pelo chamado Lulismo (corrente política ligada ao “pensa e pratica” o Presidente Lula), e outro que está mais preocupado com a Era Pós-Lulismo, ou seja, de superação desta fase da história política do Brasil!
Mesmo que as eleições de 2008 estejam associadas à escolha de lideranças políticas dos municípios (prefeitos e vereadores), é muito difícil acreditar que elas estejam dissociadas das eleições de 2010, quando efetivamente o Ornitorrinco perceberá em que direção seu habitat se transformará!
Caricaturas à parte, as eleições de 2008 não são apenas mais um processo eleitoral para os representantes do poder local; elas têm um significado mais profundo do que parece. E se Chico Oliveira está certo, elas terão um papel fundamental na reprodução, ou não, do nosso Ornitorrinco!
José Carlos Cavalcanti é Professor de Economia da UFPE, ex-secretário executivo de Tecnologia, Inovação e Ensino Superior de Pernambuco (http://jccavalcanti.wordpress.com)



è o obvio ululante, uma coisa está ligada a outra Pierre.Quanto a “onintorricolidade”, essa é uma características de vários partidos e membros da nossa politica, e não precisa ir longe.Na politica, não existe “Madre Tereza de Calcutá” e sim “Madre interesseira de Calculá”.(Calculá benefícios em prol de si mesmo).
[...] Esta é a introdução ao meu artigo desta semana no blog Acerto de Contas, que você pode acessar aqui! [...]
Realmente. Esse nosso país é o mais esquisitão da América Latina. Quando eu era criança o apelido do nosso país era “Belíndia”, uma parte rica como a Bélgica e outra pobre como a Índia.
Parece que os contrastes da Belíndia evoluiram em complexidade e ela virou ornitorrinco! Hoje, não é só uma questão de pobreza versus riqueza, mas de mistureba mesmo. Exemplo: outro dia saiu uma notícia na Folha de Sampa que diz que o PSTU queria pegar carona na parada gay pra fazer passeata com fins político-partidários e foi impedido porque o carro de som deles era ilegal e pq não são permitidas manifestações político-partidárias na parada.
De fato, que mistureba, não?!
ola eu quero comprar um orntorrinco de estimassão, mas não sei ondi posso consseguir comprar um filhte no brasil . [sera que o senhor poderi me informar ondi posso encontrar um?