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O propósito do post que coloquei mais abaixo, no qual reproduzo a Carta aos Reitores das Universidades Européias (escrita pelo poeta, dramaturgo e escritor francês Antonin Artaud), foi o de trazer à luz um texto pouquíssimo conhecido desse autor, que é menos conhecido ainda.
Entre suas obras está O Teatro e seu Duplo, o mais influente livro sobre o teatro escrito no século XX. É nessa obra que Artaud decreta o fim da formalidade palco/platéia no teatro. Nasce a supremacia do corpo em detrimento da palavra shakespeareana (“As palavras são cheias de falsidade…“). É o Teatro da Crueldade que emerge dentro de uma Europa surrupiada no entre-guerras.
Acusado de louco, Artaud foi internado em vários hospícios ao longo de sua vida. Foi um esteta da vida e do corpo. Se foi louco, foi o louco mais lúcido que já houve em toda a história!
Mas, não é exatamente sobre Artaud que eu vou falar. A questão que surge é que a partir do internamento psiquiátrico de Artaud em Rodez, parte significativa da intelectualidade européia da época (grande parte era formada por artistas ligados ao movimento surrealista, como Breton, Dali e outros, e também por filósofos como Sartre e Camus) se mobilizou em prol da causa da Artaud.
A denúncia era os maus tratos a que eestavam sujeitos aqueles que eram enclausurados dentro das instituições psiquiátricas, abandonados aos desmandos dos médicos e diretores dessas instituições. O caso Artaud se tornou conhecido na Europa e fora dela, e o tema da Loucura saiu dos escombros dos silenciosos porões dos hospícios para ganhar corpo nos ciclos acadêmicos e intelectuais.
Foi o feto do movimento nomeado de Antipsiquiatria. O termo surge como alcunha de um movimento de contestação da estrutura manicomial, dos métodos terapêuticos e, de uma forma mais profunda, da crítica ao ‘flácido’ acordo da civilização ocidental pela instituição dos cânones da razão moderna (neste aspecto uma conexão com os textos de F. Nietzsche é inevitável e precisa, por ser ele o principal agenciador filosófico das críticas à racionalidade – tal como fora ‘instituída’ pelos herdeiros da Filosofia platônica no mundo ocidental).
A partir da década de 1950, as placas tectônicas das verdades incontestes da ciência médica institucionalizada fora colocada em movimento… Os abalos não demorariam a ser sentidos em diversos níveis.
Os autores que costumam defender a psiquiatria em detrimento de todo o movimento antipisquiátrico partem do pressuposto reducionista de que as críticas ao saber clínico são subprodutos das doutrinas anarco-comunistas e resultantes dos movimentos de contra-cultura das décadas de 1960-70. Algumas dessas críticas chegam a ser patéticas (não só por suas pouco fundamentadas bases teóricas, mas sobretudo pelos seus fortes apelos moralistas) como a que você pode ler no texto intitulado Antipsiquiatria, do Coronel-psiquiatra, Victor Leonardo da Silva Chaves.
Em 1961, o historiador francês Michel Foucault publica o livro-tese História da Loucura, no qual descreve a partir de grande pesquisa as transformações que vão conduzir o processo de exclusão do louco da sociedade, retirado do convívio social (durante os séculos XVI-XVII-XVIII), até o nascimento das clínicas no século XIX. O isolamento dos indivíduos acusados como perigosos para a sociedade dentro de clínicas psiquiátricas, marca a formatação de um novo dispositivo de controle social.
Nada nos custa lembrar que, para Foucault, uma série de instituições surgidas nesse período (hospitais, asilos, orfanatos, hospícios, colégios, reformatórios, usinas e prisões) são características dos dispositivos de poder que, em seu conjunto, formam o que ele chamou de sistema punitivo, próprio da sociedade moderna-contemporânea.
A contestação da psiquiatria ganha força dentro da intelectualidade durante toda a década de 1960, e mais ainda durante a década de 1970, com a publicação de O Anti-Édipo, dos franceses G. Deleuze e F. Guatarri. Essa obra (cujo título por si mesmo já encerra uma provocação – visto ser o mito de Édipo o maior pilar teórico de toda a psicanálise) traz de forma bastante clara o campo de batalha a que teria de se dispor a máquina de guerra filosófica de então.
Sem confundir “Anti-Édipo com Antipsiquiatria”, nem muito menos como um manual teórico do movimento da anitpsiquiatria, acredito que seja necessário dizer apenas que nessa obra, o autor de seu prefácio, Introdução à vida não fascista, M. Foucault, identifica quais seriam os 3 grandes inimigos do Anti-Édipo:
1º – Os Burocratas da Revolução - Os ascetas políticos, os militantes sombrios, os terroristas da teoria, esses que gostariam de preservar a ordem pura da política e do discurso político. Os burocratas da revolução e os funcionários da verdade.
2º – Os Técnicos do Desejo – os psicanalistas e os semiólogos que registram cada signo e cada sintoma, e que gostariam de reduzir a organização múltipla do desejo à lei binária da estrutura e da falta.
3º – O Fascismo – o inimigo maior, o adversário estratégico. Não o fascismo de Estado, de Hitler e de Mussolini (que tão bem souberam mobilizar e utilizar o desejo das massas), mas o fascismo que está em nós todos, que martela nossos espíritos e nossas condutas cotidianas, o fascismo que nos faz amar o poder, desejar esta coisa que nos domina e nos explora.
Assim, mesmo não devendo ser visto como um “manual prático da Antipsiquiatria”, essa obra fundamentou uma pesada crítica ao saber psiquiátrico (a partir da psicanálise), e mesmo ao capitalismo (eles detectaram no capitalismo o seu poder de elasticidade, o seu poder de cooptação do perigo). À psicanálise, pode-se dizer que este livro inaugura uma inversão fundamental da perspectiva do inconsciente, que agora passa a ser visto enquanto uma fábrica de produção, e não mais como um teatrinho de representações. Deleuze e Guatarri vêem a psicanálise como um saber fundamentalista que busca analisar o desejo sob o ponto de vista da falta. A perspectiva lançada nessa obra traz como princípio os agenciamentos, as interconexões múltiplas dos desejos produzidos no inconsciente. Dessa forma, opera-se uma crítica aos princípios da psicanálise ( que estão baseados na tradição filosófica que vê o desejo como falta), na urgência de provocar uma renovação nas bases epistemológicas do saber psicanalítico.
Desde a década de 1970, alguns grupos se formaram em diversos lugares do mundo em defesa do fim das instituições manicomiais enquanto modelo de tratamento daqueles considerados doentes mentais.
No Brasil, o modelo de tratamento clínico foi reformulado com base na Lei Paulo Delgado, ou Lei da Reforma Psiquiátrica. A Lei primeira, de 1989, passou por uma redação substitutiva em 1999, e foi instituída em 2001.
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* Indicações de livros e filmes:
Filmes:
• Laranja Mecânica (1971), direção: Stanley Kubrick
• Um Estranho no Ninho (1975), direção: Milos Forman
Livros:
• A História da Loucura na Idade Clássica – Michel Foucault
• O Nascimento da Clínica – Michel Foucault
• O Anti-Édipo (Capitalismo e Esquizofrenia) – Guilles Deleuze e Félix Guatarri;
• Mil Platôs (Capitalismo e Esquizofrenia) – Guilles Deleuze e Félix Guatarri;
• O Teatro e seu Duplo – Antonin Artaud
• O Crepúsculo dos Ídolos – Friedrich Nietzsche
• A Genealogia da Moral – Friedrich Nietzsche
• A Interpretação dos Sonhos – Sigmund Freud
• O Mal-Estar na Civilização – Sigmund Freud
Lista de Links ao longo do texto:
• Imagem do post: site da Coalição de Antipsiquiatria
• Carta aos Reitores das Universidades Européias – Antonin Artaud
• Antonin Artaud: Arte e Estática da Existência – Sonia Borges
• Antonin Artaud: Loucura e Lucidez, Tradição e Modernidade – Claudio Willer
• Genealogia da Razão Política: Nietzsche e o Perspectivismo – Nithamar de Oliveira
• Antipsiquiatria – Victor Leonardo da Silva Chaves
• Reflexões sobre A História da Loucura de Michel Foucault – Priscila Piazentini Vieira
• Dispositivos de Poder na sociedade capitalista: o fracasso do sistema prisional – André Raboni
• O Anti-Édipo não é Anti-Psicanálise – Luis Eduardo Aragon



O movimento da anti-psiquiatria é muito interessante,sabe-se que
o pensamento no Ocidente aprendeu a contestar a civilização que
o criou,desse modo a razão do homem branco colonizador é,tam-
bém,a razão do homem branco libertador.
Na história da sexualidade podemos libertar a homossexualidade e
toda forma de amor livre entre adultos do estigma do mal,mas o
estupro,a pedofilia,o incesto e a zoofilia poderão gozar da mesma
graça?
Creio que o Ocidente precisa de uma teoria da ação,descobrimos o
que está errado,basta saber como fazer o certo.
Habermas se questionava se a filosofia ocidentel deveria ou não
abandonar a moderação de nossa era pós-metafísica,se ao invés
de tratar de formas de investigação moral ela não deveria estabelecer as verdades morais já em síntese.
Prefiro a investigação como forma de ação moral,acho a homossexualidade completamente saudável,mas espero não ter
a obrigação de convencer ninguém que pedofilia,incesto,estupro e
zoofilia não podem ser considerados saudáveis.
[...] De onde veio e para onde vai a Antipsiquiatria? | Acerto de Contas | Economia, Política e Atualidad… [...]
… urgência de provocar uma renovação nas bases epistemológicas do saber psicanalítico.
Felizmente a clínica contemporanea já não trata a questão nas mesmas bases epstemológicas da teoria clássica da psicanálise. O problema é que ainda falta consistencia para que os novos autores e pensamentos possam ser apresentados com rigor.
No Brasil, Fabio herman tem algo interessante neste caminho.
Os hospitáis psiquiatricos tinham forte influência naturalista também. Mas isso é outro assunto. Queria também falar dessa frase: mas o
estupro,a pedofilia,o incesto e a zoofilia poderão gozar da mesma
graça?
Evidentemente que não. Em três ensaios sobre a teoria da sexualidade, o velho e barbudo freud, já nos exclarece a distancia do alvo careta original, a saber, papai mamãe com homem e mulher, até as possibilidades mais distantes. Em a vida sexual dos seres humanos, freud deixa claro que todas essas diversidades possiveis, são produdo de nossa plasticidade, e que por conseguinte, constituem a vida sexual dos seres humanos a rigor. Neste contexto, aquilo que chamavam de práticas perversas passaram a ser, praticas da sexualidade humana e permitiu uma grande renovação inclusive cultural. Entretanto, a concepção de perversão é considerada dentro da psicanálise mais ou menos assim: submeter o outro a um jogo sexual que não corresponde ao desejo alheio ou que ele esteja impedido de recusar ou optar, caso da pedofilia e do estupro por exemplo. Ler freud é muito bom, não precisamos nos aprisionar em dogmas de falta por exemplo, mas ver que em 1908 ele sugere que os jovens iniciem sua vida sexual mais cedo. Para mim, essas são as pérolas que nele encontramos. Mesmo assim, queria ressaltar a questão da ética do comportamento, não do desejo. Um cidadão grego poderia levar um jovem, numa viajem, por exemplo, como seu ajudante e inclusive em questãoes sexuais. Entretanto seu comportamento sexual com ele era regrado, não se podia tratar um jovem, futuro cidadão atuante, de forma humilhante, por exemplo. No filme, menina do lago… a atriz, que não lembro o nome faz cenas de sexo com 14 anos, contracenando com atores mais velhos. Entendo os dois lados do processo, um cultural, que permitia que a menos de 30 anos uma menina de 14 filmasse cenas sexuais com adultos. Outra a dimenção perversa, onde se toma o outro como objeto parcial a partir de algum poder subjulgador. Sobre a anti-psiquiatria, queria a proveitar, já que o autor já disse tudo e ampliar para a psicofarmacologia. Hoje a ciência da psiquiatria esta práticamente refém da industria farmacológica. O psiquiatra trata uma depressão como um clínico geral trata uma gripe, de forma geral, não particular é claro. As idéias frutiveras de subjetividade, por exemplo, ou mesmo idéias da filosofia da mente, como as de John Searle, que trata da questão do estado de consciencia em terceira pessoa, background, despresando os esquemas da inteligencia artificial forte, estão mais distantes da psiquiatria, que já foi bem clínica e dinamica, apesar de todos os problemas apontados por foucault, que as farmácias perto de nossas casas. Mas ainda existe esperança na psiquiatria, só é necessário que ajudem os psiquiatras a pensarem um pouco mais, sem generalizar. Parabéns pelo texto.
O artigo “Antipsiquiatria” de Victor Leonardo da Silva Chaves é o texto mais intragável que já li em minha vida. Nunca vi tanta bobagem e alienação juntos. Também não dá para esperar muito de um texto de um coronel…aff
Oi gostaria muito que conhecesse o meu blog sobre a sindrome do panico, desde já agradeço a visita, um abraço
[...] Fonte: Acerto de Contas [...]