O Twitter, Marcel Proust e os direitos humanos: o Brasil sob o olhar do ridículo

mar 24, 2010 by     14 Comentários    Postado em: Artigos e Análises

por Pablo Holmes*
para o Acerto de Contas

Para mim, o Twitter é parecido com uma festa. Uma dessas festas com som nas alturas e com muita gente. Nessas ocasiões não há possibilidade de conversas elaboradas. Não se podem arriscar frases e períodos longos. Qualquer um que tente elaborar um raciocínio mais complexo do que aquilo que cabe em duas ou três frases curtas é simplesmente ignorado. Muda-se de assunto. É-se deixado, com um sorriso de reprovação simpática, sozinho no bar. Diz-se: – É, é… Você tem razão. Sabe, preciso de uma bebida. E deixa-se o chato sozinho.

A diferença é que, no caso do Twitter, todos ouvem o que é dito, mesmo quando se trata de alguma bobagem. Mas, assim como nas boas festas, no Twitter também podem-se ouvir boas piadas. Assim como bons argumentos. São aquilo a que no nosso bonito português brasileiro demos o nome de tiradas.

O fato de que elas têm de ser elaboradas telegraficamente, de modo direto, prontas para consumo, tanto nas festas como no Twitter, fazem das tiradas difíceis de serem ditas. São mesmo o objeto de uma arte. Há gente com o dom de participar das festas e fazer esses comentários, há gente com o dom de ser o piadista de salão com quem todos querem conversar.

Eu, por exemplo, nunca fui o piadista da festa. Preciso de tempo para elaborar o pensamento. Prolixidade e voltas em torno do mesmo argumento fazem, muitas vezes, parte da minha forma de expressão. Em festas, tendo a ser o sujeito que conversa só com os bons amigos, que, por obra da intimidade, são meio que obrigados a ouvir e já entendem de antemão um pouco do que quero dizer.

Lembro, aliás, que o escritor francês Marcel Proust – meu autor preferido – fazia uma distinção entre dois tipos de pessoas que vem bem a calhar para ilustrar o que digo.

Segundo ele, existiriam no mundo apenas as “pessoas que são“ e as “pessoas que observam“. As primeiras seriam os personagens, as “figuras”. Elas se comportariam sempre de modo muito próprio, mas sem perceber que o fazem. Diriam as coisas certas, na hora certa, mas sem saber porque o fizeram. Elas simplesmente “são”. O risco de ser assim estaria num tênue caminhar entre a fronteira do sagaz e do ridículo.

Esses, que são, por não refletirem tanto sobre o que dizem, representam, em sua espontaneidade, na maioria das vezes, o papel dos ridículos engraçados. O que dizem soa na maioria das vezes cômico não pela sagacidade irônica de uma observação pertinente, mas por expor a ingenuidade de crerem ser ou ver algo que, na realidade, não existe.

Sua piada é engraçada não porque é produto de uma observação pertinente, mas sim porque se trata de uma obviedade (muitas vezes uma afirmação obviamente equivocada) dita exatamente por quem a diz: alguém que acredita piamente naquilo. Aí estaria a raiz da própria idéia de ridículo. E, ao contrário do que se pensa, ela nos ensinaria bastante sobre a vida. Pois muitas vezes nos abririam os olhos para nossas próprias contradições.

O segundo tipo de gente seria, para Proust, digamos assim, mais sem graça. Eles raramente se tornam a atração da festa. Nunca serão personagens de livros. Mas podem se tornar bons escritores. Eles não conseguem dizer a coisa certa na hora certa, mas conseguem ver as contradições e, algumas vezes, as causas do “ridículo“ naqueles que apenas são. São os chatos de salão. Os que teimam em manter uma distância relativa (às vezes arrogante) em relação a tudo e todos e cujas piadas são sempre recheadas com uma ironia meio pedante: inteligente porém muitas vezes incompreensível para a maioria. Não se comprometem. Apenas denunciam os paradoxos que são a raiz mesma do ridículo.

É extremamente raro as duas coisas coincidirem. Mas, se pensamos no próprio Proust, sabemos que isso não é impossível. Ele mesmo se via apenas como um observador. E ele foi mesmo o perfeito observador dos salões parisienses da Belle Époque e seus mais ridículos personagens.

Diz-se, porém, que ele era também um sujeito extremamente excêntrico. Alguém que distribuía gorjetas de até 400% nos restaurantes que frequentava. Homossexual não assumido, teve uma paixão avassaladora e jamais consumada pelo seu motorista italiano. Foi, além disso, das poucas pessoas de quem já ouvi falar ter realmente morrido de hipocondria.

Acreditando sempre piamente que sua morte era algo iminente, Proust trabalhou de maneira frenética até seu último dia, deixando que um leve resfriado se tornasse uma severa pneumonia. Depois de terminado o trabalho, ele realmente morreu. A perfeita self-fulfilling prophecy: nada mais ridículo.

Passemos, porém, ao tema que quero tratar. Tenho a impressão de que essa diferença entre os “que são“ e os “que observam“, na sociedade contemporânea, é exatamente a diferença entre as celebridades da política, do show business, da economia e a opinião pública reproduzida pelos meios de comunicação de massa.

Os meios de comunicação deveriam fazer o papel do tal “chato de salão“. A chamada “imprensa” serviria para abrir os olhos da opinião pública para seus próprios paradoxos. Seriam os observadores irônicos da sociedade, a partir dela mesma, sociedade.

As celebridades seriam aqueles que podem ser os gênios que fazem avançar o seu tempo ou as figuras que representam as contradições: os ridículos engraçados. Simplesmente sendo, como dizia Proust, as celebridades representam, na maioria das vezes, o papel da sociedade no interior dela mesma. Expõem aquilo que são as crenças estúpidas em que somos levados crer, mas das quais, às vezes, não nos damos conta. E que precisamos observar nos outros para descobrir.

Bem, mas o que tem a ver isso tudo com Proust? E com o Twitter? E com os direitos humanos, que aparecem lá no título? A par de confirmar a minha tendência à prolixidade, a relação aqui traçada quer chamar a atenção para um acontecimento específico, que me parece ilustrativo de certas circunstâncias atuais do nosso país.

Semana passada, li, no Twitter, um comentário de um dos meus “seguidos”, que conseguia reunir, exatamente, numa tirada típica de um piadista, uma observação extremamente sagaz. Ou seja, algo que podia ser dito um “ser” e um “observar” proustianos.

A “twittada” chamava a atenção para o fato de que, os mesmos meios de comunicação que ridicularizaram o Plano Nacional dos Direitos Humanos III (PNDH-3) foram aqueles que, mais uma vez, ridicularizaram, com comentários irônicos muito semelhantes, as declarações do presidente Lula sobre a morte do dissidente cubano em greve de fome.

Segundo grandes jornais brasileiros, o ridículo, no caso do PNDH-3, seriam propostas como as de uma investigação sobre a tortura e o desaparecimento de pessoas praticados pela Ditadura Militar (tão autoritária quanto o regime cubano), a legalização do direito da mulher de escolher sobre o aborto, a legalização de direitos de igualdade para homossexuais e transexuais, a desconcentração do controle de meios de comunicação de massas por algumas poucas empresas, etc.

O presidente Lula, por sua vez, teria se comportado de maneira ridícula, porque questionado sobre o caso do preso político cubano, teria afirmado que se tratava de um problema da justiça soberana de Cuba. Afinal, se o homem estava preso, era porque havia sido condenado.

Diziam os editoriais: Cuba, sendo uma ditadura, não garantiria os direitos humanos que são o traço distintivo de democracias soberanas. Aquilo a que Lula recorreu em sua resposta para não condenar a morte do dissidente. Não é possível comparar a situação de um condenado comum com aquela do preso em um pais em que não há direitos humanos.

Como disse, os meios de comunicação de massa deveriam ser o observador. Deveriam servir como o instrumento por meio do qual a sociedade, observando as suas celebridades – os atores/personagens da opinião pública – pensa sobre si mesma.

Sem dúvida, houve algo de ridículo no que o presidente Lula disse sobre Cuba. É claro que o dissidente cubano Orlando Zapata não era um preso comum. A ele foram negados os direitos fundamentais que poderiam fazer dele um homem condenado por um Estado de Direito.

O que me chamou a atenção é que, ao invés de desmascarar o ridículo da declaração do presidente – o que de fato devia ser feito – a escandalização praticada nesse caso serviu muito mais para expor o ridículo dos próprios editoriais.

Se entendi bem, Cuba não seria um país democrático como outros, nos quais há direitos humanos. Na verdade, países democráticos seriam apenas aqueles nos quais há direitos humanos: curiosamente direitos como aqueles contidos no PNDH-3, o mesmo ridicularizado por serem “direitos humanos”.

A desconcentração dos meios de comunicação, o direito da mulher de escolher sobre o aborto, a liberdade e a igualdade sexual, o esclarecimento sobre o passado de regimes assassinos, esses direitos que em países democráticos são mais que um “plano” serviriam para Cuba. Serviriam, claro, para os próprios países democráticos. Mas não serviriam para o Brasil. Aqui eles seriam nada mais que esquerdismo. Um esquerdismo que quer nos fazer parecer, nada mais nada menos, com Cuba…

É, eu sei, é mesmo paradoxal.

Pensei comigo: ao que parece, ao invés de observar o ridículo das nossas celebridades, inclusive dos políticos, os nossos meios de comunicação parecem ter, eles também, assumido o papel de celebridades.

Não querem mais ser os observadores irônicos, senão atores afetados e febris. Não são os chatos de salão, senão os piadistas que querem fazer a diferença. Não são aqueles que refletem mil vezes antes de falar, senão os que falam e não se preocupam com o que disseram. Não raro, seus mais badalados representantes tornaram-se os personagens que ocupam o salão de festas com suas posições engraçadas, mas apenas porque são mesmo: ridículos.

Isso pode ser um problema. Essa observação da sociedade por si mesma é, no mundo moderno, a grande tarefa dos meios de comunicação. Se esses viram, eles mesmos, apenas mais uma celebridade, entre outras, a pergunta que resta é: quem então observará os nossos ridículos?

______________________________

* Pablo Holmes (vive em Berlin, é bacharel e mestre em direito pela UFPE e doutorando em sociologia pela Universität Flensburg).

14 Comentários + Add Comentário

  • Quis custodiet ipsos custodis?

    • exatamente isso.
      Por isso é preciso inclusão social e pluralismo de idéias. Quando há inclusão, o conflito político se torna, ele mesmo, a regulação do arbítrio.

  • Excelente artigo, Pablo. Não sei se leste o texto de Venício Lima, para o Observatório da Imprensa, a respeito do III PNDH.

    Entre outras coisas, fala sobre a partidarização assumida (agora) dos grandes medias (que estariam fazendo o papel da oposição, já esta estaria …. como é? … “fragilizada” – acho que o termo é esse), e também sobre a manipulação que o Jornal Nacional fez da notícia de que Vannuchi iria fazer alterações no texto do Plano.

    Caso queira conferir:

    http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=582JDB002

    Abraço!

    • valeu, andré, vou dar uma olhada.

  • Obrigado por dizer, prolixamente, o que eu mesmo gostaria de ter dito ridiculamente.

  • O texto é belo e instigante. Quanto à prolixidade, não é de se estranhar sendo você fã de Proust. Um cara que escrevia 20, 30 páginas para descrever o sabor e o aroma de uma “madeleine”. Neste sentido, Proust é a antítese do Zen budismo e seus mestres (Olha aí a dica! Bom tema para um artigo). Eu sei mais sobre uma sabiá laranjeira ouvindo-a, do que em qualquer compêndio de ornitologia, trecho de poema ou passagem de um romance campestre qualquer. Em todo o caso, dá pra resumir o teu texto em 140 caracteres? Abraços e, mais uma vez, parabéns.

  • Ótimo texto. Me fez pensar melhor. Parabéns!
    Estou adorando os textos do blog.

  • Texto chato!

    Acho que sou muito “são”.

  • respondendo a sua pergunta: gente como vc

  • Poxa, Pablo, talvez tenha havido contradicoes e ridiculos de parte a parte. Infelizmente. Bom, havia uma tendencia de se democratizar os meios de comunicacao pelos blogs (esse aqui mesmo é um espaço privilegiado neste sentido). Mas essa tendencia esbarra no twitter. Ele parece ser so uma pagina de recados, como um bilhete q se passa em sala de aula. É impressionante como celebridades e pseudocelebs deitam besteira atras de besteira nos posts de 140…nao da pra acompanhar. Os dos politicos lembram-me o tempo q Collor ia fazer cooper domingueiro com camisas com frases q eram recados. Um tempo pre-www.

    Por outro lado, se vc gosta do autor de “La recherche…”, eu adoro aquele tipo de poesia japonesa, os hai-cais. Escrever mt em pouco espaco é um desafio. Gostaria de ver um twitter de Pablo Holmes…heheheh

  • Interessante, como através de palavras bem definidas e currículo internacional as pessoas atropelam opiniões opostas, como se isso fosse algo dado como certo.

    Perdoe-me por descordar veementemente de sua comparação, não vejo ligação nenhuma entre as duas situações, acredito que nem a medicina é uninâme na questão do aborto, mas provavelmente tanto esse tema como todos os outros desse PNDH-3 são uninames para você.

    O que Cuba fez e faz é horrível e defender direitos homossexuais e de aborto sem uma discussão com a sociedade brasileira, mas parece ditadura do que democracia.

    Não estou defendendo nada aqui contra ninguém, apenas estou lembrando que nem todos que se consideram observadores concordam com esse ponto de vista.

    • só chamei a atenção para o fato de que, sem exceção, países da OECD aceitam o direito da mulher de escolher. Até mesmo portugal, um país extremamente católico, já o aceita desde 2007.
      Em democracias estáveis e pluralistas, esses direitos são, sem exceção, realidade, e não apenas um plano.
      Nesse ponto nos parecemos mais com Cuba do que com a União Européia, os EUA, Noruega, Canadá, Austrália ou Japão. Alguma coisa estranha aí, não?

    • Caro Oziel,
      Uma coisa ainda é importante ser dita. Trata-se de um “Plano”. Um plano que está bastante adequado àquilo que é a pauta mundial de direitos fundamentais. Trata-se nada mais do que um plano proposto por uma secretaria nacional de direitos humanos, que serve exatamente para isso.

      Não tem força de lei. Pode-se considerar que é a abertura de um debate ainda mais amplo do que aquele que já houve, na conferência de DH que reuniu todo o setor organizado de DH do brasil. O que não é pouca coisa.

      O Plano pode ser a forma de levar o debate, por meio da mídia, a toda sociedade. Isso não foi possível, simplesmente, porque houve uma escandalização mística que impediu qualquer debate.

      No ponto sobre comunicação social, por exemplo, só há obviedades no PNDH-3. Mas sempre que fala nisso, os jornais tornados ridículos insistem em usar o conceito incompreensível de “controle social” (algo que inclusive constava no PNDH-2, do governo FHC).

      Aliás, de onde eles tiraram isso, eu fico a me perguntar.
      Não custa nada ler o plano. Veja a diretriz 22, sobre meios de comunicação. é mesmo algo ridículo como isso vem sendo tratado.

  • bom texto, pablo! essas contradições gritantes devem ser explicitadas e desmascaradas.

    abraço,
    e quem sabe até breve. tenho umas datas pra te propor, te mandarei um recado, ok?

    ;)

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MARCO BAHÉJornalista
É formado em Jornalismo e pós-graduado em História Contemporânea e História do Nordeste do Brasil. Foi repórter da Gazeta Mercantil para os estados de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. Também atuou como repórter do Jornal do Commercio, editor da Folha de Pernambuco e repórter especial do Diario de Pernambuco. É correspondente da revista Época no Nordeste desde 2003. Tamb´m atua com publicidade e marketing eleitoral desde 2004.
PIERRE LUCENADoutor em Finanças
É doutor em Finanças pela PUC-Rio e mestre em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco. É professor adjunto de Finanças da UFPE e foi secretário-adjunto de Educação de Pernambuco. É autor de vários trabalhos publicados no Brasil e no exterior sobre o mercado financeiro, e participa como revisor de várias revistas acadêmicas na área. É sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Finanças. Foi comentarista de Economia do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (TV Jornal e Rádio CBN). Atualmente é coordenador do curso de administração da UFPE, e Coordenador do Núcleo de Estudos em Finanças e Investimentos do Programa de Pós-graduação em Administração da UFPE (NEFI).