O (verdadeiro?) impacto da web

jul 15, 2007 by     Sem Comentários    Postado em: Artigos e Análises

Por Silvio Meira, publicado no G1

Algumas semanas atrás, falamos da “nova indústria cultural”, a do nossos tempos, habilitada pela infraestrutura de inovação, publicação e formação de comunidades da internet. A rede me permite escrever de casa, ou de qualquer lugar do mundo, e publicar aqui. E dá a cada leitor as mesmas ferramentas que tenho, no G1, para fazer o mesmo. O leitor do passado se tornou o escritor do presente. Neste sentido, em especial, todo mundo se tornou também editor e publicador, o que indubitavelmente mudou muito a tal indústria cultural.

Ou não. Há quem diga que, apesar das mudanças, a internet é só “mais uma mídia”. Eu posso discordar, mas a rede é pra isso mesmo: cada um e sua opinião aparecem do mesmo jeito que a minha ou a do dono do jornal. Muito mais opinião está disponível hoje, na rede, sobre tudo. Desde “hotéis do amor” no Japão até o descalabro da política brasileira.

Mas uma coisa preocupa. Na “velha” indústria cultural, a mídia conseguia, vez por outra, derrubar poderosos. Em qualquer lugar. Campanhas da velha mídia fizeram justamente isso, e não só no Brasil. Como conseguiram?… Seria pelo poder de sincronizar o pensamento popular, contaminado pelos editoriais e colunas de mestres das máquinas de escrever? Seria porque muito menos gente participava do diálogo social e político e, vindos de uma mesma (ou parecida) formação, se convenciam mais rapidamente de alguma tese? Ou, pior, já estavam convencidos e só esperando uma provocação para agir?

Era, ainda por cima, porque havia muito menos mídia e, conseqüentemente, fontes de informação?

Pois bem. Olhe para o passado recente do Brasil. Diz-se que presidentes caíram por bem menos do que conterrâneos andam aprontando no Senado. Isso sem falar nos acontecidos, que continuam acontecendo, em partes do executivo, legislativo e judiciário. Em tempos de internet, e com tanta informação sobre tudo o que está no ar, e há algo de muito podre no ar, porque a rede não serve como máquina para lavar a roupa muito suja da vida pública nacional?

Será que a internet não consegue sincronizar a população como os jornais conseguiam? Será que tal “sincronia” não ocorre porque a vasta maioria da população está excluída da internet (e vai continuar assim por muito tempo)?… Ou será que, no meio de tanta informação, não conseguimos mais prestar atenção no que realmente interessa? Será que a rede, pela diversidade, dessincroniza o pouco que a mídia clássica ainda consegue alinhar?

Ao invés de fatos, sustentados dados, provas e testemunhas, a informação na rede talvez seja, para muitos, apenas opinião. E opinião qualquer um tem a sua e faz dela o que quiser. Inclusive publicar na internet. No meio do tiroteio de mídias e fontes, o cidadão, depois de ouvir e ver um grande número de lados, bota o pijama e, anestesiado pela confusão digital, vai pra cama ao invés da rua, onde talvez devesse estar, exigindo ordem na casa pela qual paga um dos maiores impostos proporcionais do mundo… e recebe muito pouco em troca.

Será que, quando todos estiverem na rede, assim como hoje ainda estão na televisão, conseguiremos -em conjunto- refletir sobre nosso contexto e agir, antes tarde do que nunca, para melhorá-lo? Ou, como prevê Andrew Keen, tudo será movimento e opinião, e viveremos em permanente vertigem social, mais no simulacro que a rede cria ao nosso redor do que nas nossas próprias vidas, que é onde as vacas (de verdade) estão indo para o brejo?… Qual será, no final, o verdadeiro impacto da web?

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MARCO BAHÉJornalista
É formado em Jornalismo e pós-graduado em História Contemporânea e História do Nordeste do Brasil. Foi repórter da Gazeta Mercantil para os estados de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. Também atuou como repórter do Jornal do Commercio, editor da Folha de Pernambuco e repórter especial do Diario de Pernambuco. É correspondente da revista Época no Nordeste desde 2003. Tamb´m atua com publicidade e marketing eleitoral desde 2004.
PIERRE LUCENADoutor em Finanças
É doutor em Finanças pela PUC-Rio e mestre em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco. É professor adjunto de Finanças da UFPE e foi secretário-adjunto de Educação de Pernambuco. É autor de vários trabalhos publicados no Brasil e no exterior sobre o mercado financeiro, e participa como revisor de várias revistas acadêmicas na área. É sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Finanças. Foi comentarista de Economia do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (TV Jornal e Rádio CBN). Atualmente é coordenador do curso de administração da UFPE, e Coordenador do Núcleo de Estudos em Finanças e Investimentos do Programa de Pós-graduação em Administração da UFPE (NEFI).