O vice-reitor cordial da UFPE
Por Felipe Azevedo
para o Acerto de Contas
Anteontem, após ler um texto de autoria do vice-reitor Sílvio Romero Marques, intitulado Universidade e cordialidade, o encaminhei a alguns amigos em tom de galhofa pela pífia apropriação que aquela autoridade “magnífica” tinha feito do conceito de homem cordial do sociólogo Sérgio Buarque de Holanda.
No texto Sílvio Romero diz em letras claras que as pessoas que freqüentam a UFPE são “homens e mulheres cordiais”. Para não deixar dúvidas da filiação de sua referência atribui sua imagem de “homem cordial” a Sérgio Buarque de Holanda, mas define o conceito a partir de palavras e conotações nunca escritas pelo sociólogo paulista, segundo Silvio estes:
São seres de sentimento, de espírito aberto, cujo desprendimento permite expor seus objetivos e compartilhá-los com o próximo, ainda que seja um desconhecido, ou que identifiquem apenas alguns traços da sua personalidade. Desejam protagonizar os grandes movimentos sociais, não se contentam com papéis coadjuvantes. Homens e mulheres cordiais estão por toda parte no Brasil, nesta e em outras universidades.
O aspecto que Sérgio Buarque de Holanda destaca com mais ênfase no quinto capítulo de seu clássico Raízes do Brasil, intitulado O homem cordial, é a natureza patrimonialista que pessoas enquadradas nesta categoria sociológica têm em relação à administração pública, construída principalmente em uma dificuldade dos “detentores das funções públicas de [...] compreenderem a distinção fundamental entre os domínios do privado e do público”.[1] Segundo Holanda:
Para o funcionário ‘patrimonial’ a própria gestão política apresenta-se como assunto do seu interesse particular; as funções, os empregos e os benefícios que deles aufere, relacionam-se a direitos pessoais do funcionário e não a interesses objetivos, como sucede no verdadeiro Estado burocrático, em que prevalecem a especialização das funções e o esforço para se assegurarem garantias jurídicas aos cidadãos[2].
Por ingenuidade minha, achei simplesmente que havia no texto publicado no Jornal do Comércio uma interpretação equivocada do vice-reitor. Mas em resposta ao meu e-mail, amigos mais sagazes que eu, me levaram a pensar que não, aquele parecia ser um momento singular de nefasta sinceridade do gestor da universidade.
Afinal de contas o perfil cordial da gestão da UFPE foi uma das questões mais debatidas na última eleição para a reitoria. E para além do momento eleitoral, eu e meus amigos sempre comentamos esse traço particular da Universidade, que transforma qualquer operação administrativa em um ritual repleto de burocratismos desnecessários e desencorajadores. Esses processos são, no entanto, frequentemente suprimidos ou facilitados àqueles que resguardam laços pessoais ou corporativos com os funcionários da instituição. Observe que falei frequentemente, pois existem muitos profissionais sérios que não se submetem a este tipo de relação.
Mas sinceramente, quando li o artigo nem pensei nestas questões. Aquelas palavras pareciam-me mera autopromoção do vice-reitor, que em um veículo de grande circulação da imprensa pernambucana, falava sobre determinado modelo de comunicação que a universidade deveria adotar, sem na realidade anunciar nenhum serviço ou mudança de proposta do atual, escrevendo sobre o tema em termos genéricos e sentenças vazias.
Na hora interpretei o artigo apenas como uma grande ironia do destino à minha pessoa, pois havia sido publicado justamente um dia depois da minha batalha por comunicação com a universidade. No caso eu precisava fazer uma operação no corpo discente, tentei entrar no site da UFPE para ver como proceder, mas o site estava fora do ar, liguei para os dois telefones do corpo discente o dia todo e não fui atendido, entrei em contato com o twitter da @AscomUFPE e da do @CinUFPE e também não obtive qualquer resposta. Quando li o texto do vice-reitor falando, em palavras muito bonitas diga-se de passagem, de uma “transversalidade de uma política de comunicação e informação”, me senti um pobre diabo e achei que aquela era apenas uma grande piada que o cosmos tinha me pregado.
Mas hoje de manhã, quando me dirigi ao corpo discente, vi de longe o amontoado de calouros na rua daquela secretaria, obviamente era época de matrícula. Fiquei triste por um rápido momento, pois pensei que não conseguiria resolver nada, até que percebi que na verdade o corpo discente estava vazio. As matrículas estavam sendo realizadas na sede do DCE, isso mesmo no Diretório Central de Estudantes, que fica ao lado do corpo discente, isso me levou a pensar muita coisa.
Pensei o quão vergonhoso era um lugar que deveria servir como espaço de organização e debate do movimento estudantil estar sendo utilizado como anexo de uma secretaria institucional da universidade. Lembrei que aquele DCE está sob a gestão do PCR (Partido Comunista Revolucionário), e que este grupo só chegou ao poder por meio de eleições completamente fraudadas, sem o aval da própria comissão eleitoral que organizou o pleito. Mesmo diante de um expediente eleitoral deste tipo, a chapa do vice-reitor Silvio Romero, na época da eleição para reitor, afirmava que considerava a gestão do PCR legal, em troca os Comunistas Revolucionários faziam campanha para Anísio Brasileiro e Sílvio Romero.
Nem bem começou a gestão de Anísio e Sílvio e a sede do DCE já é utilizada como quintal da reitoria, em uma relação travada em termos pessoais, nos moldes do mais clássico patrimonialismo. Nesse sentido fui levado a crer que o vice-reitor tem de fato uma concepção, ao menos prática, muito evidente do que vem a ser o homem cordial, só não acho justo quem em sua exaltação a esta categoria sociológica inclua todos os demais integrantes da comunidade acadêmica da UFPE. Exijo retratação, não me considero um homem cordial.
______________________________
PS1: Para ler o texto de Sílvio Romero Marques clique aqui
PS2: Felipe Azevedo é estudante de História da UFPE
[1] HOLANDA, Sérgio Buarque. Raízes do Brasil. São Paulo, Companhia das letras, 1995. p.145.
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Parabéns pelo excelente texto Felipe.
Existe uma imprecisão no texto. O então candidato a Reitor Anisio nunca disse que apoiaria a gestão do DCE. Sempre foi dito que os problemas dos estudantes referente às suas entidades devem ser resolvidos pelos próprios estudantes. Isso falado para todos ouvirem em debate no Centro de Convenções da UFPE. É bandeira histórica do M.E. sempre repudiar qualquer intervenção da reitoria nos assuntos dos estudantes em se tratando de política estudantil. Mas, logicamente, deve haver estudantes que pensam diferente da tradição do M.E.. Já que hoje, também, existe um grupelho de estudantes que preferem atrapalhar a vida de toda população da R.M.R. ao invés de ir negociar uma saída com o poder constituído.
Como não consegui ler o texto do vice-reitor não posso opinar sobre o restante, já que pelo trecho acima não dá para saber se o mesmo faz referência direta ao conceito do grande pensador brasileiro. Se o faz está totalmente equivocado na utilização, como o artigo realmente diz.
Pelego detected….”Sempre foi dito que os problemas dos estudantes referente às suas entidades devem ser resolvidos pelos próprios estudantes. Isso falado para todos ouvirem em debate no Centro de Convenções da UFPE.”
Essa foi a típica “omissão oportunista”.
A chapa do PT-PCdoB fez vista grossa para a FRAUDE do DCE para poderem ter um pequeno quinhão de “apoio” dentro do “movimento estudantil”. Alguns desse mesmo “movimento estudantil” PELEGO (opa, PT-PCdoB de novo…) que foi chupar dudu no Palácio junto com Pedro Eugênio e Luciano Siqueira, depois que o reitor sabonete fez que não viu as bombas no quintal da Instituição que dirige.
TÁ TUDO DOMINADO!
Pelego Detect: “Já que hoje, também, existe um grupelho de estudantes que preferem atrapalhar a vida de toda população da R.M.R. ao invés de ir negociar uma saída com o poder constituído.”
“negociar uma saída com o poder constituído” da mesma forma que …. o PT – PCdoB fizeram indo no palácio chupar Dudu? Entendi.
Vitor, pelego é você!!! Aonde estavas durante os anos neoliberais de FHC? Com certeza estava em casa assistindo tv ou jogando vídeo game.
Caro Fred,
Com todo o respeito, mas vim aqui falar em ‘bandeira histórica do ME” não pega cara, quem sabe com uns alunos de 1ºperíodo de História e afins você copte alguns com o seu discurso. Concordo que sem o texto-base fica difícil fazer um análise do que fala esse texto, mas daí negar o explícito conchavo entre a atual “gestão” do DCE e o atual Reitor e achar que só você é inteligente. Basta lembrar que a última eleição do DCE ocorreu quando muitos dos alunos já estavam de férias. Quanta idoneidade, hein?
Luiz, não gosto nem um pouco desse povo que ocupou o DCE-UFPE de forma fraudulenta. Quem acompanhou, nem que seja um pouco a eleição de Anisio sabe muito bem, que esse pessoal não bateu um prego numa de barra de sabão durante a eleição. Quando falo em bandeira histórica é pq realmente é. Em que sentido falo isso, durante a ditadura militar, uma das primeiras medidas do regime foi intervir através das reitorias e diretorias de escolas nas entidades do M.E.. Quando houve a abertura política o que o M.E. mais prezou em sua reconstrução foi se desvincular e ficar autonomo em relação às direções acadêmicas. Isso é um posicionamento histórico da esquerda. O que acontece é que os estudantes da UFPE não se organizam suficientemente para impedir que esse tipo de fraude ocorra. A reitoria não tem nada que administrar isso. É quase a mesma coisa que pedir pra patrão arbitrar disputa de sindicato dos seus empregados. É muito ruim isso.
Fred
Concordo que Reitoria não deva se meter em Movimento Estudantil, mas no momento em que recursos públicos são colocados no meio, aí a coisa muda de figura.
A Reitoria repassou dinheiro para o DCE (sic), inclusive imprimindo um jornal na Editora da UFPE. Isso foi confirmado pela própria Diretora, que disse ter recebido uma ligação do vice-reitor substituto.
Além disso, o DCE (sic) emitiu careiras de estudante da UFPE, como se pudesse emitir um documento da Universidade.
Fazer vista grossa para isso já é crime.
Pierre, são coisas diferentes. Uma coisa é a UFPE bancar jornal do DCE, mesmo com
todos esses problemas. Como na época de Mozart conseguimos ônibus da UFPE, com
motorista e diesel, e a gestão na época era opositora ao reitor, vc se lembra. Sobre essas
carteiras de estudantes não estou sabendo, o que é isso?
Eles emitiram carteira “oficial” da UFPE, inclusive com o brasão da Universidade.
O link do texto original está quebrado, dificultando muito a análise justa do texto.
Pierre, Pierre, ainda não estás acostumado com clientilismo, servilismo e ineficiência da UFPE comandados por esses marxistas doutrinados puxa-saco do PT e afins ?
Mesmo sem ler, na íntegra, o texto do vice-reitor, pode-se dizer que ele prova algo que muitos já sabem: mais de 90% (noventa por cento) das citações de “Raízes do Brasil” são feitas por gente que nunca leu “Raízes do Brasil”.
Esse, digamos, “fenômeno” se repete com muitos outras obras e autores. Atualmente, Clarice Lispector e Caio Fernando Abreu são as grandes vítimas dele, principalmente em redes sociais como orkut e facebook.
Que absurdo !!! As matrículas sendo feitas na sede do DCE, isso é muito grave !!!!!!