Ocupe Estelita é um movimento essencial para o ambientalismo do século 21

dez 22, 2015 by     10 Comentários    Postado em: Artigos e Análises

Por Robson Fernando
para o Acerto de Contas

O movimento #OcupeEstelita, que luta pela democracia urbana no Recife, é um típico “novo movimento social” do século 21, com diversas características que o distinguem daqueles movimentos tradicionais vindos do século 20, como os sindicais. Outro aspecto importante dele é que ele traz perspectivas de renovação para o ambientalismo, sendo ele, creio eu, essencial para influenciar e mesmo identificar o movimento ecologista dos novos tempos.

Para muitas pessoas não ficou tão claro assim ainda que o Ocupe recifense é um movimento de tendências ambientalistas. Afinal, não foca diretamente o manguezal da cidade, a flora e os animais dos ecossistemas urbanos, os parques existentes. Mas mesmo assim ele é decisivo para a causa ambiental na cidade, quiçá no Nordeste inteiro ou mesmo no Brasil como um todo.

Digo isso com segurança porque ele reivindica algo que estava relativamente escasso no ambientalismo do século 20: a exigência enérgica, por parte do povo atuante, de respeito à democracia, no que concerne ao poder popular de tomar ou influenciar decisões referentes ao ambiente urbano. Também afronta o poder do capital, que tem tomado de assalto, com mais força nesse começo de século, a gestão urbana e a comandado como uma marionete de interesses privados – e peitar o capitalismo é sempre fundamental na luta ecológica.

E esses interesses literalmente passam por cima de árvores e áreas verdes que deveriam ser protegidas, terrenos que mereciam uma destinação democraticamente decidida (como o Cais José Estelita, leiloado sem consulta popular a um consórcio de empreiteiras e imobiliárias e ameaçado de se tornar uma muralha de prédios altos) e até mesmo vilas ou bairros inteiros (como a Vila Naval, que também está para ser entregue às imobiliárias, e Brasília Teimosa, ameaçada de perder o estatuto de Zona Especial de Interesse Social).

E nada é pior para o meio ambiente urbano do que uma cidade ter como “poder atrás do trono” o empresariado imobiliário e as empreiteiras. Isso tem representado para o Recife uma progressiva degradação da paisagem, com cada vez menos árvores e prédios antigos – inaceitavelmente demolidos, como a antiga Padaria Capela, nos Aflitos, e o Edifício Caiçara, na praia de Boa Viagem, que só não foi totalmente reduzido a escombros porque a população interveio e conseguiu o embargo da demolição – e mais prédios a sufocar o microclima urbano, e nenhuma política ambiental que faça jus ao nome.

É para impedir essa distopia privatista cheia de prédios feios, sufocantes e destruidores da paisagem histórica e vazia de vida verde que as ações do #OcupeEstelita têm sido decisivas. Graças ao movimento, o Projeto “Novo Recife” – o da muralha de edifícios no lugar do Cais José Estelita – não foi erguido ainda, e há investigações por parte da Polícia Federal em relação ao leilão daquele terreno. A consumação e conclusão dessa obra poderia ser o precedente para muitos outros abusos de destruição ambiental e elitização de bairros e comunidades até então de moradores de baixa renda e sem prédios altos. E foi graças ao Ocupe que isso não aconteceu, pelo menos até o momento.

Essa atuação democrata em nome do meio ambiente urbano é uma vertente importante do ambientalismo do século 21, e por isso o #OcupeEstelita assume esse papel de vanguarda, ao lado de movimentos como o defensor do Parque Augusta em São Paulo e o Ocupa Golfe do Rio. É um ecologismo que traz algumas novidades e pode, tomara, ressuscitar o movimento ambientalista brasileiro, que tem estado enfraquecido neste século. Por isso o Ocupe recifense merece essa consideração e o apoio dos ambientalistas mais tradicionais.

10 Comentários + Add Comentário

  • Outro absurdo, com foco mais na questão da mobilidade, é o Beach Class Parnamirim, localizado no maior “nó” da zona norte, e seus quase 200 apartamentos cujos proprietários lutarão, espero que sem armas, para ultrapassarem a calçada e chegarem à avenida parnamirim.Coincidentemente ou não, uma obra de um integrante, talvez principal, do consórcio novo recife. Qualquer gestor preocupado, mesmo que minimamente, com a mobilidade não liberaria esse empreendimento. Aguardem, futuramente será proposto e erguido um viaduto para evitar os dois sinais próximos aos prédios da MD. Com isso mais uma mega obra para se juntar a tantas outras, paralisadas.

    • Ali vai ser pau mesmo.

      Aproveitando o embalo … Estão falando que (finalmente) vão liberar o acesso da faixa Suburbio/Cidade da Via Mangue.
      A pergunta é: – Como ficará o funil que é aquele tunel que dá acesso a Antonio de Góes ?
      Na boa, sugiro que o acesso ao Rio Mar para quem vem do Pina pela Avenida Boa Viagem ou Conselheiro seja feito pelo Cabanga e que o Tunel seja mão única sentido Suburbio / Cidade.
      Não adianta pensar dificil. Ou é isso ou já era.

  • O que se vê é um desgoverno só preocupado em propagandas que iludam a opinião pública, como as seguintes: Faixa azul( pouquíssimas), ciclovia(raras e não integradas), a única ciclovia que representa efetivamente um deslocamento é a de lazer aos domingos e feriados, BRT só Deus sabe, ponte do monteiro, bilhete único já era e etc

  • PQP, sem zona nenhuma.
    Este texto deste articulista de Desktop mais parece uma redação de curso preparatório do NUCE ou do Heber Vieira.

  • Eu percebo um grande número de ocupantes repleto de piercings, tatuagens e alguns foram visto fumando um cigarro fedorento, Essa tribo tem o direito de se manifestar, obviamente, mas assusta quem pretende medidas ordeiras e apenas isso.

    Chateia é que esses movimentos só apareçam depois de consumado o problema, e em especial contras as construtoras mas sem nada fazer contra a sujeira e bagunça de alguns comerciantes naquela área.

    Quanta fachada feia e disforme, sujeira geral, uma verdadeira zona. Por que não vão lá fazer algo e deixar o lugar aprazível, seguro e até turístico?

    Esse pessoal traz suspeitas de estar engajado com o pt e favorável à liberação da maconha, parecem querer criar um parque-maconhódromo.

    O projeto foi reformulado e ficou bastante razoável.

    Acho que agora é tratar de verificar os abusos antes que eles ocorram e não só contra as construtoras mas em outros locais como a rua da Palma, Direita e adjacências. Dá para transformar em um mercado legal e turístico.

  • Segundo o Robsom, O Cais Jose Estelita esta para o Nordeste como a Amazônia esta para o planeta.
    O Ocupe Estelita é um grupo perfeito, sem erros. sem drogados e desocupados.

    Pessoal, pq não reivindicaram antes? O local estava parado há anos.
    Valeu Ocupe Estelita, conseguiram bastante para o povo do Recife. Partir para outra. Vamos encontrar outro espaço desocupado antes dos especuladores.

    • Muito bom!
      Que tal eles lutarem pela revitalização do Zoo de Dois Irmãos ?
      Seria um ótimo estágio;

  • Quando o TCU desaprovou as contas do governo, observando as leis e a técnica, isso não valeu nada, e acabou no campo político, ou seja, no mundo do faz-de-contas, e a ‘esquerda’ foi ao delírio.

    Agora também, mais uma vez, deixam a técnica e as leis em segundo plano, e cai no plano político, e esse filme ja vimos, ta bem perto, com aquelas 2 torres. Portanto engulam o NOVO RECIFE, acho é pouco.

  • Movimento meramente político! Formado por integrantes de um partido que foi varrido nas últimas eleições!

  • Essa minoria de manifestantes em sua maioria abastados, moradores de bairros de classe média, não tem nenhuma identificação com o local, não são moradores das adjacências, tem perfil alternativo e de esquerda, não representam nem meio por cento da população recifense conseguem fazer barulho sim, inegável. Mas não tem moral para reivindicar nenhuma ação no local, abandonado há mais de quarenta anos, nunca foi proposto por nenhum movimento social, nenhuma destinação para o local. Enquanto ocorriam manifestações no entorno do Ocupe Estelita, ali pertinho ocupavam as linhas da RFFSA pelos moradores do coque, estes sim, com todo direito a reivindicar o local para moradia. Não seria justo destinar a área para que eles de direito ocupem o estelita, e que dirá das palafitas do Capibaribe ou do clube líbano? porque não reivindicam a área para estas populações? Não existe essa preocupação no movimento, porque não há identificação dos integrantes com as questões sociais, só politicas, ou recreativas (drogas). Como morador da área afirmo, não me representam! nem representam a maioria da população recifense.

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MARCO BAHÉJornalista
É formado em Jornalismo e pós-graduado em História Contemporânea e História do Nordeste do Brasil. Foi repórter da Gazeta Mercantil para os estados de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. Também atuou como repórter do Jornal do Commercio, editor da Folha de Pernambuco e repórter especial do Diario de Pernambuco. É correspondente da revista Época no Nordeste desde 2003. Tamb´m atua com publicidade e marketing eleitoral desde 2004.
PIERRE LUCENADoutor em Finanças
É doutor em Finanças pela PUC-Rio e mestre em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco. É professor adjunto de Finanças da UFPE e foi secretário-adjunto de Educação de Pernambuco. É autor de vários trabalhos publicados no Brasil e no exterior sobre o mercado financeiro, e participa como revisor de várias revistas acadêmicas na área. É sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Finanças. Foi comentarista de Economia do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (TV Jornal e Rádio CBN). Atualmente é coordenador do curso de administração da UFPE, e Coordenador do Núcleo de Estudos em Finanças e Investimentos do Programa de Pós-graduação em Administração da UFPE (NEFI).