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Por José Carlos Cavalcanti

O título deste artigo me veio à mente a partir da leitura do post População quer o terceiro mandato. E agora? que nosso Pierre Lucena colocou ontem neste blog, citando uma pesquisa da CNT/Sensus que praticamente diz que a população quer o terceiro mandato. Ou seja, 50,4% dos entrevistados querem que Lula se candidate mais uma vez, e 51,1% disseram que votariam nele.

Isto me fez lembrar uma ocasião em que a ex-Primeira Ministra da Grã-Bretanha Margareth Thatcher quis empurrar goela abaixo nos britânicos um imposto chamado Poll Tax, que incidiria em todos os cidadãos, independentemente de renda, local de moradia, etc. A reação do Parlamento Britânico foi estrondosa, e era capitaneada pelo líder da oposição à época, se não me engano Neil Kinnock, Presidente do radical Labour Party- Partido Trabalhista, que depois veio a ser liderado por John Smith, que viera a falecer em 1994, sendo substituído então pelo jovem advogado de centro-esquerda Tony Blair. Tony Blair, que derrotou o conservador John Major (que sucedeu Margareth Thatcher em 1990) nas eleições majoritárias de 1997, interrompeu uma hegemonia dos conservadores que vinha desde 1979; portanto 18 anos de poder dos conservadores. Agora a hegemonia é dos Trabalhistas, que já estão há onze anos no poder!

Os parlamentares da oposição, com receio de não conseguir bloquear a proposta do governo conservador, passaram a lutar por um plebiscito para que o povo britânico votasse em relação à Poll Tax, certos de que só assim poderiam derrotar Margareth Thatcher. Esta, por sua vez, numa jogada de extremo “raposismo político” asseverou: “Ah é! Os senhores da oposição querem um plebiscito popular para o povo decidir sobre a Poll Tax? Então colocarei uma medida neste Parlamento solicitando também um plebiscito para que o povo decida sobre a Pena de Morte na Grã-Bretanha!”.

Como em geral a Pena de Morte é algo que causa reações muito conservadoras nas sociedades (em seu favor, é claro!), os parlamentares britânicos tanto do governo quanto da oposição entraram em acordo e desistiram de suas propostas de plebiscito, o que, finalmente, concorreu para que o governo desistisse de sua idéia maluca da Poll Tax.

Este episódio da história política da Grã-Bretanha é um caso que guarda muitas semelhanças com este imbróglio do terceiro mandato do governo Lula. Alguns defendem que o “povo quer” que o Presidente Lula permaneça no poder por mais um mandato. E aí aparecem as “pesquisas de opinião” apontando o que “o povo quer”. Por que não perguntam ao povo se o povo também quer a Pena de Morte? E principalmente com os indicadores de violência que o Brasil tem, creio que certamente “o povo” optaria pela Pena de Morte.

E olhe que já comentamos aqui neste blog sobre o respaldo acadêmico para apoiar esta “opção popular”. E foi num post intitulado “A Cabeça do Brasileiro” (de 11/09/2007), onde citava um livro do mesmo nome escrito pelo sociólogo Alberto Carlos Almeida, com a colaboração de Clifford Young, e editado pela editora Record.

A partir de sua questão sociológica (a democracia brasileira perde em qualidade por causa de relações sociais hierárquicas?), Alberto Almeida assume em sua hipótese central que na realidade a resposta é sim, e que seu teste irá ser realizado com uma visão específica de Brasil. Segundo ele, se é verdade que a democracia, do ponto de vista institucional, está consolidada no Brasil, também é verdade que suas bases sociais já estão presentes:

“… Há uma população com escolarização suficientemente elevada para levá-la a defender pontos de vista “modernos”. Mas ainda é grande a parcela da população que compartilha uma visão de mundo “arcaica”.

De acordo com Alberto Almeida, o Brasil são dois países muito distintos em mentalidade. Há sim, no Brasil, um lado dominante em lenta erosão – o das classes baixas -, e outro pouco presente, mas que tende a se fortalecer à medida que a escolaridade média da população aumentar. E a se fortalecer porque entre os fatores que determinam esse abismo entre os brasileiros, um dos mais importantes é a escolaridade. É a educação que comanda a mentalidade.

A título de exemplo, recordando, aqui vão alguns dados da pesquisa que resultou no livro. 53% dos eleitores sem instrução são de opinião de que um político que faz muito e rouba um pouco merece voto. Já o percentual dos que concordam com essa atitude, e que cursaram até a 4ª série do ensino fundamental, é um pouco menor, de 46%. 46% entre os eleitores com escolarização entre a 5 ª e a 8 ª séries também dariam seus votos para esse tipo de político. Os que cursaram o 2º grau compõem um grupo que começa a ficar menor nessa pesquisa: eles são 38%. Um total de 25% das pessoas com curso superior afirma que votaria num político corrupto.

Em resumo, diante deste argumento é fácil aceitar a razão pela qual a maioria dos brasileiros concorda com um terceiro mandato para o Presidente Lula. Mas creio este mesmo “povo”, diante da opção de votar pela Pena de Morte, também não hesitaria em aprová-la!

José Carlos Cavalcanti é Professor de Economia da UFPE, ex-secretário executivo de Tecnologia, Inovação e Ensino Superior de Pernambuco (http://jccavalcanti.wordpress.com)

19 comentários para 'Terceiro Mandato e Pena de Morte: o que eles têm em comum?'


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