Thinking, Fast and Slow, de Daniel Kahneman

ago 4, 2012 by     4 Comentários    Postado em: Artigos e Análises

Por Rodolfo Araújo
para o Acerto de Contas

Acredito que há dois tipos de livros quando você está aprendendo sobre algum tema: os que lhe dão repertório e os que lhe ajudam a combinar melhor o repertório que você já tem.

O Repertório é formado experiências, reais ou fictícias, em torno do objeto que se estuda. Além da incessante exposição a novos estímulos, quanto melhor for sua memória maior será, consequentemente, seu repertório. Para o músico, isto significa escutar canções diferentes, ouvir outras melodias, conhecer ritmos variados. Já o Administrador deve ler cases, desbravar mercados, entender estratégias.

Para Combinar de forma original o Repertório que se tem, é necessário detectar padrões, formar associações, buscar analogias e enxergar onde tudo se encaixa – ou o que pode ser desencaixado. Isto requer, muitas vezes, quebrar convenções e reinterpretar o que já se conhece. É neste momento que o músico experimenta outros instrumentos, refaz arranjos e junta elementos. Ou quando o Administrador mistura o aditivo direto na gasolina, faz um iPod gigante e chama de iPad, ou diz que você tem que pagar antes pela ligação telefônica que ainda vai fazer – se conseguir.

Esta associação entre Repertório e Combinações forma a base da Criatividade.

Acredito, ainda, que há uma terceira classe de livros: os que mudam sua própria forma de pensar, mostram caminhos alternativos para os problemas em mão, dão nova luz ao seu Repertório e outra dimensão às suas Combinações.

Thinking, Fast and Slow

É o caso de Thinking, Fast and Slow (FSG, 2011), de Daniel Kahneman.

A obra deste psicólogo israelense, boa parte em parceria com seu compatriota Amos Tversky, formou a base da Economia Comportamental que, recentemente, passou a questionar os antigos dogmas da Economia Tradicional – especificamente os que defendem que a tomada de decisão é um processo puramente racional.

Sua obra seminal, Prospect Theory: An Analysis of Decision under Risk (Econometrica, Vol. 47, No. 2., Mar., 1979, pp. 263-292), estabelece que quando tomamos decisões, nossas preferências não se distribuem de acordo com as probabilidades.

Para entender melhor esta diferença imagine que, para cada par de alternativas abaixo você deva escolher apenas uma delas:

A. 61% de chances de ganhar $ 520.000 ou 63% de chances de ganhar $ 500.000;

B. 98% de chances de ganhar $ 520.000 ou 100% de chances de ganhar $ 500.000.

Se você for como a maioria das pessoas, escolherá a primeira opção no caso A e a segunda no caso B. E, também como a maioria das pessoas, você estaria cometendo um erro lógico e violando as regras da escolha racional.

Esta falha, comum até aos mais experientes economistas, era considerada uma aberração pela Economia Tradicional, mas Kahneman e Tversky foram buscar as explicações psicológicas para entendê-la.

Eles depararam-se, neste processo, com três fatores fundamentais que caracterizam a racionalidade humana:

1. A avaliação sempre tem um ponto de referência neutro: se você ganhar um bônus maior do que o seu colega, ficará feliz; se ganhar menos ficará triste, mesmo que o seu bônus seja o mesmo em ambos os casos.

2. Sensibilidade decrescente: acender uma lanterna num quarto escuro tem um efeito diferente de acendê-la num lugar claro. Do mesmo modo, ganhar $ 1 milhão tem efeitos diferentes para um pobretão e para um bilionário.

3. Aversão à perda: a dor de perder $100 é sempre maior do que a felicidade de ganhar os mesmos $100.

É isto que ocorre, por exemplo, quando damos demasiado valor a um evento cuja probabilidade de ocorrer é de 1% (conhecido como “efeito possibilidade”), mas nos importamos pouco com a diferença entre 99% e 100% de algo acontecer (“efeito certeza”)1

Já o título do livro, diz respeito às duas formas de pensar que convivem nem tão pacificamente em nosso cérebro, no que Kahneman convencionou chamar de Sistema 1 e Sistema 2.

“O Sistema 1 opera automatica e rapidamente, com pouco ou nenhum esforço ou controle voluntário.”

Já o “Sistema 2 aloca atenção ao esforço mental, incluíndo cálculos complexos e suas operações são frequentemente associadas à experiência subjetiva de um agente, de uma escolha e de concentração.”

S1 seria, por assim dizer, a intuição, enquanto que S2 representa um esforço consciente e deliberado de raciocínio.

Kahneman diferencia, no entanto, a intuição treinada da intuição, digamos, aleatória. A primeira representaria um insight rápido, porém baseado em extensa experiência prévia (Repertório!) – como no caso dos jogadores de xadrez ou médicos – enquanto que a segunda representa simplesmente um, ahmmm, chute.

Ao longo do livro, o autor explica detalhadamente como opera cada um dos Sistemas, passando pelos mais conhecidos viéses cognitivos e heurísticas, comoframing, ancoragem, priming, falácia da conjunção, regressão à média, lei dos pequenos números etc.2, transformando o livro num verdadeiro compêndio sobre Economia Comportamental.

Além de escrever em um estilo extremamente agradável, Kahneman impressiona por sua incrível humildade ao relatar suas experiências, descobertas, realizações e,last but not least, fracassos. O que não é pouco considerando que, mesmo sendo psicólogo de formação, ganhou o Prêmio Nobel de Economia em 2002.

____________________

1. Posteriormente, Kahneman e Tversky calcularam experimentalmente como as pessoas encaram, de fato, as probabilidades em cada decisão: chances de 1% têm, na verdade, um peso de 5,5%, enquanto que uma quase-certeza de 99% é avaliada como 91,2% em situações reais.

2. LEIA MAIS:

- Framing: O pequeno gigante ou o enorme anão? e Como você vê o que você vê?.

- Ancoragem: A posição da âncora depende de quem a joga.

- Priming: A psicologia da generosidade – ou da falta dela.

- Falácia da Conjunção: Heurística I – chutando para fora.

- Regressão à média: regressão à média.

- Lei dos Pequenos Números: O andar do bêbado.

4 Comentários + Add Comentário

  • Interessante o ponto de vista dele.
    Se vc ficar sem gasolina e celular no meio do deserto, vc queria estar a bordo de um Aston Martin ou de um Uno ELX?

  • Essa é uma questão, sem questão! quero falar do mensalão e da presença de Marcio Thomaz Basto como Ministro defendendo bandido .

    • Você queria que um advogado criminalista agisse como ?

  • Muito intewressante o artigo.
    Parabens ao Rodolfo Araujo.

    Vale registrar que a maioria das pessoas não percebem como nossa mente é
    influenciada pelas aparencias.
    Vejam o caso do mensalão: a grande maioria quer a condenação dos reus. E as provas?
    Não interessa. A mídia já julgou e já condenou.Se culpados ou inocente, é o que menos
    importa. As pessoas absorvem as informações mas, não tem capacidade crítica.
    O artigo é bastante oportuno. A ancoragem está funcionando.

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MARCO BAHÉJornalista
É formado em Jornalismo e pós-graduado em História Contemporânea e História do Nordeste do Brasil. Foi repórter da Gazeta Mercantil para os estados de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. Também atuou como repórter do Jornal do Commercio, editor da Folha de Pernambuco e repórter especial do Diario de Pernambuco. É correspondente da revista Época no Nordeste desde 2003. Tamb´m atua com publicidade e marketing eleitoral desde 2004.
PIERRE LUCENADoutor em Finanças
É doutor em Finanças pela PUC-Rio e mestre em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco. É professor adjunto de Finanças da UFPE e foi secretário-adjunto de Educação de Pernambuco. É autor de vários trabalhos publicados no Brasil e no exterior sobre o mercado financeiro, e participa como revisor de várias revistas acadêmicas na área. É sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Finanças. Foi comentarista de Economia do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (TV Jornal e Rádio CBN). Atualmente é coordenador do curso de administração da UFPE, e Coordenador do Núcleo de Estudos em Finanças e Investimentos do Programa de Pós-graduação em Administração da UFPE (NEFI).