Vestígios do mito da imparcialidade no Jornalismo
“A loucura é algo raro em indivíduos
- mas em grupos, partidos, povos e épocas é a regra.”
Nietzsche, in: Além do Bem e do Mal
Para começar nossa conversa, é bom que se deixe de antemão bastante claro que palavras são diferentes de coisas. Uma palavra não é uma coisa, mas sim o elemento linguístico que conduz o sentido semântico de um termo, ou seja, seu significado. Um termo que possui um sentido semântico expressa simbolicamente (através de signos, letras) a existência de alguma coisa.
A coisa é re-presentada por um signo linguístico, ou vários; uma palavra, uma frase; ou até mesmo um livro, ou um quadro. Tomemos o exemplo de Dom Quixote (o nome do personagem do livro de Miguel de Cervantes), segundo Foucault. O autor francês diz o seguinte em sua obra As Palavras e as Coisas, do nosso personagem-exemplo:
“Ora, ele próprio é semelhante a signos. Longo grafismo magro como uma letra, acaba de escapar diretamente da fresta dos livros. Seu ser inteiro é só linguagem, texto, folhas impressas, história já transcrita. Ele é feito de palavras entrecruzadas; é escrita errante no mundo em meio à semelhança das coisas.” (Pág. 63)
Essa semelhança das coisas apontada pelo autor é justamente o que confere seu caráter de re-presentação linguística. É como se a coisa, no caso, Quixote – sua re-presentação – existisse em uma realidade singular, determinada e própria ao texto. Uma realidade que não é a nossa realidade, mas uma outra (como a Bíblia representa uma realidade determinada, mesmo que fictícia para os ímpios, ou total para os crentes; outra, que não a do tempo atual – apesar de suas ingerências na realidade social e religiosa, através de seus seguidores).
Não sei vocês, mas eu nunca vi Dom Quixote em uma esquina, montado no Rocinante enquanto Pança comprava-lhe uns queijos e cebolas no mercadinho em frente. Apesar de já ter visto algumas estátuas e de já ter lido o livro, o máximo de semelhança que presenciei além disso foi um cara fantasiado nas ladeiras de Olinda, no Carnaval – apenas estando sob efeito de cogumelos ou afins poderia crer piamente que fosse o próprio Quixote. Convenhamos, ver estátuas ou fantasias é bem diverso de ver a coisa em si, dentro de seu contexto, no caso, seu livro.
Este preâmbulo teve o intuito apenas de mostrar que se deve ter cautela na hora de observar as diferenças que permeiam os conceitos e o seu funcionamento real. É preciso cuidado pra não cair na falaciosa relação norma discursiva X existência real.
Os mitos nas normas
Posto que as palavras não são as coisas, e entendendo essa duplicidade como uma engrenagem colocada em prática pelo funcionamento dos signos, das re-presentações, passemos para a análise da imparcialidade enquanto mito.
Um mito é um dispositivo de re-presentação que foi muito usado pelas culturas antigas com a a função de narrar alguns acontecimentos das suas relações cotidianas (imaginárias ou não, com fundos de verdades ou não), a partir de uma linguagem simbólica.
Pode ser um relato, muitas vezes deformado, de determinado personagem histórico, adulterado ao longo dos tempos e dos diferentes olhares dos narradores. Nos limites, pode-se dizer que um mito é uma lenda, uma crença, uma mentira, ou uma invencionice.
A tal imparcialidade vista sob o ângulo do mito é isso tudo e mais um pouco. Pode ser identificada em vários setores e instituições transmissoras e emissoras de discursos, sejam textos, leis, códigos, imagens, sons, etecetera.
A Imprensa é a instituição que logo nos salta aos olhos. Mas isso vale para quaisquer instituições emissoras ou transmissoras de enunciados. Vale até mesmo para aquele exemplo comum, onde pede-se para que várias pessoas conte a mesma história (ou estória). É notória que cada indivíduo contará à sua maneira, dando relevos a certos aspectos e silenciando outros; enxergando detalhes que outros olhos podem não ver.
É sintomático que muitas vezes não desejarmos acreditar (abrir os olhos e distinguir as palavras e as coisas, deixar cair os Véus de Maya), ou melhor, de nem sequer cogitarmos a possibilidade de ser a imparcialidade da imprensa um simples mito.
Mas, vê-la desta forma me parece saudável, já que nos redime de algumas possíveis ingenuidades e nos torna mais críticos com as informações que nos são transmitidas.
Para além disso, também podemos pensar a respeito do mito da Constituinte de 1988. Pensar no quão distante se localiza a vida real cotidiana, daquela que é enunciada na Constituição Federal – a ponto de sermos um País tão elegante no papel, porém feio e mau cheiroso ali na esquina.
Isto não é à tôa. Há um tremendo abismo entre os discursos e as práticas – porém, não leiamos essa indicação como aquele velho axioma “A prática é diferente da teoria“, já que teorizar sobre as coisas é uma modalidade de prática. Estou a falar especificamente dos desníveis que se pode observar entre as relações normativas previstas nos códigos, nos discursos, e as relações de vivência cotidiana.
Também poderíamos observar como alguns elementos dos dispositivos legais (enunciados discursivos) são insuficientes para garantir a existência inquestionável da imparcialidade de um Juíz de Direito.
Consideradas a Vitaliciedade, a Inamovibilidade e a Irredutibilidade de subsídio (elementos constitucionais que, em tese, asseguram a imparcialidade de um Juíz), observar o funcionamento prático da suposta imparcialidade de um Juíz está bem distante de uma tênue confiabilidade na aplicação dos dispositivos legais do discurso normativo.
Ou seja, a norma não reduz um Juíz à uma simples máquina objetiva. Nem sequer a própria norma fora produzida por máquinas objetivas – embora se possa observar corpos institucionais, estes são referenciados com os dispositivos éticos e morais de determinada época em que fora produzido. E, como se sabe, as morais variam nos tempos históricos – E é isso que nos faz diferentes (não melhores) que os egípcios antigos, que os gregos antigos, etecetera.
Se tais normas legais não isentam Juízes de Direito de serem corruptíveis em sua atividade cotidiana (mesmo o próprio dispositivo constitucional impondo vedações – Art. 95), e não raro vemos Juízes sendo afastados de suas funções, significa que há algo que escapa à legislação – e é esta que vai aplicar ingerências como dispositivo de emenda do corrompimento.
Ademais, mesmo que os cânones do Direito Internacional Público assegure-nos a todos o direito irrestrito de ser julgado por um “Juíz imparcial”, acreditar em sua aplicação efetiva, nunca questionável e de fato garantida, é mais que uma ingenuidade atroz, é um disparate de quem visa ludibriar outrem, maquiando mitos que, na verdade, devem ser levados em toda consideração possível.
O mito da imparcialidade no Jornalismo
Se percebemos tais buracos no meio jurisdicional, o que diremos, pois, da atividade jornalística?
Certo manuais acadêmicos para principiantes da comunicação são até agradáveis de se ler. Eles transmitem certa sensação de serenidade normativa, que confere a alguns estudantes um boa dose de vontade de verdade.
Mas a prática está bem distante da norma lida no texto – no caso do Jornalismo, a própria normatividade está afetada pela não regulamentação da profissão. A prática cotidiana é demasiado conflituosa.
Pode-se dizer que a imparcialidade é um suposto princípio bem recente dentro de nossos 200 anos de imprensa. Talvez uns 25 anos seja uma idade razoável para ela. Neste período foi reivindicada com maior afinco pelas grandes empresas do setor, como discurso de legitimação dentro da nova realidade democrática, no Brasil, com o fim da ditadura militar.
Uma empresa de comunicação tem um dono, um gerente, um editor, ou seja lá que nome se dê ao Manda Chuva do pedaço. E quem irá crer que uma empresa não tem seus interesses – sejam eles econômicos, políticos, ou de pura simpatia -, e que estes se sobreponham aos interesses da sociedade?
O dispositivo do Neutral Point of View (NPOV) presta-se como um discurso bastante usual e (legitimador) na atividade jornalística na sociedade contemporânea. Legitimador porque induz os interlocutores à ilusão da objetividade – mais um “mito”, que mereceria um post próprio, muito bem explorado pelo filme de Antonioni Blow-Up – Depois daquele beijo.
O NPOV pode ser visto como o pilar da mítica imparcialidade, já que permeia os discursos da mídia quando reivindica para si o poder de ‘informar ‘ de uma maneira onde não se verificaria o envolvimento dos jornalistas com o objeto narrado, ou seja, de forma ‘isenta’. No entanto, o elemento polifônico (várias vozes) coloca-se de forma inerente nos acontecimentos, quando são observados, obstruindo frontalmente o NPOV. Em outras palavras, podemos dizer que um “fato” permite infinitos olhares sob si.
Imparcialidade X Transparência
Continuemos, pois, nossa análise do mito da imparcialidade na Imprensa. Se colocamos que a imparcialidade é impraticável (devido aos elementos acima analisados, quais sejam, as disparidades da relação norma discursiva X cotidiano real, o elemento polifônico dos acontecimentos, a manipulação por trás do uso do discurso do NPOV, etc.), o mesmo não acontece com a relação de transparência que um veículo de comunicação pode estabelecer com seus interlocutores.
Já dissemos que as ideias, os termos, não correspondem à prática da vida cotidiana. Isso pelo fato também de que os interesses permeam todas as ingerências da norma na vida ordinária (cotidiana), perpassa as notícias, permeia e compõe as opiniões. Isso me parece uma obviedade.
Embora já tenha sido escrito de outras formas ao longo deste ensaio, é bom que isso seja dito e re-dito sempre, de tal forma que reforce nosso olhar crítico, cujo sentido é não cairmos nas ilusões míticas dos conceitos normativos, diante de nossa vida cotidiana.
Em uma palavra, para que não sejamos tapeados qual pacóvios, ludibriados por uma falsa sensação de segurança semelhante àquela sentida pelos estudantes de comunicação durante e após suas leituras dos ‘manuais’. A vontade de verdade, o desejo de crença de que determinada notícia explique e abarque plena e realmente a totalidade dos acontecimentos não passa de uma ilusão, um conforto, um aconchego para os olhos dos receptores, e nossos espíritos – muitas vezes ávidos pela ordem.
É preciso compreender que não raramente (e sobretudo na vida ordinária do cotidiano!) a ordem é o caos. E que a insegurança da vida é o mote da vivência crítica – alerta, atenta.
O gesto de narrar um acontecimento está permeado de escolhas por parte de quem narra – ou de quem edita o texto. Emite-se menor ênfase a um aspecto, dá-se maior relevo a outro, e por aí adiante. Essas escolham são os reflexos dos interesses, dos valores, dos referenciais daquele que narra.
E os interesses são, na maior parte das vezes, desconhecidos do grande público, e permeiam os textos/imagens jornalístic@s subrepticiamente, ou seja, embutidos de tal forma que não fique explícito aos olhos desatentos. Outros, menos aparentes ainda, podem ser decodificados a partir de estudos rigosos, pesquisas, análises cuidadosas – olhares de lince.
Neste sentido, pode-se perceber que sempre haverá um interesse, seja ele moral, social, cultural, econômico, político, geográfico, etecetera. Tais interesses muitas vezes se apresentam de forma transcendente, sendo reproduzidos, duplicados e triplicados, em centenas, milhares de outros veículos transmissores da informação, ao longo do tempo e do espaço.
Eis o papel das chamadas “Agências de notícias” – sejam elas regionais, nacionais ou internacionais: abastecer o mundo de ‘notícias’.
Santo ingênuo aquele que acredita saber o que se passou na recente guerra civil do Sri Lanka (que dizimou mais de 1000 indivíduos), ‘lendo’ as matérias diárias de uma Reuters, uma AP, uma AFP!
O caos é bem maior do que se posso crer…
Posta encurralada em seu devido beco, a imparcialidade da atividade jornalística precisa ser vista como um mito, para que dela se possa extrair algo que sirva pra alguma coisa. Para isso, o elemento crítico do leitor é imprescindível, já que, no geral, os interesses das grandes empresas de comunicação são maquiados.
Talvez o elemento mais perigoso dessa relação de mascaramento dos interesses corporativos e governamentais seja justamente a intenção macabra de padronizar a civilização humana, pasteurizar a sociedade global, através da imposição muda de um único olhar como o único possivel – sob o ponto de vista de uma moralidade determinada, de olhos ‘educados‘.
E, isso se torna ainda mais dramático com o uso indiscrimado da ilusão do Neutral Point of View como discurso legitimador desse olhos moralizados e moralizantes.
É neste momento que a prática da transparência surge como um elemento que confere credibilidade às atividades de comunicação pública. Um veículo que não deixa clara suas preferências ideológicas e seus envolvimentos políticos e econômicos, pode perder parte significativa de seu crédito junto aos seus leitores, quando estes se colocam num platô crítico.
Não constitue uma falta de dignidade um veículo de comunicação ter suas preferências, simpatias, interesses, opiniões. O que lhes subtrai a confiabilidade é quando a empresa de comunicação falta com a transparência junto ao seu público, utilizando-se de inaceitáveis não-ditos, artimanhas linguísticas, e, o pior de todos, do mito da imparcialidade – do redentor NPOV.
Por alguma conclusão
Evidentemente, eu poderia ter escrito este texto de forma totalmente diferente. Ter falado de muitas outras coisas.
Poderia ter simplesmente dito que a ética individual de um jornalista cai por terra quando seu texto passa pelas navalhas de um editor. Que quem conta um conto aumenta (ou diminui?) um ponto. Que nas redações dos jornais e semanários é a linha editorial quem dita as regras do olhar narrativo – da moral dos olhos pretensamente monofônicos. Que a linha editorial de uma empresa de comunicação conduz o pensamento de um veículo, e dita quais serão os recortes que serão produzidos na realidade.
Mas não. Escolhi escrevê-lo assim, lançando mão de referenciais como Foucault, Dom Quixote, o Carnaval, a Constituição, e todos os demais. Trata-se de um ensaio, ou seja, um texto cujo objetivo é abrir portas ao pensamento mais amplo e crítico – abrir os trilhos do olhar às observações, no sentido de indicar caminhos, e não de esgotá-los.
Poderia até mesmo ter usado outra ilustração para o post, que não a re-re-re-re-produzida Alegoria da Caverna, do Velho grego. Imagem cansada, re-petida à vertigem…
Mas não. E isso foi intencional. Teve um propósito. Ou vários. Mas deixo-tos o encargo de advinhá-los, ou mesmo criar outros propósitos, outras interpretações, variadas hermenêuticas.
Escolhi escrevê-lo como está.
Com a imagem que está.
Na forma que está.
E assim está.
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Postado em: 
Assustadoramente interessante!
André,
muito bom o artigo!
Realmente, a imparcialidade no meio jornalistico é um mito.
Sobre o meu ponto de vista o que pode existir no máximo em um editorial ético é o não-interesse em beneficiar alguma das partes do contexto da matéria publicada.
Ou seja, penso que imparcialidade é mito, no máximo pode haver não-interesse em beneficiar alguém.
Ednaldo,
Para além do “não-interesse”, existe um elemento chave em toda forma de narrativa pretensamente jornalística, ou não, que é o fator objetividade (aqui recomendei o filme Blow- Up – vale muito a pena assisitir).
Por exemplo: coloque duas pessoas – e o agravavante é se forem de formações morais, linguísticas e culturais diversas – diante de um mesmíssimo evento-acontecimento, e peça-as para lhe escrever um texto de 1 ou 2 laudas descrevendo o evento-acontecimento.
Certamente não será o mesmo episódio, não serão as mesmas palavras. As ênfases serão diversas.
Não terminei de ler todo o texto. Me atraiu a referência a quixote. Um dos melhores livros que já li até hoje. Acho que todos deveriam ler.
André,
Gostaria de comentar sob a perspectiva do conflito entre jansenistas e jesuístas nos seiscentos, setecentos e residualmente nos oitocentos.
Os primeiros foram formalmente banidos por heréticos e efetivamente banidos do acervo de modelos metafísicos interpretativos. Afastou-se esse tipo de pensamento das mentes da maioria.
O segundo, foi formalmente banido em algumas circunstâncias, quando criava muitos e muito evidentes embaraços.
Mas, o segundo, sendo a forma por excelência de dizer uma coisa e fazer outra, fincou raízes profundíssimas nas sociedades de matriz européia.
Pode ser eventualmente banido exatamente porque triunfara a toda evidência. O mundo é jesuíta, a hipocrisia o mais forte móvel de quase tudo. Entrou nas mentes, não se preocupa com eventuais proscrições formais.
E como todo força realmente intensa, aceita dizer-se algo pequeno e desimportante, pois sabe que ganhou todos os corações e mentes.
Cícero, com sua interminável chatice de mau poeta, ser rancoroso e bom advogado chicaneiro, triunfou. César deixou a melhor crônica de tantos tempos – As guerras da Gália – e um dos nomes mais repetidos. Mas, César era grande e a grandeza não convém.
E ficam as mitologias dos que ganharam dizendo ter perdido.
Andrei,
Bem creio que poderíamos passar horas a divagar sobre os que ganharam se dizendo derrotados.
Gideão, em reclame ao anjo do Senhor (Jz. 6;13) diz-lhe: “Não nos fez o Senhor subir do Egito? Porém agora o Senhor nos desamparou, e nos deu nas mãos dos midianitas.”
Aliás, Juízes é um livro excelente de se analisar – do ponto de vista do adestramento moral. Tem cá suas relações sintomáticas com o mais recente caso, o famigerado e intocável do século XX.
Cícero soube muito de uma Amizade de umbigo (incluindo, como se fossem metonímicos ‘discursos’, aqueles poucos de seu círculo de interesses). – e isso foi, em certa medida, uma praxe em boa parte dos signatários daquela idiossincrasia.
Caso emblemático, caro Andrei!
Há, no caso, pouco do hábito cristão (cristão, não judaico, e bem sabes a distância) – no seu viés caridoso. Embora enseje pouco do “Eu sou egoísta” de um Raul Seixas…
Diz o orador romano (no qual enxergo pouquíssimo de Demóstenes, para contragosto de parte de tradição):
“…porque não convém que um ser somente se inquiete por muitos; a cada um lhe bastam seus próprios cuidados e é coisa desagradável empenhar-se em negócios alheios; o mais cômodo é manter bem frouxos os laços de amizade, afim de poder firmá-los ou largá-los quando quiser.”
Parece delírio meu, mas a Lealdade (ou sua ausência) me soa como algo emblemático para falarmos desse tema do proselitismo moral (disfarçado, sempre) que permeia parte dos ilusionistas sinistros que pregam a fé no NPOV.
Também gostaria de acrescer algo à sua indicação dos jansenistas e jesuítas.
Seria muito curioso ver um jesuíta em profunda penitência… A que provas não estariam sujeitos, não?!
Bem, em certa medida, os jansenistas me parecem um pouco alienígenas e anacrônicos (e nisto talvez resida alguma coerência). Os jesuítas tiveram a capacidade de se amoldar em alguns padrões histórico-políticos, e disso lançaram mão às mais torpes hipocrisias.
Aliás, creio que seja algo evidente desde a escolástica. O saber aristotélico nos doutrinamentos religiosos soa como algo um tanto assombroso.
Que lindo!!!
E mais, palavra não só não são coisas, como precisaram se livrar delas para que uma ciência como a linguística (sem trema) pudesse existir. Um dos pais da linguística, Ferdinand Saussure deixa bem claro, o que faz o signo, de outro modo, o sentido, não é a relação entre palavras e coisas, mas entre “imagens acúsitcas” e “conceitos”. As coisas foram expulsas e as palavras dançam sua louca dança de borboletas…
A referência ao caríssimo Quixote e Foucault, sempre há mais, e mais, tentarei ser breve.
Na passagem que Foucault aborda Quixote, há para mim, algo fundamental, está aí no texto, mas repito na esperança de acrescentar mais, e mais. Quixote representava o último homem de um tempo, a era dos romances de cavalaria, a era do livro do mundo como metáfora, quando antes do Port Royal, os homens acreditavam que os signos perteciam a uma tríplice aliança (nada a ver com a bíblia hein?). O sentido para eles era composto por um significante e um significado (como para nós) e mais, por uma característica de similitude, que unia o traço da letra aos traçados do mundo, o homem, os animais e Deus.
Quixote foi esse ultimo homem, acreditou na similitude dos signos numa era onde os signos haviam se retirado do mundo. E batia-se contra moinhos, perseguia donzelas imaginárias, espadas e escudeiros, e tudo o mais que havia nos livros e não mais no mundo, como a honra a lealdade, a glória do cavaleiro.
Imparcial, nem dá pra comentar, e transparente… caro André, tenho por hábito levar as palavras a sério (hábito quixotesco reconheço), mas pensando em “transparência”, não a vejo como uma metáfora adequada, a própria alethéia, se é véu, e o véu possuiu uma certa transparência é por conta de sua opacidade, sua densidade de coisa por sobre coisa que possibilita que vejamos outra elemento que não apenas o próprio véu. Se quisermos de fato tranparência, não precisamos de mais nada a não ser a fina película ocular que nos separa (com sua opacidade secreta) do mundo. Pois, com palavras, com imagens a transparência talvez torne-se refratária como um prisma, a sempre produzir uma outra coisa a partir da luz, ou a translucidez de uma janela, algo após a lucidez? E as moscas, como passarão através do vidro???
Chega, já falei demasiado.
Saudações Anísiacas
Meu caro Sr. Anísio,
Palavras suas nunca hão de ser demasiadas – embora saibamos bem o valor do silêncio, e o cultuamos de forma ímpar e valorosa, em muitas ocasiões sublimes ou subliminares.
E como a tal da Alethéia é cheia de sublinhas! Até as que não se delineam…
Recordou-me, agora, suas palavras (os véus, velados ou não), as palavras de um outro, ausente, mas sempre presente, graças à graça do verbo inscrito em tábuas:
“Quando a flauta soou
um tempo se desdobrou
do tempo, como uma caixa
de dentro de outra caixa.”
E Tebas se faz…
Uma Fábula de Anfion pra ti, caro Sr.!
Meu Caro André:
Como sempre, abri o seu site para me interar das notícias, e fiquei um tempão a meditar sobre o seu sábio artigo. Hoje vivemos bombardeados de informação e afazeres, que quase não sobra tempo para lermos o queremos. Mas, neste mar da comunicação, o teu escrito é uma ilha que não podia ficar despercebida.
Realmente não é antiético se assumir como parcial. Não ético é se proclamar imparcial quando na realidade não se é, usando ou não a palavra “imparcialidade”.
Se na imprensa não prospera a tal imparcialidade, pela minha vivência no mundo do Direito, sinto que aí é que ela não passa de um verdadeiro mito. E esse mito permeia todos os órgãos responsáveis pela aplicação da segurança e da justiça, e quanto mais elevado ele for maior a imparcialidade, porque mais próximo e atrelado aos interesses políticos partidários dos governantes de plantão, afora a influência do poder econômico.
Para entender melhor tal falácia, em se falando em Constituição – as palavras nelas contidas se contradiz com a realidade das ruas – , caso o amigo ainda não leu, sugiro a leitura do O QUE É UMA CONSTITUIÇÃO?, de Ferdinand de Lassale. Independente das palavras, ele descreve a Constituição real num mundo tão cheio de interesses pessoais, de imparcialidades, de donos, e hoje recheado de tanta corrupção.
Sem dúvida e sem bajulação, você nos ofertou um inteligente e belo artigo.
Miguel Sales
Caro Miguel,
Infelizmente nos é visível o quanto nossos grandes veículos de comunicação ainda perpetuam essas práticas de mascaramento.
E o pior talvez seja o fato de que esta não é uma prática “velha”, como aquelas que encerram vicissitudes nas experiências políticas brasileiras, tais como os fisiologismos, clientelismos e mandonismos locais. É uma prática nova, uma bandeira nova.
Os jornais de outrora não seguiam este caminho. Pelo contrário, desde o nascimento da imprensa brasileira (entre as décadas de 1810-20), até meados do século XX, cada veículo tinha definida publicamente suas linhas editorias.
Ainda não tive contato com o texto de Lassale, mas pela sua descrição, parece um texto indispensável.
Um forte abraço!
Prezado André,
Li, pensei, refleti.
Ensaio bem escrito, pertinente, rico.
Após sua leitura mergulhei em um mar de idéias.
Sinto me preenchida com tamanha satisfação por ter em meu dia algo de tal preciosismo que me fará refletir – e olhar para o teto por algum tempo – a cerca não apenas de imparcialidade de nossa imprensa, cotidiana e coeva.
Conjeturarei sobre palavras, diálogos e reflexões as quais nos expomos diariamente, na impossibilidade de ser ilha, expondo-nos as impressões e interpretações de outrem. Se para a existência busco sentido, em tuas palavras tenho a direção do dia de hoje para meus pensamentos e análises.
Prezada Cristina,
Que bom que o texto pode lhe trazer elementos para reflexões. A intenção foi justamente essa – para além de esgotar o tema, como disse no próprio texto.
Bem, na sensação de acrescentar elementos reflexivos, deixo aqui um trecho de um texto de Fernando Pessoa que muito me agrada – embora fuja para outros caminhos de assunto. São as primeiras palavras do Livro do Desassossego.
“Autobiografia sem factos”
“Nasci em um tempo em que a maioria dos jovens haviam perdido a crença em Deus, pela mesma razão que os seus maiores a haviam tido – sem saber porquê.
E então, porque o espírito humano tende naturalmente para criticar porque sente, e não porque pensa, a maioria desses jovens escolheu a Humanidade para sucedâneo de Deus.
Pertenço, porém, àquela espécie de homens que estão sempre na margem daquilo a que pertencem, nem vêem só a multidão de que são, senão também os grandes espaços que há ao lado.
Por isso nem abandonei Deus tão amplamente como eles, nem aceitei nunca a Humanidade.
Considerei que Deus, sendo improvável, poderia ser, podendo pois dever ser adorado; mas que a Humanidade, sendo uma mera ideia biológica, e não-significando mais que a espécie animal humana, não era mais digna de adoração do que qualquer outra espécie animal.
Este culto da Humanidade, com seus ritos de Liberdade e Igualdade, pareceu-me sempre uma revivescência dos cultos antigos, em que animais eram como deuses, ou os deuses tinham cabeças de animais.”
Um forte abraço e uma ótima semana de invenção de sentidos!
[...] caso assumissem seus interesses de forma clara. Mas, não. Escondem-se atrás da mentira chamada “imparcialidade” para praticar um jornalismo de esgoto. Ora, o único “ser” capaz de alguma imparcialidade [...]