O analfabetismo no Brasil não deveria ser tratado apenas na base dos números

set 8, 2008 by     19 Comentários    Postado em: Atualidades, Educação

A Unesco está celebrando hoje, dia 8, o Dia Internacional da Alfabetização. O especialista em educação de jovens e adultos da Unesco no Brasil, Timothy Ireland, deu declaração avaliando que, no Brasil, o analfabeto continua sendo em sua maioria, nordestino, negro, de baixa renda e com idade entre 40 e 45 anos.

Segundo Ireland, “A questão do analfabetismo sempre foi minimizada como um direito, mas ela é fundamental para que o cidadão participe de forma democrática. Hoje vivemos na sociedade da informação e do conhecimento, a pessoa que não tem acesso à escrita e à leitura acaba excluída de informações que são necessárias para garantir todos os outros direitos, a saúde, a participação política na sociedade.”

Em 2006, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do IBGE, apresentou números nada animadores sobre o analfabetismo no Brasil. Segundo aquele levantamento, 10,38% da população brasileira se declarou analfabeta absoluta. Esse percentual representa 14,3 milhões de brasileiros.

Entre os que se declararam negros e pardos, o analfabetismo é duas vezes maior do que os que se declararam brancos. Esse relatório também mostrou que nas áreas rurais o índice mais que dobra, indo para 25%.

A quantidade de analfabetos no Brasil acima de 15 anos (14 milhões de pessoas), coloca o país no grupo das 11 nações com mais de 10 milhões de analfabetos, ao lado do Egito, Marrocos, China, Indonésia, Bangladesh, Índia, Irã, Paquistão, Etiópia e Nigéria.

Os dados educacionais são sempre alarmantes no Brasil. No entanto, outra preocupação que não deve escapar das avaliações mais aprofundadas, que não se limitem aos dados, é o tipo de alfabetização que estamos buscando como desafio para os próximos anos.

Em 2000, durante a Conferência Mundial de Educação em Dacar, o Brasil assinou o compromisso Educação para Todos. Desde então, os índices parecem ter melhorado um pouco, embora de forma superficial e insuficiente.

Segundo o compromisso assinado em Dacar, o objetivo do Brasil seria reduzir o analfabetismo para 6,7% até 2015. A avaliação da Unesco é que no ritmo que as coisas estão caminhando, será praticamente impossível atingir essa meta.

Minha avaliação é de que a Educação no País não pode ser baseada apenas em números quantitativos. É preciso levar em conta, sobretudo, a qualidade das ações contra o analfabetismo.

Pouco adiantará reduzirmos drasticamente o analfabetismo, se não levarmos em consideração um outro lado da moeda, que parece escapar aos números: o analfabetismo funcional. A redução dos números apenas agradará os organismos internacionais e o governo brasileiro. A quantidade de indivíduos que sabem ler, mas não conseguem entender o que o texto lido diz é grande e preocupante.

Se a meta numérica preocupa a Unesco e os brasileiros, fico imaginando se nos concentramos não nos números apenas, mas na qualidade do Ensino Público, a que ponto chegará nossas preocupações.

19 Comentários + Add Comentário

  • Acho que é a pior exclusão a que se pode condenar uma grande parcela populacional. A pior porque ela é antecedente das outras, na medida em que o analfabeto, hoje, não está apto para qualquer trabalho urbano, seja em serviços, seja na indústria.

    Por muito tempo isso foi mantido pela conjunção de dois fatores: 1 – despreocupação de quem não era atingido e 2 – projeto de manutenção na ignorância para formação de capital político. A usual mistura de projeto com desleixo.

    Eis que o problema volta enorme. O abismo entre o minimamente instruído e o analfabeto é tão grande que este último encontra-se noutra realidade. Seu mundo é outro, seus canais de aquisição de informações e de tratamente delas são mais restritos.

    Se olharmos o problema da violência sob o prisma da falta de educação, podemos ver uma desastrosa relação. A lei, onde se encontram as previsões de punições por crimes, presume-se conhecida por todos e assume a forma escrita.

    Ora, como se pode presumir que um analfabeto conhece uma codificação escrita? Como se pode exigir dele observância do que ele não pode, nem potencialmente, conhecer?

  • Não será a alfabetização, em sua concepção e forma atual, que resolverá o problema da Educação no Brasil.

    A dívida do Brasil para com a educação de seu povo vai muito além de ensinar a “ler” e “escrever”. Muitas vezes esse ato de “retirada da exclusão” não passa de uma farsa, onde o aluno não aprende outra coisa que escrever e saber reconhecer seu nome. Ainda que, com muito esforço, desenvolva a capacidade de ler textos mais articulados e complexos (como um simples romance, por exemplo) acaba não tendo aguçado sua capacidade crítico-reflexiva, tornando-se mero fantoche do que é alardado pelos sistemas de comunicação (e ou “instrução”) de massas.

    De fato acho ser esse o objetivo do artigo. Estamos ampliando os censos, mas será mesmo que estamos dando uma efetiva melhora nos níveis de educação do país?

    A se ver pelas escolas e instituições públicas de ensino, é fácil saber a resposta. O Brasil não tem um plano para a educação de seus habitantes, o que em grande medida, também é aplicado as instituições particulares. Seria preciso um grande programa, que revesse as práticas pedagógicas, as grades curriculares e os objetivos da formação educacional pública/privada para o país.

    Deríamos ter uma escola que além de ensinar “para a vida”, deve dar opções diretas de inserção no mercado de trabalho. Nosso “segundo grau” já deveria ser um momento de formação técnica. A Universidade, que deveria ser um grande experimento da produção e discussão do conhecimento, ao invés de uma instituição esgotada em sua forma, como se apresenta hoje, deveria encolher, voltando-se unicamente para a produção e desenvolvimento de técnologias, e formação de profissionais de alto nível, destinados a formar aqueles que irão formar outros, ou seja, a universidade não deve formar professores, e sim, professores de professores. Escolas técnicas podem muito bem sobrepor um bocado de cursos oferecidos em universidades (caso mesmo de todas as licenciaturas, grande parte das engenharias, e das ciências sociais aplicadas)…

  • Eu acho estas colocações sobre a reforma na educação muito interessantes. O argumento usual é que é ruim, tem de fazer uma reforma para se adequar ao novo, instituir novas práticas e coisa e tal, que o modelo brasileiro não presta, que as universidades estão com uma filosofia esgotada e etc, etc e etc.

    Pois bem, curiosamente o modelo tradicional de ensino, aquele mesmo que se critica tanto, que é um professor na frente dos alunos com giz e quadro negro, é o que se adota em todos os lugares que são referência em matéria de qualidade na educação. Do Japão aos Estados Unidos, passando pela Europa e Ásia, é assim em todo lugar. Já as atividades de extensão que integram o aluno ao ensino e a sociedade são,…, trabalho escolar, esporte e arte.

    Já na universidade é diferente, pois a universidade de gerar conhecimento. Neste caso o modelo de ensino é o mesmo, mas o professor tem incentivo a produzir ciência, na forma de ganho financeiro adicional.

    Pronto. Este é o modelo didático-pedagógico que funciona no mundo todo. O professor ensina teoria a partir do livro texto, coloca o aluno para fazer um montanha de exercícios, e este aprende a custa de muito estudo.

    Curioso que era assim no Brasil também, até a época que resolveram universalizar o ensino na marra e sacrificaram a qualidade para isto. Desde então começaram a divulgar esta estória que o problema é o modelo. Que tem de mudar o modelo. Que tem de mudar a pedagogia, tem de mudar a grade, tem que criar novos cursos para se adequar ao mercado.

    Alguém deve estar errado nesta estória, o Brasil ou o mundo civilizado. Sei não, acho que estamos perdendo tempo reinventando a roda. E as avaliações internacionais apontam para isto, estamos entre os piores dos piores em qualidade da educação.

  • Só para voltar ao post

    Eu discordo de André. Analfabetismo precisa se tratar em número mesmo, no singular. Só há um número aceitável para o analfabetismo, 0 (zero).

    No mundo moderno ler é a seqüência da fala, sem ler o indivíduo é um excluído social, toda a cultura acumulada, todo a discussão por trás de cada tema, todas as respostas já dadas aos problemas que ele vai enfrentar lhe são negadas salvo pela experiência adquirida pelo próprio indivíduo.

    Como no Brasil ainda há muitos analfabetos funcionais, é preciso ficar sempre atento a estes números, cobrando resultado de política pública na área de educação.

  • Escrevo para concordar com o penúltimo comentário de Fernando Dias. Mergulhamos na empulhação do discurso de mudar modelo, pedagogia, grade curricular, inspiração e etc.

    Na realidade, caiu o nível, independentemente de modelo.

  • Caiu porque acreditou-se que não representava riscos e, além disso, mantinham-se certas estruturas mais facilmente. Montou-se a armadilha que vai colhendo a todos.

  • As políticas de educação implantadas no Brasil nos últimos anos não resolveram absolutamente nada. Mascararam problemas, mas a cara feia da crise educacional continua assustadora. A educação ainda é tratada com desprezo categórico, apesar dos discursos vazios rotineiros.

    Hoje estudantes freqüentam aulas em programas fictícios para “concluir” os níveis de ensino à toque de caixa, gerando indicadores estatísticos inócuos. Os alunos que caíram nestas armadilhas saem destes programas analfabetos funcionais, contudo, os “aceleramentos” são freios para o desenvolvimento educacional. Há quem saia de arapucas como Pró-Jovem (financiados com apoio do Governo Federal e executados pelas prefeituras) e caem em troços como as telessalas da Fundação Roberto Marinho (o Programa Travessia executado pelo governo estadual) assistindo aulas via TV com o mínimo de interação com professores. Estes programas oferecem a possibilidade de concluir os ciclos sem aprendizagem, contudo garantem um certificado que não expressa absolutamente nenhum indicador de desenvolvimento do ensino. Privilegiamos modelos de educação que são fábricas de diplomas em detrimento de uma educação efetivamente eficiente.

    Até os índices de reprovação são hoje mascarados, afinal, há uma política de aprovações automáticas que ajudam a gerar analfabetos funcionais. A coisa mais comum que se tem notado é verificar alunos precariamente alfabetizados até mesmo no Ensino Médio regular. Hoje, por exemplo, é quase proibida a reprovação de alunos na rede municipal de Recife, onde impera um pedagogismo de resultados que é absolutamente improdutivo.

    Diante destas políticas, alunos cada vez mais acabam entrando num processo de acomodação e professores vão se tornando impotentes. Enquanto pedagogos de gabinete e diletantes estabelecem seus modelos, a educação sai prejudicada.

    Hoje há mais discurso sobre educação do que educação propriamente dita.

  • Perfeitos os comentários do Fernando Dias.

  • Fernando Dias,

    você não disse muita coisa diferente do que eu escrevi. Apesar de afirmar categoricamente que discorda de mim. Curiosamente, eu não discordo de você…

    Quando afirmo que “Pouco adiantará reduzirmos drasticamente o analfabetismo, se não levarmos em consideração um outro lado da moeda, que parece escapar aos números: o analfabetismo funcional”, estou dizendo a mesma coisa que você:

    “Como no Brasil ainda há muitos analfabetos funcionais, é preciso ficar sempre atento a estes números, cobrando resultado de política pública na área de educação.”

    Acontece que eu penso ser o analfabetismo funcional um alvo que fica sempre à margem dos números do analfabetismo absoluto, pois sempre percebo uma grande preocupação em diagnosticar o segundo, em detrimento do primeiro.

    Estamos mais próximos em pensamento do que você parece supor.

  • André e Fernando:

    Incontestáveis.

    Educação no Brasil só existe pra inglês ver. Pergunte a qualquer cidadão na rua se sabe cantar o Hino Nacional. Se porventura souber, pergunte-lhe o que significam as palavas plácidas, garrida, flâmula, clava.

    Se ele responder corretamente, pergunte-lhe ainda o que aconteceu no dia 13 de novembro, 120 anos atrás.

  • André,

    estranhei uma coisa: se “Em 2006, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do IBGE, apresentou números nada animadores sobre o analfabetismo no Brasil. Segundo aquele levantamento, 10,38% da população brasileira se declarou analfabeta absoluta. Esse percentual representa 14,3 milhões de brasileiros”, significa que a população brasileira na época era de, aproximadamente, 143 milhões de pessoas.

    Quer dizer, então, que em dois anos a população aumentou em 50 milhões, para os quase 190 milhões que hoje se anuncia? Algo me parece não estar batendo.

    Mais à frente o texto fala em população acima dos 15 anos. A pesquisa se limitou a esse universo, foi? Se não, qual foi o corte populacional dado? Alguém esclarece?

  • esse site é uma porcaria é feio é ruim e não diz o que a gente precisa!!!!!!!!!

    • A educação que está faltando no Brasil se resume a essa frase que foi posta aqui como um julgamento de um assunto que por ignorância humana e desnebecessária, dizendo que esse site não informa o que nós precisamos, mas como diz esse site: “…A quantidade de indivíduos que sabem ler, mas não conseguem entender o que o texto lido diz é grande e preocupante” (O seu caso).
      Aprenda a admitir o problema que o Brasil apresenta, que pessoas como essas acima alertam, e pessoas como você não sabem melhorar nem em palavras nem em ações, pois a única coisa que o brasileiro aprende é a contestar o que nada intende.
      Leia, Entenda e Ajude, não apenas Jugue!!!
      Já que você tem melhor conhecimento a ponto de usar tais poalavras, por que não expõe suas opiniões sobre o assunto aqui discutido?
      Obrigado pela atenção!!!

  • Como professora tenho vergonha destes números de n dominar a leitura e a escrita no mundo globalizado informatizado… é na minha opinião a pior das exclusões. Cadê o carro chefe do atual presidente…Brasil alfabetizado…gastou-se milhões com esta bobagem…e os analfabetos continuam,excluído do processo educacional…isto é uma realidade em minha cidade “Uberlândia” com 6% destes em 600.000 habitantes…E como o modelo de educação regular que temos este número n vai diminui em curto prazo…

  • eu acho tao ruim o meu e´ melhor…

  • vey ki texto *************

  • legal

  • O que precisa realmente ser feito para solucionar o analfabetismo no Brasil?

    Políticas falam em reduzir tal problema mas não mostram solução eficaz.

  • É muito interresante gostei…

Tem algo a dizer? Vá em frente e deixe um comentário!

XHTML: Você pdoe usar as tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

Enquetes

Em relação às punições de corruptos...

Ver Resultado

Loading ... Loading ...

Frase do dia


  • “O homem de bem é um cadáver mal informado. Não sabe que morreu.”
    Nelson Rodrigues.

ARQUIVO

outubro 2014
S T Q Q S S D
« set    
 12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
2728293031  

Informação com Humor

MARCO BAHÉJornalista
É formado em Jornalismo e pós-graduado em História Contemporânea e História do Nordeste do Brasil. Foi repórter da Gazeta Mercantil para os estados de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. Também atuou como repórter do Jornal do Commercio, editor da Folha de Pernambuco e repórter especial do Diario de Pernambuco. É correspondente da revista Época no Nordeste desde 2003. Tamb´m atua com publicidade e marketing eleitoral desde 2004.
PIERRE LUCENADoutor em Finanças
É doutor em Finanças pela PUC-Rio e mestre em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco. É professor adjunto de Finanças da UFPE e foi secretário-adjunto de Educação de Pernambuco. É autor de vários trabalhos publicados no Brasil e no exterior sobre o mercado financeiro, e participa como revisor de várias revistas acadêmicas na área. É sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Finanças. Foi comentarista de Economia do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (TV Jornal e Rádio CBN). Atualmente é coordenador do curso de administração da UFPE, e Coordenador do Núcleo de Estudos em Finanças e Investimentos do Programa de Pós-graduação em Administração da UFPE (NEFI).