A indústria do parto cirúrgico no Brasil

jul 31, 2009 by     42 Comentários    Postado em: Atualidades
parto

Na rede privada, 84,5% do partos são cesarianas

O Ministério da Saúde divulgou, ontem, dados alarmantes sobre a quantidade de cesarianas realizadas no Brasil. Enquanto a Organização Mundial de Saúde (OMS) considera como razoável que apenas 15% dos partos sejam feito à base do bisturi, temos uma média de quase 50%. Os motivos disso aparecem visivelmente quando se separa as estatísticas da rede privada de saúde (84,5% dos partos são cesarianas) e do sistema público (31,5%).

Talvez seja desnecessário discorrer aqui sobre as vantagens do parto natural, mas vou fazê-lo assim mesmo. Segundo a Global Survey, órgão ligado à OMS, mulheres submetidas a cesarianas têm três vezes mais chances de sofrer hemorragias. Os partos cirúrgicos também causam 20 vezes mais internações em UTI, decorrentes de complicações diversas. O parto antecipado (comum nas cesarianas) aumenta em até 120 vezes os casos de problemas respiratórios nos bebês. E as infecções causadas pelo parto, a terceira maior causa de morte de recém-nascidos, são mais freqüentes em cesáreas. Além do mais, a recuperação do parto natural é mais rápida e indolor – ao contrário do corte de sete camadas de pele e tecido feito nas cesarianas. Em resumo, o bisturi só deve ser usado em último caso.

Mas, na vida real brasileira, as coisas não são bem assim.

O Conselho Federal de Medicina reconhece que um dos motivos que levam a estatísticas tão elevadas de cesarianas na rede privada é o valor pago pelos planos de saúde. Os planos pagam cerca de 900 reais por uma cesárea e cerca de 1.200 reais por um parto normal. Acontece, porém, que uma cesariana demora, em média, 3 horas (com tudo marcado na agenda). Enquanto o parto normal pode exigir até 12 horas de acompanhamento do médico.

Ou seja, com o tempo de um parto normal dá para fazer tranquilamente três cesarianas e faturar muito mais.

Muitos médicos argumentam que as próprias pacientes de classe média para cima, que têm acesso a plano de saúde, preferem a cirurgia – o que não deixa de ser verdade. Mas será que há esforço desses profissionais em orientar que o parto normal seria recomendado na maioria dos casos? Acho difícil, pois é comum o relato de gestantes que penam para encontrar um médico particular que aceite realizar parto natural. Alguns até pedem um “adicional” para complementar o que pagam os planos de saúde.

Já na rede pública (apesar do índice mais próximo do que recomenda a OMS) o problema seria a escassez de leitos. Como esperar 12 horas para mãe e bebê estarem prontos para o parto enquanto a fila da maternidade só faz aumentar? É notório um maior comprometimento dos profissionais públicos com o parto natural, mas se o procedimento começar a demorar a saída mais fácil é passar a faca mesmo.

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* Publicado originalmente dia 29/07/09.

42 Comentários + Add Comentário

  • Há poucas semanas o lobby médico conseguiu fechar a Casa de Parto David Capistrano Filho, no Rio de Janeiro, que trabalhava numa concepção de parto humanizado.

    A instituição realizou milhares de partos, sem nenhum incidente de problema de sáude para as mães ou bebês. Mas para o CREMERJ o que importa é a presença de um médico acompanhando o parto. A partir desses dados trazidos pelo Bahé é fácil entender o por quê.

  • Bahe, muito bom o texto, salvo engano vi numa revista a algum tempo – dessas “formadoras” de opiniões femininas- uma reportagem sobre mulheres famosas e bem-sucedidas, que optam pelo parto cirúrgico… Incentivando diretamente o aumento desse tipo de parto… Claro que mostrou algumas que faziam questão do parto normal, porem sabe-se como é a cabeça da “brasileira media”… Inclusive com muito espaço para uma entrevista com um medico sobre parto, porem sem a ênfase necessária para o parto normal… Uma pena mesmo…

  • Bahe, aqui em Montreal, sempre falo com minhas amigas sobre este tema. Elas ficam “assustadas” porque o sistema de saude publico daqui (nao ha privado) so faz cesariana em ultimo caso. Ha casos em que as maes destas amigam “sugerem” que elas venham ao Brasil so para ter os filhos em maternidades dai, com medicos que operem com cesariana. Um absurdo! O fato de o sistema ser publico assusta a mente da classe media (e para cima) brasileira. As brasileiras que tem filhos via parto normal aqui tem alta no dia seguinte, e saem andando normalmente do hospital. Houve um caso de uma amiga, que nao teve outra opcao a nao ser fazer cesariana, que so saiu do hospital apos 3 dias. Passou uma semana em casa, “de resguardo”.
    É obvio que ha uma industria da cesariana no Brasil – compartilhada por hospitais, medicos (obestetras, anestesistas etc) e fornecedores de materiais hospitalares. Nao estao preocupados com a saude do paciente. A saude do bolso pesa mais. Medicos brasileiros sao, em sua quase totalidade, pessoas com alto nivel de formacao educacional. No entanto, desvirtuam-se do preceito moral que sua profissao preza. Classifico-os no mesmo rol dos advogados e juizes. Uma pena.
    Hoje em dia, imagino o dialogo:
    - Fulana, estou gravida!
    - Que bom, sicrana! Quanto meses?
    - 2 meses!
    - Que bom! Entao o bebe deve nascer em fevereiro!
    - Exatamente! Chega dia 12 de fevereiro, as 10 horas da manha, no quarto 123 do Hospital Esperanca. Tudo marcado pelo piloto (medico).

    So falta o passaporte para a chegada do passageiro no aeroporto.

    • hehehehehe… Boa, João Paulo!

      Li que o Canadá tem 13% apenas de cesarianas. Esse é o mesmo índice dos países de primeiríssimo mundo: Noruega, Dinamarca, etc.

      Abração.

    • João Paulo

      Ótimo comentário, mas a frase sobre os advogados e juízes foi de uma generalização infeliz. Há maus profissionais dentre eles, sem dúvida, mas minha experiência pessoal mostra que há muitos deles honestos e realmente interessados em bem desempenhar suas missões.

      Assim como mesmo entre os obstetras, há uma minoria que defende o parto natural e se conduz de acordo com esse ideário. Não se pode dizer que todos os obstetras são “mercenários” e interesseiros, pois há vários que trabalham com dignidade e respeito às suas pacientes. No comentário abaixo explano mais sobre isso.

      Em minha opinião, não se deve generalizar. Toda generalização tende a ser injusta e perigosa.

      Grande abraço

      • Bruno, eu me referi a industria da cesariana, nao as classes profissionais. Claro que ha profissionais serios entre medicos (de quaisquer especialidades), advogados e juizes. Sou administrador e conheco varias “almas sebosas” na area, como tambem gente seria.
        Mercenario tem em todos os cantos.

  • Concordo com quase tudo o que foi dito aqui.

    Tive, aliás, experiência quase pessoal com isso, quando minha esposa esperava nosso primeiro filho, desejava fazer o parto natural e por conveniência da obstetra (afinal, descobrimos), o parto foi cesariano. As desculpas desta foram as mais esfarrapadas possíveis, desde a falta de dilatação (como pd haver dilatação se a mulher ainda não entrou em trabalho de parto?, perguntou depois uma outra médica, amiga minha) até o tamanho do bebê, alegadamente grande demais (meu filho nasceu com 49 cm e 3,430kg, medidas consideradas normais a todos os médicos – incluindo uns poucos obstetras -aos quais perguntei).

    Em razão disso, agora, na segunda gravidez, optamos por uma outra obstetra, que tem por filosofia de trabalho primeiramente respeitar a vontade da gestante e logo a seguir, dar preferência ao parto natural e deixar a cirurgia cesariana apenas para os casos em que ela realmente seja necessária.

    Ora, se a própria natureza deu à mulher a condição adequada, atestada aí por instituições como a OMS e as práticas médicas de praticamente todos os países desenvolvidos do mundo, para ter os seus filhos sem precisar de intervenção cirúrgica, porque essa brutal mutilação da dignidade da gestante com tais cesarianas desnecessárias?

    Não sou médico, mas o que li a respeito do assunto sempre aponta o parto cesariano como algo muito bom para aqueles casos específicos em que a mulher tem problemas para dar à luz. São exceções e não regra, daí a recomendação da OMS no percentual máximo de 15% (ou seja, pelo menos 8 em cada 10 partos têm condições de serem feitos naturalmente).

    A cesariana não pode ser banalizada e na maioria dos casos é uma decisão médica a ser feita no momento em que a mulher entra em trabalho de parto e não antes.

    O post contribui para uma maior cobrança e pressão em relação aos obstetras para que respeitem a dignidade de suas pacientes em um momento tão importante em suas vidas. As conveniências pessoais e profissionais desses profissionais médicos não podem prevalecer diante do respeito à vontade da gestante.

    Parabéns, Bahé, pelo post e debate.

    Nosso segundo filho nascerá agora em agosto e, espero eu, de parto natural.

    • Oi, Bruno. Valeu o relato. Já ouvi vários assim. E parabéns pelo segund@ herdeir@. Abs

    • Caro bruno,
      achei engraçado o trecho em que vc diz que a natureza deu condições adequadas, atestadas por instituições como a OMS. Fiquei pensando o que Darwin diria disso… hehe
      No mais, acho que esse tema é muito grave e digno de indignação. Digo mais, são preocupações como essas que podem realmente mudar as práticas éticas cotidianas brasileiras. Muito mais do que essa já insuportável fixação da agenda nacional no bigode de José Sarney.
      Enquanto aqui na Alemanha o tema das eleições vai ser a energia nuclear e o problema do seguro desemprego, no brasil perdem-se meses discutindo o filho de sarney. Que se discuta, mas não como se esse tema fosse, de uma vez por todas, resolver todos os problemas de desvio de caráter brasileiros. Os quais se escondem, muito mais, nessas pequenas práticas, das quais o comportamento dos senadores é só um exemplo mais visível e e facilmente instrumentalizável por interesses de momento.

      Parabéns pelo post.

  • Tive duas filhas através de parto natural, por influência de minha obstetra e da minha irmã. Doeu pra caramba, mas não posso negar que a sensação de segurar o bebê ainda quentinho, amamentar na hora do nascimento, esperar realmente o tempo dele é muito gratificante. É um parto inteiro, completo. Recomendo!!!

    • Temos de ter cuidado com as histórias episódicas.

      Sei de dois casos particulares de partos em países do oeste europeu. Em um deles a mãe ficou em trabalho de parto durante 23 horas e meia. O bebê nasceu por parto normal, embora assistido com ventosa, sem sequelas — hoje é um menino inteligente e normalíssimo. A mãe sofreu uma laceração nas paredes da vagina e após uma cirurgia reparadora e um litro de sangue, ficou seis meses “de molho”.

      No outro caso a criança não teve tanta sorte. Em um país dito altamente civilizado, a mãe ficou em parto durante 14 horas, o bebê ficou muito tempo sem oxigênio e sofreu sequelas de atraso mental e falta de movimentos na parte direita do corpo.

      Não quero dizer que nenhuma das duas histórias são representativas, mas que não adianta construir nossas opiniões sobre episódios. Tenho certeza que na média os países europeus estão mais certos que nós, o parto normal é sempre preferível. Mas não pode ser a única maneira, nem de forma alguma imposta a todas as mães. Elas, de fato, tem de manter a última palavra sobre o assunto.

      • … os países europeus estão mais certos que nós, o parto normal é sempre preferível. Mas não pode ser a única maneira, nem de forma alguma imposta a todas as mães. Elas, de fato, tem de manter a última palavra sobre o assunto.

        a questão é: estão as mulheres devidamente INFORMADAS acerca dessas escolhas? não é uma questão de impor uma via de parto… é uma questão de informar que, para gravidez de baixo risco (a maioria) o parto normal/natural é mais seguro, e a cesariana acarreta mais riscos.
        ainda que seja uma escolha da mulher, se ela estiver devidamente informada, bem assistida, segura, pq ela iria escolher uma via de parto que traz, estatisticamente comprovado, mais riscos para si e para seu bebê???

  • Gostaria de saber o que as mulheres pensam sobre o assunto. Nos países supracitados o normal é que a cesariana seja feita após 12 ou 24h de trabalho de parto. De fato, nesses casos, a mãe consegue sim muitas vezes fazer o parto natural, após várias horas de sofrimento. O resultado é uma experiência traumática para a mãe que pensa várias vezes antes de ter o segundo filho e, além das sequelas físicas e psicológicas, acentua o problema do crescimento populacional destes países.

    Não estou dizendo que não abusamos da cesariana, muito pelo contrário. Só queria lembrar que a “natureza” não é tão perfeita assim nesse caso. Quando os partos eram 100% naturais, no início do século passado, era comum que o processo acabasse em óbito da mãe uma em cada três vezes.

    • Mas aí, caro xará, é justamente quando entra em questão o diagnóstico médico adequado para a utilização da intervenção cesariana.

      Acho que não se trata de ser contra a cesariana, mas que em princípio a mesma seja usada subsidiariamente, exatamente nos casos em que a “mãe natureza” não tenha propiciado àquela mãe as condições adequadas para o parto natural.

      O que é absurdo é a gestante ser submetida a uma cesariana contra a sua vontade só pela conveniência dos obstetras. Isso é inaceitável.

      • Olhe, é mais complicado que pode parecer. É fato que os médicos sugerem a cesariana como procedimento mais fácil e rápido. Minha dúvida é até que ponto isto é imposto à mãe. Você tem certeza que há assim inúmeros casos de mulherem que são submetidas ao procedimento contra sua vontade? Eu não.

        • Caro Bruno, muitas mulheres têm o desejo de viver o parto e não encontram um profissional que as assista. Ou então, o profissional diz que vai acompanhá-la no parto normal – digo acompanhá-la porque o papel do médico é apenas supervisionar. Deixar o processo fluir sem ficar intervindo. São as intervenções que acabam atrapalhando o processo e levam a resultados negativos -, mas no final da gestação diz que há algum problema ou alguma desculpa esfarrapada – normalmente sofrimento fetal. Como uma mulher que já está sensibilizada vai reagir quando um médico – que estou anos para assistir um parto, pois escolheu essa profissão – diz que o filho dela está sofrendo?? Elas são submetidas contra sua vontade sim. Desta forma.

  • É uma discussão válida, e a tal indústria existe mesmo, mas precisamos fugir dos dogmas e fundamentalismos. A possibilidade de fazer a cesariana é muito bem vinda, este procedimento com certeza já salvou milhares de vidas no mundo todo. Hoje é raro haver óbitos no parto, ao contrário de antigamente, quando o método normal era o único usado.

    • Concordo, Martins. É bom ficar claro que ninguém aqui está satanizando o parto cirúrgico. Estamos apenas debatendo sua devida aplicação.

    • “Hoje é raro haver óbitos no parto, ao contrário de antigamente, quando o método normal era o único usado.”

      Esse é um dos maiores equívocos! Não só a taxa de mortalidade materna não diminuiu, como vem aumentando de alguns anos para cá. E o que é pior: a taxa de near miss (quase perda) de mulheres é enorme e continua crescendo! Afora os gastos com a recuperação destas mulheres e as cicatrizes físicas e emocionais que permanecem!

      Vale lembrar que, na mesma época em que “o parto” foi levado para dentro dos hospitais, sob responsabilidade dos médicos, surgiram os antibióticos e os bancos de sangue, dentre outros recursos que, estes sim, evitaram muitas mortes.

      Em tempo: a recente pesquisa da The Lancet publicada este ano possui inúmeros furos… é só olhar alguns dados nossos recentes (Fundação Seade, DataSUS etc).

  • Caro Marco Bahé,

    Ouso discordar. Como advogado, já acompanhei casos de problemas no parto – todos os casos de parto normal. Há situações que exigem cirurgia e às vezes, quando o médico descobre, é tarde demais. Outra coisa: numa cidade como o Recife, com bons centros médicos, a chance de problemas numa cesariana é pequena, talvez menor do que o parto normal. As filhas e esposas dos médicos fazem cesariana. Cá pra nós, parto normal é indicado no caso de mulheres pobres, que têm poucas condições de se recuperar por conta de suas condições de vida. Minha única filha nasceu de cesariana, e se tiver outros filhos será assim também. Impor a uma mulher o parto normal é machismo

    • Falou o “rico” DOUTOR adEvogado dos “bons” e “filantropicos” “centros medicos” da Mauritzstadt.

    • fiquei chocada com essa visão!
      é justamente o contrário!!!
      impor uma cesariana é que é machismo!!
      deixe a mulher escolher como ela pretende dar à luz… apoie essa mulher, permita que ela seja protagonista do seu parto, e ela irá escolher um parto menos intervencionista, mais seguro para si e seu filho.
      nunca ouvi tamanha besteira dizer que parto natural é para pobres… além de machista, preconceituoso ao extremo…

    • O senhor advogado está equivocado. Deveria ler um pouco mais.
      O Brasil é inclusive motivo de chacota entre os obstetras de países de 1o mundo devido ao alto indice de cesareanas.
      Machista, desinformado e preconceituoso.

    • Eu não acredito no eu acabei de ler…. Totalmente surreal isso!!!! Pelo seu comentário nesse caso sorte das que são mais pobres. É um absurdo isso…se fosse assim a humanidade já teria acabado faz tempo, se o parto normal é tão letal assim. E machismo é impor as mulheres como devem ser os seua partos e não como ela querem que sejam.
      Cesária é pra último caso.

  • Não podemos negar os avanços da medicina, que diariamente salvam vidas em todo o mundo. Mas esses mesmos avanços tornam possível identificar problemas durante a gravidez.

    Minha esposa, que teria condições de fazer uma cesariana, optou pelo parto normal. Fez um bom pré-natal e nossa filha, com 3 dias, é saudável e tranquila.

    Há sim a indução, de maus profissionais da Medicina – eu vivi isso diretamente – ao parto cirúrgico, numa cínica mercantilização da saúde feminina. Antes e depois do parto cirúrgico há uma rede de comércio de diversos produtos e serviços, oferecidos por “profissionais” ávidos apenas pelos lucros. O que menos importa é o bem-estar da gestante. A cesariana é um avanço da Medicina – repito, que pode salvar vidas – que parte dos obstetras e hospitais decidiram transformar em meio de vida.

    Em tempo: na declaração de nascido vivo de minha filha, anotaram o parto como sendo “cesáreo”, mesmo ele tendo sido normal. Uma ação já automática do anotador ou uma forma de engordar as estatísticas do parto cirúrgico?

  • Sabe o que é legal sobre esse assunto. Os indivíduos que nunca pariram e nunca irão parir são os que mais opinam. Falar sobre parto sem sentir é até piada……….
    Pari 2 e com raríssimas exceções alguém consegue analisar a situação de forma ampla, no geral só vêm parte dela. Cada um defende apenas um lado, ou da criança, ou da mãe, ou do médico, ou do hospital, ou do plano de saúde.

  • Se eu fosse ter filhos, provavelmente apelaria para a cesariana; não vejo motivo para sentir tanta dor. Vejam bem, não é só o médico que fica esperando 12 ou 14 horas num parto natural, a mãe também fica, e sentindo muitas dores. Conheço algumas que só falavam no parto natural; na hora H, quase explodindo em dores, imploravam por uma cesárea.

    Só acho que a decisão é da mãe, não do médico ou do sistema de saúde. Se algumas mães dão todo o crédito ao que dizem os médicos, não há muito o que fazer. O que não pode é médico querer proibir parteiras ou exigir a presença de médico em todo parto que se fizer no país. Isso é reserva de mercado clara.

    Sinceramente, acho que nosso sistema de saúde tem coisas bem piores e mais graves para resolver do que isso. Se fizer planejamento familiar, por exemplo, o número de partos diminui, tanto natural quanto cesariana.

    • o risco de infecção e a recuperação é muito maior na cesariana e sobraria dinheiro no sus para situações de alta complexidade, que são muitas!!!!!

    • a dor num parto normal não é uma dor punitiva, uma dor de que algo não vai bem…
      é totalmente equivocado dizer que a mulher está sofrendo.
      a mulher sofre qdo ela quebra um osso. a mulher sofre qdo quebra um dente. a mulher sofre qdo ela planeja parir seu filho de uma certa maneira e fatores externos lhe afirmam que ela não pode…
      mas a dor no parto faz parte do processo, ela não é punitiva! existem técnicas que aliviam essa dor. existe uma descarga hormonal extremamente benéfica tanto para a mãe qto para o bebê, fundamentais para esse início de vida, essenciais para a descida do leite, a contração do útero, a massagem do bebê no canal do parto…
      e não, o alto índice de cesariana no nosso sistema de saúde é gravíssimo, e deve ser resolvido urgentemente, pois eleva o número de mulheres e bebês internados em UTIs, desnecessariamente…

  • Bahé
    Paulo Henrique Amorim fez uma excelente reportagem sobre esse tema no domingo passado, na Record.
    O problema é gravíssimo realmente.

  • um parto normal recebe-se 1200,00 do sus, um parto cesariana recebe-se 900,00, mas o normal pode durar 12horas, enquando um cesariana dura no maximo 3 horas, em 12 horas o medico pode chegar a fazer 3.600,00 reais, a conta é ter lucro, faturar, não tem nada de social e juramento de médico!!!!

  • Já vi pelas respostas que ninguém pensa no ser humano que está chegando…
    penso eu que da forma menos traumática possível. A anestesia utilizada passa para a corrente sanguínea e o recém nascido tem dificuldade para mamar (importancia do colostro). Além dos problemas respiratórios citados. sugiro leitura sobre a ciencia do inicio da vida…

  • Olá.
    Não pude deixar de responder.
    “parto normal é indicado no caso de mulheres pobres” – que pensamento mais parado no tempo, desatualizado. Hoje clínicas, hospitais tanto particulares como públicos querem e estão atendendo aos partos das mais diferentes formas. Seja na água, seja de cócoras, como a mulher quiser, independente se é “rica ou pobre”. “que têm poucas condições de se recuperar por conta de suas condições de vida.” Se recuperar do quê? No parto normal ganhamos, e em seguida já tomamos conta do bebê, caminhamos, tomamos banho, tudo. Enquanto que quem faz cesárea não sai da cama. Nem pegar o seu filho consegue.
    O que é certo é que: cada gravidez, cada cabeça, cada mãe, cada médico, tudo é relativo. Faço questão de dizer que adoramos o nosso parto normal. E no próximo queremos repetir.

  • Tive uma cesárea e um parto normal. Só posso afirmar: normal, sempre normal. Minha cesárea foi tranquila, recuperação boa, mas não troco por nada a sensação incrível de parir minha filha. Não tomei anestesia e não achei a dor insuportável. Foi uma experiência rica em crescimento pessoal e pude proporcionar a ela todos os benefícios que a natureza programou para os bebês nascidos naturalmente. É apenas uma questão de buscar a informação certa. Meu caso não é esporádico, estudos sérios mostram as vantagens do parto normal. Por isso, parabéns pelo post.

  • Parabéns pela excelente matéria. Acredito que seja a primeira vez que leio algo realmente embasado em relação à partos no Brasil.

    Eu sofri (é exatamente essa a palavra) uma cesariana há cinco anos por total incompetência minha em não ter me informado sobre o tema e da equipe que não soube me
    acompanhar.

    Hoje, grávida de 12 semanas, procuro com enormes dificuldades, um profissional que possa me acompanhar em meu parto. Isso que estou em São Paulo, não me julgo pobre e tenho plano de saúde.

    Mas jamais deixarei de beneficiar meu filho com um parto natural. E ao contrário do que senti em relação à cesárea, não irei sofrer um parto, mas ultrapassar um caminho necessário para a chegada do meu bebê da melhor forma que há.

    • That’s not just the best answer. It’s the betsets answer!

  • Sou médico gineco-obstetra e hoje por opção pessoal muito mais obstetra que ginecologista.
    Apesar de já ser especialista há 26 anos, nos ultimos 12 anos me dedico ao conhecimento, aplicação e implantação de programa de humanização do pré-natal, do parto e do nascimento em grandes instituições hospitalares e tenho como função profissional atual consultorias sobre o tema, para quaisquer grupos ou instituições de saude interessadas, tendo inclusive um livro publicado a tres mãos, em parceria com uma enfermeira obstetra e uma médica neonatologista.
    Parabenizo-o pela sensibilidade e correção na composição deste forum livre e democrático sobre assunto tão importante, que deveria ter sido abordado de forma mais contundente pelas nossas entidades de classe da área da saúde, fato que acredito será feito em breve pois a FEBRASGO (Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetricia) acabou de promover uma enquete nacional sobre a cesariana no Brasil, ensejado certamente em sequencia e consequencia da não tão recente campanha do Ministério da Saúde a favor do parto normal.
    O questionário foi enviado a todos os gineco-obstetras titulados pela FEBRASGO, e visa avaliar e discutir o assunto oficialmente buscando a formula melhor para resolver o problema, cujo resultado ainda não foi divulgado.
    Bahé, a importancia do seu movimento, que espero se torne maior do que já alcançou, na minha opinião sincera, é que será de enorme valor nesta caminhada pois sempre acreditei que a grande força trasnformadora virá da opinião pública e que somente ocorrerá uma mudança real a partir do momento que as próprias gestantes, atraves do maior conhecimento advindo de corretas informações científicas recebidas, via internet e outras mídias e principalmente das entidades e profissionais médicos (direito emanado do novo código de ética médica), exigirem de seus prestadores de serviço médico os seus direitos de cliente e ser atendida nos seus anseios de parir, protagonizando com segurança, a sua opção pelo tipo de parto, o que somente será exercido condignamente, se ela estiver orientada de forma totalmente isenta de preconceitos e mal conceitos, pois o poder de opção advém do discenimento e este do conhecimento. Hoje se divulga o direito de opção pela via de parto como se fosse somente o direito de optar pela cesariana, quando na verdade o direito que está sendo negado em 35% nos serviços públicos e 70% nos particulares o direito de se sentir segura para decidir pelo parto normal.
    Parabens e Boa Sorte.

    Dr Newton Tomio Miyashita

  • a escolha do parto é opcional, mais o parto natural é mais seguro e mais prazeroso para quem quer ter o prazer de dizer: sou mãe. Fiz dois partos normais e se fosse parir novamente optaria pelo normal há não ser que houvesse necessidade do cesariano.

  • Sou brasileira e moro na Inglaterra. Tive meus dois filhos de parto normal. E foi a melhor coisa que fiz. Aqui os hospitais só fazem cesariana se for emergência ou algum problema durante a gravidez. Também não gosto de cesariana desnecessária pois além dos fatores acima, também pode causar a quebra da barriga, devido ao corte do músculo abdominal. E deve ser também um choque maior para o bebê nascer de repente. Na Inglaterra os médicos geralmente não se envolvem no parto. Os partos são feitos pelas parteiras e os médicos só se envolvem se for necessário. Seria bom se no Brasil também fosse assim.

  • estou impresionada com os comentários,e não posso deichar de dar minha opinião,percebo que as pessoas que participaram são cultas e pelo menos penssam entender do assunto,antes de opinar quero que saibam mas sobre min,sou pobre[de dinheiro]não conclui nem o ensino médio,vc deve estar achando que vai ler um monte de bobagens,leia e tire suas conclusões,vai ter erros na escrita mas isso não vai impedirde vc entender o que estou falando,o comentário do paulo cesar foi muito criticado,ele foi infeliz na forma de se expressar mas foi o que mas se aproximou da realidade,a DIANA CALHEIRO,min despertou o interesse em saber mas sobre essa campanha do direito da mulher decidir por qual via vai ter o filho,aqui no meu estado não funciona,se existisse esse direito eu nem estaria lendo esse debate, tive 5 filhos 4 nasçeram de parto normalissimo,tive o primeiro com 20 anos e a mas nova com com 28,a quinta eu tive com 38 e é esse parto que vou descrever agora,logo no inicio da gravidez perçebi que seria diferente,com 6 meses de gestação fiquei de liçença,[ameaça de parto prematuro]no 8 mes fui para a maternidade procurar ajuda[sentia contrações,tinha dificuldades para andar,sentar e dormir,fui no dia 02/11/07 e no dia 07/11/07 precisei ir novamente,foi atendida na urgencia ,o medico perguntou se eu não lembrava como era ter um filho e min explicou quando eu deveria ir,decidir não voltar aquela maternidade onde já tinha ido 2 vezes,e não tinha sido avaliada como eu realmente precisava,com o passar dos dias o quadro se agravou os sintomas ficaram mas intensso e procurei uma grande maternidade[maternidade escola januario cicco natal rn,[lá eu tinha dado uma entrada com 6 meses ]fui atendida no plantão ,avaliada,medicada[pressão alta]após esses procedimentos questionei com a medica a minha situação dei o ex de uma tia que tinha tido vários filhos de parto normal e o ultimo precisou de uma cesárea ,e perguntei se ela não conheçia caso de crianças que morreram porque passou a hora de nasçer,só assim foi feito uma monitoragem,na lateral tinha escrito feto taquicardico,a medica min entregou o resultado e min transferiu de ambulancia só com o motorista para aquela maternidade que eu não queria ir,fica em outa cidade[parnamirim rn]é menor e com certeza tinha menos recursos para atender partos de risco,obs,apesar de todo meu relato em nenhum momento foi considerado um parto de risco,dei entrada lá por volta das 15 horas ,a pressão 18 por 12,visivelmente ansiosa,fui atendida ,avaliada e internada,para eles meu quadro era normal,o tb de parto evoluiu normal,para min foram momentos de dor e sofrimento inesqueciveis,não pela dor fisica póis eu já tinha a experiençia de 4 partos normais,mas sim a angústia de ter a certeza que algo estava errado e ningúem min dava ouvidos,eu estava sofrendo ,o bb estava sofrendo,nós precisavamos naquele momento que algúen entendesse que precisavamos de uma cesáriana,ao anoiteçer fui levada a sala de parto,agoniada,andando,ladeada por um medico[medico assistente póis o chefe do plantão não tinha ainda ido min ve,esse medico ainda fazia residencia na epoca]e uma enfermeira,começou a tentativa de parto normal,sem sucesso,eu já estava quase desesperada,foi então que chegou o medico mas experiente,veio com o forceps,enquanto ele nanobrava o forceps,a enfermeira empurrava minha barriga e eu pedia a DEUS MISERICÓRDIA,de repente o medico disse bem firme PARA,fez uma ausculta fetal e não teve resposta,só então fui levada para a sala de cirurgia onde foi retirado um feto morto,pesando quase 4 quilos e meio e medindo 55 cm,era a menina EVELYN VICTÓRIA,que morreu no dia 19/11/07 ,no dia do aniverssário do pai,e no dia 20/11 lhe foi entregue para enterrar ,porque não foram capazes de fazer um diagnóstico correto numa situação com tantas evidencias,não ficou só nisso meu utero rompeu,quando reçebi a noticia entrei em desespero,fiquei internada 7 dias ,falava no assunto otempo todo e começei a culpar a todos de negligençia ainda na sala de cirurgia,no dia da minha alta fui falar com o diretor da maternidade e ele min reçebeu com essa frase,NÃO SEI O QUE ESTÁ ACONTECENDO É O SEGUNDO CASO ESSA SEMANA,sai de lá fazendo apromessa que denunciaria na justiça e ia lutar para provar que poderia ter sido diferente,e foi isso que fiz,vai fazer 5 anos que evelyn morreu ,acionei a justiça,fiz a denúncia no ministério publico,no crm,e estou aguardando resposta,do crm já reçebi a resposta ,descrevo para voces as ultimas palavras de conclusão do conselheiro sindicante [é esperado que o trauma decorrido do caso em tela desperte um sentimento de revolta e de busca por um culpado ou vários por parte da denunciante.no entanto é dever de justiça e de preservaçao dos preceitos éticos não atribuir suspeita de culpabilidade a profissionais que,pelo exposto não são condizentes com o afrotamento aos artigos de nosso codigo de étia medica. vislumbro que o voto de arquivamento seja o mas coerente com os fatos denunciados e exaustivamente apurados nessa sindicançia.....ele não min deu as respostas que min levaram a fazer a denuncia,uma delas sobre o medico ter negado ter feito o procedimento forceps quando converssou comigo na primeira visita e não citou nada sobre os comentários do diretor que deveria sim ter sido ouvido e explicada o que falou para min.não recorri por motivo de na epoca estar em tratamento pscologico[tive depressão e sindrome do panico] encontrei nesse debate uma forma de torna publico o meu caso,cada decisão que chega as minhas mãos min fazem entender que algúen não está levando em conssideração como tudo começou[eu procurando ajuda]e estão decidindo partindo do momento da urgencia do dia 19/11/07 que culminou com a morte da minha filha,sinto hoje o que senti há 5 anos ,algúem,pareçe que não está min ouvindo ou min entendendo,evelyn morreu por negligençia sim ,não levaram as minhas queixas a serio e hoje luto para que na justiça não aconteça o mesmo.para concluir o PAULO CESAR TEM RAZÃO,MULHERES POBRES SÃO SUBEMETIDAS A TRATAMENTO DESUMANOS,OS MESMO MEDICOS QUE ESPERAM TANTO TEMPO PARA UMA MULHER TER UM FILHO DE PARTO NORMAL AO PONTO DE ACONTEÇEREM MORTES SÃO OS MESMOS QUE POERAM A TORTO E A DIREITO NA REDE PRIVADA,AGORA DEICHO UMA PERGUNTA PORQUE O CRM AO INVÉS DE LUTAR TANTO PARA DEFENDER OS MEDICOS QUANDO SÃO ACUSADOS DE NEGLIGENCIAS NÃO ADMITIM QUE ISSO ESTÁ ERRADO E FAZEM ALGUMA COISA PARA MUDAR ESSE QUADRO ,SOA GRITANTE ESSA CONTRADIÇÃO SE A CESARIANA É TÃO DANOSA PORQUE NO MEIO DE PESSOAS ESCLARECIDAS ELA É TÃO USADA,E QUE TEM DE HUMANO EM DEICHAR UMA MULHER PASSAR O QUE EU PASSEI PARA NÃO FAZER UMA CIRURGIA QUE PODE AMENIZAR DORES,SALVAR VIDAS,SE MIN PEDIREM PARA DESCREVER MEU ULTIMO PARTO SÉRIA UMA PALAVRA ,TORTURA,NÃO SOU UMA DONDOCA COM MEDO DA DOR DE PARTO ,TIVE 4.MAS HOJE SOU UMA DEFENSSORA FERRENHO DA CESARIANA .ESSA É MINHA FRASE,PARTO NORMAL SIM QUANDO POSSIVEL,CESARIANA SIM QUANDO NECESSÁRIO.NÃO CITEI NOMES PÓIS A MINHA INTENÇÃO NÃO É DIFAMAR NEM UM DOS ENVOLVIDOS ,MAS GOSTARIA QUE REAVALIASSEM ESSA SITUAÇÃO E FOSSEM VERDADEIRAMEMTE HUMANOS.GOSTARIA DE VER COMENTÁRIOS SÉRIOS E QUE MIN AJUDASEM A ENTENDER MELHOR ESSE ASSUNTO.QUANDO CHEGA O MES DE NOVEMBRO AS LEMBRANÇAS FICAM FORTES E AS VEZES TAMBEM UM SENTIMENTO DE REVOLTA,ESCREVER ESSE DEPOIMENTO MIN AJUDOU MUITO,EU SEMPRE QUIS CONTAR PRA MUITA GENTE ,SABER O QUE ACHAM DISSO ,FAÇO ISSO EM NOME DE EVELYN E DE TODAS AS MÃES E BEBES QUE SOFRERAM O QUE SOFRI E SÃO IGUAIS A MIN POBRES´,COM RELAÇÃO A DEMORA DA RESPOSTA DA JUSTIÇA ESTOU SATISFEITA COM TODOS OS PROCEDIMENTOS,SE JÁ TIVESSEM DECIDIDO TALVEZ TIVESSE SIDO PRECIPITADO,ACREDITO QUE ESTÃO CUIDANDO DO MEU CASO COM A SERIEDADE QUE ELE MEREÇE E VOU SEMPRE INCENTIVAR AS PESSOAS A DENUNCIAREM QUANDO FOREM TRATADAS COM DESCASO.TUDO QUE ESCREVI AQUI CITEI EM DEPOIMENTO NA POLICIA FEDERAL.NO CRM,NO MINISTERIO PUBLICO SOU A RESPONSSAVEL SOU RESPONSSAVEL POR CADA PALAVRA.

  • Em primeiro lugar, parabenizo a você, Bahé, pela iniciativa desta discussão e agradeço pela participação de todos por seus esclarecedores depoimentos. Sou doula, professora de Yoga para Gestantes e mãe de duas crianças que nasceram em casa. Facilito cursos de orientações para casais grávidos e gestantes e cheguei a este debate pois estou estudando estatísticas. Lendo os depoimentos, fiquei com uma sensação de que a questão toda está sendo debatida ainda um tanto na superfície, ainda que os fatos sejam extremamente sérios e implicativos de urgentes considerações e mudanças. O argumento de que antigamente as mulheres morriam mais de parto, bem como os bebês, que é falha, como uma das colegas já disse, é no entanto, o pensamento que têm embasado as desculpas para não se refletir sobre o parto de fato. A questão que eu gostaria de levantar é: qual é a educação que temos para os eventos da vida, qual é a educação que tínhamos no passado sobre os mesmos temas? O quanto temos gastado de nosso precioso tempo com a externalização de nossas consciências numa tentativa falha de fugirmos de nossa real natureza, de nos aprofundarmos no conhecimento de nós mesmo e assim compreendermos a vida a partir deste olhar interno, que, somado aos estudos e perspectivas nascidas das experiências de outros, podem nos fornecer melhores condições de vida?
    Quantos anos passamos na escola e em nenhum momento de verdade somos levados a refletir sobre nós mesmos, sobre nossos sentimentos, sobre os pensamentos que surgem em nossas mentes, sobre nossos desejos ocultos e as intenções que precedem nossas ações? Porque não existe uma matéria chamada por exemplo “Você mesmo”, em que as crianças e mais tarde os adolescentes sejam encorajados a observar a si próprios em corpo, sensações e consciência? A problemática do parto é a problemática da vida: não sabemos como lidar com ela. No passado, muitas mulheres chegavam ao momento de seus primeiros partos sem saber como o bebê iria nascer. Aliás, algumas chegavam à noite de núpcias sem ter a menor ideia do que iria acontecer. Em nossa sociedade judaico-cristã é comum a mulher ser subjulgada de diversas formas, a base do pensamento ainda é Levíticos, onde a sacralidade de ser mulher é relegada ao pior infortúnio e chamada de “imundície”. Não digo que não tenha havido mudanças, mas é fato que o sistema patriarcal continua em pleno vigor, atuando desmedidamente para o sufocamento das forças femininas em todos nós – homens e mulheres – e estas forças estão ligadas principalmente com as atividades de acolhimento, cuidado, zelo, atenção, carinho, afeto, sensibilidade, liberdade e intuição aguçada. Ora, estas qualidades infelizmente não tem sido valorizadas desde muito tempo, então não há nem como compararmos as mortes maternas e neonatais do passado com as atuais, pois a falta de valorização do feminino continua igual – ou, em alguns casos, pior. Sinto que a questão é autoconhecimento, que leva à autonomia, que leva a possibilidades de diferentes escolhas, de soltura, de apropriação do próprio corpo e correto direcionamento do próprio desejo. São estas algumas das milenares preocupações das filosofias de transcendência oriental e liberação dos grilhões do condicionamento personalista. Enquanto não tocarmos nestes pontos, como poderemos de fato falar em favor de um tipo de parto? É urgente e preciso que os seres humanos desenvolvam estes valores, de auto percepção muito mais profunda e geradora da ciência de si mesmo, somada com os conhecimentos tecnológicos e científicos, mas nunca submetidos e sufocados por eles. A ciência erra tanto quanto a intuição pois ambos sofrem da observação e projeção do humano, que é falível por natureza. Descobrir o que se sente de verdade, aprender a olhar para dentro, respirar de forma mais profunda e tranquilizante, adentrar os campos sombrios da psique com o intuito de trazê-los à luz, tudo isso são faculdades naturais dos humanos, dotados (nem sempre) de autoconsciência. Deixar de realizar esta tarefa é jogar nas mãos do sistema as decisões sobre si mesmo, é relegar inclusive ao fomentadores de pensamentos de contracultura a estipulação de regras pseudo-anárquicas de vida, é continuar de qualquer forma presos ao que pensam os outros. Informação é fundamental, pesquisa séria é fundamental, mas na hora do parto mesmo, a mulher vai é encontrar-se consigo mesma radicalmente vulnerável e exposta e se ela nunca foi estimulada a fazer isso, pode ser que seu parto não transcorra tão bem quanto poderia. O que os grupos de humanização seriamente preocupados com uma melhor forma de nascer dos seres humanos estão fazendo é justamente isso: favorecer o encontro da mulher consigo mesma, através de diferentes abordagens, para que, no momento do parto, com uma equipe que compreende isso, ela possa dar vazão aos seus sentimentos mais sombrios e encontrar a paz necessária para parir bem. E o bebê, que lá de dentro recebe todos os seus jorros hormonais, poderá acompanhar junto de sua mãe esta incrível metamorfose e se fortalecer também com todo o processo.
    Agora, esta é uma questão de educação, principalmente. Cuidar da educação para a vida – e para o parto – desde a infância e preparar profissionais de parto para este acompanhamento cuidadoso e afetivo com certeza custaria muito menos do que a grande maioria dos investimentos tecnológicos feitos por nossos governantes. O que obviamente não descarta um bom pré-natal e avaliações cuidadosas, mas toda a visão sobre gestação, parto e pós-parto passariam inevitavelmente por um filtro, que diria respeito aos campos psíquicos dos indivíduos observados.
    Detalhe: a desculpa esfarrapada de que o médico tem que ficar muito mais tempo disponível para um parto normal do que para uma cesária não é de todo factual, pois se todos trabalhássemos de verdade para a humanização, compreenderíamos que existem outros profissionais, inclusive muito melhor preparados que os médicos (pelo menos enquanto a revolução das borboletas não acontece…) para prestar assistência à mulher em trabalho de parto, que estarão de verdade junto dela, com carinho, massagens e muito afeto. O médico pode chegar bem depois, ou, em muitos casos, nem estar presente, quando as próprias enfermeiras obstétricas, parteiras e obstetrizes podem muito bem recepcionar o bebê e prestar os auxílios necessários, quando tudo corre bem – grande maioria dos casos em que há educação para o parto e carinho zeloso para a mulher em TP.
    … mas nada disto é interessante aos olhos do sistema totalitário capitalista, que visa lucro e onde o pensamento pelo viés do masculino está à frente das instituições.
    Queiram perdoar-me por ter sido tão prolixa ao abordar o tema. Grata pela atenção de todos!

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MARCO BAHÉJornalista
É formado em Jornalismo e pós-graduado em História Contemporânea e História do Nordeste do Brasil. Foi repórter da Gazeta Mercantil para os estados de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. Também atuou como repórter do Jornal do Commercio, editor da Folha de Pernambuco e repórter especial do Diario de Pernambuco. É correspondente da revista Época no Nordeste desde 2003. Tamb´m atua com publicidade e marketing eleitoral desde 2004.
PIERRE LUCENADoutor em Finanças
É doutor em Finanças pela PUC-Rio e mestre em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco. É professor adjunto de Finanças da UFPE e foi secretário-adjunto de Educação de Pernambuco. É autor de vários trabalhos publicados no Brasil e no exterior sobre o mercado financeiro, e participa como revisor de várias revistas acadêmicas na área. É sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Finanças. Foi comentarista de Economia do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (TV Jornal e Rádio CBN). Atualmente é coordenador do curso de administração da UFPE, e Coordenador do Núcleo de Estudos em Finanças e Investimentos do Programa de Pós-graduação em Administração da UFPE (NEFI).