A rasteira jornalística na dignidade humana

set 9, 2015 by     19 Comentários    Postado em: Atualidades

Por André Raboni
para o Acerto de Contas

Na última sexta-feira, publicamos um post aqui no blog, traçando um rápido panorama da situação dramática da crise de refugiados entre o Oriente Médio e a Europa. Dentre os assuntos abordados ali, estava as condições sub-humanas a que o governo húngaro estava expondo milhares de refugiados que chegam às suas fronteiras para seguir caminho Europa adentro, buscando alcançar a República Checa, passando pela Áustria e seguindo rumo a países como Alemanha e Inglaterra.

Há em circulação uma concepção estúpida de que os refugiados estariam querendo “se dar bem” no continente Europeu, mas com meia dúzia de cliques no google qualquer um desmonta esse conjunto de argumentos profundos como um pires e percebe que muitos refugiados desejariam mesmo era retornar para seus lares e acabar com a guerra.

Chamamos naquele post de “crise migratória” essa rede de acontecimentos que agora preferimos chamar de crise de refugiados, mesmo. Essa correção se deve ao fato de que aquelas populações não estão apenas fugindo de uma crise econômica, mas de um contexto de guerra e conflitos armados que tem exterminado pessoas e destruído cidades inteiras.

Uma condição catastrófica em que o povo sírio está sendo trucidado tanto pelo exército de Bashar Al-Assad quanto pelo Estado Islâmico. A trágica sinuca de bico em que o taco é um AK-47 e a caçapa é um amontoado de escombros.

Observe a razão pela qual a família do pequeno Aylan, garoto curdo encontrado morto no litoral da Turquia, fugiu de sua cidade buscando refúgio em outros países.

Esta é uma foto de Kobani, cidade no norte da Síria onde Aylan Kurdi viveu durante seus breves três anos de idade.

Terra arrasada.

É assim que se encontra boa parte do território sírio, e é por isto que seu povo foge: não para buscar uma vida melhor (o que caracterizaria uma “crise migratória”), mas para encontrar uma vida qualquer, desde que se viva.

A RASTEIRA JORNALÍSTICA QUE ENVERGONHOU O MUNDO

Rodou todas as redes sociais e jornais do mundo uma foto e um vídeo que mostra a cinegrafista Petra László passando uma rasteira num pai que desesperadamente carregava seu filho nos braços, fugindo da polícia.

As imagens são revoltantes. E mais ainda quando vemos, na sequência do vídeo, que ela continua a chutar refugiados, inclusive uma criança.

Assista:

A repórter da N1TV teria sido demitida logo após a divulgação das filmagens, segundo o jornal inglês Guardian – que também informou as ligações estreitas entre a N1TV e partido de extrema direita Jobbik, partido do neofascismo húngaro que defende a criminalização, prisão e expulsão dos refugiados.

Dado o histórico do nazifascismo naquela região, não surpreenderia se também defendessem abertamente a escravidão, o confinamento e posterior extermínio desses povos em câmaras de gás.

A rasteira da cinegrafista não foi apenas um chute nos refugiados: foi um golpe baixo em toda atividade jornalística. Uma vergonha para colegas de profissão de todo o mundo. Mas além disso, foi um verdadeiro rodo na dignidade humana.

UM SÉCULO DA RASTEIRA OCIDENTAL NOS POVOS ÁRABES

Há cerca de mil anos o Ocidente produz suas infinitas barbaridades no Oriente Médio – pelo menos desde as Cruzadas. No próximo ano vamos completar o aniversário de 100 anos do acordo Sikes-Picot (1916), um acordo que selou o início das atrocidades contemporâneas do Ocidente na região.

Em troca do apoio contra os otomanos durante a Primeira Guerra, a Grã-Bretanha se comprometeu a apoiar a autonomia e a autogestão de todas regiões de língua árabe. Ao mesmo tempo, os britânicos firmaram um acordo com a França, na direção exatamente contrária: reservava aos franceses o domínio da Síria e do Líbano, enquanto reservava para si o domínio da Jordânia, Iraque e Palestina para a Grã-Bretanha.

A ideia inicial, encampada pela recém-criada Liga das Nações no Tratado de Versalhes (1919), era a de que esses territórios passariam por governos provisórios, comandados pelos dois países signatários do acordo Sikes-Picot, até que fosse garantida suas independências formais – o que, claro, não ocorreu. Já em 1922 foi aprovado um mandato britânico na Palestina.

Ali teve início o processo de armamento dos colonizadores sionistas na região ao longo de mais duas décadas. Em 1948 caía sobre a Palestina a régua que recortou seu território para criação do estado de Israel.

O restante desse processo inescrupuloso de ocupação pode ser visualizado no mapa abaixo.

A celebração destes 100 anos de atrocidades contemporâneas, evidente, não acontecerá.

Seguiremos tentando entender o porquê de tamanho desarranjo político no Oriente Médio sem nos questionar com a mais rasteira das questões: qual foi o nosso papel em todo esse turbilhão de tragédias humanas nesse início de século 21?
______________________________________________

(Sugestão de leitura: A Grande Guerra pela Civilização – Robert Fisk)

______________________________________________
André Raboni é ex-redator do Acerto de Contas e Analista de Comunicação Digital.

19 Comentários + Add Comentário

  • Eu DUVIDO que esse povo volte para seus países se os conflitos acabarem no Oriente Médio. A maioria desses refugiados quer mesmo é se dar bem na Europa. Parece aquela velha história de brasileiro oportunista quando diz que vai “passar um tempo” na Europa ou nos EUA e termina ficando a vida inteira.

    Acontece que essa mordomia na Europa está com os dias contados. Com essa mega imigração, a Europa talvez entre numa crise étnica, cultural, social, política, religiosa (Islamismo x Cristianismo) e, claro, econômica sem precedentes.

    Muitos desses imigrantes não vão conseguir se integrar plenamente na sociedade, o que vai gerar exclusão social e, por conseguinte, pobreza, marginalização e miséria. As periferias e subúrbios das grandes cidades vão explodir com imigrantes gerando problemas sociais antes não conhecidos pelos europeus.

    A Europa nunca mais será a mesma. Aquela Europa bucólica e tranquila, onde reinava a paz e a ordem social é coisa do passado. O continente europeu se tornou uma verdadeira bomba-relógio. Só Deus sabe o que vai ser desse balaio de gato no futuro.

    E era exatamente isso que o islamismo queria: bagunçar os fundamentos civilizacionais da Europa. Pelo jeito, conseguiram.

  • No Brasil, essa repórter já teria sido chamada pra posar na Playboy ou para fazer um filme pornô. E o PT iria tirar proveito dizendo que a repórter era coxinha reaça da direita golpista.

    No Brasil, tudo acaba em carnaval ou prostituição.

    • Fiquei com a impressão que os representantes da União Europeia estão aqui no Recife, mas precisamente comentando a defesa da UE nessa matéria, pois mesmo não desconhecendo os problemas que geraram a imigração não abrem mão de defender seus países, como fizeram aqui os vários internautas

  • Texto que demonstra uma grande ignorância histórica, principalmente no que concerne à questão israelense. Tratar toda a questão como culpa do “imperialismo europeu” é simplismo completo, e a mera utilização do termo “colonizadores sionistas” é de uma má-fé sem tamanho. Triste.

    • Acho curiosa essa mania internética de chamar de “ignorantes” quem tem um olhar diferente sobre o assunto.

      Não vai aí qualquer má-fé na expressão COLONIZADORES SIONISTAS: trata-se de uma posição política da qual não abro mão na minha escrita.

      Abs.

  • Eu sou o esquerdista bonzinho. Afinal, eu critico os europeis e ianques malvados. O quê ? Refugiados na minha casa ? Tô fora!

  • Texto sensacional !

  • Enquanto isso, Putin deve estar assistindo a tudo isso de camarote e se divertindo, afinal, usar o Oriente Médio como ponta de lança para destruir a Europa sempre foi o sonho dos comunistas. Os islâmicos invadiram a Europa e destruíram o cristianismo. Aposto que o próximo capítulo dessa “novela” será o embate entre Putin e o islamismo pelo controle da Europa.

  • Se o único objetivo é fugir da guerra, por que não Catar, Emirados Árabes , Cuba, Cubão (vulgo Brasil) ou Coreia no Norte ?

  • Ótimo artigo, André.

    Em relação ao Brasil, o que dizer frente a este cenário ?
    Relações Exteriores vergonhosa, Politica Internacional Inexistente, Diplomacia de dar vergonha.

    Triste.

  • Esse é um problema grave e que a interferência míope do ocidente acabou agravando e algumas medidas precisarão ser tomadas e diferentes de muros e prisões.

    A Europa surgiu como uma alternativa mais viável e é provável que se morasse na Siria, adotasse as mesmas estratégias.

    Por aqui a presidente disse que receberia os refugiados de braços abertos mas o Brasil é longe e está à beira de um abismo político e econômico.

    Já notaram as lojas fechando nos shoppings e no centrão da cidade?

    Em breve seremos nós a tentar a sorte nos EUA como se viu em tempos idos.

    • Sinval.

      Lojas fechando por todos os lados.

      Na Imbiribeira é de assustar.
      Caxangá, sem comentários.
      Imperatriz ? Idem.

  • Excelente post mais uma vez, André. Bom saber que você voltou. Putz. O Blog estava nas mãos de Robson e Jacomé. Nada contra, acho que eles têm é mais que escrever mesmo. Só não aguento ler.

    Sobre o tema, tragédia total. A direita europeia é totalmente fascista, assim como, uns aprendizes de nazi tupiniquim. Esses últimos são tão insignificantes que até o líder deles (Olavo) os chama de tolos.

    E agora os conservadores querem ser liberais. ehehehhe Pode?? Um povo que só sabe sonhar com dinheiro público…

  • “Há em circulação uma concepção estúpida de que os refugiados estariam querendo “se dar bem” no continente Europeu, mas com meia dúzia de cliques no google qualquer um desmonta esse conjunto de argumentos profundos como um pires e percebe que muitos refugiados desejariam mesmo era retornar para seus lares e acabar com a guerra.”

    ^

    Alexsandro, esse fatality é pra você viu? Estúpido…

  • Gostei muito do texto! O Acerto de Contas tava virando já um Pub-Nazi…

    Pierre e Jacomé, não sei se intencionalmente, começaram a atrair esse tipo de gente para o blog… gente do mal mesmo, pessoas frias que sequer se comovem com o sofrimento alheio.

    Gente que usa a redução “É pobre, lascado e está passando por dificuldades? Problema seu! Não se esforçou suficiente e não terá a minha (nossa) ajuda, seu vagabundo!”

    O engraçado é que essa visão de mundo é a que sempre vigorou e a que sempre produziu as maiores barbáries, mas mesmo assim tem retardados mentais que insistem em propagá-las.

    Tomara que hajam mais textos como esse!

  • E só para completar segue um outro bom texto:

    http://nossapolitica.net/2015/09/petra-laszlo-sheherazade-hungria/

  • André, tu é um imbecil ignorante.

    O texto cheio de falácia, mentiras e chavões do MEC e quer ser respeitado?

    Antes já era difícil ter respeito por vocês, quando eu só tinha os livros do MEC e a suspeita da fraude de vocês.

    Hoje “com apenas uns cliques” esse embuste cai rapidinho. Mentiroso do cacete.

    Vá ler “o mínimo” para ver se deixa de ser ignorante.

    • Esse tá precisando de um lenço emprestado pra limpar a baba de ódio.

  • Quanta grosseria.
    Vai tomar uma vacina contra raiva homi!

Tem algo a dizer? Vá em frente e deixe um comentário!

XHTML: Você pdoe usar as tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

Enquetes

Em relação ao impeachment de Dilma Rousseff, qual sua posição?

Ver Resultado

Loading ... Loading ...

Frase do dia

  • A riqueza de uma nação se mede pela riqueza do povo e não pela riqueza dos príncipes.”, Adam Smith.

ARQUIVO

abril 2017
S T Q Q S S D
« mai    
 12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930

Informação com Humor

MARCO BAHÉJornalista
É formado em Jornalismo e pós-graduado em História Contemporânea e História do Nordeste do Brasil. Foi repórter da Gazeta Mercantil para os estados de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. Também atuou como repórter do Jornal do Commercio, editor da Folha de Pernambuco e repórter especial do Diario de Pernambuco. É correspondente da revista Época no Nordeste desde 2003. Tamb´m atua com publicidade e marketing eleitoral desde 2004.
PIERRE LUCENADoutor em Finanças
É doutor em Finanças pela PUC-Rio e mestre em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco. É professor adjunto de Finanças da UFPE e foi secretário-adjunto de Educação de Pernambuco. É autor de vários trabalhos publicados no Brasil e no exterior sobre o mercado financeiro, e participa como revisor de várias revistas acadêmicas na área. É sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Finanças. Foi comentarista de Economia do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (TV Jornal e Rádio CBN). Atualmente é coordenador do curso de administração da UFPE, e Coordenador do Núcleo de Estudos em Finanças e Investimentos do Programa de Pós-graduação em Administração da UFPE (NEFI).