Circulação dos jornalões em queda. A credibilidade e a sobrevivência em xeque

abr 28, 2009 by     16 Comentários    Postado em: Economia

jornais

O site ABC Comunicação publicou hoje uma matéria que mostra alguns números preocupantes da tiragem de jornais impressos no País. Segundo a matéria, dos 20 maiores jornais brasileiros, 6 tiveram a pior tiragem da década. Dentre eles, estão: Folha de S.Paulo, Estadão, O Dia, Diário de S. Paulo, Correio Braziliense e Jornal da Tarde.

O Instituto Verificador de Circulação (IVC) também registrou queda na tiragem do jornal O Globo. Vejamos alguns números, na tabela abaixo:

numeros-tiragem-jornais1

OBS.: o jornal Diário de S.Paulo, no início da década, chamava-se Diário Popular.Clique para ampliar.

As causas que levaram à esta redução da circulação dos jornalões brasileiros são diversas. A internet e o crescente acesso à rede certamente está entre elas, podendo ser analisada por mais de um ângulo.

A internet e queda de circulação dos impressos

Segundo uma pesquisa do Interactive Advertising Bureau Brasil (IAB Brasil), entre os anos de 2003 e 2007, o número de usuários de internet no Brasil teve um aumento de 67%.

Segundo o Ibope/NetRatings, na segunda metade de 2008, o Brasil tinha cerca de 41,5 milhões de internautas. Um outro instituto, o Datafolha, mostrou um número ainda maior, cerca de 64,5 milhões. A diferença entre ambas pesquisas seria de metodologia. De toda forma, a tendência para os próximos anos é este número crescer ainda mais.

É provável que esse crescimento tenha relações com a queda na circulação dos jornalões. Tanto do ponto de vista do acesso aos conteúdos de forma gratuita, quanto na questão do desnudamento de algumas inverdades publicadas nas páginas dos impressos – e outras manipulações sob a ilusão do mito da “imparcialidade”.

Os arranhões na credibilidade e a pouca oferta de análises nos jornais

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Outro fator que pode ser analisado é a própria queda da credibilidade da grande imprensa. Com a proliferação de blogs e sites de mídia colaborativa e alternativa, os jornalões passaram a ter sua credibilidade ameaçada com a difusão de informações antes omitidas do público leitor.

Com essas novas formas de comunicação online, os próprios leitores também ajudam a construir os conhecimentos, seja colaborando com informações/links, seja argumentando de forma diversa ao autor do texto/post – aqui mesmo no Acerto de Contas, ponderações e pensamentos contrários aos meus, expostos por comentadores, já me fizeram mudar títulos de postagens e mesmo a leitura que faço de algumas questões.

Acho isso muito saudável.

Os exemplos que conduzem os jornais impressos à ruína da credibilidade são vários, e seria uma obviedade enumerá-los.

Cito um deles, apenas como ilustração. O caso mais recente, da Folha de S.Paulo, que publicou uma “reportagem” apresentando uma pseudo ficha da ministra Dilma Rousseff (Casa Civil), supostamente responsável por participar da arquitetura do sequestro (???) do ex-ministro Delfim Netto.

A tal “ficha” circulava internet, e saiu na capa do jornal, sem que fosse checada a sua veracidade pelos jornalistas (ou, se tiver sido checada, foi manipulada e escondida).

Este fim de semana, a Folha acabou por reconhecer que se tratava de um fake (uma montagem).

O resultado: uma das maiores mancadas jornalísticas do ano (sem falar no caso “ditabranda”). No dizer do blogueiro Mello, essa da Dilma, e outras, não passam de reporcagens.

Muita gente na blogosfera deseja ver a grande imprensa ir de vez pra o buraco, sumindo do mapa de uma vez por todaspra sempre. Assim como os próximos do cavaleiro da Triste Figura desejavam ver eliminada da face da terra a biblioteca do nosso Herói, Quixote, e seus muitos volumes de livros de cavalaria medieval.

Existe um certo “ódio” contra a grande imprensa – e ele não é vão, nem de graça. É como se fosse uma torcida de futebol, torcendo pela derrota do time adversário.

Eu não vibro, nem deixo de vibrar. Na verdade, assisto de camarote a este filme, sendo também, eu mesmo, um agente participativo desse processo, mas um agente que deseja não a derrota da mídia impressa, mas seu aperfeiçoamento ético e técnico.

Um dado curioso é que o jornal Valor Econômico apresentou aumento da circulação – com média de 53.885 exemplares neste primeiro trimestre de 2009.

(Outros jornais, como o Meia Hora, Lance, A Tribuna e o Expresso da Informação apresentaram crescimento de circulação.)

Esse fator pode ser sintomático de uma outra perspectiva de análise.

Acredito que as pessoas não querem gastar dinheiro pra ler notícias, apenas. Principalmente nas chamadas “notícias-pílulas” – aquelas breves notas que pretendem resolver o mundo…

Notícias, as pessoas as obtém de graça, e de muitas formas.

Seja em diálogos nos ônibus, nos bares; na tevê, no rádio e até mesmo na internet (onde alguns blogs, como o Acerto de Contas, reproduzem gratuitamente conteúdos cujo acesso é restrito apenas ao público assinante do jornal/portal).

O que estaria a faltar nas páginas dos grandes jornais seria, pois, duas coisas: credibilidade (também traduzida pela transparência de o jornal informar aos seus leitores as posições e opiniões da redação) e análises mais especializadas.

Não acredito em “imparcialidade” da informação. Isso não passa de um mito. O silêncio, por exemplo, é uma tomada de posição. Tampouco acredito que um jornal sério precise ser “imparcial”. Isso foi uma ilusão que a grande mídia criou após o regime militar brasileiro, e até hoje faz uso desse discurso quando lhe convém.

Ora, não há nenhum mal em tomar um posicionamento com relação aos acontecimentos p0líticos, econômicos, culturais, outros. O opróbrio se mostra quando se esconde isso dos leitores.

E essa, infelizmente, ainda é a prática comum da grande imprensa brasileira, travestida de “imparcial”, mas cheia de doutrinamentos subreptícios – muitas vezes explícito descaradamente, embora maquiado noas ares fantasiosos do mito.

Conquista-se credibilidade do público leitor não o jornal sem coloração ideológica, postura de apoio ou crítica, ou preferência cultural. Perde aquele que se mostra pouco honesto, que acaba com fama de mentiroso e sem caráter.

Quanto ao fator análises, percebo como sintomático o fato de o Valor Econômico (que pertence aos grupos Folha + Globo) ser um dos impressos que apresentou crescimento da circulação. Embora ainda seja um jornal recheado de releases (matérias encomendadas e compradas), publica algumas análises muito boas e consistentes.

Talvez a combinação transparência com os leitores + análises de qualidade seja o cerne do desafio que a imprensa brasileira deverá se direcionar nos próximos anos.

O ocaso da mídia impressa e a especialização do escritor público

Particularmente, não torço pelo ocaso da mídia impressa. Mas aguardo o dia em que a grande imprensa perceberá de vez que o público leitor está a cada dia mais crítico, e exigindo melhores padrões de jornalismo.

Se isso não acontecer, que os veículos de comunicação espúrios caiam de vez, sem piedade, no buraco da falência irreversível.

O que se coloca como carro-chefe nesse debate, tem a ver também com a regulamentação da profissão de jornalismo. Sou contrário a regulamentação, e isso já foi motivo de muitos debates aqui no blog, ano passado.

Não acredito que seja preciso uma graduação pra saber escrever. Apesar de achar a boa escrita imprescindível a qualquer tipo de texto. O certo seria que as pessoas já saíssem das escolas sabendo escrever. Isso parece estar longe de acontecer. Outro viés necessário às análises passa pela questão das concessões públicas de tevê e rádio. Mas, essas questões mereceriam aprofundamentos em posts específicos.

Acho que, em vez de pensarmos em regulamentar a profissão dos jornalistas, e obrigar que seja o profissional da escrita pública formado em Jornalismo, o mais correto seria pensar em formar uma especialização daqueles que irão trabalhar com a escrita pública (uma espécie de pós-graduação) pra alunos de áreas diversas, como Economia, Ciências Políticas e Sociais, História, Biologia, Geografia, Filosofia, Direito etc..

Dessa forma, veríamos no mercado profissionais mais preparados e com maior nível de saber pra escrever sobre a área que lhe é afim. Lê-se, muitas vezes, completos absurdos e equívocos conceituais simplórios em algumas matérias de jornais.

Isso acontece pela ausência de conhecimentos e conceitos das áreas afins, já que no curso de Jornalismo, passa-se 4 anos basicamente estudando técnicas de redação. Formado em Jornalismo, o indíviduo estaria (em tese) “habilitado” à escrever sobre qualquer coisa, mesmo que não saiba nada sobre o tema.

Não vejo isso de uma forma positiva.

Grandes escritores públicos nunca estudaram Jornalismo. A exemplo de Machado de Assis, Graciliano Ramos, Nelson Rodrigues, Clarice Lispector, etc. Tod@s tinham a marca de serem exímios escritores. Não por acaso, são os maiores nomes da literatura brasileira.

Evidente que não prego que os escritores de jornais sejam os maiores literatos da Nação. Esse argumento apenas reforça meu pensamento de que acho desnecessário uma graduação em Jornalismo.

Com a especialização de profissionais de áreas diversas em uma pós-graduação em escrita jornalística, em substituição aos atuais cursos de graduação na área, ter-se-ia um maior número de profissionais com muito melhor capacitação.

Mas isso tornará mais caro o valor salarial desses profissionais. E muita gente/empresa não quer isso.

Sobretudo em tempos de vacas magras para os índices de circulação dos grandes jornalões.

16 Comentários + Add Comentário

  • A queda de vendas e de credibilidade dos grandes jornais é uma das coisas que me faz dormir tranquilo a noite.

  • A despreocupação da população, em especial do jovem, com o que ocorre fora dos seus horizontes, a mim parece um fator decisivo na queda dos jornais. Isso reflete, além do mais, a pífia educação que recebemos, a qual desperta uma aversão a qualquer forma de cultura, exercendo de forma contrária o seu papel fundamental.

  • Muito bom o texto, André. Tenho sonhos molhados vendo a Veja deixar de circular e a Globo fechar as portas…

    Só lhe atento pra uma coisa, meio off-topic: cuidado na pontuação. “Mas” e “e” são conjunções, não advérbios, então não podem ser separados da frase por vírgula. Só uma dica útil mesmo.

    Abs

  • Melhor para a natureza, menos árvores tombarão.

  • Esses indices parecem sintomáticos de algo que o blog tenta captar, são justamente tais análises que nos ajudam a entender melhor este processo.
    Algo que mostra bem esta perda de credibilidade é o próprio tratamento que os jornais dão aos seus leitores e as suas análises. O mito da imparcialidade cai e as pessoas conseguem sentir mais de perto.
    Vejam este post… muito bom: http://www.idelberavelar.com/archives/2009/04/como_os_leitores_sao_tratados_pelos_semanarios_brasileiros.php

    Para incentivar a leitura, vejam o que o editor mandou, POR ENGANO, para o leitor questionador (a mensagem era para outra pessoa do jornal):

    André, tudo bem?

    Recebi o e-mail abaixo sobre o Filtro. Quero responder ao leitor, mas não sei se devo abrir o jog sobre como escolhemos as notas da seção. O cara tem certa razão quando questiona a linha-fina de apresentação (“As opiniões e análises que importam para entender o Brasil e o mundo”).

    Abraço,
    Juliano

  • Robson,

    Valeu pelas dicas.

    olhosdonorte,

    Muito bom o link que indicastes. Merece um post, que estou fazendo agora.

    PS: a revista Veja, heim? Quanta prepotência para justificar o injustificável!

    Abraço!

  • [...] poucos, os periódicos brasileiros vão perdendo a credibilidade e os leitores por se basearem única e exclusivamente nessa campanha de medo de bonzinhos e malvados. Com isso, [...]

  • Para mim, o principal fator na queda de tiragem dos jornais brasileiros é a falta de imaginação.

    Isso começou desde que a Estagiária do Calcanhar Sujo chegou a Editora, e se deve para mim principalmente à obrigatoriedade do diploma. Um jornal brasileiro hoje é como uma salsicha de peru: uma dose mínima de ingredientes previamente aprovados e inofensivos à saúde e depois é só por no prelo. Personalidade, nenhuma.

    Todos são politicamente corretos até o talo, os ângulos são os mesmíssimos, o espaço é dividido da mesma maneira. Ligeiramente esquerdinhas de um lado, conservadores daquele outro que podem ser, é o tal “equilíbrio de opiniões”. Só muda o título e o lugar de impressão.

    E olha que jornal é meu principal meio de informação, já que não assisto televisão. Mas é quase um sacrifício abrir a “Folha” todos os dias: os mesmos editoriais, as mesmas páginas e páginas dedicadas à política, tanto interna quanto externa. As polêmicas de ocasião na terceira página, com espaços dados aos extremistas de plantão mas tratando sempre dos mesmos assuntos. Os cartuns sem graça e as graças igualmente sem graça do José Simão; e uma “Coluna Cívico-Social”. Tédio.

    Uma vez pensei em trocar a Folha pelo Estadão, mas desisti depois de lê-lo por alguns dias: é a mesma “Folha”com nome trocado.

    Fórmula genérica: escândalo político (três páginas); suas ramificações (mais duas); loas discretas a outros setores do governo (duas); uma guerra ou duas; mais política, desta vez internacional (quatro, ao todo). No caderno cultural, grupelhos de rock que ninguém conhece nem faz questão, “lançamentos” literários com vinte ou trinta anos de atraso, e se tudo mais falhar bata na tumba do Adorno três vezes.

    Talvez seja hora de algum pioneiro fazer um jornal diferente.

  • [...] É provável que esse crescimento tenha relações com a queda na circulação dos jornalões. Tanto do ponto de vista do acesso aos conteúdos de forma gratuita, quanto na questão do desnudamento de algumas inverdades publicadas nas páginas dos impressos – e outras manipulações sob a ilusão do mito da “imparcialidade”.Continue [...]

  • [...] Outubro 29, 2009 · Deixe um comentário Circulação dos jornalões em queda. A credibilidade e a sobrevivência em xeque [...]

  • [...] 18/04/2010 · Deixe um comentário Circulação dos jornalões em queda. A credibilidade e a sobrevivência em xeque [...]

  • Matéria excelente. Quanto à formação dos profissionais de jornalismo, gostei da sua ideia de que os profissionais façam uma espécie de pós graduação, ao invés de passar 4 anos aprendendo técnicas de redação. Acredito que estes cursos devam ser ministrados de acordo com a área que a pessoa deseja seguir: repórter, diretor de jornalismo, entre outras.

  • [...] população alfabetizada (mesmo que 9% seja analfabetos e 20% sejam analfabetos funcionais) e a estagnação em relação aos exemplares vendidos. Etiquetado como:Confiabilidade da Informação, Google, [...]

  • Muito bom, André.

    Eu acrescentaria, de maneira expíicita, algo que v. o fez subrepticiamente como um dos fatores decisivos para a constante queda: a democracia da informação; o contraditório.
    A verdade tem muitas faces. Para alcançarmos a verdade-verdadeira, somente ouvindo (e considerando) as mais diversas posições. Isto a mídia não faz; ou por interesses comerciais e políticos (cortes dos editores), por falta de tempo (instantaneidade) ou por desconhecimento (coisa que não acredito – são muito bem preparados intelectualmente).

  • “Não acredito em “imparcialidade” da informação.” ………… Neste caso, caro André, você deveria concluir que não devemos também acreditar na “imparcialidade” da blogosfera — também um canal de informação, só que construído sobre parâmetros muito mais frágeis em termos de credibilidade — e sobretudo se constatarmos que a atual alternativa à grande imprensa costuma se dar em suspeitosíssimos blogs ‘chapa branca’ financiados pelo governo federal, na verdade não se constituindo em canais de informação, mas puramente em canais da propaganda oficial.

  • Aumento do número de tantos outros veículos de comunicação mais rápidos contaminam o interesse pelas notícias dos jornais. Queda livre. Outro fator: os jornais não estão se adaptando aos interesses da população. A tecnologia remexe seus arquivos diariamente, minuto a minuto. Por que os jornais e revistas ficam parados no tempo? Quem não se adapta, desaparece. Lamentavelmente.

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MARCO BAHÉJornalista
É formado em Jornalismo e pós-graduado em História Contemporânea e História do Nordeste do Brasil. Foi repórter da Gazeta Mercantil para os estados de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. Também atuou como repórter do Jornal do Commercio, editor da Folha de Pernambuco e repórter especial do Diario de Pernambuco. É correspondente da revista Época no Nordeste desde 2003. Tamb´m atua com publicidade e marketing eleitoral desde 2004.
PIERRE LUCENADoutor em Finanças
É doutor em Finanças pela PUC-Rio e mestre em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco. É professor adjunto de Finanças da UFPE e foi secretário-adjunto de Educação de Pernambuco. É autor de vários trabalhos publicados no Brasil e no exterior sobre o mercado financeiro, e participa como revisor de várias revistas acadêmicas na área. É sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Finanças. Foi comentarista de Economia do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (TV Jornal e Rádio CBN). Atualmente é coordenador do curso de administração da UFPE, e Coordenador do Núcleo de Estudos em Finanças e Investimentos do Programa de Pós-graduação em Administração da UFPE (NEFI).