Drama social

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Enviado por João Valadares

Aos 17 anos, Maria da Penha, moradora das palafitas de Brasília Teimosa, até então uma das áreas mais miseráveis do Recife, foi trabalhar na casa de um comerciante do bairro. Carlos Andrade tinha 65 anos. Era humilde, mas, diante da pobreza que o cercava, considerado bem de vida na comunidade. Seis meses de trabalho e Maria engravida do patrão. Quando soube, o comerciante compra dez comprimidos Citotec, remédio abortivo, e ordena que Maria tome as pílulas de uma vez só para matar o feto. Sem reclamar, Maria engole a metade e acaba no hospital. O médico achou pouco provável que o filho sobrevivesse.

Pouco tempo depois, sem nenhum problema de saúde, nasce Felipe da Silva. A mãe já havia sido expulsa da casa do comerciante e volta a morar nas palafitas. Passa pouco tempo. Na esperança de fugir da matança cotidiana, se muda com Felipe para o Ibura, Zona Sul do Recife. Lá, a violência de sempre. Resolve voltar às palafitas e arruma trabalho na Companhia de Abastecimento de Pernambuco (Compesa). Sem tempo, abandona o filho. O garoto vai morar com os avós maternos. Mais tarde, grávida novamente, Maria perde um bebê.

“Estava grávida, mas dois meninos armados no Coque (Ilha Joana Bezerra) vieram para cima de mim. Fiquei assustada e perdi.” Longe do pai e da mãe, Felipe cresce num cubículo calorento de apenas um vão em Brasília Teimosa. Um lugar assustador, ao lado de uma boca-de-fumo. Aos 10 anos, passa a freqüentar o Cabanga Iate Clube, na companhia do avô, pescador conhecido na região. Para ganhar um trocado, o garoto limpa os veleiros dos ricos, entre eles, juízes e empresários.

Rapidamente, consegue fazer um curso de vela e ganha um barco optimist de um dos sócios do clube. Nos fins de semana, chegava a velejar sozinho até a Praia de Maria Farinha, no Litoral Norte. Mas, de volta aos becos da comunidade, conhece as drogas. Aos 13, muda o visual e coloca a primeira arma na cintura. “Era para se defender das ameaças”, relata a mãe. Da casa do pai que o renegou, roubou o revólver 38 velho.

Pouco tempo depois, policiais militares prendem o menino em flagrante. Felipe vende o barco para pagar a liberdade. Entrega R$ 600 aos PMs e fica livre. Os outros dois amigos que estavam com ele tiveram que roubar a televisão e o DVD dos pais para não serem apreendidos. Expulso da escola pública onde estudava, na comunidade do Bode, no Pina, Felipe é transferido para um colégio estadual de Brasília Teimosa. Só fez a matrícula.

Desiste logo no início do ano letivo.  No fim do ano passado, pegou um revólver emprestado na comunidade, que ficava escondido com um menino de 11 anos, e, com um amigo de 15, resolveu sair andando para assaltar. Era um domingo. Caminharam mais do que o normal e chegaram às quadras de tênis de Boa Viagem. Lá, encontraram cinco jovens de classe média. Felipe se aproximou, roubou os pertences dos garotos, montou na bicicleta do colega e fugiu. Ao notar que os meninos tinham corrido, atirou. A única bala que tinha no tambor da arma atinge a testa do universitário Rafael Dubeux, que morreu cinco horas depois de ser encaminhado ao Hospital da Restauração. Assustado com a repercussão do crime, o menino raspa o longo cabelo e é preso em uma semana.

Maria, a mãe, só soube que o filho tinha assassinado um jovem de 21 anos cinco dias depois, quando viu o garoto encapuzado na televisão. “Reconheci pelos olhos.” A mãe, que agora mora no bairro do Cordeiro, não tinha mais contato com o filho.  Ainda não sabia em que unidade da Fundac o garoto estava.

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