Dois pesos, duas medidas

mai 27, 2008 by     20 Comentários    Postado em: Atualidades

Capa FSP_26 maio 2008

por Luiz Antonio Magalhães
do blog Entrelinhas

Mais uma colaboração deste blog para a série “Como a grande imprensa manipula o noticiário”:

A Folha de S. Paulo desta segunda-feira publicou na primeira página a chamada a seguir:

“A cada R$ 1 doado ao PT, empresas recebem R$ 54″

Pois bem, o leitor vai lá para dentro do jornal e lê a matéria, publicada na página A4 com os seguintes título e linha-fina (grifos do blog):

Governo paga a empresas 54 vezes o que doaram ao PT

Só das 20 maiores contribuintes, partido recebeu R$ 8,7 milhões no ano passado

No segundo mandato de Lula, empresas receberam R$ 473 milhões do governo federal; PT foi o partido que mais obteve contribuições

Mas eis que o distraído leitor vira a página e se depara com a seguinte preciosidade (grifos novamente deste blog):

Doadoras do PSDB obtêm contratos de R$ 3,4 bilhões

Andrade Gutierrez e Odebrecht ganharam licitações em Minas Gerais e São Paulo

Construtoras doaram ao todo R$ 2,4 milhões ao partido nacional em 2007; empresas dizem que doação foi feita de acordo com a lei

Ora, para chegar nos tais R$ 54 que as empresas doadoras do PT receberam a cada R$ 1 doados ao partido, a Folha dividiu o total recebido (R$ 473 mi) pelo total doado (R$ 8,7 mi). No caso do PSDB, a mesma divisão mostra que a cada R$ 1 doado aos tucanos, as empresas receberam exatos R$ 1416. Mas o jornal paulistano achou que os cinquenta e quatro contos do PT merecem mais destaque do que os R$ 1416 do PSDB.

Uma manchete justa talvez fosse “Doação ao PSDB dá às empresas retorno 26 vezes maior do que doação ao PT”

Assunto para Carlos Eduardo Lins da Silva, o novo e competente ombudsman da Folha.

____________________________

P.S.: As matérias referidas estão na nossa clipagem nacional de ontem.

Clique nos links para ler:

• Governo paga a empresas 54 vezes o que doaram ao PT

• Doadoras do PSDB obtêm contratos de R$ 3,4 bilhões

P.S.2: Este post também foi publicado no site do Observatório da Imprensa – a imagem da capa da Folha de S.Paulo foi extraída por mim de lá.

20 Comentários + Add Comentário

  • É por essas e por outras que ninguém definiu melhor do que Paulo Henrique Amorim aquilo que representa as maiores empresas de mídia do Brasil (Folha de S.Paulo, Estado de São Paulo, Globo): PIG – Partido da Imprensa Golpista.

    E isto demonstra, uma vez mais, quão atrasado é o Brasil.

  • PIG –

    PIG –

    PIG -

  • A crítica é certamente válida, mas comete um pecado capital. O desvio ético, se de fato comprovado, é o mesmo para os dois partidos, o que torna injustificável a defesa do PT. Assim como a do PSDB. Não estamos falando aqui de um campeonato de corrupção, onde temos que sair em defesa de quem rouba menos. Quanto essa lenda de PIG, francamente, melhor nem comentar. Mas a tentação fala mais alto… Quem é Paulo Henrique Amorim para ser citado num comentário de gente séria? Trata-se um decadente jornalista que aluga sua pena (de tinta cada vez mais apagada, pois ninguém o lê ou o assiste) a quem pagar mais. Inteiramente desacreditado, criou, numa fuga ao debate racional, essa cortina de fumaça chamada PIG. Quando nos faltar substância, que tal criarmos uma teoria da conspiração? Sempre pega bem e atrai alguns incautos…

    Quem, numa análise honesta, discorda que existe corrupção no governo Lula? A imprensa pega forte? Pega, e daí? Ela faz um trabalho quixotesco e representa hoje, ao lado do Ministério Público, uma das últimas barreiras à total contaminação do País pela corrupção. Há abusos? Sim. Há, de outra parte, instituições operantes para combater seus erros. E aqui nao estamos falando de um pobre coitado que está sendo injustiçado, mas do governo de turno e seu poderoso partido.

  • Joseph Goebbels, o famoso ministro da propaganda de Hitler, deve ser o padroeiro desses profissionais e grupos de comunicação que fazem da imprensa um instrumento de alienação.

    PT e PSDB podem até ser farinha do mesmo saco, mas a farofa tucana agrada ao paladar oportunista de segmentos da imprensa que usam de suas estruturas para manipular levianamente a opinião pública.

    Realmente, como duvidar agora da existência da Imprensa Golpista?

  • Golpista lembra ditadura e o pessoal tem medo, muito medo da ditadura…

  • Não gosto de PHAmorim, mas ele estava certíssimo quando criou o termo PIG. Essa matéria é apenas um exemplo de como a imprensa persegue o governo Lula. Ao contrário do que o Marcelo Pertence diz, ninguém aqui está defendendo o PT. Estamos apenas revoltados com a parcialidade da Folha de São Paulo, jornal notoriamente pró-tucano.

  • E olha que estamos falando da Folha de São Paulo. Se fosse a Veja, o panfleto semanal anti-Lula que mais vende no Brasil, a notícia poderia muito bem ser a capa da revista.

  • Lì e concordei com a colocação do Marcelo Pertence, mas numa tentativa de entender melhor a matéria do Ranboni, me arrisquei em fazer o percurso por ele sugerido. Primeiro uma passada no Observatório da Imprensa, onde o editor é ninguem menos do que o jornalista Alberto Dines. De repente, outra surpresa. Quem hospeda a página do IO é o site IG, experimentado e conhecido como site CHAPA-BRANCA. Avancei um pouco e cheguei a Paulo Henrique Amorim, outro nome bombastico da “imprensa livre”. Pronto!! Parei por aí! Fiquei com receio de encontar mais visagens. Em síntese, fica a impressão de que a “grande teoria da conspiração” é mais séria do que pensei. Então, caro Ranboni, voce está cobertissimo de razão em abordar o comportamento manipulador de nossa mídia, batizada pelos “plantonistas da verdade” com o singelo nome de PIG.

  • Pessoal, só um adendo: quem criou o termo PIG foi o deputado federal Fernando Ferro (PT/PE), num pronunciamento no Congresso, sobre a cobertura do acidente da TAM. PHA repercutiu e adotou o termo em sua página da internet.

  • Pertence,

    Tanto a corrupção petista quanto a tucana devem ser denunciadas (até afirmei que não vejo distinção entre PT e PSDB, partidos que se complementam em tudo aquilo que possuem de danoso), mas não há como deixar de perceber que os segmentos da imprensa elegeram os seus corruptos de estimação. Este tipo de abordagem convenientemente militante não esclarece os fatos, ao contrário, prejudica o esclarecimento da opinião pública e coloca sob suspeita os propósitos que envolvem certas organizações da imprensa como instrumentos de informação dignos de respaldo. A matéria citada faz um correto alarde para o desvio petista e encobre o mesmo pecado tucano (cujo vulto numérico, neste caso, é muito maior). Este tipo de cobertura serve para que?

    Embora os propagadores das teorias conspiratórias não possam gozar do status de “paladinos da verdade” (pois não o são), sejamos francos: acertaram em cheio ao indicar a frente tucana como manipuladora de abordagens. Este exemplo é indiscutível, pois se enquadra exatamente nisto.

    O corrupto governo Lula parece ser regido por uma horda de saqueadores. Isto é um fato. Mas será que a Era FHC foi um límpido período de pureza ética no qual estivemos livres dos usurpadores dos cofres públicos? Jamais! O PSDB não é um bastião da ética – assim como o PT nunca o fora (apesar de seus discursos de outrora). Quanto a isto não acompanhamos uma abordagem lúcida da imprensa, restando os enfoques parciais, superficiais e o debate inútil entre a imprensa chapa-branca e o PIG – com o imprestável rol de grupos midiáticos envolvidos nos dois lados deste combate, desta guerra entre panfletários travestidos de “formadores de opinião”.

    Não há nada que proíba a deliberada decisão dos veículos de imprensa de optar por um lado entre as possibilidades apresentadas, mas também não é aceitável que esta vinculação ocorra de qualquer forma, como se o uso de métodos discussivos manipuladores sejam considerados meros e “inocentes” artifícios utilizados abundante e vulgarmente com o propósito de iludir. Neste caso, considerando as devidas proporções, os veículos da imprensa que optaram por esta conduta merecem ser reconhecidos também como corruptores da informação.

    Diante de uma cobertura política desqualificada da imprensa, perdemos todos nós!

  • Caro Francisco, não é necessário rastrear nada. Basta ir na própria Folha de São Paulo.
    Em seus cadernos há duas reportagens que mostram que as empresas que doaram aos candidatos que chegaram ao governo conseguiram bons contratos. As que apostaram no PT (eleições presidenciais), doaram R$ 8,7 milhões e conseguiram contratos no valor de R$ 473 milhões. As que apostaram no PSDB (eleições para governadoreS), doaram R$ 2,4 milhões e conseguiram contratos no valor de R$ 3,4 bilhões.
    O fato de que as empresas que doaram tenham depois conseguidos esses contratos não significa, a priori, nada. Pode ser que as obras fossem necessárias e tenham sido licitadas de forma correta. O que poderia até render uma reportagem, como mera curiosidade, mas nunca a primeira página, pois não se trata de um notícia, em sentido estrito.
    Ou pode ser que signifique roubalheira: seja porque as obras não eram necessárias, seja porque as licitações foram fraudadas. Nesse caso, merecem estar na primeira página e até com mais destaque – provavelmente, manchete principal.

    Se não há indícios de safadezas, não deveria ser primeira página e só o fato de o jornal estar em campanha contra o PT é que explicaria colocar tal assunto na primeira página, principalmente quando a questão do PSDB não merece o mesmo tratamento (note-se que a “lucratividade” tucana e os valores envolvidos nas contratações tucanas são bem maiores que as petistas).

    Se há algum indício de que houve roubalheira, ambas as notícias deveriam estar na primeira página, e com mais destaque para a roubalheira maior (maiores contratações). Se não foi feito assim é porque o jornal está atuando com interesses escusos muito diferentes de informar.

    É irrelevante que levantou a chiadeira, o fato é que o comportamento da folha de são paulo (por essa, não merece letras maiúsculas) em sua primeira página foi de jornaleco de quinta categoria. E aí, das duas umas: ou é muita incompetência, ou de fato ela se alinha com os princípios norteadores do que seria ou é o PIG.

  • Eu não sabia que o Fernando Ferro foi o “parteiro” da expressão que deu origem ao PIG! Deu certo!

  • Marcio Moura, a minha intenção não foi “rastrear” esse ou aquele site, haja vista não tratar-se de uma análise policialesca. Eu apenas segui um roteiro proposto pelo autor da matéria, o Sr André Ranboni. Agora, acho inconcebível que adotemos um critério conspiratório só porque esse ou aquele meio de comunicação demonstre uma atitude de contestação ou até mesmo uma atitude investigativa. Para claerar nossas idéias, basta lembrar num passado recente houve um projeto do governo objetivando a criação de mecanismos legais de censura, a famosa Lei da Mordaça. Ora, se tal medida partisse de um governo que não fosse de esquerda, seria um verdadeiro holocausto. Entretanto essa brilhante idéia partiu de um governo supostamente popular, supostamente de esquerda e supostamente socialista. Se realmente o tal PIG for o instrumento da grande conspiração contra o governo, eu me considero um mediano conspirador. Pena saber que esse tal PIG foi gestacionado na mente Fernando Ferro.

  • Francisco:
    Não é “atitude de contestação”, nem “atitude investigativa” por parte da imprensa. É dois pesos e duas medidas, manipulação sistemática mesmo. Por coincidência, sempre contra o PT.

  • A atitude de contestação aos governos é natural da nossa imprensa. Meus amigos da gestão FHC diziam a mesma coisa que o Juan naquela época, da mesma Folha de S. Paulo: “É dois pesos e duas medidas; manipulação sistemática mesmo”. Agora, o artigo é até interessante como análise, mas o jornalista pode priorizar as 26 vezes mais que os doadores do PSDB receberam percentualmente ou o valor 139 (473/3.4= 139) vezes maior que as empresas doadoras para o PT receberam do Governo Federal. O discurso de coitadinho do PT cansa, tanto ou mais quanto os erros da imprensa.

  • Prezado Francisco,

    o autor da matéria é Luiz Antonio Magalhães, do blog Entrelinhas, como citado abaixo da foto da capa da FSP.

    Também não me recordo de ter sugerido roteiros, mas apenas de ter trazido a matéria para instaurar esse debate aqui no Acerto de Contas, e também de ter aberto caminhos e citado as fontes – inclusive os links da FSP.

    Saudações!

  • De fato Ranboni, você não sugeriu diretamente nenhum roteiro, mas deu dicas de sites que corroboram com a matéria. Dá no mesmo!! De toda sorte, valeu pela matéria e pelo debate. Jornalismo inteligente se faz assim. Um abraço…

  • Francisco Filho,

    A Lei da Mordaça foi proposta no governo Fernando Henrique, e não no governo Lula (Projeto de Lei Nº 65, de 1999 – vide, por exemplo: http://www.advogado.adv.br/artigos/2000/chaibub/leidamordaca.htm e http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=155), portanto não faz muito sentido o que você falou sobre a referida lei, a menos que considere que o governo de Fernando Henrique tenha sido de esquerda!!!!

    No governo Lula, o que houve foi a proposta de um CNJ – Conselho Nacional de Jornalismo, algo bem diferente, mas que a direita histriônica quis dizer tratar-se de uma volta à censura.

    O termo PIG é de autoria de Fernando Ferro, o que não significa que tenha sido ele quem criou o PIG. O PIG foi gestacionado nas salas de reuniões dos grandes jornais e revistas de São Paulo. É o mesmo fenômeno que aconteceu com a cortina de ferro, cujo inventor da expressão foi Winston Churchill em 1946, ainda que a cortina de ferro, em si, tenha sido criada nas salas do Kremlim.

  • Ora, Eduardo, veja os fatos:

    Para cada real doado ao PT, as empresas receberam 54 em troca.

    Para cada real doado ao PSDB, as empresas receberam 1416 em troca.

    E o PT tem o Governo Federal, o que torna a desproporção ainda mais aberrante.

    Nada justifica que o PT, não o PSDB, tenha sido citado em destaque na capa. Os dois deveriam ter sido.

  • Boa matéria andré !!!

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MARCO BAHÉJornalista
É formado em Jornalismo e pós-graduado em História Contemporânea e História do Nordeste do Brasil. Foi repórter da Gazeta Mercantil para os estados de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. Também atuou como repórter do Jornal do Commercio, editor da Folha de Pernambuco e repórter especial do Diario de Pernambuco. É correspondente da revista Época no Nordeste desde 2003. Tamb´m atua com publicidade e marketing eleitoral desde 2004.
PIERRE LUCENADoutor em Finanças
É doutor em Finanças pela PUC-Rio e mestre em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco. É professor adjunto de Finanças da UFPE e foi secretário-adjunto de Educação de Pernambuco. É autor de vários trabalhos publicados no Brasil e no exterior sobre o mercado financeiro, e participa como revisor de várias revistas acadêmicas na área. É sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Finanças. Foi comentarista de Economia do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (TV Jornal e Rádio CBN). Atualmente é coordenador do curso de administração da UFPE, e Coordenador do Núcleo de Estudos em Finanças e Investimentos do Programa de Pós-graduação em Administração da UFPE (NEFI).