“Inventaram” o Nordeste?

out 18, 2007 by     19 Comentários    Postado em: Artigos e Análises, Atualidades

 

Inventaram o nordeste? Sim. E existe até uma data aproximada para isso: idos de 1910. E, mais: não foi nenhum deus quem inventou o nordeste…

Essa é a idéia central da tese de doutoramento do Professor de História da UFRN, Durval Muniz de Albuquerque Júnior, que também está ministrando uma disciplina no Programa de Pós-graduação em História da UFPE. A tese foi apresentada em 1994, na UNICAMP, e circula nas livrarias com edição da Cortez Editora: São Paulo e Editora Massangana: Recife, sob o título de “A invenção do Nordeste e outras artes”.

A obra surpreende não apenas pelo título ousado, mas pela sua consistência, estilo e cientificidade. Vem para tirar o sono de muita gente acomodada sob velhos conceitos e signos.

Em seu trabalho, o autor mostra como, até meados da década de 1910, o Nordeste ainda não existia. Não se pensava em “Nordeste”, nem muitos menos eram percebidos os “nordestinos”. O que se tinha corrente era o costume de entitular como “nortista” qualquer pessoa, tradição ou hábito que vinha de lugares territorialmente acima do sul e sudeste,

Os Sertões: extraído do site www.uel.br
Antônio Conselheiro: o Redentor dos Sertões

O Nordeste emergiu aos poucos, no seio de discursos jornalísticos, artísticos, científicos e literários, e na mídia em geral, sobretudo a partir da obra Os Sertões (1906) de Euclides da Cunha e dos textos regionalistas da década de 1920, sob a assinatura de autores como Gilberto Freyre.

Ao longo do século, foram sendo forjadas os estereótipos do nordestino cabeça-chata, o paraíba, o sertanejo pobre, raquítico, amarelo, fraco porém forte; o nordestino cangaceiro, messiânico (inspirado nas imagens de Lampião e de Antônio Conselheiro), miserável, ignorante, em oposição ao homem civilizado, educado e cosmopolita do Sul-Sudeste.

Zeferino: do Henfil
Zeferino: Oxen, num foi deus que me criou não, foi?
Voz: Não, Zeferino, foi o Henfil mesmo!

O autor escreve: “É, parece que nossa escritora, defensora da ‘Nordestinidad’, Rachel de Queiroz, tem razão: a mídia tem o olho torto quando se trata de mostrar o ‘Nordeste’, pois eles só querem miséria. (…) Podemos concordar, então, com nossa escritora quando afirma que a mídia não vê o Nordeste como ele é? Não, porque isso seria pleitear a existência de uma verdade para o Nordeste, que não existe.”

Para o autor, os discursos sobre o “Nordeste” e os “nordestinos” são todos articulações de uma poderosa estratégia de etereotipização muito bem montada e reproduzida ao longo do século, de tal forma a “naturalizar” a imagem de um Nordeste seco, pobre e necessitado de ajuda dos sulistas.

E, o autor vai ainda mais longe: “O próprio Nordeste e os nordestinos são invenções destas determinadas relações de poder e do saber a elas correspondente. Não se combate a discriminação simplesmente tentando inverter de direção o discurso discriminatório. Não é procurando mostrar quem mente e quem diz a verdade, pois se passa a formular um discurso que parte da premissa de que o discriminado tem uma verdade a ser revelada. Assumir a ‘Nordestinidad’, como quer Rachel de Queiroz, e pedir aos sulistas que revejam seu discurso sobre o nordestino verdadeiro, vai apenas ler o discurso da discriminação com o sinal trocado, mas a ele permanecer preso.”

O trabalho de Durval Muniz se produziu baseado em alguns princípios metodológicos desenvolvidos e aplicados por Michel Foucault, como a arqueologia e genealogia. Neste estudo, Durval Muniz lança mão de um projeto arqueo-genealógico que permite perceber as relações de força que permeiam os discursos instituintes da idéia de Nordeste enquanto um espaço natural.

A obra marca uma virada na produção acadêmia sobre a história regional e provoca praticamente toda a tradição do discurso historiográfico sobre a região a se reinventar – ou, no mínimo, a se revisar dentro de um lugar menos “confortável” do que sempre esteve.

__________________

(Para mais sobre Foucault, veja o ótimo livro de Roberto Machado, Ciência e Saber – A trajetória da arqueologia de Foucault)

O livro A Invenção do Nordeste custa cerca de R$36,00 nas principais livrarias da cidade.

19 Comentários + Add Comentário

  • Andavas sumido? pensei que tinha parado de escrever pro blog.

  • Pois é, Rina. Estarei postando pela manhã, e vezes pela tarde tb.

    Abraços!

  • valeu pela dica!

    bjo.

  • valeu pela dica.

    bjo!

  • Nunca tinha pensado nisso,
    me sinto nordestina,
    mesmo sendo natural do Norte,
    penso “Se o nordeste é visto assim, como fica o Norte,
    ao menos há uma movimentação contra o preconceito dentro do próprio país, mas, e o Norte, ainda visto como um lugar totalmente
    desconhecido e inóspito para muitos?”

    Insitgante!

  • Tenho algumas restrições em relação ao viés metodologico do qual a pesquisa do professor Durval utilizou para realizar a sua pesquisa, porém não deixo de reconhecer de que se trata de uma obra que fomenta um bom debate sobre o que é o Nordeste.
    Uma leitura obrigatória, que precisa ser analisada inclusive para criticá-la.
    boa recomendação

  • Fernando, creio que estejamos muito acostumados com a História de Homens ou de grandes temas, feitos e acontecimentos; e, no caso do trabalho do professor Durval, pelas palavras dele próprio:

    “Este livro é mais uma história de conceitos, de temas, de estratégias, de imagens e de enunciados, do que de homens. Claro que estes estão presentes, como uma condição de possibilidade destas mudanças conceituais acontecerem, além de quê esta história afeta tanto estes conceitos quanto estes homens, que Vêem seu solo epistemológico se mover, que vêem sua visibilidade abrir-se para novos horizontes e sua linguagem ter acesso a novos enunciados, para falar do mundo e compor o real.”

    Abraços!

  • [...] • Durval Muniz de Albuquerque Júnior. A Invenção do Nordeste e outras Artes (leia uma resenha minha  sobre a tese do Dr. Durval Muniz, postada neste blog, clicando aqui). [...]

  • Me desculpe, a falta de gentileza
    mais nao concordo quando você diz “comentem meu artigo”
    porque você fez uma mera citações do livro do Durval.

  • Tive o prazer de Durval Muniz com meu professor na UFPB no ano de 2000 e ler seu livro ” A Invenção do Nordeste e outras Artes”

  • Massa!!!!!!!!!
    Adorei o livro

  • eaaaaaaa mel

  • OIH JUUUUUUUUUUUUU !
    NAO GOSTEI DO LIVRO , HORRIVEL , AMUH O NORDEST AMO LAMPIAO . RSRSRSRS

  • Caro André , o Durval com esse seu livro está tirando meu sono…
    estou usando este livro para minha monografia de final de curso de Produção Cultural… estou vez ou outra precisando ouvir o que uma amiga me disse…”tátá lembre-se do que kant diz…algo mais ou menos assim… ” procure lembrar de esquecer…”

  • Muito interessante essa tese.
    O nordeste realmente tem essa imagem meia que distorcida!
    Cabe a nós mesmos, nordestinos, tentar tirar da cabeça dos sulistas essa idéia que o nordeste é terra apenas de pessoas pobres, sem cultura e excluídas do resto do planeta!
    O nordeste tem sim, muitas artes e é uma grande região que tem como seu forte a agricultura.

  • É fato! Não ha que discordar, tanto que existe o nordeste quanto a nordestinidade, em termos de culturais.
    As principais questões são?
    Precisamos continuar reproduzindo esta mesma ideia?
    (Sou de Campina Grande – “o maior São João do Mundo”, os turistas que aqui chegam, querem ver apenas casinhas de barro, pessoas falando errado, usando roupas que fizeram parte da cultura popular….)
    Mas a realidade não é essa. Temos nossa cultura, nossos costumes, claro, como todo o resto do Brasil, no entanto as questoes politicas e principalmente economicas (capitalismo – turismo) faz com que se distorçam a nossa propria realidade.

    Ou voces acham que só escutamos forro o ano inteiro e todas as horas, e todos os dias. É claro que não. Assim como Recife e Olinda não é só frevo. E as cidades do sertão pernambucano, interessa- se pelo frevo? Tudo é marckting

    o nordeste é hoje um produto a ser vendido para o restante do país, onde este restante é:( moderno, atualizado, superior) e o nordeste é o espaço do arcaico, das origens, parado no tempo. Pelo amor de Deus quem não for do Nordeste pensem um pouquinho que o mundo é redondo e não existe centralidade, ou superioridade, nosso Brasil é grande. Com culturas, costumes e praticas diferentes umas das outras. O respeito seria o passo inicial para uma transformação desta ideia absurda superioridades culturais entre as regiões.
    Logico se estivermos falando de economia, politica, agricultura ou pecuaria, haverá regioes mais fortes isto é obvio, mas culturalmente falando, impossivel.

  • Sabe que a invenção do nordeste, a invenção do falo, nos destinos de fronteiras e etc… Cada coisa que o Durval escreve é apaixonante, científica, ética, já tenho aulas com ele a anos e não pretendo deixar de ter, quando não posso assisti-lo mando o gravador e tudo é uma invenção… Penso que o Durval tem o jeito todo dele de escrever, e a paixão conseguimos enxergar em cada linha, mais apaixonante ainda ele é como ser, como pessoa… Acredito que ele vai revolucionar a maneira de escrever em muitos saberes e não só na historia aqui no Brasil….

  • [...] sempre foi considerada a "capital do Nordeste" – desde quando o nordeste foi inventado, em meados do século 20. Antes disso, era considerada uma das cidades portuárias mais importantes [...]

  • [...] sempre foi considerada a “capital do Nordeste” – desde quando o nordeste foi inventado, em meados do século 20. Antes disso, era considerada uma das cidades portuárias mais importantes [...]

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MARCO BAHÉJornalista
É formado em Jornalismo e pós-graduado em História Contemporânea e História do Nordeste do Brasil. Foi repórter da Gazeta Mercantil para os estados de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. Também atuou como repórter do Jornal do Commercio, editor da Folha de Pernambuco e repórter especial do Diario de Pernambuco. É correspondente da revista Época no Nordeste desde 2003. Tamb´m atua com publicidade e marketing eleitoral desde 2004.
PIERRE LUCENADoutor em Finanças
É doutor em Finanças pela PUC-Rio e mestre em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco. É professor adjunto de Finanças da UFPE e foi secretário-adjunto de Educação de Pernambuco. É autor de vários trabalhos publicados no Brasil e no exterior sobre o mercado financeiro, e participa como revisor de várias revistas acadêmicas na área. É sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Finanças. Foi comentarista de Economia do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (TV Jornal e Rádio CBN). Atualmente é coordenador do curso de administração da UFPE, e Coordenador do Núcleo de Estudos em Finanças e Investimentos do Programa de Pós-graduação em Administração da UFPE (NEFI).