Enchentes no Sul do País: mais uma vez, a espetacularização da tragédia

dez 1, 2008 by     17 Comentários    Postado em: Atualidades
Teatro de Sombra. Foto extraída em spsoul.blogspot.com

Teatro de Sombra. Foto extraída em spsoul.blogspot.com

As chuvas que têm causado as enchentes no sul do País trazem para pauta, mais uma vez, as vicissitudes da nossa imprensa: fazer da tragédia um espetáculo comovente.

Na última semana, a grande mídia chegou ao cúmulo do absurdo quando a apresentadora da Rede Globo, Ana Maria Braga, aparaceu na TV vestida com roupa camuflada de militar. Muitas pessoas devem ter ficado com os olhos lacrimosos ante o gesto de “bravura”, “coragem” e “solidariedade” da apresentadora. Veja na foto abaixo:

Mas, não é apenas a Globo que dá os ares da obsessão pelo espetáculo. José Luíz Datena, da Bandeirantes, também. O repórter da Band classificou como “linda” uma cena em que um helicóptero militar resgatava uma mulher grávida.

Já a Rede Record abusou do estilo Indiana Jones, colocando o performático Roberto Cabrini para andar em uma moto pela ruas alagadas de Itajaí, apresentando a matéria do alto de um morro.

Como é praxe dos grandes veículos de comunicação, deixa-se de lado o principal, que é a informação, e coloca-se em primeiro plano o novelesco da tragédia: a espetacularização.

Nesse contexto das mídias, os blogs parecem mostrar que fogem à regra do espétáculo, trazendo mais informações que a imprensa.

Nas últimas semanas, uma série de blogs surgiu com o objetivo de estabelecer redes de informações entre os desabrigados, e criar canais que viabilizem o envio de ajudas e troca de informações. Desde o dia 23, campanhas para arrecadação de donativos têm surgido na blogosfera.

Abaixo, vejam alguns blogs que surgiram para lidar com o assunto.

Notícias de Blumenau

Blog dos Desabrigados

Tragédia no Vale do Itajaí (criado pela RBS, rede hegemônica no sul do País – que parece não querer “ficar atrás” dos independentes)

Informe Blumenau (que passou alguns dias sem postagens, quando o apartamento do seu editor inundou)

Twitter Blumenau (as micro-mensagens do Twitter são enviadas instantaneamente para computadores e celulares conectados à web)

É certo que precisamos tomar muitos cuidados na hora de avaliar as informações disseminadas nos blogs. Credibilidade não é uma entidade metafísica imutável com certificado de garantia “natural”.

Mas, certamente, fica-nos algumas lições. Entre elas, a de que o mundo da informação está passando por uma grande renovação com a internet.

Outra: a forma cretina e espetacular como a grande imprensa trata de assuntos delicados deve ser avaliada com muito senso crítico pelos leitores e telespectadores, para evitar o risco do choro, como se assistissem novelas.

Não podemos nos tornar estúpidos “telepectacularizadores”.

17 Comentários + Add Comentário

  • CONCORDO. A “cobertura” de Ana maria Braga, chega as raias do ridículo. DO DESUMANO. Tipo perguntar a uma moça que perdeu toda a família soterrada. Eu disse toda! Como ela passaria o Natal?. O LADO HUMANO. A solidariedade do povo brasileiro! De doações em dinheiros e produtos já ultrapassam 3 vezes mais a que o governo se propôs a destinar. O LADO SÓRDIDO. A preocupação de Dilma (candidata de Lula) com o atraso das obras do PAC naquela região. Como se precisasse de uma catástrofe ambiental com morte de mais de 100 pessoas, desaparecidos e milhares de atingidos… para o pac atrasar.

  • Por outro lado, relatos nos esfriam o sangue:

    Os jornalistas Igor Paulin, Duda Teixeira e José Edward relatam detalhes do desastre que colheu Santa Catarina, numa espécie de conspiração entre os fatores que não estão ao alcance das escolhas humanas e outros que decorrem justamente dessa intervenção.

    Trata-se da maior tragédia havida no Estado e de uma das maiores do país. Ninguém foi poupado: crianças, adultos, ricos, pobres, homens, mulheres… A morte os igualou a todos. O custo da reconstrução será gigantesco — mas, vá lá, isso ainda tem remédio. Mas há o que não tem cura, a exemplo do que se lê neste trecho:

    “No domingo 23, o operário André Oliveira, de 29 anos, deixou a família na casa de um parente, no município de Gaspar, e foi ao mercado. A poucos passos do portão, ouviu um estrondo. Ao olhar para trás, viu a mulher na varanda e os filhos no quintal. “Saiam daí”, gritou. Não deu tempo. O morro próximo veio abaixo soterrando, além da sua casa, uma dezena de outras. Oliveira ainda ouviu o choro da filha de 3 anos, Ester. Tentou tirá-la dos escombros, mas dois novos desabamentos se sucederam. Quando resgatou os corpos, viu que sua mulher morrera abraçada à menina.”

    Esse e outros relatos nos esfriam o sangue.

    A impotência do pai e a mãe agarrada à filha envenenaram a minha madrugada e não vão fugir tão cedo da minha memória. Coragem, Santa Catarina!

    SÓ 25% DO ORÇAMENTO PARA PREVENÇÃO DE TRAGÉDIAS NO FORAM LIBERADAS… PELO GOVERNO…

    E fiquemos atentos para cobrar das várias esferas do estado brasileiro o devido atendimento na PREVENÇÃO.

    - àquela população valente, que aparece todos os dias na imprensa, sem atacar o governo, falando apenas em recomeçar. Coragem, Santa Catarina!

  • Estou fulo da vida com esse espetaculo, acho um absurdo! Quando acontece aqui no NE vc só vê alguns comentários, não sai em rede nacional…

    E novela em programa jornalistico é outra vergonha. Trazer o espectador as lagrimas é um absurdo! Tem gente que nem chora quando um parente morre, mas a novela é tão bem feita que se derrete em lágrima. Pessoas que ficam tristes, numa quase depressão, pq viram ana maria balbuciar besteiras… Solidariedade é importante, mas se matar por ela não é inteligente…

  • Além de que tragédia ambiental é algo que o governo não tá nem ai… É como se nunca acontecesse… Ainda tenho músicas do ano de 2000 q falam q aqui não tem tragédias como furacões e terremotos… O planeta mostra que precisa de ajuda. Se não conseguimos contornar ou previnir as tragédias naturais agora, imagina daqui a 10 anos que a coisa vai estar muito pior? Precisamos mudar de postura, precisamos ajudar o meio ambiente, ou vamos ver nós padecermos sob sua ira!

  • LEIA-SE:

    “SÓ 25% DO ORÇAMENTO PARA PREVENÇÃO DE TRAGÉDIAS AMBIENTAIS FORAM LIBERADAS… PELO GOVERNO…”

    (FONTE: CONTAS ABERTAS/ SIAFI/ GOV.).

  • Tem toda razão o articulista. A mídia excede. Toda desgraça dá IPOBE. Sabemos. Triste é ver uma imprensa na conivência. Mostra o espetáculo, sem mostrar as causas e seus responsáveis.

    Há de se considerar, entretanto, a importância do papel da imprensa que é o de informar a população, para que não tenhamos aqui a “ditadura noticiosa”. Ler apenas comunicados de assessorias de imprensa palacianas, pagas para falar bem e disseminar inverdades – cuja função é limpar a barra diante da irresponsabilidade de gestores espertos.

    Confio no povo brasileiro, na sua capacidade de separar o joio do trigo. Por exemplo, identificar quem e quando liberam construções em áreas de risco? Cadê o plano diretor de cidades acima do limite populacional? Cadê os estudos científicos sobre previsões, o tamanho dessas tragédias (previsíveis) e as medidas de proteção a população. NADA.

    Qto a Santa Catarina, minha solidariedade e muita força. Minha admiração por um povo que não depende de governo, vai a luta, e vence. Já venceu outras.

  • Para complementar o assunto, sugiro a leitura do artigo “Blogs apostam nos serviços e a mídia convencional na performance”, publicado no Observatório da Imprensa e que deve ter “subsidiado” o André no seu texto:

    http://www.observatoriodaimprensa.com.br/

  • O que eu acho mais curiosos é que, depois que a tragédia acontece, aparece não sei quantos institutos de meteorologia dizendo que se trata de uma frente fria vinda não sei de onde…esse pessoal não trabalha preventivamente, no Brasil a gente fica ao Deus dará. Já pensou se, Deus nos livre e guarde, acontecesse um Tsunami por aqui…a questão não é tratada com tecnologia, com seriedade, e essas questões climáticas estão mexendo com o mundo inteiro ou já esqueceram o que aconteceu em Nova Orleans…Só lamento pelos desabrigados e os que perderam seus familiares. E os nossos politicos o que estão fazendo numa hora dessas?

  • É preciso entender que as emissoras de TV não têm mais o compromisso com a informação, e sim com a audiência. A informação está nas centenas de portais que existem na Internet e não mais concentrada em 4 ou 5 canais de TV, então para estes resta o apelo comercial.

    Para a TV, portanto, o formato da notícia é mais importante que a própria notícia.

    Mas quem assiste Ana Maria Braga em busca de informações difcilmente saberia que existem pessoas criticando a “espetacularização”* dessas tragédias.

    * o vocábulo “espetacularização” não existe, foi inventado pelo ministro Gilmar Mendes para desviar o foco da investigação contra seu afilhado judicial, cujo nome até esqueci porque a imprensa como um todo também já não fala mais nele.

  • Já que se fala em ambiente, convinha que se tentasse discutir a sério a desertificação do semi-árido nordestino. Isso so pode partir dos nordestinos, porque ninguém está realmente muito preocupado com isso da Bahia pra baixo.

    Não se trata de alguma brincadeira. Basta imaginar as capitais litorâneas acomodando as populações do interior. O que é uma tragédia de alta densidade populacional, falta de saneamento – falta de tudo – pode tornar-se uma tragédia muito maior.

    Sem água não se acomodam populações. Sem água no interior, o litoral tende a ficar seco também, porque os rios vêm do interior. Quem não acredita em deserto à beira mar lembre-se de Lima, no Peru.

    Toda sorte de obstáculo a que se discuta esse assunto ou que se gaste dinheiro no semi-árido é apresentada. Inclusive, claro, chantagem de padre.

    Eis que o governo cria um Instituto do Semi Árido, uma piada sediada em Campina Grande, cuja contribuição foi a criação de meia dúzia de cargos comissionados.

    O processo tem que ser estancado logo, porque revertê-lo é praticamente impossível.

  • Não precisa ser assíduo (a) de Ana Maria Braga. Todas as emissoras estavam dando cobertura a tragédia de SC. Na Globo, naquele horário, a reportagem era da equipe do programa de Ana Maria Braga. Isso é o que menos importa. Foi só um dos canais dado a espetaculariação da tragédia.

    Só para informar o termo “Espetacularização” não foi inventado por Gilmar Mendes. Quem já usava, em priscas épocas, era o espetacular e saudoso jornalista Paulo Francis, há décadas já antecipava o que se vive hoje (… O NAUFRAGO DA UTOPIA, O INFERNO PAMONHA).

  • E a tragédia nordestina, a saga das secas, mata ano a ano, crianças, adultos, lavouras, gados, devasta regiões inteiras pela falta dágua e de políticas públicas. A diferença é que aqui no nordeste, tragédia vira literatura e curral eleitoral.

  • Espetacularização da tragédia não. A imprensa teria muito a pergutar aos órgãos públicos e informar a população. O governo deixou de investir 300 milhões destinado a prevenção ambiental que poderia ter evitado tantos danos em SC. Essa seria a matéria de capa. Onde estão os 300 milhões, essa a matéria de corpo do jornal.

  • O papel da mídia muda a partir da audiência; esse é o momento do povão se emocionar, o que tem de mais?o povão assisti a violência o tempo todo em programas do tipo mata mata, quem reclama? quem desliga a tv? quem faz a audiência aumentar ou diminuir é povão. Se a gente não sabe selecionar o lixo que produzimos – to falando daquele lixo de cozinha, da própria residência – dentro de casa quanto mais selecionar o que vai assistir na tv!?

  • A tragédia ocorrida em Santa Catarina, ajuda-nos a refletir a cerca do nosso comportamento em relação a Natureza.
    É bom ressaltar que as catastrofes ocorridas no meio ambiente, independente da localidade é responsabilidade de toda a humanidade, em virtude do desrespeito com Planeta Terra, não apenas com atos impensados, mas também com palavras e sentimentos que expressam ira, rancor ódio e outros.
    É imprescindível analisarmos como está nosso amor e respeito pelo local que residimos, enfim pelo nosso País.

  • Ao menos pude viver para contemplar uma maneira das pessoas conseguirem expressar livremente o seu pensamento. Anos atrás teríamos que receber as notícias selecionadas por grupos minoritários que ditavam o que deveria ser apresentado ao público com uma mínima possibilidade de contestação (com muita sorte poderíamos usar os pequenos espaços destinado ao Leitor e torcer para que nosso comentário fosse publicado. Lógico que ainda temos grandes grupos dominantes nos noticiários, mas esta nova forma de comunicação permite ouvir vozes dissonantes e percepções diferentes sobre o exagero dos noticiários de TV, principalmente. Bom tema, boa discussão!

  • [...] Saiba mais sobre a cobertura da enchente aqui e aqui [...]

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MARCO BAHÉJornalista
É formado em Jornalismo e pós-graduado em História Contemporânea e História do Nordeste do Brasil. Foi repórter da Gazeta Mercantil para os estados de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. Também atuou como repórter do Jornal do Commercio, editor da Folha de Pernambuco e repórter especial do Diario de Pernambuco. É correspondente da revista Época no Nordeste desde 2003. Tamb´m atua com publicidade e marketing eleitoral desde 2004.
PIERRE LUCENADoutor em Finanças
É doutor em Finanças pela PUC-Rio e mestre em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco. É professor adjunto de Finanças da UFPE e foi secretário-adjunto de Educação de Pernambuco. É autor de vários trabalhos publicados no Brasil e no exterior sobre o mercado financeiro, e participa como revisor de várias revistas acadêmicas na área. É sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Finanças. Foi comentarista de Economia do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (TV Jornal e Rádio CBN). Atualmente é coordenador do curso de administração da UFPE, e Coordenador do Núcleo de Estudos em Finanças e Investimentos do Programa de Pós-graduação em Administração da UFPE (NEFI).