O dia em que Gilmar censurou a TV Câmara

mar 25, 2009 by     16 Comentários    Postado em: Atualidades

Estava devendo aqui uma postagem sobre um caso muito grave. Na semana passada, o programa Comitê de Imprensa, da TV Câmara, convidou dois renomados jornalistas (Leandro Fortes, de Carta Capital, e Jailton de Carvalho, de O Globo) para debaterem as denúncias da revista Veja contra o delegado Protógenes Queiroz. Os dois jornalistas questionam a veracidade das informações de Veja e, em meio ao programa, Leandro Fortes falou de coisas escabrosas supostamente ligadas ao ministro-presidente do STF, Gilmar Mendes.

Disse Fortes que o “Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP), de propriedade do ministro, farto de contratos sem licitação firmados com órgãos públicos e construído com recursos do Banco do Brasil sobre um terreno comprado ao governo do Distrito Federal, à época do governador Joaquim Roriz, com 80% de desconto”.

O programa foi ao ar na TV e seu conteúdo posto na internet. Irritado, Gilmar teria ligado para o presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), que prontamente suspendeus as reprises do debate e mandou retirar o arquivo digital da grande rede.

Felizmente, a versão digital vazou e podemos assisti-la no YouTube. Reproduzo o vídeo (está em três partes) e a carta aberta do jornalista Leandro Fortes sobre o episódio.

Parte II:

Parte III:

Carta Aberta de Leandro Fortes:

No dia 11 de março de 2009, fui convidado pelo jornalista Paulo José Cunha, da TV Câmara, para participar do programa intitulado Comitê de Imprensa, um espaço reconhecidamente plural de discussão da imprensa dentro do Congresso Nacional. A meu lado estava, também convidado, o jornalista Jailton de Carvalho, da sucursal de Brasília de O Globo. O tema do programa, naquele dia, era a reportagem da revista Veja, do fim de semana anterior, com as supostas e “aterradoras” revelações contidas no notebook apreendido pela Polícia Federal na casa do delegado Protógenes Queiroz, referentes à Operação Satiagraha. Eu, assim como Jailton, já havia participado outras vezes do Comitê de Imprensa, sempre a convite, para tratar de assuntos os mais diversos relativos ao comportamento e à rotina da imprensa em Brasília. Vale dizer que Jailton e eu somos repórteres veteranos na cobertura de assuntos de Polícia Federal, em todo o país. Razão pela qual, inclusive, o jornalista Paulo José Cunha nos convidou a participar do programa.

Nesta carta, contudo, falo somente por mim.

Durante a gravação, aliás, em ambiente muito bem humorado e de absoluta liberdade de expressão, como cabe a um encontro entre velhos amigos jornalistas, discutimos abertamente questões relativas à Operação Satiagraha, à CPI das Escutas Telefônicas Ilegais, às ações contra Protógenes Queiroz e, é claro, ao grampo telefônico – de áudio nunca revelado – envolvendo o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, e o senador Demóstenes Torres, do DEM de Goiás. Em particular, discordei da tese de contaminação da Satiagraha por conta da participação de agentes da Abin e citei o fato de estar sendo processado por Gilmar Mendes por ter denunciado, nas páginas da revista CartaCapital, os muitos negócios nebulosos que envolvem o Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP), de propriedade do ministro, farto de contratos sem licitação firmados com órgãos públicos e construído com recursos do Banco do Brasil sobre um terreno comprado ao governo do Distrito Federal, à época do governador Joaquim Roriz, com 80% de desconto.

Terminada a gravação, o programa foi colocado no ar, dentro de uma grade de programação pré-agendada, ao mesmo tempo em que foi disponibilizado na internet, na página eletrônica da TV Câmara. Lá, qualquer cidadão pode acessar e ver os debates, como cabe a um serviço público e democrático ligado ao Parlamento brasileiro. O debate daquele dia, realmente, rendeu audiência, tanto que acabou sendo reproduzido em muitos sites da blogosfera.

Qual foi minha surpresa ao ser informado por alguns colegas, na quarta-feira passada, dia 18 de março, exatamente quando completei 43 anos (23 dos quais dedicados ao jornalismo), que o link para o programa havia sido retirado da internet, sem que me fosse dada nenhuma explicação. Aliás, nem a mim, nem aos contribuintes e cidadãos brasileiros. Apurar o evento, contudo, não foi muito difícil: irritado com o teor do programa, o ministro Gilmar Mendes telefonou ao presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer, do PMDB de São Paulo, e pediu a retirada do conteúdo da página da internet e a suspensão da veiculação na grade da TV Câmara. O pedido de Mendes foi prontamente atendido.

Sem levar em conta o ridículo da situação (o programa já havia sido veiculado seis vezes pela TV Câmara, além de visto e baixado por milhares de internautas), esse episódio revela um estado de coisas que transcende, a meu ver, a discussão pura e simples dos limites de atuação do ministro Gilmar Mendes. Diante desta submissão inexplicável do presidente da Câmara dos Deputados e, por extensão, do Poder Legislativo, às vontades do presidente do STF, cabe a todos nós, jornalistas, refletir sobre os nossos próprios limites. Na semana passada, diante de um questionamento feito por um jornalista do Acre sobre a posição contrária do ministro em relação ao MST, Mendes voltou-se furioso para o repórter e disparou: “Tome cuidado ao fazer esse tipo de pergunta”. Como assim? Que perguntas podem ser feitas ao ministro Gilmar Mendes? Até onde, nós, jornalistas, vamos deixar essa situação chegar sem nos pronunciarmos, em termos coletivos, sobre esse crescente cerco às liberdades individuais e de imprensa patrocinados pelo chefe do Poder Judiciário? Onde estão a Fenaj, e ABI e os sindicatos?

Apelo, portanto, que as entidades de classe dos jornalistas, em todo o país, tomem uma posição clara sobre essa situação e, como primeiro movimento, cobrem da Câmara dos Deputados e da TV Câmara uma satisfação sobre esse inusitado ato de censura que fere os direitos de expressão de jornalistas e, tão grave quanto, de acesso a informação pública, por parte dos cidadãos. As eventuais disputas editoriais, acirradas aqui e ali, entre os veículos de comunicação brasileiros não pode servir de obstáculo para a exposição pública de nossa indignação conjunta contra essa atitude execrável levada a cabo dentro do Congresso Nacional, com a aquiescência do presidente da Câmara dos Deputados e da diretoria da TV Câmara que, acredito, seja formada por jornalistas.

Sem mais, faço valer aqui minha posição de total defesa do direito de informar e ser informado sem a ingerência de forças do obscurantismo político brasileiro, apoiadas por quem deveria, por dever de ofício, nos defender.

Leandro Fortes
Jornalista

Brasília, 19 de março de 2009

16 Comentários + Add Comentário

  • Rapaz, vc tá desatualizado demais.

    Isso foi semana passada. Essa semana o Gilmar pediu um SUPER penico ontem na sabatina do Uol e quando voltou pra casa mandou botar o programa no ar de novo pra não ficar com imagem de censor (ah, mas adiantou muito…)

    Galera, interneta não é mole não! Tem que ser rápido! Notícia de ontem não conta a não ser que seja muito bem comentada!

  • Ê Gilmarzão…

    Você tem tudo a ver com a política mesmo. Larga a toga, filia-se ao PSDB e vai atrás de um mandato. É só atravessar a praça dos 3 poderes.

    Tu te sentirás em casa…

  • Azaro e Olhos do Norte,

    Vocês estão cobertos de razão. Mas, como disse no começo do texto, peço desculpas pelo atraso de uma semana … Mas me senti na obrigação de colocar mesmo assim, para que as pessoas que ainda não entraram no debate possam fazê-lo.

    Forte abraço.

  • Dá pra colocar o vídeo no Google vídeo? Youtube foi censurado na China (de novo…)

  • Sobre o “ínclito” ter mudado o depoimento 3 vezes ninguém fala né?

  • O importante é sempre colocar assuntos para esclarecer o público em geral e combater a mídia que não disponibiliza os fatos com imparcialidade. Através do debate é que poderemos chegar a verdade. Parabens

  • Gilmar Mendes foi tolo, no seu afã autoritário. Ninguém veria entrevista em portal da Câmara, no máximo meia dúzia de pessoas. De resto, gente que já sabe como ele age.

    A censura saiu pior, magnificou o ato.

  • É Andrei, foi um tiro no próprio pé.

    Mas trata-se de um falastrão em busca de fama e notoriedade. Sem muito a contribuir juridicamente, seu nome não será celebrado nos anais da bicentenária corte suprema.

    À mesma conclusão não se pode chegar sobre os seus negócios particulares; esses vão de vento em popa.

  • Parabéns pela matéria, ótimo vídeo!!! Temos que divulgar.

  • nem sabia disso…

  • A propósito de Gilmar Mendes, quanto tempo será necessário para sairem os habes corpus da operação que pegou o esquema da Camargo Correa?

  • Quem quiser baixar a entrevista completa pode seguir o link: http://imagem.camara.gov.br/internet/midias/TV/2009/03/tvcacomite20090313-001-wm.100.wmv

  • Globo avalia ofício judicial sobre irregularidades no BBB 9

    A Rede Globo recebeu um ofício do Ministério da Justiça sobre irregularidades na veiculação e na classificação indicativa do Big Brother Brasil 9.

    Procurada pelo Terra, a assessoria de imprensa da emissora afirmou que tal notificação já estava sendo analisada pelo departamento jurídico e que dentro do prazo estipulado eles apresentarão uma resposta ao órgão.

    O Ministério da Justiça deu um limite de dez dias para que a Globo explique a veiculação do reality show em horários impróprios para programas não recomendados para menores de 14 anos, as constantes exibições em outras atrações da casa e também a falta de indicação da classificação.

    De acordo com o documento que o Terra teve acesso – com data de 18 de março -, a emissora é acusada de no dia 22 de fevereiro exibir o Big Brother Brasil 9 às 19h13, quando o horário correto seria a partir das 21h, e de não divulgar a classificação indicativa. “A informação veiculada no programa foi de que sua classificação seria ‘não recomendada para menores de 10 anos’, o que está em desacordo com o pedido de autoclassificação feita pela emissora. Ressalta-se também que neste dia o programa apresentou uso de bebida alcoólica, inadequação relacionada à classificação ‘não recomendado para menores de 12 anos’”, diz trecho do ofício.

    Em 23 de fevereiro, o Ministério diz que a atração, apesar de ter apresentado um conteúdo adequado, voltou a cometer o mesmo erro do dia anterior sobre a classificação indicativa.

    O documento aponta ainda as exibições de cenas da casa e dos participantes no Mais Você e no Vídeo Show. “Tal prática nos leva a inferir que essas inserções diárias se caracterizam como um programa dentro do outro, o que não é previsto pela Portaria MJ 1220/2007″, justifica a notificação.

    Redação Terra

  • Agradeço ao blog, por nos deixar bem informados sobre assuntos que nos são omitidos pela midia, continuem assim, um abraço.

  • algum jurista leitor do blog poderia nos esclarecer como é o procedimento pra iniciar processo de impeachment a Gilmar Mendes?

Tem algo a dizer? Vá em frente e deixe um comentário!

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MARCO BAHÉJornalista
É formado em Jornalismo e pós-graduado em História Contemporânea e História do Nordeste do Brasil. Foi repórter da Gazeta Mercantil para os estados de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. Também atuou como repórter do Jornal do Commercio, editor da Folha de Pernambuco e repórter especial do Diario de Pernambuco. É correspondente da revista Época no Nordeste desde 2003. Tamb´m atua com publicidade e marketing eleitoral desde 2004.
PIERRE LUCENADoutor em Finanças
É doutor em Finanças pela PUC-Rio e mestre em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco. É professor adjunto de Finanças da UFPE e foi secretário-adjunto de Educação de Pernambuco. É autor de vários trabalhos publicados no Brasil e no exterior sobre o mercado financeiro, e participa como revisor de várias revistas acadêmicas na área. É sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Finanças. Foi comentarista de Economia do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (TV Jornal e Rádio CBN). Atualmente é coordenador do curso de administração da UFPE, e Coordenador do Núcleo de Estudos em Finanças e Investimentos do Programa de Pós-graduação em Administração da UFPE (NEFI).