Os idiotas e as baratas são imbatíveis

jan 25, 2010 by     48 Comentários    Postado em: Atualidades

Li o texto abaixo no blog paulistano Eu vi o Mundo, que por sua vez reproduziu-o do gaúcho Diário Gauche por indicação de um leitor de Santa Catarina (coisas dessa maravilha que é a web). Lembrou-me um amigo que dizia: “Deus foi injusto com a humanidade, pois limitou a inteligência mas deixou a burrice livre e solta. A prova disso é que se pode medir o QI de alguém. A burrice, porém, é infinita”.

Segue o delicioso e incontestável texto de Cristóvão Feil:

Os idiotas e as baratas são imbatíveis - Sobreviverão ao próprio planeta

Há um visível recrudescimento na idiotização das pessoas. A mídia é a principal usina de produção em série de idiotas e tolos de todos os calibres. O nivelamento por baixo e o achatamento geral do imaginário médio é a principal contribuição dos modernos meios de comunicação de massas. Hoje, é muito fácil encontrar o que eu chamo de idiota triunfante, aqueles sujeitos que se orgulham da própria ignorância e pobreza de espírito. O tolinho jactancioso tira prazer onanista da sua condição, e se basta.

O espírito de nossa época –o Zeitgeist, como diz apropriadamente o alemão — flutua numa emulsão formada por dois elementos: a ciência (as tecnologias) e a idiotice. Os idiotas de nosso tempo se projetam nos gadgets que encontram pelo caminho. Observem: todo o tolo que se preza porta pelo menos um artefato mecânico ou eletrônico. Não vive sem essas muletas. É a sua forma de se referenciar com o mundo, de comunicar a sua estupidez relativa (“afinal, estou conectado ao futuro!”).

Mas o fenômeno não é original. Gustave Flaubert, o corrosivo crítico da burguesia, ainda no século 19 já havia detectado o fenômeno da tolice social. Para tanto, começou a colecionar os ditos correntes do senso comum e reuniu-os no famoso Dictionnaire des idées reçues (“Dicionário das ideias feitas”, numa tradução livre). O escritor francês comentou — e publicou nesta pequena obra de pouco mais de cem páginas — todas as bobagens ditas pelas pessoas que queriam parecer inteligentes e atualizadas. Aliás, Flaubert seria o descobridor da tolice. Quem garante é Milan Kundera, para quem a tolice é a maior descoberta de um século – o 19 – tão orgulhoso de sua razão científica. Antes de Flaubert não se duvidava da existência da tolice, embora esta fosse compreendida de um modo diferente. A tolice era considerada como uma simples falha do conhecimento, um vazio provisório, passível de ser preenchido pela instrução. Mas Flaubert insiste, e praticamente sustenta a sua obra baseada no tema da tolice e da idiotia. Ema Bovary é uma tola que aspirava ser amada por todos os homens. Bouvard e Pécuchet são dois pequenos idiotas que aspiram conhecimentos enciclopédicos acerca de tudo. Leio agora na Wikipédia que Barthes considerou “Bouvard e Pécuchet” como “uma obra de vanguarda”. A considerar a idiotia galopante de nossos dias, pode ser.

Kundera brinca afirmando que “a descoberta flaubertiana é mais importante para o futuro da humanidade que as ideias mais perturbadoras de Marx ou de Freud”. Pois podemos imaginar o futuro do mundo — prossegue Kundera — sem a luta de classes ou sem a psicanálise, mas não a invasão irresistível das ideias feitas, estandardizadas, pasteurizadas, que, “inscritas nos computadores, propagadas pela mídia, ameaçam tornar-se em breve uma força que esmagará todo o pensamento original e individual e sufocará assim a própria essência da cultura européia dos Tempos Modernos”.

O mais chocante — constatado pelos geniais romances de Flaubert — é que a tolice não se apaga diante da ciência, das altas tecnologias, da pósmodernidade (seja lá o que isso signifique). Milan Kundera ousa afirmar que “ao contrário, com o progresso, ela também progride!”

Arrisco a dizer que os bobalhões e as baratas sobreviverão ao próprio planeta.

“Coisas da vida” – como diria Kurt Vonnegut, outro escritor especialista em tolos e idiotas.

48 Comentários + Add Comentário

    • Parafraseando Chapolin, “era exatamente o que eu ia dizer”.

      • Não contavam com a minha astúcia!

        ;)

  • Poderia enumerar aqui o BBB da globo, tá repleto dessas qualidades. E pior é quem assiste.

  • é…

    difícil separar eim?!

  • Acho muito massa esses textos em que o autor (e por tabela os seus leitores) se colocam num pedastal. Ninguém nunca acha que faz parte da gentalha, não é? São sempre OS OUTROS…eu realmente SI divirto com essa galera.

    • É exatamente esse o problema, é muito fácil perceber a idiotice dos outros e não a sua própria.

    • Concordo. O idiota moderno agora critica à “gentalhada comum” querendo ser cult. Condena a “burguesia e sua sociedade de consumo” enquanto arrota caviar e lê Marx.

  • E isso não é o texto de um tolo ? Um cara que deve decorar umas coisinhas e se achar o sabichão! Pelo raciocínio dele, o mais sensato a fazer é acabar com esse blog :
    “todo o tolo que se preza porta pelo menos um artefato mecânico ou eletrônico”.
    Concordo com café aí acima. Realmente é hilário esses “tolos” que se colocam no pedestal e acham que por falarem mal da globo possuem um QI acima da média. Pois se quer saber, caro Cristovão Feil, eu sou um tolo, eu assisto Big Brother. De toda forma é bom saber que falar mal da globo faz alguém sábio pois me dá a certeza que a qualquer momento eu posso me tornar um sábio.

    • Ahã, você assiste Big Brother né? Muito bem!

      • Mostra como meu QI é infinitamente menor que o teu, não ?

        • Até porque esses textos só servem para indivíduos “tolos” acharem que têm QI superior em função de seus gostos.

        • Eu disse isso? Eu nunca fiz teste de QI e vc? Mas vou dizer uma coisa: mostra que meu gosto é infinitamente diferente do seu. Tá bom assim?

        • Exato. Diferente e só. A relatividade estar em achar que aquele que gosta de Mozart tem um QI superior ao que gosta de Big Brother. Por sinal, o 10 tá massa!

        • Alexsandro pra vc: Idiocracy – http://www.imdb.com/title/tt0387808/

        • Gostei do The Girl Next Door !

    • haha, pode crer. Pelo visto o idiota do artigo não esperava por isso. O discursinho clichê dele colaria na faculdade, na televisão, no Jornal do Almoço, haha. Nao aqui na internet.

  • Alguém aparece para falar quem é tolo e quem não é, como se comporta quem é tolo e como se comporta quem não é. Putz, quem esse cara pensa que é pra falar que é tolo ou não???

    Vamos agora fazer um acordo entre catedráticos para enumerar o que vem a ser tolice??? Alguém sabe??? é mais ou menos como dizer o que é 1 kilograma, que nada mais é que o peso de um referido artefato que se encontra em algum museu de ciências na França quando medido na boa e velho Condições Normais de Temperatura e Pressão, CNTP.

    Não dá pra saber o que é tolo e o que não é. Estudar 5 anos em uma faculdade de direito depois mais 2 anos de mestrado e depois mais 4 de Doutorado pode ser considerado tolice, afinal “perdeu” 11 anos e nada garante que será “bem-sucedido” (outro conceito vago e vário). Já alguém que participa do BBB tem só ensino médio e ganha 1 milhão pode ser considerado tolo para alguns porque não tem formação mas por outros é rei, porque tem grana.

    Como separar tolice de instrução acadêmica e renda?? Existem atos tolos que desencadeiam em fatos nobres e úteis para toda a comunidade. Existem atos não tolos que causam destruição e morte.

    Mas continuo sem saber e não existe ninguém que possa abrir a boca para falar que isso ou aquilo é algo tolo, ou que essa ou aquela pessoa está fazendo ou só faz tolices.

    Essa é a idéia cientificista do ser. Pensamento de Descartes, penso logo existo. Quem não estuda “não pensa” e por isso é um “aborto intelectual” que não merece ser respeitado ou levado a sério.

    E no final disso tudo que escrevi posso dizer que fui tolo ao ler, li um texto tolo, e escrevi um texto tolo. Ou não.

    • Carrilho, depois do seu texto não tenho muito o que dizer. Concordo plenamente! A tolice é tão relativa quanto a beleza.

      • Não sei não Diana. Por exemplo: uma pessoa pensar que a beleza é eterna; isso é uma tolice, pois de fato ela não é. Tolice é tolice, não há relatividade nisso. O que pode pode ser questionado é se a tolice é comum a todos os homens, não apenas a alguns. Como por exemplo, o autor do texto achar que ele não é tolo de forma nenhuma.

        Eu não gosto muito das relativizações, senão a gente acaba justificando um monte de porcaria que não precisaria existir. Para ficar novamente com o conceito de beleza, o que é relativo neste caso é a opinião das pessoas, não a beleza em si, pois a idéia de beleza é uma só: algo que agrada a vista, que desperta bons sentimentos em nós, que nos eleva, que nos faz sentir bem. Relativa é a beleza tornada realidade, pois aí ela pode ficar refém de percepções mais estreitas ou limitadas pela própria realidade.

        Ou seja, idiotice existe mesmo, não é relativa, senão teremos que achar que Hitler não era idiota ao defender a existência de raça humana superior. No Aurélio está assim: pouco inteligente, estúpido, ignorante, imbecil, dentre outras definições. Pela definição do Aurélio, Hitler era idiota por ser ignorante, já que ignorava todo o conhecimento científico sobre a espécie humana. Sei que usei um exemplo extremo e fácil, mas acho que o autor do post tentou exagerar para chamar a atenção de algo que ele está sentindo e percebendo; mas ele não está sozinho, tem muita gente com a mesma sensação. Existe um processo de idiotice coletiva? Aí eu não sei.

        • Então, pela definição do aurélio, todos são tolos. Todos somos ignorantes em relação a alguma coisa. Ou não ?

        • A questão é que o ser humano tende a superestimar o que sabe por dar a sensação de poder e superioridade sobre os demais. Só isso.

        • Sim Alexsandro, mas existem os que ignoram muita coisa né?

          Nem sempre perceber a ignorância alheia dá sensação de poder e superioridade; às vezes dá muita tristeza e desespero. Veja o exemplo dos professores no Brasil. Uma pessoa pode ser arrogante mesmo sendo burra, ou não?

        • Pois eu estou entre os que ignoram muitas coisas. Acho que há 2 tipos de pessoas: Há aqueles que ignoram e não tem consciência disso. Aí, nunca procuram melhorar. Acho que o texto foi dirigido a esses. A questão é que o texto foi escrito por quem sofre do problema número 2. Aqueles que acham que sabem tudo por conhecerem mais profundamente um assunto qualquer e o pior, acham que por esse conhecimento, estão num pedestal acima dos outros. Pela forma como ele escreveu, é visível que ele não está penalizado com a primeira classe que citei. Sente-se melhor por achar que aquilo que ele sabe o faz melhor que os outros.

        • “a idéia de beleza é uma só: algo que agrada a vista, que desperta bons sentimentos em nós, que nos eleva, que nos faz sentir bem”…

          Vamos imaginar alguém que adora o diabo… Se ele botar um quadro da besta fera na sala, ele vai se sentir muito bem… um quadro belíssimo pra ele. Mas será que a beleza do quadro não é relativa mesmo? ele é belo em si e por si só? É de sua natureza ser belo independente da relação entre o gosto de quem o vê?

    • Gostaria que o senhor me mostrasse onde no texto o autor se diz não tolo. Isso anularia toda a sua argumentação.

  • “Observem: todo o tolo que se preza porta pelo menos um artefato mecânico ou eletrônico. Não vive sem essas muletas. É a sua forma de se referenciar com o mundo, de comunicar a sua estupidez relativa (“afinal, estou conectado ao futuro!”).”

    Uau! Eu porto dois: um celular velhinho (siemens a50) que comprei em 2004 (e ainda me serve perfeitamente) e um laptop HP que já é praticamente uma extensão do meu cérebro, um hemisfério a mais.

    Pelo lógica, sou duplamente tola! Woohoo!!! :)

    • Amanda, o texto diz que “todo o tolo que se preza porta pelo menos um artefato mecânico ou eletrônico.”

      A recíproca pode não ser verdadeira, não é mesmo?
      Acho que a sua lógica foi na contra-mão! =)

      • Putz! É mesmo!
        Deve ser conseqüência da minha tolice em dose dupla! :)

    • Amanda,
      você que se interessa por tecnologias e estuda seu uso na educação, eu gostaria de saber se você já ouviu falar da TEORIA DA MEDIAÇÃO COGNITIVA? Ela fala justamente dessa “extensividade” que alcançamos na nossa cognição ao utilizar-nos de tecnologias como o pc ou o cel, etc… se você se interessar posso te mandar uns trabalhos a respeito…

      Forte abraço!!

  • Este texto me fez lembrar o FEBEAPA de Stanislaw Ponte Preta.
    FEBEAPA = Festival de Besteiras que Assolam o País escrito por Stanislaw Ponte Preta ainda na década de 1960. Pelo que parece desde aquela época já se reconhecia a idiotice.

  • Eu só achei um pouco exagerado no que tange ao “gadget”, uma vez que os artefatos tecnológicos tem suas utilidades no mundo moderno, entretanto, não podemos confundir com o exibicionista, que carrega o penduricalho tecnológico para impressionar a si e aos outros tolos.
    No mais tolice existe desde que o mundo é mundo.

    • Eu tive um professor na Federal que tinha ojeriza pelas novas tecnologias. Dizia que celular era uma coisa horrível, tirava a privacidade das pessoas, incomodava etc… Mas o dele está sempre lá, cafonamente pendurado no cinto. :)

    • Eu tenho a impressão que houve um erro de “tradução” no termo gadget, da língua das pessoas normais para a língua dos geeks. ;)

  • Tolo é achar o texto “incontestável”.

    Contesta-se fatos e não mera opiniões emitidas por algum pedante neo-ludista como o autor do reproduzido.

    Aliás, falando em Stanislaw Ponte Preta, ou Sergio Porto, como queiram, realmente faz muita falta em nosso tempo. Não só ele, mas também o grande Nelson Rodrigues e tantos outros de uma época que nunca vivi, mas cujos livros, felizmente, pude ler.

    Esse tal de Cristóvão Feil me parece apenas uma versão moderna do Eutifron da Apologia de Sócrates. É a encarnação do “academicismo” tradicional do século XX, aquela classe de catedráticos que subestimam tudo que não é feito por um colega deles ou que não reconhece a multilateralidade do conceito de inteligência, que, para ele, se resume à acumulação de conhecimento.

    Um pouco do velho Sócrates é o remédio para aqueles que acreditam que pairam acima dos tolos.

    • O PROBLEMA DE SÓCRATES

      1.

      Em todos os tempos os grandes sábios sempre fizeram o mesmo juízo sobre a vida: ela não vale nada… Sempre e por toda parte se escutou o mesmo tom saindo de suas bocas. Um tom cheio de dúvidas, cheio de melancolia, cheio de cansaço da vida, um tom plenamente contrafeito frente a ela. O próprio Sócrates disse ao morrer: “viver significa estar há muito doente – eu devo um galo a Asclépio curador”.

      O próprio Sócrates estava enfastiado da vida. O que isso demonstra? Para onde isso aponta? Outrora teria-se dito (ó! Disse-se e forte o suficiente; e avante nossos Pessimistas!): “Em todo caso é preciso que haja algo verdadeiro aqui! O consensus sapientium prova a verdade.” Ainda falaremos hoje desta forma? Nós temos o direito a um tal discurso? “Em todo caso é preciso que algo esteja doente aqui” – eis a nossa resposta.

      Em primeiro lugar temos de observar mais de perto esses mais sábios de todos os tempos!

      Todos eles talvez não estivessem tão firmes sobre as pernas? Talvez estivessem atrasados? Cambaleantes? Decadentes? Talvez a sabedoria apresente-se sobre a terra como um corvo, ao qual um pequeno odor de carniça entusiasma?…

      2.

      Esta irreverência de asseverar que os grandes sábios são tipos decadentes abriu-se para mim mesmoexatamente em uma circunstância na qual mais intensamente o preconceito erudito e não-erudito se lhe contrapunha. Reconheci Sócrates e Platão como sintomas de declínio, como instrumentos dadecomposição grega, como falsos gregos, como antigregos (“Nascimento da Tragédia” 1872).

      Aquele consensus sapientium – isto fui compreendendo cada vez melhor – não prova sequer minimamente queeles tinham razão quanto ao que concordavam. O consenso demonstra muito mais que eles mesmos,esses mais sábios, possuíam entre si algum acordo fisiológico para se colocar frente à vida da mesmamaneira negativa – para precisar se colocar frente a ela desta forma. Juízos, juízos de valor sobre a vida a favor ou contra, nunca podem ser em última instância verdadeiros: eles só possuem o valor comosintoma, eles só podem vir a ser considerados enquanto sintomas. Em si, tais juízos são imbecilidades.É preciso estender então completamente os dedos e tentar alcançar a apreensão dessa finesse admirável, que consiste no fato de o valor da vida não poder ser avaliado. Não por um vivente, pois ele é parte,mesmo objeto de litígio, e não um juiz; não por um morto, por uma outra razão.

      - Da parte de um filósofo, ver um problema no valor da vida permanece por conseguinte uma objeção contra ele, umponto de interrogação quanto à sua sabedoria, uma falta de sabedoria. Como? E todos esses grandessábios? – Eles não seriam senão decadentes, eles não teriam sido sequer uma vez sábios? Mas euretorno ao problema de Sócrates.

      3.

      Segundo sua origem, Sócrates pertence à camada mais baixa do povo. Sócrates era plebe. Sabe-se,ainda se pode até mesmo ver, quão feio ele era. Mas a feiúra, em si uma objeção, é entre os gregosquase uma refutação. Sócrates era afinal de contas um grego? Muito freqüentemente, a feiúra é aexpressão de um desenvolvimento cruzado, emperrado pelo cruzamento. Em outros casos, ela aparececomo desenvolvimento decadente. Os antropólogos dentre os criminalistas dizem-nos que o criminosotípico é feio: monstrum infronte, monstrum in animo. Mas o criminoso é um décadent. Sócrates era umtípico criminoso? Ao menos não o contradiz aquele famoso juízo-fisionômico que soava tãoescandaloso aos amigos de Sócrates. Um estrangeiro, que entendia de rostos, disse certa vez na cara deSócrates, ao passar por Atenas, que ele era um monstro e escondia todos os vícios e desejos ruins em si.E Sócrates respondeu simplesmente: “Vós me conheceis, meu Senhor!”

      4.

      Em Sócrates, a desertificação e a anarquia estabelecidas no interior dos instintos não são os únicosindícios de décadence: a superfetação do lógico e aquela maldade de raquítico, que o distinguem,também apontam para ela. Não nos esqueçamos mesmo daquelas alucinações auditivas que, sob o nomede o “Daimon de Sócrates”, receberam uma interpretação religiosa. Tudo nele é exagerado, bufão, caricatural.

      Tudo é ao mesmo tempo oculto, cheio de segundas intenções, subterrâneo. – Procurocompreender de que idiossincrasia provém essa equiparação socrática entre Razão = Virtude =Felicidade: essa equiparação que é, de todas as existentes, a mais bizarra, e que possui contra si, emparticular, todos os instintos dos helenos mais antigos.

      5.

      Com Sócrates, o paladar grego transforma-se em favor da dialética: o que acontece aí propriamente?Acima de tudo é um gosto nobre que cai por terra. A plebe ascende com a dialética. Antes de Sócrates,recusavam-se as maneiras dialéticas na boa sociedade: elas valiam como más maneiras, elas eramcomprometedoras. Se advertia a juventude contra elas. Também se desconfiava de todo aquele queapresentava suas razões de um tal modo. As coisas honestas, tal como as pessoas honestas, não servemsuas razões assim com as mãos. É indecoroso mostrar os cinco dedos. O que precisa ser inicialmente provado tem pouco valor. Onde quer que a autoridade ainda pertença aos bons costumes, onde quer quenão se “fundamente”, mas sim ordene, o dialético aparece como uma espécie de palhaço: ri-se dele, masnão se o leva a sério. – Sócrates foi o palhaço que se fez levar a sério: o que aconteceu aí propriamente?

      6.

      Só se escolhe a dialética, quando não se tem mais nenhuma outra saída.

      Sabe-se que se suscita desconfiança com ela, que ela é pouco convincente. Nada é mais facilmente dissipável do que um efeito dialético: a experiência de toda e qualquer reunião na qual se conversa, o prova. Ela só serve como saída drástica nas mãos daqueles que não possuem nenhuma outra arma. É preciso que se tenha de estabelecer à força o seu direito: antes disto não se faz uso algum dela. Por isso, os judeus eram dialéticos; Reinecke Fucks era dialético.

      Como? Sócrates também o era?

      7

      - A ironia de Sócrates é uma expressão de revolta? De ressentimento da plebe? Ele goza enquanto oprimido de sua própria ferocidade nas estocadas do silogismo? Ele vinga-se dos nobres que fascina? -À medida que se é um dialético, tem-se um instrumento impiedoso nas mãos. Com ele podemos cunhar tiranos e ridicularizar aqueles que vencemos. O dialético lega ao seu adversário a necessidade de demonstrar que não é um idiota: ele o deixa furioso, mas ao mesmo tempo desamparado. O dialético despotencializa o intelecto de seu adversário.

      Como? A dialética é apenas uma forma de vingança em Sócrates?

      8.

      Eu dei a entender o que fez com que Sócrates pudesse se tornar repulsivo: permanece tanto mais aser esclarecido o fato de ele ter podido produzir fascínio. Por um lado, Sócrates foi o pioneiro nadescoberta de um novo tipo de Agon: para o círculo nobre de Atenas, ele foi o seu primeiro mestre dearmas. Ele fascinou, à medida que tocou no impulso agonístico dos helenos e que trouxe uma variantepara o cerne do embate entre os homens jovens e os rapazinhos. Sócrates também foi um grande erótico.

      9.

      Mas Sócrates desvendou ainda mais. Ele olhou por detrás de seus atenienses nobres; elecompreendeu que seu caso, a idiossincrasia de seu caso, já não era nenhuma exceção. O mesmo tipo de degenerescência já se preparava em silêncio por toda parte. A velha Atenas caminhava para o fim. – ESócrates entendeu que todo o mundo tinha necessidade dele: de sua mediação, de sua cura, de seuartifício pessoal de autoconservação… Por toda parte os instintos estavam em anarquia; por toda parteestava-se cinco passos além do excesso; o “monstrum in animo” era o perigo universal. “Os impulsosquerem fazer-se tiranos; precisa-se descobrir um antitirano, que seja mais forte”…

      Quando aquelefisionomista revelou a Sócrates quem ele era, uma caverna para todos os piores desejos, o grande irônicoainda deixou escapar uma palavra, que deu a chave para compreendê-lo. “Isto é verdade, disse ele, masme tornei senhor sobre todos estes desejos.”

      Como Sócrates se assenhorou de si mesmo? – No fundo oseu caso foi apenas o caso extremo; apenas o caso mais distintivo disto que outrora começou a se tornara indigência universal: o fato de ninguém mais se assenhorar de si, de os instintos se arremeterem uns contra os outros. Ele fascinou como este caso extremo – sua feiúra apavorante o comunicava a todos osolhares: ele fascinou, como segue de per si, ainda mais intensamente enquanto resposta, enquanto solução, enquanto aparência de cura para este caso. -

      10.

      Se se tem necessidade de fazer da razão um tirano, como Sócrates o fez, então o risco de que outracoisa faça-se tirano não deve ser pequeno. A racionalidade aparece outrora enquanto Salvadora; nem Sócrates, nem seus “doentes” estavam livres para serem racionais. Ser racional foi o seu último remédio. O fanatismo, com o qual toda a reflexão grega se lança para a racionalidade, trai uma situaçãodesesperadora. Estava-se em risco, só se tinha uma escolha: ou perecer, ou ser absurdamente racional…O moralismo dos filósofos gregos desde Platão está condicionado patologicamente; do mesmo modoque sua avaliação da dialética. A equação Razão = Virtude = Felicidade diz meramente o seguinte: épreciso imitar Sócrates e estabelecer permanentemente uma luz diurna contra os apetites obscuros – aluz diurna da razão. É preciso ser prudente, claro, luminoso a qualquer preço: toda e qualquer concessãoaos instintos, ao inconsciente conduz para baixo…

      11.

      Dei a entender o que fez com que Sócrates exercesse fascínio: ele parecia ser um médico, umsalvador. Faz-se ainda necessário indicar o erro que repousava em sua crença na “racionalidade aqualquer preço”? – Imaginar a possibilidade de escapar da décadence através do estabelecimento de umaguerra contra ela é já um modo de iludir a si mesmo criado pelos filósofos e moralistas. O escape estáalém de suas forças: o que eles escolhem como meio, como salvação, não é senão uma nova expressãoda décadence. Eles transformam sua expressão, mas não a eliminam propriamente. Sócrates foi ummal-entendido.

      Toda moral fundada no melhoramento, também a moral cristã, foi um mal-entendido…

      A luz diurna mais cintilante, a racionalidade a qualquer preço, a vida luminosa, fria, precavida, consciente, sem instinto, em contraposição aos instintos não se mostrou efetivamente senão como umadoença, uma outra doença. – Ela não concretizou de forma nenhuma um retorno à “virtude”, à “saúde”, àfelicidade… Os instintos precisam ser combatidos esta é a fórmula da décadence.

      Enquanto a vida está em ascensão, a felicidade é igual aos instintos.

      12.

      Ele mesmo compreendeu isso, este que foi o mais prudente de todos os auto-ludibriadores? Elesoube dizer isto por fim a si mesmo em meio à sabedoria de sua coragem diante da morte? … Sócrates queria morrer. Não foi Atenas, mas ele quem deu para si o cálice com o veneno. Ele impeliu Atenaspara o cálice com o veneno… “Sócrates não é nenhum médico, falou ele silenciosamente para si mesmo:apenas a morte é aqui a médica… O próprio Sócrates só estava há muito doente…”

      Friedrich Nietzsche (Crepúsculo dos Ídolos)

    • Melhor comentário dessa página.
      .
      Os idiotas agora querem é ensinar.

  • hahahaha dei umas boas risadas com os comentários aqui

    só tem figuuuuuuura!

  • Bahé, não gostei do texto.
    A resposta, o texto, de Carlos Carrilho foi melhor. Mais objetivo, mais humilde, mais honesto intelectualmente.

  • Quando vou discutir política com uma pessoa, pergunto você assisti o Big Brother?

    Caso positivo, dou meia volta. O que se pode esperar de uma pessoa que assisti uma aberração como este programa.

    Nada!

    Vejam o que acontece com a cabeça de um dos leitores do blog, que diz assistir..

  • [...] This post was mentioned on Twitter by acertodecontas and Sergio Mendonça, agnelo regis. agnelo regis said: Os idiotas e as baratas são imbatíveis http://acertodecontas.blog.br/atualidades/os-idiotas-e-as-baratas-sao-imbativeis/ [...]

  • Texto escrito por um *¨%$#@.

    Nota: comentário editado pela equipe do blog.

  • Pois eu adorei o texto… Alguns podem ter tido impressão de soberba do autor. Talvez até tenha um pouco mesmo. Mas, para mim, não há dúvidas de que existe um processo de idiotização da humanidade em curso.

    Afimar isso não quer dizer que eu esteja imune a esse processo. É o contrário disso. A “desigualdade intelectual” tem efeito semelhante à “desigualdade econômica”, afeta a todos, indiscriminadamente, de forma direta ou indireta.

    Afinal, vivemos em sociedade e nossa cultura, nosso universo vocabular, nossa massa crítica, enfim, tudo se molda a partir da interação com o outro.

    • “Mas, para mim, não há dúvidas de que existe um processo de idiotização da humanidade em curso.”

      Mesmo? E quando a população mundial já foi menos idiota? Na idade média, quando mais de 90% da população mundial era analfabeta? Talvez na idade antiga, quando esse percentual era ainda maior.

      A população mundial nunca foi tão instruída e nunca teve tanto acesso ao conhecimento como hoje, graças, em grande parte, ao caiptalismo. O que acontece é as pessoas NÃO QUEREM se esclarecer. Repito, NÃO QUEREM.

      Não está havendo um processo de idiotização global. Simplesmente, hoje, com a sofisticação dos meios de comunicação e informação, as pessoas têm mais capacidade de consumir idiotices e de produzir idiotices.

      Achar que há um processo de idiotização é tomar o efeito pela causa. Há muita idiotice sendo produzida porque as pessoas, em geral, SÃO idiotas. A maior parte da população É massa, sempre foi e sempre será. Demandam idiotices para seu consumo em massa e também produzem mais didiotice para compartilhar.

      Antes da democratização dos meios de comunicação e informação, as massas não tinham acesso às ferramentas para produzir idiotices, nem tinham relevância no mercado de consumo. Tinham que engolir o que a zelite produzia e vendia. Hoje, qualquer João do Morro dá vazão às suas reflexões filosóficas e há um mercado sedento por esse produto tão fácil de ser digerido e que diz tudo o que vai nas mentes e nos corações das massas.

      É assim que vejo, do alto da minha idiotice. :)

    • Bahe, concordo com o que diz… não sei o motivo da palavra que eu escrevi ter sido modificada no meu comentário, visto que ela é citada no texto. Sem dúvida a tolisse é uma prática popular, por assim dizer, porém, no texto me parece que o autor julga em demasia, o que pra mim já é uma atitude tola, e neste caso ele está incluido no que ele mesmo critica. Aliás, creio que as vistas dos outros, cada um tenha alguma atitude que possa ser julgada dessa forma por alguém.

  • “Finge-te de idiota e terás o céu e a terra”. – Nelson Rodrigues

  • Agora temos uma desconstrução e reconstrução do conceito de “idiota”. É sempre assim: você aprende uma coisa, e anos depois os pensadores daquele assunto reconstroem o conceito e tudo que você aprendeu estava errado.

    Vejam por exemplo a História. Aprendemos que a cultura brasileira se formou a partir da mistura das três etnias (branca, negra e indígena). Depois, vem um cara e diz “não é bem assim” e começa a estudar a sociedade ágrafa dos indígenas que habitavam aqui antes de 1500, e já chama aquilo de “cultura brasileira”. Logo virá outro sujeito e vai afirmar o contrário, e depois outro, e outro, numa eterna dialética.

    Parando com as divagações étnicas e culturais, então eu posso escolher ser cabeça por saber tocar teclado e escrever livros, ou então posso ser um tolo por não saber nadar nem fazer uma feijoada. É mera questão de ponto de vista.

  • Pessoal, querem conhecer mesmo os idiotas? Então leiam isso aqui:
    http://rodrigoconstantino.blogspot.com/2007/12/volta-do-idiota.html
    .
    Geração após geração eles se multiplicam.Muitos devem pretensionar possuir a “versão cult anti-burguesa” como o autor do texto haha.

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  • “O homem de bem é um cadáver mal informado. Não sabe que morreu.”
    Nelson Rodrigues.

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Informação com Humor

MARCO BAHÉJornalista
É formado em Jornalismo e pós-graduado em História Contemporânea e História do Nordeste do Brasil. Foi repórter da Gazeta Mercantil para os estados de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. Também atuou como repórter do Jornal do Commercio, editor da Folha de Pernambuco e repórter especial do Diario de Pernambuco. É correspondente da revista Época no Nordeste desde 2003. Tamb´m atua com publicidade e marketing eleitoral desde 2004.
PIERRE LUCENADoutor em Finanças
É doutor em Finanças pela PUC-Rio e mestre em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco. É professor adjunto de Finanças da UFPE e foi secretário-adjunto de Educação de Pernambuco. É autor de vários trabalhos publicados no Brasil e no exterior sobre o mercado financeiro, e participa como revisor de várias revistas acadêmicas na área. É sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Finanças. Foi comentarista de Economia do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (TV Jornal e Rádio CBN). Atualmente é coordenador do curso de administração da UFPE, e Coordenador do Núcleo de Estudos em Finanças e Investimentos do Programa de Pós-graduação em Administração da UFPE (NEFI).