Ontem, escrevi um post sobre a censura que a editora de Berlusconi fez ao novo livro de Saramago (leia o post aqui). Na sessão de comentários, o leitor Andrei Barros Correia fez uma excelente postagem, que merece ser transformada em post.
Logo abaixo:
“É trágico o que acontece na Itália. Este gangster, que atualmente é primeiro ministro, já fez passar inclusive leis de imunidade judicial para si.
Monopoliza as comunicações na península e dá espetáculos de péssimo gosto em diversas ocasiões. É curioso que a mídia brasileira, sempre tão ávida em apontar supostas gafes do presidente Lula, nunca se tenha dedicado às verdadeiras patadas de Berlusconi.
Quando o rei de Espanha advertiu o presidente Chavez, por conta de uma impertinência, mancheteou-se o episódio em todos os grandes jornais brasileiros, como se se tratasse de algo intimamente ligado aos destinos cotidianos de todos os brasileiros. Ou como se a imprensa brasileira fosse um bastião de cosmopolitismo, ligada diretamente ao mundo.
Quando o bufão – relativamente idoso e com cabelos da cor das asas da graúna – disse tolices e comportou-se como novo rico mal educado na presença da rainha da Inglaterra, notinhas de fundo de página, sem muito destaque.
Preocupações seletivas muito significativas das reais preocupações por trás dos veículos de imprensa. Uma curiosa imprensa que tem raiva do presidente brasileiro atual exatamente por ele não ser aquilo que querem que seja. Falo da insistência esquizofrênica na estória do terceiro mandato.
Curiosamente, o narcotraficante Álvaro Uribe acaba de pavimentar a via do terceiro mandato. Ou nada se dirá, ou dir-se-á que a um ungido de deus nada pode ser obstáculo.
Curiosamente, outro ungido de deus, mas que perdeu o posto, o nipo peruano atualmente julgado por crimes contra o povo que o elegeu, contou com o entusiástico apoio fernando henriquista na ocasião em que mudou a constituição peruana para…. para o terceiro mandato.
Fujimori era a modernidade chegando ao Peru numa nave daquelas que trazem o capitão com quem a Geni não queria dormir. Trazido dos céus para por ordem naquela confusão de índios incapazes de se auto governarem.
O tamanho da missão – divina – demandava mais um mandato. O tamanho da missão aproximou para a causa nobilíssima Le Prince des sociologues. Este advogou para nosso vizinho pacífico a virtuosa possibilidade de ter o Chino por mais tempo.
Bem, ao menos esse pessoal convenceu suas populações a engolirem as mudanças. Monsieur Cardoso subornou o congresso para uma só e mísera reeleição.
Eis o tipo de problema que me chama a atenção. Esta seletividade devia ser declarada pelos meios de comunicação. Nada demais nisso haveria. Problemas há no comportamento patife de declarar-se praticante de uma imparcialidade absolutamente desmentida pela realidade.
Ou seja, escrevem ou para canalhas, ou para imbecis.
O caso da editora é praticamente a mesma coisa. A pudicícia política da editora de Berlusconi é uma farsa. Assim como qualquer traço de pudor não se encontra no próprio, inclusive dado a escândalos com menores, atrizes de televisão, menores e suas mães. Enfim, algo bem próximo daquilo que fez perecer as duas conhecidas cidades bíblicas.
Saramago é realmente um indivíduo muito sóbrio e educado. Desculpou objetivamente os editores, afinal não estão obrigados a perderem os empregos quixotescamente. Talvez sintam-se agora uns tolos, sem liberdade, escravos de um patrão riquíssimo e profundamente deselegante. Mas, empregados.
Poderia, caso fosse menos sóbrio e elegante, fazer como Benítez, que simplesmente não permite traduções de suas obras para o inglês. Quem quiser ler algum dos Cavalos de Tróia que o faça em castelhano, português, italiano, francês, alemão…
Muito radical esse Benítez, mas deixa entrever que, contrariamente ao que disse o cronista romano, nem tudo está à venda.”





Vale a pena dar uma lida no texto de Leandro Fortes para o Observatório da Imprensa, sobre essa neura da grande imprensa nacional em arrancar a todo custo uma declaraçãozinha qualquer do presidente ou de algum ministro de Estado, favorável ao terceiro mandato:
“Um terceiro mandato, pelamordedeus!”
Por Leandro Fortes
“A imprensa brasileira não vai descansar enquanto não arrancar do presidente Lula, ou de algum ministro de Estado, uma declaração favorável ao terceiro mandato. A insistência com que a mídia tem tratado do tema, em ondas ciclotímicas cada vez mais curtas, revela aquele tipo de interesse que nada tem a ver com os fatos ou, no limite, com demandas jornalísticas.
Trata-se de uma campanha infernal para colar na imagem de Lula a pecha de “ditador chavista” às vésperas de um ano eleitoral, como se fosse possível, a essa altura do campeonato, estabelecer semelhanças ideológicas e de ação governamental entre o presidente brasileiro e seu colega, Hugo Chávez, da Venezuela.
Há mais de dois anos, escrevi uma matéria na CartaCapital (“Eterno factóide”) a respeito do assunto, quando a onda do terceiro mandato tinha como objetivo contaminar as bases eleitorais do governo, com vistas às eleições municipais de 2008, quando ainda rescendiam brasas sobre os escombros do chamado “mensalão”. Lá, pelas tantas, escrevi:
“O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, além de ter sido beneficiado com a manobra da reeleição, colocada em prática via mudança da Constituição, foi um dos avalistas internacionais do terceiro mandato de Alberto Fujimori, do Peru. Tanto, e de tal forma, que Fujimori, atualmente às vésperas de ser julgado por crime de corrupção, tráfico de armas e genocídio pela Justiça peruana, arrolou FHC como testemunha”.
Incrível, né? Fernando Henrique Cardoso alterou a Constituição Federal, à custa de um escândalo de compra de votos no Congresso Nacional, para emendar um segundo mandato, com apoio irrestrito da mídia nacional. Em outro front, dava apoio político e diplomático a Fujimori, conhecido bandoleiro internacional, dado a censurar jornalistas e assassinar opositores, para que “El Chino” conseguisse um terceiro mandato no Peru. Sobre o que estamos falando mesmo? Ah, sobre o terceiro mandato, idéia rejeitada, sistematicamente, pelo supostamente (vocábulo adorado dos jornais, nos últimos tempos) principal interessado, a saber, o presidente Lula.
Na gaveta
A insistência sobre o tema, ainda tocado em clima de factóide, é tão óbvia que chega a ser cansativo dissertar sobre ela. Estancado em níveis de popularidade jamais alcançados por outros presidentes na história deste país, Lula vive em franca liberdade de movimento para emplacar seu sucessor – no caso, sucessora, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff. Feliz, gordo e corado, Luiz Inácio conseguiu estabelecer com o eleitorado uma ponte de comunicação praticamente imune aos ruídos da mídia, de qualquer mídia. A este povo sem mídia, e sobre o qual a mídia nada entende ou atinge, Lula fala a língua da distribuição de renda, da segurança alimentar e da identidade nacional. De certa forma, conseguiu converter em ganho eleitoral todos os males a ele atribuídos pela zelosa elite intelectual e econômica brasileira, da falta de educação formal à aparência física.
Quisesse mesmo se empenhar na luta pelo terceiro mandato, Lula teria todas as condições, dentro e fora do Congresso, para conseguir sucesso no intento, sem a necessidade de comprar votos, pelo menos no sentido literal do expediente utilizado na Era FHC. Foi-se o tempo, no entanto, em que o presidente se cercava de assessores que o incitavam a atitudes insanas, como a de querer expulsar o correspondente do New York Times do país, por quem foi acusado de ser cachaceiro militante. Agora, a cada investida da mídia, Lula desmancha-se em desencanto: é contra, diz, o terceiro mandato. Ainda assim, como quem oferece crack a um viciado, o Datafolha gastou tempo e dinheiro na tentação de divulgar uma pesquisa na qual mostra um “país dividido”, 47% a favor, 49% contra o terceiro mandato.
A mensagem é clara: então, por que não arriscar, presidente? A resposta também: porque Lula não é bobo.
Para uma oposição perdida e enterrada num pré-sal de indefinições, nada seria mais providencial do que o surgimento de um Lula ditatorial, finalmente revelado em toda a sua essência autoritária e aparelhadora, um Chávez tropicalizado – e, melhor ainda, a tempo de ser trabalhado em infinitas edições de domingo. Viriam especialistas, cientistas políticos, blogueiros de repetição, colunistas, deputados e senadores a denunciar a quebra das regras democráticas, a incutir pânico na classe média, a convocar as senhoras de Santana a marchar sobre a Avenida Paulista, o horror, o horror!
De qualquer maneira, não custa deixar essa pauta na gaveta. Quem sabe ela não emplaca no ano que vem?
Link:
http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=540IMQ004
Sempre procuro os comentário lúcidos de Andrei Barros Correia nas postagens do blog. Leitores do Acerto de Contas também são presenteados por comentaristas capazes de ampliar ainda mais nossas reflexões.
A propósito, algo me intriga no Acerto de Contas. Na lateral do blog constam as fotos de Pierre Lucena e Marco Bahé, porém não há o mesmo destaque em relação ao André Raboni. Pierre ou Bahé bem que poderiam emprestar um terno para que o André tirasse uma foto feito a deles para colocar no blog!
Andrei é fera e eu sempre começo a leitura dos comentarios procurando o dele. Quanto ao andre raboni sou obrigado a concordar: apesar do começo sofrivel ele vem acertando a mão. Agora o robson…
[...] Veja comentário de um leitor do Acerto de Contas que virou uma post: [...]
Lendo o livro Gomorra, de Roberto Saviano é difícil afirmar que a Itália do pós-Guerra é um país desenvolvido. Ouso até dizer: nem o interior do Nordeste é tão atrasado, do ponto de vista da relações sociais, quanto a Itália. É difícil acreditar que um país que gerou Italo Calvino, Alberto Morávia, Frederico Felini, Vitório de Sica, Michelangelo Antonioni é mesmo de história tão rizível ao longo do Século XX. É o mesmo país de Mussolini,de Berlusconi, das Brigadas Vermelhas, de Betino Craxi. Existe episódio mais trágico-cômico que a participação dos italianos na Segunda Guerra Mundial? Há maior exemplo de covardia que agressão italiana à Etiópia, na década de 30? Existem torcedores mais racistas que os italianos? Então, meus amigos, Berlusca não deveria espantar. (Leia um artigo de Mino Carta comparando, recentemente, a Itália com o Brasil).
Belo texto.
Já afirmei em um outro comentário aqui: a alardeada “imparcialidade” simplesmente não existe. É um mito, no qual muitos insistem em acreditar, seja por canalhice, imbecilidade, ou burrice mesmo.
Tudo o que podemos cobrar dos veículos de comunicação é equilíbrio e fidelidade aos fatos. Mas que editor vai lembrar de equilíbrio quando se tem interesses afins e um contrato milionário com um governador em exercício, como é o caso da FSP?
Nas páginas desses jornais, a palavra “imparcialidade” é apenas um vocábulo anódino, usado pra enrolar os incautos, ou os IMBENALHAS.
Quanto ao Berlusconi… imagino que a Itália esteja pagando um pecado gigantesco…
Fiz o comentário acima sem ter lido toda a postagem de Andrei. Quando o li em sua inteireza, vi tratar-se de um texto primoroso. Este texto, nos meus bons tempos, seria xerografado – para não dizer mimeografado, mas não sou tão velho assim – para ser afixado nos quadros de aviso dos d.a.’s e d.c.e.’s. O texto deveria ser debatido nas escolas de jornalismo, pelo menos. Ensina o que é a chamada imprensa livre no Brasil. Mostra as conseqüências de uma imprensa empresarial: a falta em relação à verdade. O império das meias-verdades. Pingo nos i’s, seria o subtítulo do texto de Andrei. Eis a importância dos “blogs” independentes. Sim, independentes, pois os blogs da imprensa empresarial não são diferentes do corpo principal de suas organizações. Só para ficar no nosso universo (provinciano) acompanhem a voz da reação, do conservadorismo, do status quo nos bloguinhos dos dois jornalecos recifenses. Um, sob a responsabilidade de um jornalista progressista, é de dar pena. Acho que está há dois dias noticiando a última e perfeitamente inútil invectiva do senador de nosso Estado. Venham aprender com o Acerto de Contas.
O comentarista Andrei é um dos leitores mais civilizados deste blog. Já foi alvo de muitas deselegâncias e grosserias de outros leitores, embora seus comentários sejam coletâneas de seriedade, coragem, coerência e inteligência.
Percebo que a cada dia se aprimora, devem ser os ares que o rodeiam.
Parabéns a todos aqueles que fazem o Acerto de Contas.
Esse Lapa é uma ciência!
O danado é olhar as entrelinhas! tem que saber das coisas pra ler com a máxima efetividade todo recado passado!
Bravo!
Esse Andrei é uma Lapa de cronista mesmo!
Tá de parabéns, graças a deus!
Andrei, se vires Le Prince em uma vinheta européia qualquer, você vai dar, pelo menos, um susto nele, não vai não?
kkkkkkkkkk
Abraço
Estimados Ubiratan e Rafael,
Se eu vir Monsieur Cardoso na rua, acho que fico sem reações. Provavelmente, se sustos houver, tomo eu um susto. Ele, pelo menos em fotos, é meio assustador.
Mas, o risco é pouquíssimo, à vista das diferenças de locais de frequentação.
Lembro-me muitíssimo das invectivas campinenses contra hipocrisias diversas. Vocês deviam animar-se a vir por aqui e reeditar-mos essas conversas.
%$#$@ *&%$#$@#$…..
Nota: comentário editado pela equipe do blog por conter palavra de baixo calão.
Pierre,
Vc que tem bom senso, avise ao demais que essa “proteção” do blog à alguns colaboradores não se justifica – não tem sentido.
Desde quando o termo “*¨%$#@#*” é palavrão? Que o diga João do Morro e outros. O Marco Bahé, já fez uso do termo várias vezes aqui tratando de futebol, por exemplo.
Os sensores do sni estão de volta?
Nota: comentário editado por conter palavra de baixo calão.
[...] para o Brasil… Veja esta pequena nota do blog de Pedro Doria. Ainda neste ano Fujimori, querido de FHC foi condenado por violação dos direitos humanos. Agora o Uruguai tem um movimento popular que [...]