Reforma estúpida

ago 23, 2007 by     11 Comentários    Postado em: Artigos e Análises

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Garrafada para exercitar a ortografia: exercício número 1

Por Hélio Schwartsman,
editorialista da Folha de S.Paulo

Mais uma vez, burocratas de pouco tino pretendem enfiar-nos uma reforma ortográfica goela abaixo. Segundo reportagem da Folha (clique aqui para ver a íntegra), as mudanças podem começar já no ano que vem. Há aí dois despropósitos e uma sacanagem.

Em primeiro lugar, a reforma proposta é ruim: gasta-se muita energia para obter avanços menos do que tímidos em termos de unificação da escrita dos países lusófonos. Isto, é claro, se Portugal comprar o pacote, o que talvez não faça. Em segundo e mais importante, é errado e inútil tentar definir os rumos de uma língua natural.
Só vão sair ganhando aqueles editores mais ágeis, que já têm prontos dicionários, gramáticas, cursos de atualização e material didático de acordo com a “nova ortografia” –e é aí que reside a esperteza.

Nunca foram meia dúzia de consoantes mudas –como nas formas lusitanas “adopção” e “óptimo”– que constituíram barreira à intercomunicabilidade entre leitores e escritores dos dois lados do Atlântico. O mesmo se pode dizer do trema, das quatro ou cinco regras de acentuação que serão alteradas e das sempre exóticas disposições sobre o hífen –os demais pontos que a reforma abarca. Se há empecilhos à boa compreensão entre falantes do Brasil, de Portugal e de países africanos e asiáticos (não nos esqueçamos de Timor Leste), eles estão na escolha do léxico e no uso de expressões locais, felizmente ao abrigo da sanha legiferante de dicionaristas e parlamentares.

Línguas são como organismos vivos: nascem, crescem e morrem. Numa palavra, evoluem. Só que, ao contrário de entidades compostas por moléculas de carbono e codificadas por genes, fazem-no principalmente pelo que os biólogos chamam de “genetic drift” (deriva genética), isto é, sem muita seleção –até pode haver alguma competição entre idiomas, mas bem menos do que entre indivíduos. Escrever “super-homem” ou “superomem” não torna o português mais ou menos apto a sobreviver no mundo lingüístico.

E, se há algo especialmente desimportante para determinar o sucesso ou fracasso de um idioma, é a ortografia tomada isoladamente. Analisemos o caso do inglês, indiscutivelmente o idioma de maior prestígio hoje no mundo. A complexidade de sua ortografia, que é muito pouco fonética, já gerou toda uma mitologia. O escritor Mark Twain, por exemplo, propôs em tom de chiste que a palavra “fish” (“peixe”) fosse escrita “ghotiugh”, em que o “gh” soa como “f”, como ocorre em “enough” (“bastante”); o “o” tem som de “i”, como em “women” (“mulheres”); o grupo “ti” vale por “ch”, como em “nation” (“nação”); e o grupo “ugh” não tem som algum, como em “ought” (“dever”).

Só que o problema ortográfico do inglês, apesar de trazer mesmo uma série de dificuldades, em especial na alfabetização de crianças e no aprendizado como língua estrangeira, revelou-se também um dos ingredientes que, ao lado de outras características, tornaram-no uma língua extremamente versátil, o que contribuiu para o seu sucesso. Com efeito, a anomia ortográfica aliada ao despojamento dos sistemas nominal e verbal trouxe uma vantagem insuspeitada. Como as palavras podem ser escritas de qualquer jeito mesmo e substantivos se tornam verbos sem a necessidade de nenhuma adequação morfológica –em português, para tornar-se verbo, é preciso obedecer à flexão, recebendo, por exemplo, um “r” no infinitivo, como em “amar”–, a língua ganha uma enorme flexibilidade. Praticamente qualquer palavra estrangeira pode ser assimilada em sua forma original. Nenhum termo fica estranho demais para “soar” inglês. Mais do que isso, pode tornar-se, além de um simples nome, também um verbo. É o caso de “toboggan” (“tobogã” e também “fazer tobogã”) que veio do idioma algonquino “ipsis litteris”. O inglês é, nesse sentido, uma língua perfeita para a era da globalização e, não por acaso, aquela com maior número de vocábulos, boa parte dos quais emprestados de outros povos.

O “genetic drift” também faz com que idiomas possam conservar traços imemoriais sem que isso implique custos demasiado altos. Tal característica torna as línguas naturais verdadeiros palimpsestos, capazes tanto de assimilar modismos criados na véspera como de guardar relíquias herdadas de idiomas muito mais antigos. Seu curso, ainda mais que o da seleção natural, é absolutamente imprevisível. Vale a pena investigar dois ou três casos.

Para o termo “beócio”, por exemplo, o dicionário Aurélio registra: “curto de inteligência; ignorante, boçal”. Se olharmos para a etimologia, descobriremos estar diante de um preconceito das elites gregas, para as quais os habitantes da província da Beócia –os beócios– não passavam de camponeses estúpidos e glutões. O sentido de glutonaria se perdeu, mas o de estupidez se manteve em várias línguas modernas.

Obviamente, não eram apenas os gregos os arrogantes e intolerantes. Os judeus do século 12 a.C. também tinham seus desafetos, mais especificamente os filisteus, com quem viviam guerreando. Foi assim que, em hebraico, “pelishti” ganhou conotações pouco abonadoras, que, passados 33 séculos, continuam existindo no português contemporâneo. Para “filisteu” o dicionário Houaiss traz: “aquele que é ou se mostra inculto e cujos interesses são estritamente materiais, vulgares, convencionais; que ou aquele que é desprovido de inteligência e de imaginação artística ou intelectual”.

Freqüentemente, surgem bem-intencionadas patrulhas lingüísticas tentando corrigir as injustiças. Ainda não vi ninguém propondo eliminar “beócio” e “filisteu” de nosso léxico, mas acho que a sugestão não apareceu mais por desconhecimento do que por falta de disposição. Recente cartilha do governo federal queria limar termos “preconceituosos” como “anão”, “aidético”, “barbeiro”, “beata”, “comunista”, “xiita”, “funcionário público”, “peão”. Escrevi algo a respeito na coluna “Tributo à Estultice”.

Tais esforços, além de tolos, acabam muitas vezes tendo efeito muito diferente do inicialmente imaginado. É o caso da palavra “cretino”. Em regiões montanhosas, como a Suíça, são pobres as fontes de iodo ambiental, o que, antes do processo de iodatação do sal de cozinha, tendia a provocar alta prevalência de hipotireoidismo congênito (ou cretinismo). Como os bons helvéticos já eram politicamente corretos “avant la lettre”, recusavam-se a chamar as crianças afetadas pela síndrome pelo nome de “idiotas”. No século 18, passaram a usar o mais piedoso termo “cristão”, que soava “crétin” no francês dialetal ali falado. Acabaram inventando, sem querer, a palavra “cretino”, hoje de alcance mundial e politicamente incorreta. Preconceitos podem até ser reforçados pela língua, mas são capazes de sobreviver muito bem sem ela.

A lição a tirar dessas historietas é que é bobagem tentar legislar sobre um fenômeno tão complexo como a linguagem. Uma analogia válida seria a de deputados tentando baixar uma lei para regular a taxa de mutação do gene p53. Não vai dar certo. Quer dizer, a reforma poderá até nos levar a escrever as palavras de um geito (sic) diferente, mas isso em nada alterará a essência ou os processos da língua e não chegará nem perto de tornar as muitas variantes do português mais intercompreensíveis. Ao contrário, irá apenas criar o incômodo de exigir de alguns milhões de usuários que percam algum tempo para aprender as novas regras cuja arbitrariedade só não é superada pela inutilidade. Se há algo a ser eliminado, não são acentos e hifens, mas a estultícia de burocratas.

11 Comentários + Add Comentário

  • Por falar em ortografia, não seria SchwartZman

  • Em Portugal, as burradas dos políticos, em questão de Educação, é igual.Não percebem nada, do que estão a fazer.Cada vez as nossas crianças sabem menos

  • Que maravilha! De tirar o fôlego, orgásmico. Bj.

  • Até agora, quais foram os ganhos conquistados com essa reforma? No Brasil, pelo menos, continuamos na mesma, Aliás, o governo está mesmo preocupado com isso? Em quantos estado professores de português da rede pública receberam alguma capacitação sobre o assunto?

  • Creio que o acordo ortográfico, caso realmente seja respeitado e funcione, é bastante proveitoso do ponto de vista político. O argumento de que é artificial fazer esse tipo de mudança no idioma era também contrário a ortografia anterior. Esse não foi a primeira mudança ortográfica que nosso idioma sofreu nem será a última. E querer atribuir o sucesso da língua inglesa a sua natureza é uma opinião muito ingênua, pois é a força dos países falantes que dão prestígio o idioma, inicialmente a Inglaterra e atualmente os Estados Unidos.

  • Acredito no acordo ortográfico como forma de manutenção de um fenômeno natural a todas as línguas, visto que passam pelo processo de adequação em relação ao contexto em que estão inseridas. A reforma é, a partir desse ponto de vista, uma necessidade. Por outro lado, não acho que essa reforma faça tanta diferença para os falantes da língua portuguesa nos diversos países já que as diferenças entre eles estão além de regras de acentuação, ou a colocação de hífem. Essas diferenças operam no campo sócial e histórico que não pode ser delimitado por simples regras.

  • Olá!

    Acredito que as mudanças propostas pelo Novo Acordo Ortográfico da Língua foram, sobretudo, políticas e pouco alteraram o cotidiano dos usuários brasileiros, uma vez que elas são direcionadas especialmente à escrita e à acentuação de algumas poucas palavras. Essas transformações favorecem determinados agentes sociais (como as editoras) e desvia a atenção da discussão de aspectos mais relevantes do uso de nossa língua materna.

  • Acho esta reforma ortográfica completamente desnecessária e altamente despendiosa, tendo em vista, que as pessoas q irão se preocupar em estudar e se apropriar das novas regras são as mesmas que já usavam as regras antigas. Continuarão havendo variações da língua, tanto na escrita quanto na fala, independente de reformas ortográficas que foram feitas em prol dos que não faziam uso da língua padrão e que vão continuar sem fazer provocando mais variações.

  • Não há dúvida que o caráter da reforma ortográfica não visa(ou pouquíssimo visa) uma maior interação comunicativa entre os falantes da língua portuguesa. Daí, a importância do texto de Hélio Schwartsman. Com efeito, ele traz, de maneira bastante objetiva, um resumo das opiniões de quem é contrário a tal reforma. Talvez, a única coisa a ser acrescentada seria a explicitação, com mais ênfase, das relações entre o desenvolvimento das variantes do português e a dinâmica sócio-cultural que cada país que tem o português como língua materna.

  • A verdade é que este acordo ortográfico não passa de apenas um acordo político-econômico que visa apenas favorecer as relações internacionais entre os países de língua portuguesa, logo não irá trazer grandes mudanças para os falantes da língua, porque para isso a mudança deveria ir além da cultura desses países, que é algo inviável, pois mexeria na identidade de cada um.

  • Consideramos a reforma ortográfica da língua portuguesa como um acordo que visa facilitar as negociações de livre comércio entre os países. Portanto, não identificamos aspectos positivos na vida cotidiana do professor e dos demais falantes da língua.

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MARCO BAHÉJornalista
É formado em Jornalismo e pós-graduado em História Contemporânea e História do Nordeste do Brasil. Foi repórter da Gazeta Mercantil para os estados de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. Também atuou como repórter do Jornal do Commercio, editor da Folha de Pernambuco e repórter especial do Diario de Pernambuco. É correspondente da revista Época no Nordeste desde 2003. Tamb´m atua com publicidade e marketing eleitoral desde 2004.
PIERRE LUCENADoutor em Finanças
É doutor em Finanças pela PUC-Rio e mestre em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco. É professor adjunto de Finanças da UFPE e foi secretário-adjunto de Educação de Pernambuco. É autor de vários trabalhos publicados no Brasil e no exterior sobre o mercado financeiro, e participa como revisor de várias revistas acadêmicas na área. É sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Finanças. Foi comentarista de Economia do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (TV Jornal e Rádio CBN). Atualmente é coordenador do curso de administração da UFPE, e Coordenador do Núcleo de Estudos em Finanças e Investimentos do Programa de Pós-graduação em Administração da UFPE (NEFI).