Santa Cruz: indo contra todas as forças de mercado

jan 14, 2008 by     8 Comentários    Postado em: Atualidades

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O que você espera do jogo de um time rebaixado à Terceira Divisão, com um presidente corruptor confesso (clique aqui para ouvir a confissão), estreando contra um time do interior?

Casa vazia e vaias.

Mas não é isso que acontece com o Santa Cruz. Ontem o anel inferior ficou lotado para assistir à estréia do time contra o Ipiranga.

Cheguei ao Arruda, quase em cima da hora, para observar o time de 2008, sob o comando de Zé do Carmo.

Chegando ao Arruda, o torcedor é mal tratado. Uma fila imensa para pagar a mensalidade de sócio e as cadeiras. Resolvi ir para a arquibancada, já que o clube não consegue nem ao menos receber o contribuinte com respeito.

Assistir ao Santa na arquibancada é uma experiência quase antropológica. Por R$ 10,00 (não é barato), depois de 20 minutos tentando entrar, consegui assistir o jogo.

A confusão começa logo na entrada. Ninguém organizando as filas, apenas a polícia, que não é para isso. Mas esperar o que da diretoria do Santa Cruz?

Para minha surpresa, o anel inferior estava lotado. Fiquei perto da bandeira de escanteio. Ao meu lado, estava uma charanga totalmente desafinada, sem ritmo, que não parava de tentar incentivar o time.

O jogo estava truncado, com poucas jogadas lúcidas, mas com muita disposição.

Ao meu lado, um torcedor conversava com meu Pai, explicando como o Santa chegou naquela situação. De repente o lateral Russo faz uma de suas lambanças, e o torcedor vira em nossa direção e fala:

“Russo deveria estar aqui bebendo cerveja com a gente, e não jogando profissionalmente. Aliás, o apelido Russo veio do seu paladar apurado para a Vodka”, filosofa o torcedor.

No intervalo resolvi conhecer, por necessidade, as dependências do banheiro das arquibancadas do Arruda. Consegue ser o pior banheiro que já fui em minha vida. Mesmo pagando R$ 10,00 (a entrada do cinema do Shopping Boa Vista), o torcedor tem que agüentar essas coisas.

No segundo tempo, o jogo ia de mal a pior, quando o juizão resolveu colaborar com um pênalti fantasma, que estranhamente sempre acontece a favor dos times da capital.

Gol do Santa Cruz.

Atrás da barra do gol, a Torcida Inferno Coral enlouquecida começa a pular feito louca, quando a Tropa de Choque da PM começa a mostrar o seu completo despreparo, e faz seus habituais “carinhos”, esquecendo que lá no meio está não apenas a torcida organizada, mas também pais de família, crianças e adolescentes que pegaram o ingresso na promoção “Todos com a Nota”. Veja o vídeo feito pelo torcedor do Santa chamado Ed.

O mais impressionante é que a PM não consegue conter os vândalos, e todo jogo faz esse tumulto. Se fossem bandidos perigosos e organizados, mas não, é um bando de moleques travestidos de torcedores. Bastava colocar pessoas infiltradas e evitava tudo isso. Mas a inteligência passa longe de lá.


Edinho, presidente do Santa: você compraria um carro usado deste homem?

Ao fim do jogo, fiquei pensando como pode mais de 15.000 pessoas aparecerem no Arruda, uma grande parte pagando caro, enfrentando filas, tumultos, banheiros imundos e um presidente (foto) que confessa ter subornado juízes.

É a paixão do futebol, que vai contra todas as forças de mercado. Não tem modelo de comportamento do consumidor que explique isso.

8 Comentários + Add Comentário

  • Pierre, também sou tricolor e decidi não ir mais para as arquibancadas depois do que aconteceu na Fonte Nova. O Arruda não é muito diferente de lá, com aqueles vergalhões enferrujados no concreto. Além disso, quando eu entrava no Arruda, debaixo de sol quente na rua do canal, espremido no meio da massa coral, com os PMs botando os cavalos pra cima da gente, eu me sentia como se estivesse sendo tangido para o abate. Tem gado em algumas fazendas que recebe tratamento melhor do que esse.

    Futebol no Brasil virou o melhor negócio do mundo. Ele foi remodelado para a TV, com os horários que a ela compete (depois da porra da novela, claro) fazendo os torcedores mais humildes , que não têm grana pra comprar o jogo via pay-per-view, sair de meia-noite de um estádio pra chegar a casa mais de 1h da madrugada e ter que acordar cedo para trabalhar. Futebol é pra rico (sim, porque assinar Sky não é pra qualquer um). O futebol no Brasil também é ferramenta de manipulação cultural e política das massas. Por isso que dá certo !

  • Prezado, você já ouviu falar na expressão “Mais Querido” ou, então, sobre o “Terror do Nordeste”?
    É pura paixão!
    Não há racionalidade que explique porque continuamos ir ao Arruda. Contudo, há leis científicas que explicam como os dirigentes do Glorioso Santa Cruz se locupletaram desta paixão popular.
    Um abraço e saudações tricolores, rumo à Toquio!

  • Estava me preparando para sair , quando por necessidade entrei na internet e como de costume acesso o blog e vejo está reportagem e me lembrei de hoje pela manhã um fanatico torcedor do tricolor do arruda, vinha fazendo um comentário que não aguentava mais ver tanto descalabro no Santa cruz, inclusive cometido por dirigente que antes tinha um carrinho basico e popular e hoje esta com uma 4X4, ele comentava com outro na padaria que chega tomou um choque e outro falava, são sinais exteriores de riqueza.
    P.S.- Já fui fanatico pelo santinha, porém sou hj um mero torcedor, isto desde que o santa perdeu o Hexa par o nautico e depois veio aquela de perder de 5(cinco) para o Bahia no capeonato nacional da època, alguns se lembram dos trumas … e por ai vai.Mudei o foco dos meu hobby’s e hj vivo mais tranquilo em relação a isso.,porém não mudo de casaca.

  • esse time já era …

  • Só mesmo um time como o Santa Cruz que, mesmo caindo para a série C, foi responsável pelo maior público de todo um campeonato. Imagina então se tivesse sido campeão.

  • Os dirigentes estão administrando mal o santinha. Se permanecerem os mesmos, o santinha vai disputar num futuro próximo, campeonatos de pelada.

  • Pra você ver como tem gente masoquista no mundo…

    O povão tá indo com os ingressos de graça do Todos com a nota.

  • Jarbas Vasconcelos não merece credibilidade em nenhum lugar. A falsa honestidade é a ferramenta usada por políticos inescrupulosos e incompetentes.

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MARCO BAHÉJornalista
É formado em Jornalismo e pós-graduado em História Contemporânea e História do Nordeste do Brasil. Foi repórter da Gazeta Mercantil para os estados de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. Também atuou como repórter do Jornal do Commercio, editor da Folha de Pernambuco e repórter especial do Diario de Pernambuco. É correspondente da revista Época no Nordeste desde 2003. Tamb´m atua com publicidade e marketing eleitoral desde 2004.
PIERRE LUCENADoutor em Finanças
É doutor em Finanças pela PUC-Rio e mestre em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco. É professor adjunto de Finanças da UFPE e foi secretário-adjunto de Educação de Pernambuco. É autor de vários trabalhos publicados no Brasil e no exterior sobre o mercado financeiro, e participa como revisor de várias revistas acadêmicas na área. É sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Finanças. Foi comentarista de Economia do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (TV Jornal e Rádio CBN). Atualmente é coordenador do curso de administração da UFPE, e Coordenador do Núcleo de Estudos em Finanças e Investimentos do Programa de Pós-graduação em Administração da UFPE (NEFI).