Sobre o fim do PEBodyCount

set 8, 2010 by     14 Comentários    Postado em: Atualidades

Depois de informados pela Associação do Ministério Público de Pernambuco (AMPPE) que não receberiam mais o apoio financeiro com o qual pagavam os custos do blog, os editores do PEBodyCount publicaram hoje sua carta de despedida. Recebi com certa tristeza a notícia, porque sempre percebi o PEBodyCount como uma ilha de enfrentamentos num mar de passividade em nosso Estado.

Digo “mar de passividade” porque, por mais que eu me esforce, não consigo levar a sério as coberturas jornalísticas locais quando o tema é Segurança Pública. Deve ser porque meus olhos quase sempre entrevêem um sorrisinho matreiro nos cantos de boca da mídia policial pernambucana (principalmente da tevê), o que sempre me fez desconfiar que não há (ou há muito pouca) seriedade nos nossos veículos de imprensa.

Num Estado onde a cobertura jornalística policial não parece digna nem ao menos de ser chamada de “cobertura jornalística” – haja vista a superficialidade atroz e o sensacionalismo novelesco habituais do tratamento das pessoas e das informações -, o fim do blog PEBodyCount deixará um hiato nos debates sobre Segurança Pública em Pernambuco.

Conversei agora há pouco com dois dos quatro editores do blog, João Valadares e Eduardo Machado. Com a cabeça cheia de ideias equivocadas (pensei que eles estariam “tristes” com o fim do blog), peguei meu celular e disquei os números. Tanto um quanto outro mudaram minha impressão inicial. Ambos demonstraram um sentimento de missão cumprida. De terem protagonizados uma bela história de inovação no tratamento dispensado à matéria-prima de suas atividades: a história das pessoas e a postura das instituições.

Os dois se mostraram bastante contentes com os resultados de seus três anos de trabalhos no projeto, que não se resumiu à cobrança de seriedade do governo e das instituições judiciais. Mas buscou transformar a forma como uma parte significativa dos cidadãos pernambucanos debatem (e dabaterão daqui pra frente) a segurança pública no Estado, provando a tod@s que é possível comunicar o tema com um enfoque agudo e inteligente nas causas, e não apenas nas consequências trágicas da violência. Neste sentido, os dois editores do PEBodyCount se mostraram muito felizes em terem construído esse projeto.

Embora o blog tenha acabado, ainda há muito trabalho a ser feito para que os atuais quadros se revertam de forma minimamente razoável. Por outro lado, os pernambucanos, agora, terão de se contentar com a divulgação apenas dos números oficiais.

Da parte do Acerto de Contas, lamentamos o fim do PEBodyCount, porém deixamos aqui o nosso recado aos seus editores: nossas portas estarão sempre abertas. Sintam-se em casa quando quiserem nos enviar os conteúdos relevantes à sociedade pernambucana que vocês vêm produzindo com tanto esmero.

Att.
André Raboni, Marco Bahé e Pierre Lucena.

Abaixo, segue o texto de despedida publicado hoje no PEBodyCount

“O fim do Pebodycount”

por João Valadares

Esta é a última postagem do Pebodycount. Três anos e quatro meses depois do início da nossa caminhada, anunciamos o fechamento do blog. A decisão foi tomada pelos quatro editores após a Associação do Ministério Público de Pernambuco (AMPPE) informar que não seria mais possível repassar o valor em dinheiro que custeava todas as despesas. Impossível continuar.

Acreditamos que cumprimos o nosso objetivo. Nascemos da inquietação. Do sentimento de que era possível cobrar e construir saídas coletivas. Começamos a caminhada em primeiro de maio de 2007, uma semana antes de o Governo do Estado lançar o Pacto pela Vida.

Primeiro, precisávamos informar aos pernambucanos quantos de nós estávamos morrendo todos os dias. Mostrar onde o Estado sangrava mais, onde o corte era maior, mais profundo. Mas isso não bastava. Não queríamos apenas contar cadáveres. Era preciso contar histórias, mobilizar e ajudar a mudar realidades.

Relatar a vida de quem matava e de quem morria. Cobrar responsabilidades, apontar incoerências e bater palmas para os acertos. E foi isso que fizemos. Seguimos assim.  Tocando um jornalismo diferente, a que pouca gente estava acostumada. Nada de distanciamento para entender melhor o fato. Fizemos um jornalismo de aproximação, de envolvimento. Um jornalismo militante mesmo, que toma lado e levanta bandeira. Fomos atacados. Jornalismo bandido foi um dos elogios que recebemos.

Fomos acusados de querer manchar a imagem do Estado. Muitos não perceberam que o blog era uma declaração de amor diária a Pernambuco. E foi isso que aconteceu. Longe da redação. Colocamos luz na sombra.

No lugar onde estavam os mortos. Fincamos um contador de mortes no meio da rua, pintamos o chão de vermelho em todos os locais de homicídio durante um mês, levamos o assunto para dentro das universidades, lemos juntos com os padres os nomes dos mortos nas missas dominicais, colocamos cruzes na praia de Boa Viagem, fizemos “um mar de lágrimas” com lenços brancos na Basílica do Carmo, no Centro do Recife, e plantamos árvores para simbolizar 500 vidas poupadas.

Plantamos também a mobilização. Conversamos, ocupamos todos os espaços para tratar do assunto. Levantamos para o mundo uma bandeira vermelha. Apontando que o problema estava aqui, que o problema era nosso. Construímos o maior banco de dados de homicídios do mundo (produzido por uma entidade não governamental), com cerca de 14 mil vítimas de assassinatos ocorridos em Pernambuco entre maio de 2007 e setembro de 2010.

Há quatro anos, segundo o IBGE, o Estado teve 4.638 assassinatos. Os 25 países da União Européia, que juntos somam 459 milhões de habitantes, registraram no mesmo ano 6.697 execuções. Este é o nosso cenário. É onde trabalhamos. A quantidade de cadáveres mensais produz uma monotonia assustadora. Por vários anos, os nossos mortos foram solenemente ignorados. Esquecidos por todos. Não só pelas autoridades. E foi justamente no meio de tanta morte e indiferença que surgiu o Pebodycont.

O fato é que pela, primeira vez no Estado, o governador percebeu que não adiantava repetir o mantra de que o problema da violência era nacional. O entendimento oficial mudou. As mortes são sim um problema de Pernambuco. O governo tem sim responsabilidade pelas pilhas de cadáveres acumulados no IML. Reconhecer o problema era o primeiro passo. E, neste ponto, acreditamos que contribuímos para este entendimento. A missão foi cumprida.

Após três anos de Pacto, temos uma luz. Tímida, mas existe ao menos uma esperança. Continuamos doentes, com febre muito alta. A quantidade de mortes permanece absurda, inaceitável. Mas, pela primeira vez, aparece a ponta de uma tendência de queda.

Como jornalistas pernambucanos, vamos continuar acompanhando todas as mudanças de perto. Continuamos firmes e vigilantes. Torcendo e contribuindo para consolidar uma tendência de redução de homicídios. É isso.

A lista de agradecimentos é enorme. Mas queríamos agradecer especialmente a Diogo Menezes (repórter do blog), Andréa Aguiar (designer), Lula Portela (assessor voluntário de imprensa), Rodrigo Lobo (nosso fotógrafo oficial) e a todo o pessoal da Fishy.

Os editores

Carlos Eduardo Santos, Eduardo Machado, João Valadares e Rodrigo Carvalho

14 Comentários + Add Comentário

  • Eu lamento que o último registro de óbito do PEBodyCount tenha sido dele próprio.

    Aos editores daquele blog, parabéns por ter despertado a população e a sociedade para esse problema cujo fim nos parece tão longe.

    Espero que essa sementinha não fique esquecida e que em breve possamos ser tratados com dignidade quando o assunto é Segurança Publica.

  • Mas não havia viabilidade de manterem o trabalho de forma voluntária?

    magino, na minha ignorância, que manter um blog não é muito oneroso.

    O fim não foi por falta de motivação ou por falta de tempo?

    De qualquer forma, a sociedade agradece o trabalho de vcs.

    • Marcelo, os caras do PEBodyCount não ganhavam dinheiro com o blog, e tinham um custo de cerca de R$ 3 mil. O dinheiro repassado pela AMUPPE era para pagar esses custos, que incluíam uma grana p/ o jornalista Diogo Menezes. Parece pouca grana (e é pouca, mesmo) mas tirar isso do próprio bolso todo mês é complicado.

      • Com certeza. Foi importante enquanto durou. Torcer para que surjam outras inciativas com estas, quem sabe.

        Valeu André.

  • Uma pena mesmo. No entanto o blog carecia de maior divulgação. Eu por exemplo, só tive acesso por meio do Acerto de Contas, quando fazia minha especialização sobre violência contra a mulher aqui em PE. Era um Blog sério, confiável ao contrário de muitos sites, até mesmo do próprio governo, que maquiam os dados.

  • Realmente, lamentamos o final do Blog. Sempre consultava para ficar atualizado sobre a violência em nosso Estado. Os números diários de homicídios, que sempre foi diferente dos números oficiais, as matérias bem embasadas, etc… Belo trabalho, quem sabe se não aparece outro patrocinador……

  • Ué, é tão difícil arrumar outros mantenedores assim??? com o nome que tem e a aceitação na sociedade que tem???

    Acho que os editores queriam partir pra outra, esse “trabalho” como qualquer outro com o tempo se desgasta, o ser humano busca novas empreitadas.

    Acho que o fim de repasse é, com o perdão da sinceridade, desculpa para encerrar algo que já se queria terminado.

  • Se for fazer uma “vaquinha” com os próprios leitores assíduos aqui do blog, sai esta quantia para manter o site. Aposto!

    • Piada de mal gosto.

    • Eu pagaria para mantê-lo. É só juntar mais 100 pessoas e fica baratinho. Vamos em frente?

  • Essa historinha cheira ao que já me disseram antes. Os Demos levaram uma goleada de Eduardo Campos em segurança pública e ficaram sem ter o que questionar. Basta comparar o número de crimes deste governo com o da Era Jarbas/Mendonça. O Ministério Público era só uma parte da história. A outra ficou numa salinha escondidinha de uma redação local… Voluntarismo…. Idealismo…?

    • A questão é política mesmo. Bastou entrar uma nova diretoria na AMMPE que o “patrocínio” acabou. Coisas de um país em guerra político-partidária.

  • é uma vergonha o governo não contribuir para um estado com mais segurança.por isso o não apoio ao site como o de vcs que deixa a população do estado de Pernambuco muito bem informado sobre a brutal violência decorrente.Deixo aqui desde já as minhas sinceras condolências aos que fazem o pebodycount.um abraço!

  • Recebi noticias do fechamento do blog e bem como os demais comentaristas, compartilho os lamentos–

    Alguem seberia informar qual o enderco =–email–do sr. eduardo Machado?

    (Um antigo da ha anos gostaria de re-iniciar o contato com ele.

    Agredesso antecipado

    David Sargent

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MARCO BAHÉJornalista
É formado em Jornalismo e pós-graduado em História Contemporânea e História do Nordeste do Brasil. Foi repórter da Gazeta Mercantil para os estados de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. Também atuou como repórter do Jornal do Commercio, editor da Folha de Pernambuco e repórter especial do Diario de Pernambuco. É correspondente da revista Época no Nordeste desde 2003. Tamb´m atua com publicidade e marketing eleitoral desde 2004.
PIERRE LUCENADoutor em Finanças
É doutor em Finanças pela PUC-Rio e mestre em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco. É professor adjunto de Finanças da UFPE e foi secretário-adjunto de Educação de Pernambuco. É autor de vários trabalhos publicados no Brasil e no exterior sobre o mercado financeiro, e participa como revisor de várias revistas acadêmicas na área. É sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Finanças. Foi comentarista de Economia do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (TV Jornal e Rádio CBN). Atualmente é coordenador do curso de administração da UFPE, e Coordenador do Núcleo de Estudos em Finanças e Investimentos do Programa de Pós-graduação em Administração da UFPE (NEFI).