
por Andrei Barros Correia*
para o Acerto de Contas
Todos, ao menos quase todos, sentiam e falavam admirados da transformação. O Recife, na verdade, era um ser em mudança, uma mudança rápida, em quantidade e em qualidade. A Cidade vinha perdendo a ordem, o silêncio, a placidez e a sonolência de antigamente, substituídos pelo movimento de pessoas apressadas, animais esbaforidos, de carroças transportando cargas e pelos gritos de muita gente e os ruídos de muitas coisas.
As ruas e praças estavam cheias de canteiros de obras com reformas, demolições e construções. Os moradores refaziam suas casas e sobrados, seguindo os modelos importados. Pelos arrabaldes da Boa Vista, dos Coelhos, da Madalena, dos Manguinhos e de Casa Forte, senhores-de-engenho, lavradores-de-algodão e comerciantes grossistas erguiam palacetes, onde se instalavam com suas famílias.
Por toda parte, apareciam novos estabelecimentos comerciais, com fachadas reluzente e letreiros coloridos, anunciando as mais diversas mercadorias e serviços. No porto, havia dezenas de navios estrangeiros, carregando e descarregando mercadorias, enchendo a Cidade de marinheiros, que falavam línguas nunca ouvidas, compravam, vendiam, farreavam, amavam, conversavam, brigavam, enganavam e partiam. Começavam a aparecer os residentes estrangeiros com seus hábitos estranhos. Cresciam os serviços profissionais de médicos, advogados, parteiras, arquitetos, cirurgiões, boticários, dentistas e também as atividades artesanais de sapateiros, ferreiros, barbeiros, alfaiates, modistas, tanoeiros, calafates, pedreiros, pintores e outros mais. Expandiam-se os negócios suspeitos, tolerados e proibidos. Falavam da necessidade de iluminar, empedrar, sanear, manter limpas e de policiar as ruas.
A população aumentava e já alcançava o dobro do que fora há 20 anos. Os escravos não davam para o uso. Todas as semanas, navios negreiros despejavam levas e mais levas de africanos, que, cumprindo a lei, ficavam de quarentena por mais de um mês, em “fora de portas”, no istmo de Olinda, antes de serem comercializados no mercado ao ar livre da Rua da Cruz.
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