Aos 405 anos de Dom Quixote

jan 16, 2010 by     16 Comentários    Postado em: Cultura

Acabei de descobrir, por acaso e ventura, que hoje está completando 405 anos da primeira publicação de Dom Quixote de la Mancha. Segundo o oráculo do XXI, o Wikipédia:

“Dom Quixote de La Mancha (Don Quijote de la Mancha em castelhano) é um livro escrito pelo escritor espanhol Miguel de Cervantes y Saavedra (1547-1616). O título e ortografia originais eram El ingenioso hidalgo Don Qvixote de La Mancha, com sua primeira edição publicada em Madrid no ano de 1605. É composto por 126 capítulos, divididos em duas partes: a primeira surgida em 1605 e a outra em 1615.”

Não sei se a data 16 de janeiro é precisa. Já os anos 1605 e 1615, são. Mas o dia, mesmo, isso é desimportante, aqui. Vejam o facsímile da primeira edição, que beleza:

Clique para visualizar melhor.

Nos últimos dias tenho cogitado não ler absolutamente mais nada de “novo”, em se tratando de literatura, por um bom tempo. Apenas reler tudo que já li até hoje. Quer dizer, “tudo”, não. Mas, tudo aquilo que me foi significativo. E Dom Quixote, o cavaleiro da triste figura, está em primeiro lugar na minha lista. Não sei se serei bem-sucedido nessa empreitada, porque é a típica promessa que dificilmente se cumpre. Mas vou tentar, nem que seja em vão.

Com esse pensamento, comecei a reler Dom Quixote na manhã de hoje. Nunca cogitei que a experiência de reler essa obra fosse ser tão boa. Dentro daquela linguagem travosa, difícil, pra poucos, nesse objeto de 609 páginas amarelecidas pelo tempo, de pequenas letras negras de serifas, tenho observado que esse livro é mais-mais (me falta um adjetivo) do que eu imaginei quando li-o a primeira vez, há 8 anos.

Antes de começar a releitura, e sem nem imaginar que hoje completava seus 405 anos, abri uma página ao acaso. Cai na página 351, capítulo XI, Segunda Parte, edição Abril Cultural, intitulado: “DA ESTRANHA AVENTURA QUE SUCEDEU AO VALOROSO DOM QUIXOTE COM O CARRO OU CARRETA DAS CORTES DA MORTE”.

Logo no início desse capítulo, Sancho Pança mostra toda a sua espirituosidade. E Cervantes dá prova de que sua obra é merecedora inconteste do título de Literatura Universal.

“Extremamente pensativo, ia Dom Quixote seguindo o seu caminho e considerando na burla que lhe tinham pregado os nigromantes, com o transformarem a sua Senhora Dulcinéia na desastrada figura duma aldeã, e não imaginava que remédio se podia empregar para que voltasse ao seu primeiro ser; e estes pensamentos punham-no tão fora de si, que, sem dar por isso, soltou as rédeas a Rocinante, o qual, sentindo a liberdade que lhe concediam, a cada passo se detinha para pastar a verde relva que por aqueles campos abundava. Tirou-o Sancho Pança da sua distração, dizendo-lhe:
- Senhor, as tristezas não se fizeram para os brutos, e sim para os homens; mas se os homens sentem demasiadamente, embrutecem; (…)”

Não sei se reler será melhor do que ler, porque a descoberta desse livro me criou um modo diverso de perceber as coisas todas do mundo, e foi uma leitura muito transformadora para mim.

Não apenas nos conteúdos, mas nas formas, mesmo, que é um livro de linguagem difícil, de colocações pronominais estranhas e de léxico não muito simples – esses elementos demandam um bom dicionário sempre ao lado, e leveza de leitura para não travar nas formas pouco usuais dos pronomes.

Certamente será uma experiência marcante, e os entendimentos podem ser mais profundos agora, tanto das formas quanto dos conteúdos – e vice-versa, que forma em si também é conteúdo. Bem, se eu viver, verei.

16 Comentários + Add Comentário

  • Eu só fui entender o que era de fato uma obra de arte quando li este livro, ele mudou minha percepção do ato de ler também.
    parabéns pelo texto, muito feliz.

  • realmente é uma ótima pedida. me lembrei do super delegado protógenes.

  • Quem compara Protógenes com Quixote prova que não leu o livro, ou não entendeu a labirinticamente apaixonante alma do cavaleiro…

    • exatamente, parece com o super delegado protógenes.

  • Cervantes é o autor que maior influência exerce sobre os escritores contemporâneos. Há algum tempo, os cem romancistas mais famosos do mundo, entre eles Jorge Amado e Gabriel Garcia Marques, escolheram o melhor escritor de todos os tempos – deu Cervantes. O autor de Dom Quixote criou o romance dentro do romance, técnica muito explorada por Garcia Marques. Em Cem anos de solidão, o colombiano fala de uma mulher extremamente bonita – parece um decalque de Cervantes, para não dizer um plágio (a conferir). Se eu tivesse a sua paciência, iria reler Guerra e paz, Os miseráveis, As vinhas da ira. Infelizmente, não chego a tanto.

    • Muito bom marcelo, eu incluiria Os Irmãos Karamazóv – Dostoiévski

      • Esse eu ainda não li, mas, pretendo ler.

      • Esse é o maior livro que já li. E falando disso agora percebo que é tempo de relê-lo.

        Dois episódios passados com Ivan Karamazov são pontos culminantes da literatura e reforçam a idéia de que o filósofo é o romancista falhado. Arte nesse nível é muito superior à ensaística.

        Quando Ivan recebe a visita noturna do Príncipe do Mundo e, ao final da conversa, ele diz, Satanás, que sua grande vitória era não acreditarem nele.

        Outro é a alegoria do Grande Inquisidor. Aquilo não faz parte de livro algum. Parece-me que Dostoievsky teve a idéia, não na quis perder, e inseriu no livro.

        • Dostoievski era autor de livros que Nietzsche dizia manter em sua cabeceira. O alemão bigodudo escrevera que o russo era o grande psicólogo do século.

  • DON QUIJOTE

    Chico Jó

    Desfez-se todo em cinzas de esperança
    Meu quixotesco e irônico destino:
    Os meus tolos cuidados de menino,
    As histórias que li quando criança…

    – Mi fiel escudero Sancho Panza,
    ¿Ves tú aquel gigante en el camino?
    – ¿Qué te pasa, señor? ¡Es un molino!
    ¿Adónde vas, mi amo, con tu lanza?

    Pobre de mim, que na ânsia de vitória
    Atirei-me à fugaz realidade
    De sonhos vãos, que o tempo desbarata.

    Efêmera ilusão da mocidade!
    Vi que a vida é uma farsa, vi que a glória
    Mente, seduz, promete, engana e mata!

  • André,

    No intervalo entre as duas partes do Quixote, circulou em Espanha obra apócrifa que se chamava El Quijote de Avellaneda.

    Era, segundo comenta-se, meio irônico e desfazia de Cervantes. Dizem que é muito valioso em termos literários. Cervantes irritou-se muito com o livre e animou-se a escrever a segunda parte. Inclusive, no prólogo ele trata da circulação desta obra apócrifa.

    Foi um dos livros que eu mais procurei, inclusive no paraíso de livrarias que é Buenos Aires, e nunca achei.

    • Andrei,

      Não à tôa Cervantes matou Quixote. Não existia copyright; podia-se elencar seus protetores, como Cervantes o fez, e muitos outros o fizeram, noutros tempos.

      • Há uma estória – um episódio – mais ou menos plausível sobre Cervantes, na velhice. Conta-se que um diplomata francês teria se interessado em saber por onde andava o grande escritor e soldado de Lepanto.

        E que ao saber que vivia miseravelmente teria dito que era muito estranho a forma que os espanhóis tratavam os seus grandes homens.

        Mas, fala-se coisa parecida de Hernán Cortez também.

  • essa pagina é ma drogaeeu oiei a merda que vcs postaram na net esse lixo não me ajudou em nada

  • adoro,don qixote mas a unica coisa q me ajudou foi suas imagens

  • Estou lendo Dom Quixote e gostando muito. Parabéns pelo Blog. Grande abraço.

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MARCO BAHÉJornalista
É formado em Jornalismo e pós-graduado em História Contemporânea e História do Nordeste do Brasil. Foi repórter da Gazeta Mercantil para os estados de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. Também atuou como repórter do Jornal do Commercio, editor da Folha de Pernambuco e repórter especial do Diario de Pernambuco. É correspondente da revista Época no Nordeste desde 2003. Tamb´m atua com publicidade e marketing eleitoral desde 2004.
PIERRE LUCENADoutor em Finanças
É doutor em Finanças pela PUC-Rio e mestre em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco. É professor adjunto de Finanças da UFPE e foi secretário-adjunto de Educação de Pernambuco. É autor de vários trabalhos publicados no Brasil e no exterior sobre o mercado financeiro, e participa como revisor de várias revistas acadêmicas na área. É sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Finanças. Foi comentarista de Economia do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (TV Jornal e Rádio CBN). Atualmente é coordenador do curso de administração da UFPE, e Coordenador do Núcleo de Estudos em Finanças e Investimentos do Programa de Pós-graduação em Administração da UFPE (NEFI).