Fundaj, censura e o Tribunal dos Bons Costumes do facebook

set 1, 2015 by     33 Comentários    Postado em: Cultura

Neste momento nem precisa comentar a confusão envolvendo os diretores Claudio Assis e Lirio Ferreira na Fundaj, porque o assunto foi mais comentado ontem no Facebook do que a imigração na Europa nos últimos meses.

O motivo do post é outro: a mania persecutória que está tomando conta das redes sociais em relação aos costumes, sempre na tentativa de impor o politicamente correto, ou o que o cidadão acha que seja correto. O “crime” cometido pelos dois teria sido a inconveniência durante um debate e o fato de um deles ter chamado Regina Casé de gorda. Ah…e o egocentrismo dos “homens”.

Obvio que a sanha moralizadora do politicamente correto, uma espécie de fundamentalismo às avessas, tomou conta do órgão público (Fundaj), que resolveu banir os dois e qualquer produção ligada a eles, por um ano. Talvez se tivesse um pacote de milho o espalharia e faria com que os dois se ajoelhassem na próxima sessão de cinema e pedisse perdão pelos seus crimes.

Pesquisando pela página dos críticos podemos tipificar os crimes: boçalidade, egocentrismo e gordofobia. Isso sem falar na cerveja que estavam tomando, que no Irã é crime, passível de pena de morte.

O pior disso tudo é que se trata de um órgão público que resolveu punir o público, que não assistirá aos filmes dos dois. Algo como um castigo maternal.

Aliás, se todo artista egocêntrico ou machista tivesse punição por isso, dificilmente sobraria alguma coisa nos museus ou bibliotecas da cidade. como bem lembrou meu amigo Marco Bahé no Facebook:

Queimem-se os livros de Monteiro Lobato, eugenista escroto. Retire-se das estantes a obra de Karl Marx, barbudo machista filho d…. Suma-se com os escritos de José de Alencar, inimigo que foi da abolição. Proiba-se Euclides da Cunha e sua ciência das raças. E o que fazer com Gilberto Freyre, que chamou de “tristonha, sonsa e sorumbática” nossa herança indígena? Apague-se qualquer registro.

Pobre do meu Recife, onde faltam salas de cinema e sobram lanterninhas da nova moral e dos politicamente corretos bons costumes.

E quem melhor retratou o patético recado enviado pela Fundaj foi Helder Aragão, o DJ Dolores:

Fiquei surpreso quando li o comunicado da FUNDAJ sobre o acontecimento recente envolvendo Claudio e Lírio. Mas a chapa caiu quando acompanhei o modo como essa decisão teve repercussão positiva entre tanta gente “do bem”.
Explico: a FUNDAJ é um órgão federal se não me engano, alimentado por verba pública e simplesmente decidiu que “eventos” envolvendo os dois estão suspensos pelo período de um ano como forma de punição por mal comportamento. Nas entrelinhas, lê-se que o Big Jato, novo filme de Claudio, não será exibido nos cinemas da Fundação. Talvez meus amigos bem intencionados não tenham percebido, talvez seja vingança pelas presepadas dos caras mas, acima de tudo, queria lembra-lhes de uma coisa: vocês estão apoiando a censura do estado. Sim, vocês, que se dizem de esquerda, libertários, etc… estão fazendo o jogo sujo da perseguição moral.

(…)

Tem uma música do PIL que diz que “raiva é uma forma de energia”. Eu diria que a raiva de vocês coloca-os ao lado da energia conservadora e hipócrita de Bolsonaro e muito distante da energia transformadora de Emma Goldman.

Dificilmente encontraremos alguém que concorda com o comportamento inadequado dos dois. Mas na verdade é apenas isso: comportamento inadequado.

E assim caminha Recife, para ser a cidade mais careta em linha reta da América Latina, e quem sabe do mundo.

33 Comentários + Add Comentário

  • Discordo completamente do post. É muito ego pra pouca estrela. Aqui não se discute opinião ou não, se discute respeito pelo trabalho de um colega, dar-lhe a chance de falar, elogiar ou criticar-lhe o trabalho. O que os dois tipos fizeram foi boçal, aliás, os dois são boçais com frequência.

    • A única coisa que você está fazendo é avaliação do comportamento.

    • Proibir a obra dos arteiros é um nítido exagero e tão incompatível com racionalidade quanto o ato que provocou toda esta celeuma e medidas mais adequadas poderiam ter sido tomadas durante a ocorrência do fato.

      Os arteiros se desculparam e a Fundaj, da mesma forma, pode rever a decisão.

      Mas… e o que dizer da Prefeitura de São Paulo (Fernando Haddad) e a tentativa de proibir o Pixuleco?

      Se fosse proibir a aparição da criatura que deu origem ao boneco, seria inconstitucional
      O boneco é um caso menos grave mas vai no mesmo caminho

      E cadê o post Dilma-Sexo?

      http://acertodecontas.blog.br/politica/dilma-e-o-sexo/

      Outro que desapareceu do índice foi esse:

      http://acertodecontas.blog.br/economia/as-veias-abertas-da-via-metropolitana-norte/

      Liberdade e….coragem!

      • Saudades do André Raboni

  • Regina Casé, além de ser um modelo de beleza feminina, é super magra e faz inveja até na Gisele Bundchen.

    Regina Casé teve tudo para brilhar nas passarelas de Milão, Nova York e Paris, mas preferiu ceder lugar a Gisele.

  • Regina Casé emagreceu 3kg depois da punição!

  • Facebook, fundaj e regina casé… o que seria do mundo sem esses três patrimônios da humanidade.

    • acrescente-se: claudio assis e lirio ferreira. seria o hecatombe!

  • Já que o protesto dos “cinquenteiros” é piada…

    O que podemos dissertar a respeito do mimimi dos cineastas? (Aliás, quem são?)

    E olhe que eu odeio este ultra politicamente correto…

    Mas para quantas medidas teremos quantos pesos?

  • Regina Casé, Dilma e Rogéria representam toda a beleza e sensualidade da mulher brasileira.

  • Concordo integralmente com o texto. Estão transformando um comportamento mal educado em machismo. Criaram até a expressão gordofilia… imbecilidade pura! As feministas estão se nivelando ao machismo. Os dois “ismos” são estúpidos! A diferença é que o politicamente correto passou a considerar o feminismo como algo bom, mas o feminismo é tão estúpido quanto o machismo! Danem-se os que consideram o feminismo superior ao machismo!

  • O problema foi muito além de chamar a Regina Casé de gorda. Os diretores compareceram ao evento visivelmente embriagados, interromperam a diretora Anna Muylaert, que falava de seu filme “”Que Horas Ela Volta?” por diversas vezes, entre essas interrupções Cláudio Assis chamou Regina Casé de “gorda”, e um maquiador da produção de “bichona” e arrancou o microfone da mão da diretora para falar de seu próprio filme. Já Lirio Ferreira interrompia a todo momento o debate com falas desconexas em virtude de seu estado de embriaguez. Mesmo assim acho que a punição deveria se restringir à presença dos diretores nos eventos e não á exibição de suas obras.

    • Isso é apenas um comportamento inadequado.

      • Sim. E por ser um comportamento inadequado eles mereciam uma punição, mas restrito às pessoas deles e não à toda a sua produção.

      • Dizer que foi um ato machista foi exagero. Mas qual seria a punição que vc acha que eles deveriam ter?
        Estamos jugando pessoas porque elas jugaram a terceiros.

        B R A S I L!

      • Quando você diz que é “apenas” um comportamento inadequado também está julgando. Foi um comportamento bastante inadequado, visto que o evento era sobre um assunto e eles ficaram falando de outro e não deixaram a convidada principal falar, ficaram interrompendo todo o tempo.

        E a Fundaj deveria ficar calada? Como se eles não tivessem feito nada demais? Talvez a punição não tenha sido perfeita, mas a fundação precisava deixar claro que achava a conduta dos dois inaceitável (não um pouco “inadequada”, mas inaceitável), já que eles envergonharam a fundação, que era a anfitriã, na frente de todo mundo.

        Ou quando tem uma pessoa tratando mal outra na sua casa embriagada e dizendo q tal pessoa é isso ou aquilo vc simplesmente diz para a que foi ofendida que foi apenas um “comportamento inadequado”?

        Vi um monte de piadinha aqui nos comentários sobre Regina Casé ser realmente gorda, mas isso é uma questão só dela e não lembro de ela ter pedido a opinião deles.

        E, quando uma coisa é chamada de “machista” normalmente tem um motivo. Machismo é quando vc faz algo ruim (um comportamento inadequado “apenas”?) que não faria com um homem. Toda a conduta deles foi machista sim. Mas, se eles também fizessem a mesma coisa em relação a um diretor, um ator e um maquiador hétero, então eles seriam apenas idiotas mal educados.

        Eu não entendo onde a educação ficou para trás que aparentemente todos os leitores que comentaram acham que é normal ou aceitável ser mal educado em público quando você é apenas um convidado.

        Mas se com “é apenas inadequado” vc estiver querendo dizer que eles não deveriam ser presos: eles não foram. E sobre os filmes que a fundação exibe ou não, decide ela.

        Da mesma forma que eles foram grosseiros com a diretora, achei uma delicadeza da parte da fundação dar uma punição que deixe claro que de fato se importaram com o ocorrido. Duvido que os dois cineastas repitam a palhaçada.

        • O comportamento dos cineastas foi incorreto, mais do que isso: inadmissível. Não sei por qual razão não solicitaram que eles se retirassem. Mas pediram desculpas, reconheceram o erro. Menos mal.

          Banir a obra deles é que considero uma punição imprópria e teria sido mais adequado ter chamado a Policia para conter o ânimo deles durante o evento.

          Colocando-me no lugar dos diretores da Fundaj, não poderia afirmar se tomaria outra atitude, afinal, pimenta nos olhos dos outros é refresco.

          Para quem não os conhece:

          https://pt.wikipedia.org/wiki/L%C3%ADrio_Ferreira

          https://pt.wikipedia.org/wiki/Cl%C3%A1udio_Assis

          Os filmes deles não disputariam o Oscar ou algum festival mais exigente mas têm valor e são intrigantes e diferentes dos sucessos da Globo Filmes.

  • Engraçado …

    Quer dizer que todos nós devemos ser permissivos diante do que der na cabeça, de uma porra louquice de intelectuais, jornalistas, cineastas, circenses, artistas, atores, pintores cientistas sociais, filósofos, educadores, todo o Centro de Educação, CAC, CFCH, etc deve ser tolerada por todos ?

    Achar “normal”, por exemplo, se os cineastas trepassem no auditório da FUNDAJ, Feira do Livro do CECON, ou qualquer evento que fosse ?

  • Vocês estão dando tanta visibilidade a esse incidente. Quando ouvi a primeira vez, achei que era uma estratégia dos três amigos (Assis, Ferreira e Muylaert) para divulgar seus respectivos trabalhos. Tudo tão estapafúrdio: A palestrante se faz acompanhar de dois colegas embriagados, ou mesmo altos, a um debate. Estes são inconvenientes e a casa não pede a segurança que os retire. Se os indivíduos estão sob efeito de álcool ou substâncias recreativas, acho que é melhor baixar a bola deles, não? Acredito que bagunceiros seriam removidos de palestras no Smithsonian ou de concertos na Royal Academy of Music. Desde quando quem está bêbado pode exercer todos os seus direitos em organização privada ou pública?! Provavelmente, alijar os filmes dos dois por um ano foi punição demais. Mas tenho dificuldade de defender grosseria.

    • Pois é …

      É preciso saber de Bahe e Pierre defendem estas atitudes de grosseria.

      O povo já não tá tão chegado a cultura e quando se permite a isso se deparar com uma cena destas?

  • Bela análise do post, quem mais será prejudicado nessa censura será o povo. Claro que não apoiamos o comportamento dos dois, mas quem nunca teve um comportamento inadequado que atire a primeira pedra!

  • Acho que há dois debates distintos nessa questão aí, Pierre, e misturá-los pode causar confusão. O primeiro é enquanto a repercussão do caso. Não vejo nenhuma novidade na tal “mania persecutória”. Isso sempre houve, independente de redes sociais. Na verdade a existência das redes sociais só amplia o alcance e, de certa forma, isso é até positivo, pois permite o debate. Coisa que a fofoca de boca a boca não permitia. Formava-se o juízo sem a possibilidade de contraditório.

    Talvez o que você chama de “politicamente correto” seja justamente esse contraditório reverberando. Quem nunca teve voz agora tem e isso incomoda. Sobretudo se a voz adota um discurso que questiona os valores estabelecidos, como o feminista. Antes, a “presepada” dos caras podia passar apenas como isso, uma “presepada” inocente. Hoje há quem questione as razões que os levaram a se sentir no direito de perturbar a apresentação da colega. Não vejo nada de mal nisso. O ideal seria refutar a argumentação e não meter uma pecha de “politicamente correto” e sair ironizando.

    Já o outro ponto, completamente distinto, é a posição da Fundaj em barrar os caras. Ser babaca não os desqualifica como artistas e o órgão deve julgar exclusivamente os méritos culturais do trabalho. Essa posição não tem nada de politicamente correta, é autoritarismo puro e simples. É a diretoria achar que um órgão de Estado é seu quintal. Repudiar a atitude é legítimo, fechar a porta do clubinho, como se a Fundaj tivesse dono é bizarro.

    No fim das contas o que fica claro é que a Casa Grande nunca esteve tão viva aqui na Província. Seja com os sinhôzinhos achando que podem tudo, que não devem respeito a ninguém (não importa se Assis, Lírio ou a turma de Carreras no bar do Neno, o princípio é o mesmo) ou algum “poderoso” com dificuldade em saber onde termina o privado e onde começa o público, usando o Estado para seus propósitos individuais, seja aumentar o patrimônio ou vingar-se de quem não andou na linha.

    • Concordo. Acho que foi mais claro do que eu.

    • Esse comentário devia ser o texto do post. Realmente… sintetizou o problema…

    • Comentário do Felipe muito melhor que o post! Parabéns, cara. O mundo precisa de mais pessoas que não se achem tão espertas a ponto de condenar ou ironizar tudo que é “politicamente correto” como sendo ilegítimo.

  • Falar a verdade é proibido.

    No mundo de hoje, você tem que dizer que Dilma é linda e as panicats são feias. Tem que dizer que Regina Casé é magra, que o PT é honesto e que Lula nunca roubou 1 centavo.

    Hoje em dia tudo funciona na base da mentira, da dissimulação, do fingimento e das falsas declarações.

    Tudo hoje é um grande teatro. A mentira move o mundo.

    Esse é o mundo “maravilhoso” construído pela ideologia do politicamente correto.

  • Eles não só chamaram a atriz de gorda, também chamaram um maquiador de bichona , além de atrapalhar as pessoas de fazerem pergunta a diretora do filme. Uma coisa completamente sem noção e respeito com o público.

  • É sempre muito interessante ver homens, brancos e héteros falando sobre preconceito, vcs me divertem.

  • Imagina um professor ou um palestrante na FG dando aula bêbado, sendo boçal chamando os demais disso e daquilo.

    Receberia um “comportamento inadequado” do bróder reitor e vida que segue.

  • Então o “certo” seria a Fundaj tolerar a entrada de gente bêbada e encrenqueira vomitando machismo e gordofobia, pra não “impor a ditadura do politicamente correto”?

  • Essa palhaçada do politicamente correto está chegando no limite. Ninguém aguenta essas imposições por muito tempo.

    Isso é como uma panela de pressão, as pessoas mentem até um certo ponto, depois ninguém aguenta mais ficar mentindo para agradar os outros, todo mundo começa a falar o que pensa mesmo.

    Essa ditadura do politicamente correto é a maior imbecilidade já inventada e, claro, é uma coisa que a esquerda adora. Tudo que for pra censurar a imprensa e calar a boca das pessoas vai agradar a esquerda.

  • Não ficou claro como foi a confusão, até que ponto chegou essa confusão, que dimensões tomou na instituição, mas acredito que se fosse num evento de uma boa empresa particular eles seriam demitidos sem dó. https://www.youtube.com/watch?v=2QrobQimc3I

  • …já tive facebook e agora não…e não me arrependo nada…é o pior sitio para pra nos comunicar e ficamos sempre á mercê das chacotas e humilhações com a agravante de podermos ficarmos em mãos lençóis se algum comentário for lido por algumas pessoas que não precisam saber das suas ideias…posso me enganar mas o face não vai durar muito assim como está…passou de uma brincadeira para se transformar num negócio…

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MARCO BAHÉJornalista
É formado em Jornalismo e pós-graduado em História Contemporânea e História do Nordeste do Brasil. Foi repórter da Gazeta Mercantil para os estados de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. Também atuou como repórter do Jornal do Commercio, editor da Folha de Pernambuco e repórter especial do Diario de Pernambuco. É correspondente da revista Época no Nordeste desde 2003. Tamb´m atua com publicidade e marketing eleitoral desde 2004.
PIERRE LUCENADoutor em Finanças
É doutor em Finanças pela PUC-Rio e mestre em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco. É professor adjunto de Finanças da UFPE e foi secretário-adjunto de Educação de Pernambuco. É autor de vários trabalhos publicados no Brasil e no exterior sobre o mercado financeiro, e participa como revisor de várias revistas acadêmicas na área. É sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Finanças. Foi comentarista de Economia do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (TV Jornal e Rádio CBN). Atualmente é coordenador do curso de administração da UFPE, e Coordenador do Núcleo de Estudos em Finanças e Investimentos do Programa de Pós-graduação em Administração da UFPE (NEFI).