Impressões luso brasileiras. A feijoada e o tamanho do abismo.

nov 10, 2008 by     18 Comentários    Postado em: Cultura

por Andrei Barros Correia*
Procurador Federal

A feijoada do título está aqui meio à toa, apenas para me dar a oportunidade de dizer que é muito fácil comê-la por estas bandas. Comida brasileira, aqui, é picanha e feijoada. Comemos feijoada duas vezes, ambas bastante boas e quase iguais às nossas. O quase fica por conta da charque, que não se utiliza. Os defumados são vários e o resultado praticamente o mesmo.

O senhor do café da esquina anunciou, na sexta passada: Hoje temos feijoada, claro, pá, que não é igual à vossa, mas está boazinha. Era um dos três pratos do dia, aquilo que o cidadão com três pingos de bom senso e poucos euros pede, para comer bem, esperar pouco e arriscar-se também pouco. Ora, a feijoada estava igualzinha, exceto pela falta da couve e da rodela de laranja.

Essa minha ênfase nas tais feijoadas serve para falar de quanto sempre me impressionaram os desgostos de muitos brasileiros com a comida lusitana. Não são poucos os que dizem ter comido mal, o que interpreto como certa rejeição às diferenças, mais que rejeição qualitativa propriamente. É normal não gostar do que é diferente, ou ter saudades do habitual. Eu tenho saudades de cuscuz, mas não acho que esteja comendo mal!

Os pratos do dia, nos cafés, bares, snack bars, são comida caseira. Galinha guisada, um arrozinho fortemente puxado no alho, uma saladinha de alfaces e tomates, batatas fritas. Antes, uma sopinha quente, sempre dois pãezinhos – que invariavelmente são melhores que no Brasil – e um belíssimo café expresso. Um repasto destes come-se por € 4,50. Nem uma mente pervertida diria que é caro.

Eis que fomos jantar em um chinês, desses com a decoração bem carregada, mas sem os usuais dragões de olhos vermelhos. Talvez a única diferença para o que eram os chineses em Recife, há quinze anos atrás, antes da avassaladora uniformização do macarrão com tudo. Pratos fartos, vinho ruim escolhido por mim, comida gostosa e dois garçons apenas para um grande salão. Um deles, um senhor bracarense e bem falante. A outra, uma garota de uns vinte anos, chinesa legítima, dizendo obligado.

O garçom fez questão de dizer que estava na casa há onze anos e que o estabelecimento já tivera seis funcionários! Vejam bem, o restaurante não era pequeno e fiquei imaginando o movimento que devia ter nesses áureos tempos, que levaram o perdulário chinês à suma extravagância de ter seis funcionários. E nesses tempos de crise, ou seja, de meros dois funcionários, não estava vazio.

Sempre falante, o garçom perguntou-nos se queríamos crepes chineses e, sem esperar a resposta, explicou que eram rolinhos primavera. Vêm aqui muitos brasileiros, disse. Perguntei se eram turistas ou estudantes. Nem um, nem outro, mas residentes em Braga. Nisso, a coisa tomou ares de reflexão. O senhor observou que, como agora estávamos bem, seria de se esperar mais turistas brasileiros. Fiquei sério e lamentei o rumo tomado, pois íamos tão bem falando de comida!

Não resisti e perguntei-lhe: o senhor sabe qual é a população do Brasil e quanto é o salário mínimo lá? Não sabia, como eu tinha pensado. Diante da informação dos 450 reais, ele disse que era o mesmo de Portugal, mas percebeu imediatamente que entre nossas riquezas tão iguais havio o câmbio, e parou.

Três para um, disse-lhe. Agora, estávamos sérios os três da conversa. O cidadão bracarense, bom de contas rápidas e de trivialidades econômicas como todo garçom, ainda tentou o argumento de uma diferença absurda de custo de vida. Não, fui obrigado a dizer, exceto pelos imóveis e alguns serviços, há coisas mais baratas por aqui. Para quem duvida, apelo à sinceridade das classes médias brasileiras, que sabem os preços de celulares, roupas e computadores em qualquer parte do mundo e sempre voltam com a malas maiores que na partida.

Bem, o óbvio é aquilo que evitamos todos os dias, ou por indiferença, ou para poupar-nos do sentimento de culpa. A desigualdade no Brasil é de uma brutalidade que configura burrice, porque ruindade é muito menos criativa que estupidez. Essa criatividade brasileira torna uma população de cento e oitenta milhões de pessoas num mercado efetivo de umas quarenta, isso sem falar no que contribui para outras tragédias.

A coisa tem uma dimensão tal que não é compreendida fora do Brasil. E não estou a falar na pobreza ou na riqueza absolutas, mas no abismo entre as camadas da população. Sim, há pobres e pedintes por aqui, muito poucos é verdade, mas há. Paga-se em Portugal um dos menores salários mínimos da Europa, mas a diferença entre o mínimo (que pouca gente ganha) e o maior salário da administração pública é de doze vezes. Nós chegamos a mais de quarenta e para quem brinca com multiplicações, sugiro multiplicar o preço da gasolina por apenas dois e achar pouco.

Assim, nos afastamos dos modelos que dizemos seguir. A democracia liberal com um tanto de estado social não existe no Brasil. Existe uma das experiências mais exitosas de exclusão em massa, levada a cabo anos a fio. Se isto pode continuar, acho que pode, sim. Mas, terá de ser chamado por outro nome, merecerá estudos próprios e um lugar destacado na história. Além de helicópteros, carros blindados e mais hipocrisia, é claro.

____________________________________________

*
O Procurador Federal Andrei Barros Correia está passando uma temporada em Minho, Portugal, realizando atividades de seu mestrado em Direitos Humanos, e durante sua estada naquele país irá enviar crônicas semanais ao Acerto de Contas, com o relato de suas impressões sobre aquela cidade e país, comparativamente com o cotidiano brasileiro.

Clique nos links abaixo para ler cada uma das crônicas já publicadas:

1 – Impressões luso-brasileiras.

2 – Impressões luso-brasileiras. O prego no pão e outras coisas.

3 – Impressões luso brasileiras. A surdez e os barulhos.

4 – Impressões luso brasileiras. Fatos e factos.

18 Comentários + Add Comentário

  • ANDREI

    FALAR EM COMIDA BRASILEIRA, FUI A UM RESTAURANTE CHIC EM

    OLINDA VELHA(HISTÓRICA) E O PRATO DO DIA ERA

    LAGOSTA.NADA MELHOR DO QUE UMA LAGOSTA EM OLINDA.ASSIM

    PEDI O DITO PRATO E PARA MEU DESGOSTO O MESMO CONTINHA

    PEQUENOS PEDACINHOS DE LAGOSTA ,SEM SAL ,EM CIMA DE UM

    MACARRÃO SIMPLES COM MOLHO DE TOMATE.PAGUEI

    A “BAGATELA” DE R$ 44,00 DEPOIS DE 1 HORA E MEIA DE

    ESPERA.SAI PROFUNDAMENTE DECEPCIONADA.

    AGHATA

  • Andrei,

    Com relacao ao tema dessa sua cronica de hoje, tenho um amigo portugues em Lisboa que me informa de vez em quando sobre eventos de corrupcao, de baixos salarios e de precos altos em Portugal quando comparados aos da Espanha, Franca, etc.

    No nosso ultimo contato eu disse a ele algo parecido com o que voce está falando hoje: “estás a chorar de barriga cheia!!!”

    Sem que a massa perceba, a economia e os precos no Brasil estao se descontrolando de novo e, agora pela manha, saiu o indice da inflacao para a primeira semana de novembro: 0.8%/mes em plena crise da bolsa e dos bancos, com o governo voltando a subir os juros para segura a inflacao e o Natal chegando para descontrolá-la.

    Nao ha nenhuma aplicacao em banco que pague mais de 0.6% liquido ao mes…. e a bolsa de valores está com perda da ordem de 50% no ano. Como a poupança pagava 0.5% mais a inflacao, já partiram para modificar as regras da poupanca.

    O meu pai já dizia que a coisa mais dificil para se combater é a união da “burrice com a má fé”. Pois é, o povo é burro em continuar consumindo no cheque especial e o empresario abusa da má fé em enganar o consumidor.

    Portugal é menor do que Pernambuco e seria interessante comparar as economias, desenvolvimento social, infraestrutura, educacao, etc entre os dois para que o abismo diferencial para o Brasil, e dentro do Brasil ficasse ainda mais evidente.

    Na estatistica, quando uma amostra apresenta pontos muito altos ou muito baixos em relacao “ao grosso” da amostra, há testes que estabelecem limites para que esses pontos “aberrantes” sejam excluidos da amostra.

    Aposto que Portugal permaneceria na amostra “Europa” mas tenho alguma duvida quanto a alguns estados do Brasil sobrevirem dentro da amostra BRASIL (talvez Pernambuco sobreviva ao criterio de exclusao).

    Voltando à culinaria, por menos de 5 euros não se come nem um BigMac no McDonalds…. mas o restaurante está sempre cheio.

    Em um livro muito lido nos anos 60′s, “Todo mundo é incompetente.. inclusive você”, há uma frase atribuida a Cervantes que caracteriza muito bem isso aqui: “Começo a suspeitar de que existe uma trama”.

    Grande abraço,

    Sidarta

  • Aghata,

    Com relação a esta lagosta, lembro-me de mim mesmo, em crônica anterior, e tristemente vejo mais uma vez confirmada certa empulhação do restaurante bacana, com nome bacana, em um sobrado de Olinda bacana, com um cardápio extravagante, preços estratosféricos e pratos decepcionantes!

    Sidarta,

    Esteja certo de que existe uma trama. Urdida por nós contra a maioria dos brasileiros. Eis que esta trama implica uma concentração tão grande, que pode voltar-se contra nós mesmos.

  • Caro Andrei,

    Tocastes em um ponto crucial tão evidente e que, infelizmente, parece passar desapercebido, para a esmagadora maioria dos brasileiros.

    Nada justifica – sob um ínfimo resquício de bom senso – que, em um país como o Brasil, a desproporção aritmética entre o maior salário do serviço público e o mínimo seja tão ultrajante.

    E o que é mais curioso, ou absurdo, é que inexiste qualquer repressão moral em tal incongruência. Muito pelo contrário, sustenta-se o discurso da meritocracia de uma maneira incrivelmente convincente àqueles que jamais obterão um salário digno, por conseqüência lógica imperativa da carência na educação pública; ou oportunista, pela falta de perspicácia ou hipocrisia, pura e simplesmente, da minoria.

    O sistema de remuneração no serviço público brasileiro é um monumento ao absurdo. Ora, qual a razoabilidade de se remunerar um magistrado com um salário 20 vezes maior ao de um policial militar? Nenhuma! Percebam, meus caros, trata-se aqui de uma mera constatação objetiva, não uma valoração direta às atribuições de quaisquer dos cargos, muito longe disso.

    Para perceber a irrazoabilidade – ou os limites do absurdo, se é que eles existam -, basta comparar a remuneração de um magistrado brasileiro ao de um outro país. Acredito que não exista insana discrepância em lugar diverso do globo.

    Permitam-me uma breve digressão: percebam como a falta de bom senso, ou quiçá leviandade, paira soberana na avassaladora maioria dos lares das elites brasileiras (classificação esta que aqui se inicia a partir da classe média). A elite brasileira clama por uma carga tributária menos avultosa e reclama dos índices de violência e marginalização, nada obstante cultive em suas casas as senzalas do século XXI.

    A assinatura da carteira de trabalho parece ser um sonho intangível para a esmagadora maioria dos trabalhadores domésticos. A carga laboral, inclusive, é absurdamente desproporcional ao salário percebido, que, em inúmeros casos, é inferior ao mínimo previsto. Sem falar na natureza benevolente dos repousos semanais.

    Precisamos fulminar as vendas do cotidiano condicionante, que não nos permitem visualizar a dimensão da contribuição pessoal para a segregação. Pelo menos, assumiríamos a bandeira da hipocrisia, que serve de vestimenta à elite brasileira.

    Andrei, mais uma vez, brindo-o pela perspicácia.

    Forte abraço.

    Ubiratan

  • Ubiratan,

    Permita-me dizer que foi você a brindar-me com um comentário de nível elevado. E eu tenho o hábito – não sei de bom ou ruim – de ficar comentando os comentários.

    Estive pensando que a democracia ou a ditadura com habeas corpus seriam a mesma coisa, no Brasil. Quase tudo é apenas forma. As garantias são formais, a participação democrática idem.

    Toda a sofisticação conceitual de que nos servimos presta-se a demonstrar erudição e dar suporte aos nossos anseios de ter o que falar.

    A democracia é o regime em que o povo escolhe os seus destinos. Ora, é razoável supor que o povo escolhe sua miséria? Ou será que sua escolha é desprezada e que lhe são subtraídos elementos que o permitam escolher lucidamente?

  • Ubiratan, Andrei e todos…

    Eu concordo totalmente com a idéia do professor Policarpo Júnior de que os salários do judiciário deveriam ser todos congelados até que houvesse uma diminuição substancial entre estes salários e os de outros profissionais, como policiais e professores. O que os amigos pensam?

  • faltaram duas palavras:

    “… até que houvesse uma diminuição substancial NA DIFERENÇA entre…”

  • Cara Amanda,

    Acredito que a idéia não resolveria os nossos problemas, além do que esbarra em alguns impedimentos formais e materiais. Por exemplo:

    - Existem disposições constitucionais que obstam a adoção de medidas neste sentido;
    - A desproporção é tamanha que demandaria muito tempo para ocorrer uma diminuição substancial entre os salários;
    - Não seria conveniente para os membros do Judiciário, logo, a barganha do Poder inviabilizaria a idéia.
    - A inoperabilidade e onerosidade de toda a Administração Pública brasileira não se resume ao Judiciário. É uma pena!

  • Pois eu acho a idéia excelente!

  • Amanda,

    Concordo com você. A diferença simplesmente não se justifica, a não ser que o maravilhoso Brasil esteja certo e o resto do mundo errado. Isso é possível, mas é pouco provável.

    Ubiratan,

    Acho que ficaste um tanto preso aos raciocínios jurídicos. Os impedimentos são superáveis. Claro que é difícil. Com relação à inoperância da administração pública, concordo que não se resume ao judiciário.

    Mas, no judiciário ela é mais cara. Um juiz e um professor universitário ganham, aqui em Portugal, € 3.000,00 líquidos. Menos q

  • Concordo com a Amanda. Imaginem só:

    Que tal se suas excelências se dispusessem a encarar um plebiscito ou referendo: Deve um juiz ganhar a quantia de R$ 20.000,00 por mês, sim ou não?

    Seria interessante ver um juiz defendendo o Sim no morro da conceição..

  • Andrei,

    Não se trata de estreiteza de visão condicionada a raciocínios jurídicos. Estado Democrático de Direito pressupõe formas – sejam em menores ou maiores proporções – as formalidades podem ser esquecidas em discursos ou para “demonstrar erudição e dar suporte aos nossos anseios de ter o que falar”, mas jamais em análises de reais alternativas de mudança.

    Não obstante louváveis, de boas intenções impraticáveis o Brasil também está repleto. A não ser que se deseje substituir o modelo de adequação formal ou apelar ao processo revolucionário, pura e simplesmente. De quem partirá o primeiro erguer de pulsos?

  • Ubiratan,

    Não pretendi dizer que tu pensaste com estreiteza. Apenas que o raciocínio seguiu a trilha jurídica, apenas. Diria mais, a trilha jurídica do direito hoje existente. Ontem, o direito foi diferente, amanhã poderá sê-lo também.

    Antes da revolução – cujo primeiro erguer de pulsos podia ser inclusive seu – as formas podem ser mudadas, adaptadas, moldadas.

    Enfim, as formas são meios. Elas devem servir às finalidades e a para estas serem feitas, não acha?

    Alguém com sua capacidade observativa e qualidade no manejo da língua poderia ser daqueles imbuídos da mudança.

  • Caro Andrei,

    O termo “estreiteza” não foi utilizado de forma pejorativa, embora a disposição das palavras tenha direcionado a tal conclusão, confesso.

    Agradeço a “capacidade observativa e qualidade no manejo da língua”, contudo, acredito que poderia ser mais eficiente e prestativo se fosse norteado por pensamentos como os seus. Afinal, seu contato intimo com a civilidade e abrangente perspicácia observativa, que lhe é peculiar, poderiam fomentar posições e iniciativas mais incisivas e concretas, seja para mudar, adaptar ou moldar as formas, antes de uma improvável revolução.

    Concordo, absolutamente, com que as formas são meios, instrumentos às finalidades, porém confesso que o meu niilismo com o nosso povo, com qualquer perspectiva de mudança na organização político-social do nosso país (para melhor), aproximam-me bastante da posição de Prisco nos relatos de Vidal, em uma analogia deveras forçada e pretensiosa, admito.

    Enfim, erguerias os teus ou já estás a fazê-lo? Perdoe-me a indiscrição!

  • Caro Andrei…

    Mais uma de suas belas crônicas, “tah de parabéns”, como diríamos costumeiramente em uma de nossas coversas noturnas com a galera no bar do Cuzcuz(sentindo falta neh? rsss)…

    No quesito comida, há de se imaginar que o amigo Prezuntinho que vos fala, nunca teve problemas com isso, ao menos não no que diz respeito a ter dificuldade com comidas diferentes, culinárias e temperos diferentes dos brasileiros. Eu gosto de TUDO, rssss. Mas adorei saber, como vc jah tinha me dito, que alimentação por essas bandas não é tão caro!!! Espero q em Salamanca também não seja.

    Já com relação aos abismos salariais existentes no Brasil, penso que como tudo no Brasil, a questão nunca é encarada de frente e sim de forma oblíqua, sempre tomando-se medidas paliativas. Que o mínimo é muito mínimo, não se discute, que os salários dos servidores públicos que exercem funções mais complexas é alto, também não se discute.

    No entanto, ao meu ver, o problema não é o alto salário dos servidores, que ganham o que merecem, e sim o baixo valor do salário mínimo.

    Aqui, logo aparecem as questões economicas, que em tese impedem o aumento desse ridículo mínimo que é percebido pelos trabalhadores.

    É uma questão muito delicada, eu não tenho a solução e não sei escrever bonito como o galã de hollywood que comentou aih a crônica…rsssss

    Mas penso nesse sentido.
    abraçÃo

  • Meu caro amigo Thiago Loureiro,

    Entusiasmado fico ao encontrar os amigos – dos agradabilíssimos momentos de descontração do bar do cuscuz e redondezas – para debatermos e dialogarmos alguns pontos relevantes e interessantes de nossa sociedade.

    Concordo, em definitivo, com os seus pensamentos, contudo, permita-me discordar no tange, tão somente, aos altos salários.

    Por mais que seja sedutor, e realmente o é, ter um pouco de seriedade nos estudos e – por consequência imperativa aos que tiveram a oportunidade de usufruir de uma boa educação formal-, adentrar nos tão desejáveis e onerosos cargos públicos, eu não consigo visualizar a razoabilidade de um juiz, promotor, advogado geral, auditor, enfim, qualquer cargo público brasileiro perceber um salário de tão elevada cifra.

    A questão é, de fato, muito delicada e complexa, mas acredito que aumentar o salário mínimo, pura e simplesmente, e, por outro lado, não idear meios no sentido de conter os salários maiores, aumentaria, suponho, a inflação.

    Como observou o sagaz cronista, um magistrado lusitano percebe três mil euros, enquanto o salário mínimo lá são 450 euros. Ora, como justificar o salário de um juiz brasileiro, principalmente, quando comparado ao mínimo de cá?

    Algo está, no mínimo, estranho, não achas?

    Um forte abraço, amigo Presunto!

  • Prezado Lapa,

    A comida portuguesa certamente é deliciosa. A sua pena sutil e sensível nos transmite a sensação de desgustação dos acepipes lusitanos, tamanho o seu poder de observação e descrição da culinária da terra de Camões. A questão da desigualdade social no Brasil não será resolvida com a redução dos altos salários no serviço público. Somente educação de qualidade permitirá a diminuição do fosso abissal que hoje separa ricos e pobres no Brasil, bem como atitudes firmes, no seu devido tempo- por parte daqueles que usufruirem dessa melhoria na qualidade do ensino nacional- poderão criar e fomentar no cidadão( na sociedade) o sentimento de repulsa e indignação diante de tão criminosa e injusta distribuição de renda. Não vejo, no Brasil, qualquer política educacional séria capaz de proporcionar a todos os brasileiros – indistintamente- educação básica de qualidade. Não adianta querermos mudar o Brasil sem que antes mudemos os brasileiros por meio de uma educação – pelo menos a básica- de qualidade. Um povo minimamente educado não suportaria resignado a atual e injusta concentração de renda existente no Brasil. Voltando à questão dos altos salários no serviço público, penso que o problema maior não é o do valor, mas , sim, do que se produz em contrapartida. Talvez alguns salários sejam muito altos, todavia, a preocupação axial da sociedade deveria ser a da cobrança intransigente e continua da prestação de serviços públicos organizados, atuantes e eficientes.

    Um abraço

    Ênio Matos

  • Caro Ênio,

    Você, sempre percuciente, abordou o problema mais grave: a falta de educação das maiorias.

    Como vivemos um democracia ateniense, ou seja, de que efetivamente não participam mais que uns dez por cento da população, não há canais de pressão por melhor educação pública.

    Enfim, quem é minimamente ouvido neste país põe os filhos em escolas particulares – que são ruins, mas menos que as públicas – e por isso não se preocupa com qualidade de ensino público.

    Outra coisa, para além da educação formal, é uma educação cívica e de convivência. Algo que se chamava em tempos de antanho ter alguns modos e princípios.

Tem algo a dizer? Vá em frente e deixe um comentário!

XHTML: Você pdoe usar as tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

Enquetes

Qual o próximo tuitaço da campanha do Devolva?

  • #DevolvaHumberto (31%, 143 Votos)
  • #DevolvaJP (69%, 324 Votos)

Total de Votos: 467

Carregando ... Carregando ...

Frase do dia

  • O desenhista, jornalista, dramaturgo e escritor Millôr Fernandes (2006)
    "Democracia é quando eu mando em você; ditadura é quando você manda em mim.",
    Millor Fernandes.

ARQUIVO

maio 2012
S T Q Q S S D
« abr    
 123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
28293031  

Informação com Humor

MARCO BAHÉJornalista
É formado em Jornalismo e pós-graduado em História Contemporânea e História do Nordeste do Brasil. Foi repórter da Gazeta Mercantil para os estados de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. Também atuou como repórter do Jornal do Commercio, editor da Folha de Pernambuco e repórter especial do Diario de Pernambuco. É correspondente da revista Época no Nordeste desde 2003. Tamb´m atua com publicidade e marketing eleitoral desde 2004.
PIERRE LUCENADoutor em Finanças
É doutor em Finanças pela PUC-Rio e mestre em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco. É professor adjunto de Finanças da UFPE e foi secretário-adjunto de Educação de Pernambuco. É autor de vários trabalhos publicados no Brasil e no exterior sobre o mercado financeiro, e participa como revisor de várias revistas acadêmicas na área. É sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Finanças. Foi comentarista de Economia do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (TV Jornal e Rádio CBN). Atualmente é coordenador do curso de administração da UFPE, e Coordenador do Núcleo de Estudos em Finanças e Investimentos do Programa de Pós-graduação em Administração da UFPE (NEFI).